|
Marcelo Henrique Pereira
A expressão de Galileu, ante a empedernida
lógica dos geocentristas, que impunham a crença (absurda) de que a Terra era o
centro do universo, é verossímil e útil em diversos momentos de nossa atividade
pensadora.
Afinal, existem, aqui e ali, regras estáticas, concebidas por inteligências
restritivas que impõem aos outros a idéia de que “a discussão, o contraponto, o
debate são reprováveis e, portanto, devem ser evitados”. Fico a me perguntar
até quando, efetivamente, estaremos adstritos a este ferrão, algema, ou censor.
Onde foram parar os encontros espíritas de apresentação e refutação de teses?
Por que não mais se organizam eventos que proporcionem os debates, a apresentação
de estudos inéditos, com abordagens igualmente novas para temas de interesse
(atual) planetário?
Afinal, a regra é promover encontros espíritas que contam com Conferências de
determinados “medalhões”, signos da bela (e, comumente, arcaica) retórica, em
que o apelo à emoção, nas descrições teatrais de fatos históricos ou casos
fantásticos, prende a atenção do público que, com certeza, vai para casa um
pouco mais “aliviado”, por perceber que “todos sofrem” e que o derramamento de
algumas lágrimas em função da sugestão mental do orador, funciona como lenitivo
para “desafogar as mágoas” e levantar, de novo, após as quedas.
Nada contra o estilo, convenhamos. Cada um é livre para escolher a forma pela
qual deseja “divulgar” o entendimento espiritista.
Em paralelo, temos, também, “Painéis” em que são apresentados alguns temas
seqüenciais, geralmente estruturados conforme o interesse da organização, os
quais, embora acrescentem em termos de “revisão” de idéias ou apresentação de
interpretações específicas sobre algumas temáticas – já que, nem todos, têm tempo
e recursos disponíveis para compulsar toda a (vasta) literatura espírita existente
– não possibilitam, de propósito, a contraposição de idéias, seja porque os resumos
das apresentações em si, são examinados previamente pelos promotores, seja
porque não se tem – mesmo – interesse em apresentar “duas ou mais” versões
sobre determinado assunto. A tônica, assim, é evitar a dúvida (?), porque o
expectador, o participante não deve “voltar p’ra casa com interrogações”, contestando
esta ou aquela “máxima” ou “verdade”, tratada como incontestável.
Os donatários do movimento espírita, via de regra, elencam seus princípios (cunhando-os
como “princípios fundamentais” do Espiritismo) e não admitem nenhuma digressão,
nenhum reparo. Tratam-nos como dogmas, a exemplo das milenares “Igrejas” de
todos os povos, para os quais não se admite, em nenhuma circunstância, a
existência e a proclamação de “livre-pensadores”.
Fazemos da doutrina da liberdade (o Espiritismo) uma doutrina de sacramentos,
não os mesmos das seitas e religiões, mas, outros, renovados, calcados, por exemplo,
na imutabilidade dos conceitos “revelados” pelos Espíritos Superiores.
Como já ouvi e já li por aí, adjetivam-nos de “sacrilegiadores”, “hereges”, ou
“quem são eles” para discutir e contestar o que disseram os “luminares”
(Kardec, Denis, Flammarion, e, no caso doméstico, Emmanuel, André Luiz, Joanna
de Angelis, Bezerra, entre outros tantos, considerados “indiscutíveis”). Ora,
meus caros, nenhum destes, por mais “missionário” que tenha sido, ou por mais
tenha sido confirmada a excelência de suas missões entre nós, humanos,
encontra-se em grau absoluto de perfeição e verdade, e, conforme mesmo se pode
entender de suas obras, pronunciamentos e manifestações – estas últimas, é
claro, por via mediúnica – são, exatamente, o reflexo do arcabouço
espiritual-evolutivo que conquistaram, expresso em dado momento histórico.
Exemplificando, as teorias espirituais, informadas pelos Espíritos e, também,
aquelas resultantes de digressões do próprio Kardec, em oportunos comentários
após questões, respostas ou páginas psicografadas (representando, justamente
neste ponto, a autoridade do Codificador como realizador material – humano – do
“Projeto Espírita”) representaram e representam o diagnóstico específico para
aquele instante temporal, resultando, daí, a idéia de que, em alguns tópicos,
como o duelo, a teoria da superioridade das raças, o socialismo, e tantos
outros, as informações espirituais e as interpretações delas decorrentes,
grafadas nas Obras Básicas, necessitariam (e necessitam) de releituras,
complementações, ou, como costumamos dizer, de atualizações, permitindo-se que
a obra permaneça atual, útil e necessária, sem sofrer o risco de desconsideração
filosófico-científica, nem objeto de gracejos, pilhérias e contrafações.
O Espiritismo, meus amigos, não é patrimônio, nem dos Espíritos Superiores, nem
do movimento espírita oficial que se autotutela como guardião da pureza doutrinária.
Pureza esta, aliás, que teve sua razão de existência em momentos ulteriores –
na fase de sedimentação do Espiritismo como filosofia – justamente porque adversários
da Doutrina (encetados em outros credos, ou, até mesmo, infelizmente, dentro de
agremiações e editoras espíritas) tentavam adultera-la, seja pela introdução de
conceitos espúrios, seja pelo exercício (até hoje existente, aqui e acolá) de
“encaixe” das máximas e verdades espiritistas ao particular modo de vida,
crenças e idiossincrasias. Basta, por exemplo, analisar quantos companheiros
deixaram de ser espíritas, após algum tempo de militância, para fundar outras
“seitas”, ou movimentos díspares, ou, ainda, as adjetivações e derivações que,
via de regra, percebemos pelo Brasil-continental afora: “espíritas-cristãos”,
“cristãos-espíritas”, “espíritas-evangélicos”, “espíritas-laicos”,
“espíritas-racionais”, etc.
