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Elio Mollo
Instinto de Conservação.
O
instinto de conservação é Lei da Natureza. Todos os seres vivos o possuem, seja
qual for o grau de sua inteligência. Em alguns, é puramente inconsciente, em
outros é racional.
Deus
concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação, porque todos têm que
concorrer para o cumprimento dos desígnios da Providência. Foi por isso que
Deus lhes deu a necessidade de viver. Acresça-se que a vida é necessária ao
aperfeiçoamento dos seres. Todos o sentimos instintivamente, sem disso nos
apercebermos.
Meios de conservação
Tendo-nos
dado a necessidade de viver, Deus nos facultou, em todos os tempos, os meios de
o conseguir e, se não os encontramos, é porque ainda não os compreendemos. Não
condiz com a lógica que Deus tivesse criado para nós a necessidade de viver,
sem nos oferecer os meios de consegui-lo. Essa a razão por que faz Ele que a
Terra produza de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que
só o necessário é útil. O supérfluo nunca o é.
Se
nem sempre a Terra produz bastante para nos fornecer o necessário é que, por
ingratidão, a desprezamos! No entanto, a Terra é excelente mãe. Muitas vezes,
também, acusamos a Natureza do que é só resultado da nossa imperícia ou da
nossa imprevidência. Se o essencial nos bastasse, o produto da Terra seria
sempre mais do que suficiente. Se o que ela produz não basta a todas as nossas
necessidades, é que empregamos no supérfluo o que poderia ser aplicado no
necessário. Hoje em dia na questão agrária: conforme somos informados pela
mídia, o ser humano destrói, por mau acondicionamento e desinteresse no
compartilhamento, perto de metade dos grãos que colhe; portanto, hoje já se
colhe mais do que o necessário para saciar a fome do mundo - então não seria
problema de carência, mas de má gestão, de egoísmo, de interesse pecuniário.
Sempre encontraremos do que viver, desde que não criemos para nós necessidades
artificiais. Se desperdiçarmos a metade dos produtos em satisfazer nossas fantasias,
que motivos teremos para nos espantar de nada encontrarmos no dia seguinte? De
nos queixarmos de estarmos desprovidos de tudo, quando chegarem os dias de
penúria? Em verdade, imprevidente não é a Natureza, mas nós, que não sabemos
regrar o nosso viver.
O
solo é a fonte primacial donde procedem todos os outros recursos, pois que, em
definitivo, estes recursos são simples transformações dos produtos do solo. Por
bens da Terra devemos, pois, entender tudo de que podemos desfrutar neste
mundo.
É
freqüente a certos indivíduos faltarem formas de subsistência, mesmo em meio à
abastança. É pelo nosso egoísmo, que nem sempre fazemos o que nos cumpre. E no
mais das vezes, devemo-lo a nós mesmos. "Buscai e achareis"; estas
palavras não querem dizer que, para acharmos o que desejamos, basta uma atitude
passiva, mas é preciso procurá-lo sempre com ardor e perseverança, sem
desanimar ante os obstáculos, que muito amiúde são simples meios de que se
utiliza a Providência para nos experimentar a constância, a paciência e a
firmeza.
Algumas
vezes, os obstáculos à realização dos nossos projetos são, com efeito,
decorrentes da ação dos Espíritos; muito mais vezes, porém, nós é que andamos
errados na elaboração e na execução dos nossos projetos. Muito influem nesses
casos a posição e o caráter do indivíduo. Se nos obstinamos em ir por um
caminho que não devemos seguir, os Espíritos nenhuma culpa têm dos nossos
insucessos. Nós mesmos nos constituímos em nossos maus gênios.
Se
é certo que a Civilização multiplica as necessidades, também o é que multiplica
as fontes de trabalho e os meios de viver. Forçoso é, porém, convir que, a tal
respeito, muito ainda nos resta fazer. Quando ela houver concluído a sua obra,
ninguém deverá haver que possa queixar-se de lhe faltar o necessário, a não ser
por própria culpa. A desgraça, para muitos, provém de enveredarmos por uma
senda diversa da que a Natureza nos traçou. É então que nos falece a inteligência
para o bom êxito. Para todos há lugar ao Sol, mas com a condição de que cada um
ocupe o seu e não o dos outros. A Natureza não pode ser responsável pelos
defeitos da organização social, nem pelas conseqüências da ambição e do
excessivo amor-próprio.
