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Dr. Vitor Ronaldo Costa
A questão da sexualidade humana, ainda por muito
tempo, ocupará a pauta das discussões patrocinadas por educadores, psicólogos,
médicos e religiosos.
Do ponto de vista doutrinário, Kardec, em face de sua
lucidez na organização das questões encaminhadas ao Espírito de Verdade,
permitiu-nos ampliar o conhecimento em assunto tão complexo, de tal forma, que
os espíritas não podem alegar desconhecimento de causa. Refiro-me especialmente
à apreciação kardequiana feita na questão 202 de “O Livro dos Espíritos”, que,
ao nosso ver, serve de ponto de partida para maiores reflexões:
“Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres,
porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como
cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com
isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só
saberia o que sabem os homens”.
Da leitura infere-se a importância de o Espírito
reencarnar ora como homem ora como mulher, por carecer de experiências em ambas
as polaridades sexuais. Os desafios e os “deveres especiais”, quando bem
administrados, visam a incorporar aos fulcros energéticos do psiquismo de
profundidade o fruto ético de tais vivências.
O que acontece, porém, é que a alma em cada etapa
palingenética assume postura condizente com o estágio evolutivo em que se
encontra, podendo desempenhar-se de maneira proveitosa ou, pelo contrário,
abusar das faculdades inerentes ao próprio Espírito.
Por isso, do ponto de vista sexual, nem sempre o
resultado do mergulho na carne pode ser considerado satisfatório, e as
reencarnações expiatórias multiplicam-se à guisa de instrumento educativo e
reparador para os Espíritos rebeldes.
O impulso sexual, como atributo instintivo do ser
encarnado, é poderosa energia criadora enraizada na intimidade espiritual, e
quando liberada no campo da matéria por meio do relacionamento sexual, ativa
complexos mecanismos psicobiológicos responsáveis pela materialização de um ser
inteligente na intimidade do útero materno.
A finalidade precípua da experiência sexual é
permitir a perpetuação da espécie e, secundariamente, colaborar na manutenção
do equilíbrio psicológico das criaturas, desde que tal experiência se estruture
em clima de satisfação propiciada pelo relacionamento amorável, monogâmico e
equilibrado.
No entanto, a crescente rebeldia, fruto da
insensatez, incentiva a cegueira propositadamente cultivada em relação ao
assunto. E a ausência de maturidade nas experiências afetivas contribui para os
desvios tormentosos da alma, comprometendo inúmeras reencarnações até que haja
o despertar das responsabilidades inerentes à sua condição de centelha divina
em trajetória evolutiva.
Os abusos no campo da sexualidade, sem sombra de
dúvida, corrompem os sentidos sutis da alma. O ultraje cometido
indiscriminadamente contra os sentimentos alheios engendra no perispírito
graves disfunções no vórtice genésico, de tal forma que as marcas dos
desequilíbrios sexuais se exteriorizam nas reencarnações posteriores sob a
forma de distonias psíquicas, anomalias genitais congênitas ou doenças
neoplásicas. É preciso entender que tais ocorrências, na verdade, equivalem a
sinalizações importantes, pois permitem ao Espírito viciado a iniciativa de
medidas educativas tomadas no sentido de seu próprio soerguimento moral.
A experiência afetiva em bases éticas registrada por
ambas polaridades sexuais constitui-se fator preponderante no cumprimento dos
anseios evolutivos. O mesmo não se pode dizer em relação ao desperdício da
energia sexual, pois só a ignorância permite ao ser encarnado insistir no
exercício inconseqüente dos aspectos menos enobrecidos da existência.
Os arroubos machistas, tão decantados em todas as
épocas, e traduzidos pelas inúmeras conquistas temporárias, da mesma forma que
a sedução feminina colocada a serviço da sexualidade desvairada, são posturas comprometedoras
para o Espírito, cujas conseqüências se fazem notar nos inúmeros transtornos da
sexualidade identificados na prática clínica.
A liberdade sexual, propalada pela mídia e tida na
conta de evolução dos costumes, tem servido em realidade para aumentar o número
de paixões não correspondidas, decepções afetivas e conflitos emocionais de
toda ordem, ao lado de um notável incremento do número de abortos em
adolescentes e de doenças sexualmente transmissíveis.
A tentativa de se lançar o descrédito sobre o
matrimônio objetiva unicamente a satisfação dos desejos inferiores por meio de
aventuras amorosas descompromissadas. Trata-se da exaltação do sexo aviltado,
porém, a maioria desconhece a potencialidade dos riscos que tais experiências
acarretam para o próprio Espírito.
Kardec, em “O Livro dos Espíritos”, questão 696,
comenta:
“O estado de natureza é o da união livre e fortuita
dos sexos. O casamento constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades
humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os
povos, se bem que em condições diversas. A abolição do casamento seria, pois,
regredir à infância da Humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de certos
animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes”.
O fato é que as informações prestadas pelo Espírito
de Verdade, acrescidas das judiciosas análises do Codificador, orientam-nos no
sentido de uma vigilância permanente sobre as questões relacionadas com sexo.
Não acatar estas informações é um direito implícito no livre-arbítrio das
pessoas, porém saber arcar com as conseqüências cármicas de um comportamento abusivo
é obrigação daqueles que costumeiramente infringem os postulados éticos
inseridos na Lei da Reprodução.
Fonte:
Revista Reformador – agosto/1999
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