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Prof Dr. Nubor Orlando
Facure
A
Teoria da “evolução das espécies” de Charles Darwin provocou um dos maiores
choques culturais da humanidade e suas conseqüências ainda estão longe de se
esgotarem. Alem dos aspectos biológicos com que foi inicialmente exposta pelo
seu criador podemos percebê-la em diversos outros campos onde se manifesta a
vida. Não seria exagero questionarmos se a evolução poderia ser reconhecida na
“gênese das idéias”, capacidade que da ao homem de hoje a sua supremacia na natureza.
Nesse caso, poderíamos questionar se a “evolução das idéias” ocorreu dentro de
determinados princípios, e se teria sofrido uma seleção adaptativa como a que
ocorreu na diferenciação anatômica das espécies.
Quando o famoso psicólogo suíço, Jean Piaget, estudou
a inteligência, ele nos revelou as fases que acompanham seu desenvolvimento na
criança. Sabe-se que um chipanzé adulto não ultrapassa a etapa sensório-motora
que corresponde a uma criança de três anos, mesmo assim, temos que reconhecer
que o seu repertório comportamental é muito vasto, nos permitindo conjeturar
que eles tenham “idéias” com uma gama muito variada de pensamentos.
Podemos reconhecer, facilmente, as fases e os diferentes “níveis
hierárquicos” na construção das idéias que nos dias de hoje atestam nossa
racionalidade. Toda “hierarquia” pressupõe níveis de maior ou menor organização
e possibilita a divisão em categorias que variam na sua complexidade. Convém
reconhecer as “idéias” como produtos de desejos e intenções construídas por pensamentos.
A complexidade, maior ou menor que se revela nas idéias, é que nos permite ver
nelas, uma manifesta hierarquia.
Nossa sugestão é propor uma leitura por extenso do percurso que o
“princípio inteligente” fez, animando todos os seres vivos, desde suas
expressões mais primitivas até seu mais alto nível na espécie humana.
Poderíamos ver aqui, mesmo que numa identificação arbitrária, as diversas fases
que percorreram os seres vivos para compor todo seu patrimônio ideatório. A
idéia de sobrevivência, por exemplo, deve ter percorrido toda esta trajetória,
e quase tudo que existe no nosso corpo pode ser visto como recursos que
desenvolvemos para garantir esta sobrevivência. O altruísmo, que apareceu mais
tarde, iniciou-se como estratégia para garantir a sobrevivência. O que antes
era de interesse individual, passou, depois, a ser de interesse grupal.
Pode parecer um contra-senso falarmos de “idéias”, assim como, causaria
desconfiança, apontarmos qualquer expressão de atividade psíquica nas formas
mais primitivas de vida. Não podemos negar, porém, que a ligação biológica
entre esses seres e nós, exige, de alguma forma, que, tudo que se denomina para
os humanos de “psiquismo” (como sinônimo de atividade mental), tem um vínculo,
uma procedência, uma preexistência, uma relação direta com o comportamento
destes seres primitivos. É a identificação deste percurso contínuo da atividade
“mental” que queremos acompanhar. É
claro que pode nos faltar terminologia mais adequada para explicitarmos com
mais propriedade o que “pensam” estes seres primitivos, mas não nos é permitido
deixar de identificar naquilo que eles revelam em termos de respostas químicas,
de reações reflexas e de comportamentos instintivos, com tudo o que nós
produzimos no colorido de atitudes que chamamos de humanas.
È bom lembrarmos que em termos fisiológicos, a ação que produz um
determinado comportamento, é resultante de um pensamento que dirige esta ação.
Isto é visível quando corro para me proteger da chuva. O mesmo fenômeno é
notado no chimpanzé que corre de medo de uma cobra. Em ambos os casos ocorrem
comportamentos de fuga com um conteúdo mental. No caso do chimpanzé, costuma-se
rotulá-lo de comportamento instintivo, como se isso fosse possível de acontecer
sem a construção de um repertório mental, constituído de pensamentos de medo,
diante de um perigo eminente. Sua distinção em relação ao pensamento humano
pode revelar quantidades e qualidades diferentes, mas não podemos excluir que
existam pensamentos e suas idéias correspondentes, tanto para o homem como para
o chimpanzé.