Cada um de nós, assim, ao invés de aglutinar as idéias comuns, busca o separatismo,
seja pela imposição de regras para associativismo, a “seleção” de pessoas que
irão ou não falar em eventos ou instituições, em razão da vinculação ou não a
instituições ou organismos, a indisposição para o diálogo, as pressões para
exclusão deste ou daquele determinado companheiro e por aí afora.
Mas, como o mote deste artigo é a ausência de apresentação de teses e estudos
sobre “novidades” que precisam de apreciação espírita-espiritual, justamente porque
inovam e não estão “sedimentados”, isto é, precisam de maturação, de análise,
de diagnose constantes, para, afinal, ter-se, quem sabe, uma posição equânime,
ou, ao menos, conciliatória, em que se apresentem, lado a lado, as diversas
condicionantes, probabilidades e perspectivas, o fato é que os espíritas não querem
discutir, não querem ficar “na berlinda”, o que lhes fará, amiúde, descer do
pedestal da crença (e da verdade) absoluta, para ter que “aprender” de novo.
Ilustrando esta postura arrogante de quem “sabe tudo” e não precisa de contestações,
temos a questão do “direito à vida”, apresentado pelo movimento oficial como
“pedra-de-toque”, justamente porque uma campanha (permanente) aí existe, como
marca, denominada de “valorização da vida”. Acabo de ler novos documentos
(alguns, nem tanto) e acompanhar manifestos pela imprensa especializada
relacionados à (necessária e conveniente ?) postura dos espíritas em face de movimentos
sociais e projetos legislativos capazes de alterar a regra legal de tratamento
dos “crimes contra a vida”: aborto, suicídio, eutanásia e pena de morte. O
espírita tradicional, meus caros, não admite dialogar, nem quer saber de “excludentes”.
Fecha-se “em ás de copas”, aduzindo que tais temas são indiscutíveis, pois “a
regra (divina) é clara”: “Não matar”, diz o mandamento. Então, recomenda-se o
posicionamento civil e de cidadania de lutar contra possíveis modificações
(legais ou processuais) que possam descriminalizar algumas condutas de “atentado
à vida”, embora justificáveis, por aspectos clínicos, psicológicos ou, até
mesmo, humanitários.
Relembro, aqui, o recente caso do aborto do anencéfalo (inicialmente permitido,
em sede de liminar judicial, depois derrubada, carecendo, o exame de mérito, ainda,
de um pronunciamento coletivo final) ou do desligamento de aparelhos de seres
vegetativos, no Brasil e no exterior, os quais receberam, um, o apoio espírita
para o que chamaram de “restabelecimento da verdade” e o outro, reprovatório,
porque somente Deus poderia interromper uma vida, mesmo que naquele estado
inconsciente, cabendo somente ao mecanismo divino, a supressão de uma existência
expiatória. No primeiro caso, já nos manifestamos à exaustão na imprensa e literatura,
afirmando-nos favoráveis ao aborto, em favor da mãe, a quem se impõe uma
gestação inútil e infrutífera, pela contraposição ao “direito do nascituro”,
que nem indivíduo (pleno espiritualmente) o será. No último, de modo
desafiador, perguntamos: e se não existisse a especialidade clínica e o
desenvolvimento de aparelhagem (cara e determinada) para a mantença artificial
de vidas humanas, a decorrência mais evidente não seria o desencarne? O que
acontece então, com que não tem dinheiro para pagar os tratamentos, nem tem
leitos disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde, no caso brasileiro) ou está
reencarnado no interior da savana africana, no Iraque ou em países
financeiramente pobres? Morrerá, “naturalmente”, isto é, não haverão
dispositivos médicos capazes de “segurá-lo” vivo, só para satisfazer uma mera
convenção legal-social de nosso mundo ocidental. Mas aí, dirão alguns, “faz
parte” da prova daquela criatura estar num lugar inóspito e sem recursos. Ou
seja, para a regra “fixa” dos espíritas, “há jeitinho para tudo”, basta
deslocar o viés interpretativo.
Eu, sinceramente, não me curvo às convenções. Quero, por formação, por
filosofia espírita, por apoio espiritual e por inspiração de espíritos como
Herculano Pires, examinar à exaustão todas as possibilidades, sem que alguém me
diga “em que” acreditar, ou me chame de “não-espírita” por questionar certos
fundamentos ou idéias tradicionais. Livre-pensador, ou pensador por excelência,
quero ter, eu mesmo, como qualquer outro companheiro filiado às hostes
espíritas, o “direito” de ter, eu mesmo minhas verdades, tirar minhas
conclusões, e aproximar minha verdade parcial à verdade absoluta – idéia que,
somente, a princípio, podem ter os Espíritos Superiores, dentro da Escala
Espírita apresentada pelos itens 100 e seguintes da obra primeva. Até lá,
permitam-me o direito incondicional de ser contestatório, até que se percebam,
como Galileu: “E per se muove”.
|