É
preciso, entretanto, ser cego para ignorar o progresso que, por esse lado, têm
feito os povos mais adiantados. Graças aos louváveis esforços que, juntas, a
Filantropia e a Ciência não cessam de despender para melhorar a condição
material dos homens e, mau grado o crescimento incessante das populações, a
insuficiência da produção se acha atenuada, pelo menos em grande parte, e os
anos mais calamitosos do presente não se podem de modo algum comparar aos de
outrora. A higiene pública, elemento tão essencial da força e da saúde, que
nossos antepassados não conheceram, é objeto de esclarecida solicitude. O
infortúnio e o sofrimento encontram onde se refugiem. Por toda parte a Ciência
contribui para acrescer o bem-estar. Poder-se-á dizer que já se haja chegado à
perfeição? Não, certamente; mas, o que já se fez deixa prever o que, com perseverança,
se logrará conseguir, se nos mostrarmos bastante avisados para procurarmos a
nossa felicidade nas coisas positivas e sérias, e não em utopias que nos
levarão a recuar em vez de nos fazerem avançar.
Há
situações nas quais os meios de subsistência de maneira alguma dependem da
nossa vontade. Assim sendo, a privação seria uma prova, muitas vezes cruel, que
nos compete sofrer e que, embora esquecidos, sabíamos de antemão que viríamos a
estar expostos. Nosso mérito então consiste em submetermo-nos à vontade de
Deus, desde que a nossa inteligência nenhum meio nos permita de sair da
dificuldade. Se a morte vier a nos colher, cumpre-nos recebê-la sem murmurar,
ponderando que a hora da verdadeira libertação soou; e que o desespero no
derradeiro momento pode invalidar por completo o resultado.
Muitas
vezes nos perguntamos: Será crime, em certas situações críticas, por exemplo,
vermo-nos na contingência de sacrificar nossos semelhantes para matar a fome e
perpetrarmos o ato? Sendo crime, este ato não se terá revestido da intenção de
atenuar a nossa necessidade de viver, resultado do instinto de conservação?
Ora, há mais merecimento em sofrer todas as provações da vida com coragem e
abnegação; pois, em tal caso, há homicídio e crime de lesa-natureza, falta que
será duplamente punida.
Nos
mundos mais evoluídos a organização é mais apurada, mas mesmo assim os seres
vivos têm necessidade de alimentar-se; contudo os seus alimentos estão em
relação com a sua natureza. Tais alimentos não seriam bastante substanciosos
para os nossos estômagos grosseiros; assim como os deles não poderiam digerir
os nossos alimentos.
Gozo dos bens terrenos
O
uso dos bens da Terra é um direito de todos nós, mas esse direito é conseqüente
da necessidade de viver. Deus não imporia um dever sem nos oferecer o meio de
cumpri-lo.
Deus
fez os atrativos nos gozo dos bens materiais com o fim de nos estimular ao
cumprimento da nossa missão e para experimentar-nos por meio da tentação. O
objetivo dessa tentação é desenvolver em nós a razão, que deve preservar-nos
dos excessos.
Se
só fossemos induzidos a usar dos bens terrenos pela utilidade que têm, nossa
indiferença talvez houvesse comprometido a harmonia do Universo. Deus imprimiu
a esse uso o atrativo do prazer, porque assim somos impelidos ao cumprimento
dos desígnios providenciais. Mas, além disso, tendo dado Deus ao uso dos bens
terrenos esse atrativo, quis Ele também experimentar-nos por meio da tentação,
que poderá nos arrastar para o abuso, desde que não usemos a razão e o bom
senso para nos defender.
A
Natureza traçou seus termos aos gozos para nos indicar o limite do necessário.
Mas, pelos nossos excessos, ultrapassamos a saciedade e nos punimos a nós
mesmos.
Quando
procuramos nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, colocamo-nos abaixo
do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua
necessidade. Abdicamos da razão que Deus nos deu por guia e, quanto
maiores forem nossos excessos, tanto maior preponderância terá a natureza
animal sobre a nossa natureza espiritual. As doenças são conseqüências à
transgressão da Lei de Deus.
Necessário e supérfluo
O
homem ponderado conhece o limite do necessário por intuição, mas muitos só
chegam a conhecê-lo por experiência adquirida através de esforço próprio.