A construção da mente
A definição de mente e sua interação com o
cérebro são dilemas ainda não resolvidos pela Ciência. De qualquer forma, o
homem compreende sua mente através das idéias que ela expressa. Para René
Descartes, nós já nascemos com um conteúdo de idéias inatas e Leibniz
(Gottfried W.Leibniz 1646-1716) sugere a existência de mônadas na estruturação
da mente. Para outros o conteúdo mental é produzido pelos estímulos que
atravessam os nossos sentidos.
A discussão filosófica interpreta as idéias como
sendo todo nosso conteúdo mental. Elas podem ser expressas em diversas formas
de linguagem, seja num texto falado ou escrito ou numa composição artística
qualquer. Em todas suas manifestações, o pensamento será sempre o veículo que
expressa estas idéias.
Não escapa do raciocínio de qualquer um de nós que as
idéias podem ter graus de maior ou menor complexidade. Locke (John
Locke,1632-1704), por exemplo, considera que as idéias podem ser simples ou
complexas e, elas seriam resultado das nossas sensações ou das nossas
reflexões.
David Hume (1711-1776) diz que o pensar é pensar por
meio de imagens, é imaginar e, que toda experiência, seja na sensação ou na
imaginação, é chamada de percepção. Para Hume, as percepções são constituídas
de idéias e impressões. As impressões podem se originar da experiência
sensorial ou de atividades como a memória.
Diz ainda Hume, que a impressão pode não ter a mesma
nitidez das idéias produzidas pela experiência sensorial. Ela precede sempre as
idéias produzidas pelas sensações e, o que não pode ser imaginado não pode ser
experimentado.
Definindo a mente, Hume a considera uma espécie de
teatro, onde várias percepções fazem a sua apresentação sucessivamente.
Diz Hume que não temos a menor noção do lugar onde
essas cenas são representadas, nem dos materiais que as compõem. Nossa mente
seria apenas uma sucessão de percepções. A humanidade seria um acervo ou uma
coleção de diferentes percepções que se sucedem umas às outras, numa rapidez
inconcebível e se acham num estado de perpétuo fluxo ou movimento.
A noção de Eu, para Hume é impossível. É um disfarce
para confundir uma sucessão de idéias, com a idéia de identidade que formamos
de algo que permanece igual durante um período de tempo.
A idéia de que a mente interfere na percepção das
coisas não é nova. Spinoza (Baruch Spinoza - 1632-1677), considerava que “está
na natureza da mente perceber as coisas sob um certo ponto de vista atemporal”.
Para Leibniz, é a disposição das mônadas, cada qual com uma disposição
diferente, é que dá a aparência à realidade. Cada objeto consiste de uma
colônia de mônadas e o corpo humano tem uma mônada dominante, privilegiada, que
mais especificamente se denomina Alma humana.
O filósofo inglês, Jonh Locke, no “Ensaio sobre o
entendimento humano (1690)”, revive a afirmação de Aristóteles, considerando a
mente como uma folha de papel em branco cujo conteúdo seria preenchidos pela
experiência. Locke chama este conteúdo mental, de idéias. As “idéias de sensação”,
que seriam originadas da observação do mundo exterior através dos nossos
sentidos e as “idéias de reflexão” que surgiriam quando a mente observa a si
mesmo, é quando a mente analisa por si mesmo o seu conteúdo. Dizia Locke, que
tudo o que nós conhecemos são idéias, e estas, por sua vez, retratam ou
representam o mundo.
George Berkeley (1685-1753), considerava que o
existir de alguma coisa é o mesmo que ser percebido. Isso significa dizer que
os objetos que se percebe estão na própria mente. Nossa percepção visual, por
exemplo, não são de coisas externas, mas simplesmente idéias que estão na
mente. No seu “Princípio do conhecimento humano” de 1710, Berkeley, especifica
sua fórmula básica de que “ser é ser percebido”. O que na verdade conhecemos e
comentamos são, conteúdos mentais. Isso fica claro, por exemplo, quando ouvimos
alguém. O que entendemos é o “conteúdo mental” do que ele diz, mais do que uma
série de sons verbais isolados uns dos outros e depois encadeados como as
contas de um colar.
