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Inaldo Lacerda Lima
Que é o
livre-arbítrio? Abrindo “O Livro dos Espíritos”, vamos encontrar no Capítulo X
- Da Lei de Liberdade -, 3ª Parte da obra, oito questões relacionadas com o
assunto livre-arbítrio (Questões 843 a 850), nas quais os Espíritos superiores
instruem-nos a respeito.
Logo na
Questão 843, indaga o Codificador se o homem tem o livre-arbítrio de seus atos.
E os Espíritos respondem que se tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de
obrar, porquanto, sem o livre-arbítrio ele seria máquina.
Em resposta
à Questão 845, os Espíritos afirmam que conforme se trate de Espírito mais ou
menos adiantado, as predisposições instintivas podem arrastá-lo a atos repreensíveis,
porém não existe arrastamento irresistível.
Basta que o
Espírito (encarnado ou desencarnado), sendo consciente do mal a que esteja ou
se sinta arrastado, utilize a vontade no sentido de a ele resistir.
Verificamos,
no contexto geral das Questões acima referidas, que não há desculpa óbvia para
o mal que o homem venha a praticar, uma vez que ele, por mais imperfeito que
seja, tem a consciência do ato que pratica - se é bom ou se é mau.
O
livre-arbítrio é uma faculdade indispensável ao ser humano, não nos resta qualquer
dúvida, pois, sem ele, já foi dito, o ser espiritual seria simples máquina ou
robô, sem qualquer responsabilidade dos atos que viesse a praticar.
É
justamente a faculdade do livre-arbítrio que empresta ao homem certa semelhança
com o Pai soberano do Universo. E constitui desiderato pleno desse Pai magnânimo
que os Espíritos, seus filhos, cresçam para a glória eterna, iluminando-se na
prática da sabedoria e do bem.
A prática
do mal pelo Espírito, encarnado ou desencarnado, não tem qualquer justificativa
porque ele sabe quando obra indevidamente. Caim, no exemplo bíblico, ao matar
Abel, tinha plena consciência do que fazia tanto que o fez às escondidas. O que
faltou a Caim foi a compreensão de que nada há oculto aos olhos de Deus!
Pode-se,
verdadeiramente, lesar os homens, pode-se até mesmo lesar-se a si próprio, mas
nunca lesará alguém a magnânima justiça de Deus.
Esclarece-nos
a Revelação da Revelação, ou “Os Quatro Evangelhos”, que o Espírito antes de
encarnar toma resoluções quanto ao gênero das provações, quanto à extensão e ao
termo delas, até mesmo quanto à duração da existência bem como quanto aos atos
que praticará durante a mesma, no entanto, o emprego, o uso ou o abuso que ele
faz da vida terrena muitas vezes o impedem de atingir o limite e o bom cumprimento
daquela resolução (lº Volume, pág. 139, 7ª edição FEB).
No caso
enfocado, o Espírito teve o livre-arbítrio de programar o que seria a sua encarnação,
no entanto, em função do próprio livre-arbítrio, por usá-lo mal ou dele abusar,
estragou um bom programa de vida. Há, porém, aqueles que procuram justificar-se
com fundamento no esquecimento produzido pelo véu da carne.
Os
Espíritos, todavia, em resposta à Questão 392 de “O Livro dos Espíritos”, explicam
que “não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua
sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem,
sem transição, saísse do escuro para o claro.” E
concluem:
“Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si.”
Vejamos,
por exemplo, uma situação em que determinado indivíduo houvesse sido homicida
em sua última encarnação e tivesse programado para a atual existência a
quitação desse delito. Não obstante a desnecessidade de desencarnar assassinado,
ele não teria paz até o dia de seu retorno à vida espírita. Estaria sempre
sobressaltado e na expectativa da presença de alguém que lhe viesse subtrair a
vida física, se recordasse sua transgressão anterior.
O
esquecimento do passado é necessário, misericordioso, e justifica perfeitamente
a prova ou provas a que todos estamos naturalmente submetidos, pois essa é uma
das funções da vida corporal.
Sentimos a
importância do livre-arbítrio quando somos levados a tomar decisões que
incomodam a consciência... Isto significa quanto o Pai celestial é bom, nos ama
e se preocupa com o nosso progresso. Concede-nos o livre-arbítrio, mas
concede-nos igualmente a consciência, espécie de censor natural, que nos alerta
quando dele pretendemos abusar.
A propósito
queremos fazer um paralelo entre duas informações ou elucidações em torno do
livre-arbítrio e as conseqüências de sua errônea utilização. Uma se encontra em
“Os Quatro Evangelhos” ou Revelação da Revelação (lº Vol. pág. 299, 7ª edição
FEB), nos seguintes termos:
“Esses
Espíritos presunçosos e revoltados, cuja queda os leva às condições mais materiais
da Humanidade, são então humanizados, isto é, para serem domados e progredirem
sob a opressão da carne, encarnam em mundos primitivos, ainda virgens do
aparecimento do homem, mas preparados e prontos para essas encarnações (grifos
da obra).
A outra se
encontra em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (Capítulo III, Item 16, edição
FEB), nos termos seguintes:
“Já se vos
há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda
ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus,
senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos revelou de
que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah! Há as que
sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses
mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam
dignas da glória que lhes fora destinada.”
Em ambas as
elucidações, vê-se que o livre-arbítrio é um dom de que o Espírito pode abusar,
mas terá sempre de enfrentar as conseqüências desse abuso, sofrendo encarnações
destinadas a purificá-lo, transformá-lo, regenerá-lo, o que não deixa de ser pena
de efeito verdadeiramente misericordioso.
Os itens 16
e 17 desse capítulo de “O Evangelho segundo o Espiritismo” são constituídos de
uma mensagem de Santo Agostinho, que deve ser lida atenciosamente pelo espírita
estudioso. Pois a questão livre-arbítrio confunde bastante aqueles que a conhecem
apenas superficialmente, literariamente, sem analisar-lhe a profundidade científico-filosófica.
Há, ainda,
aqueles que confundem livre-arbítrio com direito, quando são duas coisas
diferentes. No livre-arbítrio temos uma ação voluntariosa de escolha entre alternativas
diferentes em que o ator é responsável pelas conseqüências do seu ato. Na
ciência do direito a responsabilidade do ato praticado decorre da lei humana.
A Doutrina
Espírita exerce, portanto, considerável papel em sua função de Consolador
prometido pelo Cristo de Deus: o de alertar as almas que atingiram determinado
degrau da escala evolutiva, em que a alegação de ignorância já não atenua
determinados erros cometidos em função do livre-arbítrio. No que diz respeito
aos habitantes de um mundo em vias de mudança para estágio de regeneração, vale
acentuar ainda, conforme vimos acima, a função da consciência como faculdade de
alertamento no processo optativo das alternativas para a ação.
A Doutrina
está no mundo para todos. Ela não pertence aos espiritistas. Enviou-a Jesus à
Humanidade. Os espiritistas somos apenas seus instrumentos de exemplificação e
divulgação sem qualquer outro “privilégio” além da consciência do livre-arbítrio.
Fonte: Revista
Reformador – Julho/1994
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