A
Natureza traçou o limite do necessário em nossa própria organização, mas
geralmente somos insaciáveis, e por meio dos vícios alteramos nossa
constituição criando necessidades que não são reais.
Quando
monopolizamos os bens da Terra para auferir o supérfluo com prejuízo daqueles a
quem falta o necessário, olvidamos a Lei de Deus e teremos que responder pelas
privações que houvermos causado aos outros.
Nada
tem de absoluto o limite entre o necessário e o supérfluo. A Civilização criou
necessidades que o selvagem desconhece. O homem civilizado não deve viver como
o selvagem. Tudo é relativo, cabendo à razão regrar as coisas. A Civilização
desenvolve o senso moral e, ao mesmo tempo, o sentimento de caridade, que nos
levam a prestar mútuo apoio. Quando vivemos à custa das privações dos outros
explorando em nosso proveito os benefícios da Civilização significa que temos
apenas o verniz, como muitos, que da religião só têm a máscara.
Privações voluntárias. Mortificações
A
lei de conservação nos obriga a prover as necessidades do corpo, porque, sem
força e saúde, impossível é o trabalho.
É
natural o desejo do bem-estar. Deus só proíbe o abuso por ser contrário à
conservação. Ele não condena a procura do bem-estar, desde que não seja conseguido
à custa de outrem e não venha a diminuir-nos nem as forças físicas, nem as
forças morais.
As
privações dos prazeres inúteis nos desprendem da matéria e nos elevam a alma. É
meritório resistir à tentação que nos arrasta ao excesso de interesses; tirar
de nós o que nos é bastante para dar aos que carecem do necessário também é
meritório: todas ações que fizermos em prol de nossos semelhantes serão
meritórias aos olhos de Deus. Mas a privação que não passar de aparência, será
uma irrisão.
Se
a vida de mortificações ascéticas que existe desde a mais remota Antigüidade -
e que teve praticantes no seio de diversos povos - serve somente para quem a
pratica mas o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto
com que entendam colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros,
eis a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.
É
racional alimentarmo-nos de tudo o que não nos prejudique a saúde.
Alguns
legisladores de diversos povos, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer
o uso de certos alimentos e, para imprimirem maior autoridade às suas leis,
apresentaram-nas como emanadas de Deus.
Dada
a nossa constituição física, a alimentação animal não é contrária à Lei da
Natureza - ainda a carne alimenta a carne, do contrário perecemos. A lei de
conservação nos prescreve, como um dever, que mantenhamos nossas forças e nossa
saúde para bem cumprirmos a lei do trabalho. Temos, pois, que nos alimentarmos
conforme o reclame a nossa organização.
Será
meritório nos abster da alimentação animal, ou de outra qualquer, por expiação,
se a prática dessa privação for em benefício dos outros. Aos olhos de Deus, só
há mortificação havendo privação séria e útil. Seremos hipócritas se apenas
aparentemente, sem um propósito útil ou por pura vaidade, nos privarmos de
alguma coisa.
Será
que são úteis as mutilações operadas no corpo do homem ou dos animais? Ora, a
Deus não pode agradar o que seja inútil e o que for nocivo Lhe será sempre
desagradável. Deus só é sensível aos sentimentos que elevam para Ele a alma.
Obedecendo-Lhe a lei é que poderemos forrar-nos ao jugo da matéria terrestre.
Os
sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os
sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de
outrem. É ilusão pensar que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam
a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e
alguns fanáticos de muitas seitas. Seremos muito mais úteis se preferirmos
trabalhar pelo bem de nossos semelhantes - vestindo o indigente; consolando os
que choram; trabalhando pelo que estão enfermos. Sofrer privações só se for
para aliviar os infelizes - então nossas vidas serão úteis, agradáveis a Deus.
Sofrer alguém voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer
pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo.
Contra
os perigos e os sofrimentos é que o instinto de conservação foi dado a todos os
seres. Fustiguemos o nosso espírito e não o nosso corpo, mortifiquemos o nosso
orgulho, sufoquemos o nosso egoísmo, que se assemelha a uma serpente a nos roer
o coração, e faremos muito mais pelo nosso adiantamento do que infligindo-nos
rigores que não mais se coadunam com esta época em que estamos vivendo.
BIBLIOGRAFIA:
“O LIVRO DOS ESPÍRITOS”,
Livro terceiro, cap.V, qq. 702 à 727
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