Georg Hegel (1770-1831) partia da história para
construir seus princípios da dialética. Seu método se aplicava não só como um
instrumento da teoria do conhecimento, mas diretamente como uma descrição do
mundo. Todo passo dialético percorre três etapas. A uma declaração inicial se
opõe uma contra declaração, e finalmente as duas se combinam numa espécie de
acordo. Penso eu que o oxigênio é vital para nossa sobrevivência, mas, num
incêndio, o oxigênio pode agravar o fogo e nos comprometer a vida. Concluímos
que conforme as circunstâncias o oxigênio pode ser indispensável ou perigoso
para nossas vidas. No discurso inicial, segundo a dialética de Hegel, podem se
opor proposições contraditórias, mas a conclusão deve exigir um arranjo
composto. A contradição pode existir no discurso inicial, mas no mundo
cotidiano dos fatos não existe a contradição.
Hegel foi autor do “Fenomenologia do Espírito”
publicado em 1806. Ele mostra possuir considerável percepção da mente humana.
Na psicologia do desenvolvimento intelectual, a dialética é, até certo ponto,
um método perspicaz de observação e aprendizado. Percebe-se que com freqüência
a mente progride segundo o padrão dialético seguindo a seqüência da tese, da
antítese e a conclusão da síntese.
A Filosofia para Hegel é definida como o estudo da
sua própria história. Foi a explicação detalhada dos acontecimentos que fez
Hegel publicar a “Filosofia da História” de onde retirou sua dialética.
Creio eu que os acontecimentos e o significado de
cada evento no decorrer do tempo, pode nos fazer compreender o sentido das
coisas. Nesse aspecto a evolução da mente pode ser revelada numa abordagem
dialética.
A
Hierarquia das idéias
A estrutura anátomo-fisiológica do cérebro humano
passou por todo o processo evolutivo a que se submeteram os organismos das
várias espécies que a natureza produziu. Não é de estanhar que possamos
surpreender no passado as origens da complexidade da mente humana e as idéias
que a permite se expressar.
Por simplificação arbitrária, podemos fazer uma
leitura didática das idéias considerando os níveis de suas complexidades. Seria
uma proposta de se ver uma “hierarquia” na construção e evolução das idéias,
como se estivéssemos identificando os programas mais simples que serviram de
base para construir os programas mais sofisticados que organizam as nossas
mente.
Analisamos seis fases:
1 - Fase química
ou celular.
Vírus e bactérias.
Os primeiros organismos
vivos iniciaram uma troca de informações químicas com o meio exterior. É a fase
onde se aprimora o contato que patrocina a aproximação ou a fuga, mediadas
exclusivamente por reações químicas. Um animal primitivo, constituído de uma
única célula tem capacidade de detectar nas suas vizinhanças a presença de
substâncias nutritivas e de realizar movimentos em direção a essas substâncias
que ele incorpora em sua estrutura. Uma ameba, constituída por uma única
célula, pode reagir, fugindo de uma picada com uma agulha ou absorver um
fragmento químico que a alimenta. Essa mesma atitude continua a existir numa
célula do nosso estômago ou de uma colônia de fungos.
No corpo humano, existem
250 tipos diferentes de células e é através da linguagem química que cada uma
delas se comunica, entre si e o meio exterior. Nossa atividade mental é
indispensável para essa orquestração, embora nossa consciência participe muito
pouco dessa atividade, vindo a si dar conta dela, nas ocasiões em que as doenças
rompem a homeostase e a harmonia dos órgãos.
É extraordinário como o
ovário da mulher é capaz de liberar mensalmente uma célula reprodutora,
escolhida entre inúmeras outras. Não se sabe por qual mecanismo é feita essa
escolha, e por mais simples que possa parecer, em cada mês é um ovário
diferente que fornece o óvulo.
No quadro das redes neurais
a complexidade da comunicação química e elétrica é tão extraordinária que
permite aos materialistas pensarem que é ali que nascem todas as nossas idéias.
O perfume de uma flor que
afeta a química das nossas células olfativas, é capaz de nos provocar
lembranças há muito tempo sepultadas nas nossas memórias da adolescência.
A atuação de cocaína nos
neurônios, é tremendamente devastadora para a personalidade do indivíduo
viciado nesta droga.
Um pensamento de cólera
pode desencadear a produção de substâncias pelas nossas glândulas, com efeito
devastador para nosso organismo.
A hipófise tem mais ou
menos o tamanho de uma ervilha e, mesmo assim é capaz de orquestrar uma dezena
de hormônios que regulam glândulas esparramadas pelo nosso organismo.
2
- Fase reflexa.
Animais invertebrados.
Após a fase química e no
momento em que uma célula reconhece a presença de outras células vizinhas,
construiu-se uma organização que passou a distribuir tarefas. Foi criado pela
“idéia” do grupo celular, um sistema de estímulo-resposta, caracterizado, tipicamente,
pela expressão de um determinado comportamento reativo. Essa reação pode ser
tão simples como um movimento corporal ou uma divisão celular. Outras vezes são
complexas expressando fuga ou aproximação. Uma ameba, constituída por uma única
célula, pode reagir, fugindo de uma picada com uma agulha.
Nesse nível não há
competência suficiente para produzir um aprendizado, mas a transmissão genética
permite às espécies reproduzirem respostas repetidas e organizarem os
instintos.Uma lesma não é capaz de aprender a sair de um labirinto, mas reage
diante de uma ameaça, expulsando um jato de tinta que confunde o predador.
A falta de flexibilidade
das idéias nesta fase pode ser danosa e comprometer a sobrevivência do animal.
Uma mariposa confunde a luz dos postes com a claridade da lua, e morre queimada
pelo calor da lâmpada. É curioso notar, o quanto essa falta de flexibilidade
tem perturbado a vida de todas as criaturas.As tartarugas recém nascidas, por
exemplo, confundem as luzes da cidade com as estrelas vespertinas, e morrem
esmagadas no asfalto. É notória a competência das mulheres em lidarem com a
flexibilidade das idéias a seu favor, superando com isso, o mito da
inteligência masculina.
O processo fundamental
nesta fase primitiva do “princípio inteligente” é sua interação com o meio. Sua
fisiologia está baseada na Lei de “ação e reação” onde para um determinado
efeito existe uma única causa que a observação ou a experimentação pode
revelar.
Em termos neurológicos esta
fase caminha para o desenvolvimento do arco reflexo e dos mecanismos
automáticos ligados aos núcleos da base. Estas estruturas estão intimamente
ligadas à sobrevivência. Organizam-se colônias multicelulares e a reprodução é
por divisão celular sem qualquer divisão sexual A partir daqui serão desenvolvidos
objetivos mais sofisticados para aproveitar melhor os mecanismos de aproximação
ou fuga. Uma libélula é capaz de responder a estímulos químicos de uma parceira
sexual situada há quilômetros de distância.
Diversos órgãos do nosso
corpo estão em constante atividade dirigida por um sistema nervoso totalmente
autônomo. Este sistema funciona sob controle de atividade química de
neurotransmissores que os reflexos nervosos ao nível dessas vísceras liberam. A
“hidra dos aquários” é um dos animais que possui o sistema nervoso mais simples
que conhecemos e convém destacar que com a criação das primeiras redes neurais,
teve início o que podemos chamar de linguagem interna.
3 - Nível das proto-idéias.
Peixes, répteis,
anfíbios e aves.
Têm início os automatismos.
Desenvolve-se aqui a organização de sociedades, formação de agrupamentos e
construção de abrigos. Um animal nessa fase já tem “consciência” da existência
do outro. Na constituição das famílias começam a aparecer “idéias” de proteção
dos descendentes e acúmulo de alimentos para garantir a escassez. Os pais têm
compromissos na alimentação das suas crias. As relações com o meio exterior
ficam mais complexas. Aparecem as noções de esquema corporal vital para o
animal aprender a associar as suas dimensões em relação ao ambiente, ao tamanho
dos seus rivais e o quanto pode estender suas patas para alcançar as suas presas.
Desenvolvem-se a orientação no tempo e no espaço indispensáveis aos ritmos
biológicos circadianos. Aves e peixes fazem jornadas quilométricas mapeando e
depois memorizando as sinalizações que encontram na trajetória percorrida
durante as migrações. Aparece um verdadeiro aprendizado no qual o conhecimento
adquirido é transmitido de uma geração para outra. Isso pode ser visto na construção
de tocas, de ninhos ou mesmo nos gestos que as aves usam para voar.
4 - Nível integrativo ou associativo.
Mamíferos e primatas.
Aqui a aquisição de
conhecimento se completa com a possibilidade de ser este conhecimento
transmitido às gerações futuras.Varias funções psíquicas são agregadas para a
sua estruturação. Compõe-se, por exemplo, da fixação da atenção, das respostas
emocionais e da memorização. Elas se caracterizam pela interação com o ambiente
e pela formação do conhecimento.
O animal consegue desenvolver
comportamento comprovadamente inteligente. O macaco se utiliza instrumentos que
lhe facilitam o acesso a uma fruta que os braços se mostram curtos para
alcançar. Comportamentos altruísticos facilitam a sobrevivência do grupo.
5 - Nível de aquisição da consciência do
Eu.
Humanos
Quando falamos de
consciência do Eu, temos a impressão de que esse Eu parece ser alguém que está
sempre conosco, exatamente onde estamos e dentro de nós. A minha sombra não é o
meu Eu, nem o é as imagens que vejo nas minhas memórias. Ali estão apenas as
minhas lembranças .
É extensa a literatura que
descreve as características que diferenciam o comportamento do homem em relação
aos outros animais. Diz-se que o Homem é o único animal que perdoa. Só ele é
capaz de sorrir e de dar a vida para salvar seu filho. O Homem é o único animal
cujos medos são capazes de criar superstições.
A mente humana incorporou
todos processos de linguagem que a evolução do nosso organismo nos possibilitou
acumular. Nossas “idéias” passaram a dar um significado a cada objeto. Esse
significado passou a ser reconhecido por símbolos. O pensamento começou a se
expressar simbolicamente por palavras construindo uma linguagem e a partir daí
a humanidade construiu sua cultura.
A aquisição da linguagem
falada foi um processo que hoje está tão arraigado em nossa mente, que nos
parece ser impossível mentalizar qualquer idéia sem o uso das palavras. Todos
nós, porém, nos comunicamos, tanto interna como externamente, com diversas
outras formas de linguagem. Nossos medos e nossas crenças, comumente, não usam
palavras para se manifestarem em nós. As expressões corporais são umas das mais
eficientes formas de comunicação que também não se serve de palavras. Qualquer
artista de teatro sabe que nosso corpo fala pelos gestos. A linguagem corporal
é tremendamente mais rica e eficiente que a linguagem verbal. As palavras nunca
conseguem expressar toda força de uma grande emoção enunciada pelos gestos
A consciência dos nossos
atos corre em paralelo com uma série de gestos que podemos realizar
inconscientemente. Já discorri sobre o que chamei de inconsciente neurológico
dando exemplos que ilustram esta atividade. Diversas funções cerebrais estão
intimamente ligadas a consciência. É fácil percebermos que o nosso nível de consciência
está ligado ao esforço que imprimimos à atenção e a qualidade da consciência
depende do material contido nas nossas memórias.
Nessa fase nossa
consciência é limitada pelos recursos que o cérebro pode lhe oferecer. Em raras
situações o desdobramento da consciência pode ser registrado no cérebro e
nessas situações tomamos contato direto com as informações procedentes de
outras dimensões e que ficaram impressas nos circuitos da memória física.
A espiritualidade é um
atributo de nossa personalidade. Ela se desenvolveu no curso da evolução a
partir de idéias primitivas de temores diante das ameaças que as forças da
Natureza parecia nos ameaçar. Depois aprendemos a estabelecer as trocas com a
divindade.
6 - Nível transcendente ou de espiritualização.
Místicos e missionários
Compreende o período da
expansão da consciência. O neurologista
está habituado a analisar os níveis de consciência nos seu sentido de maior ou
menor profundidade. Esses níveis variam desde o estado de alerta, a sonolência,
o torpor e o coma, quando então a consciência está abolida em graus de maior ou
menor profundidade. A visão neuropsicológica moderna nos permite ver as
alterações da consciência em expressões de maior ou menor amplitude. A expansão
da consciência nos permite acessar, voluntária ou involuntariamente, os
chamados “estados alterados da consciência”, com a possibilidade de transitar
por informações de outras dimensões.
No nosso atual estágio
evolutivo, o que compreendemos destes “outros planos da vida”, ainda são “idéias”
elaboradas por construções fragmentárias. Quase sempre sem tradução completa
nas expressões comuns da linguagem humana. Elas podem ser aceitas, transmitidas,
mas não são compreendidas em toda sua extensão. É preciso ver nelas o
subentendido que o aparente não revela. Expressam conceitos como: Deus, a
criação, a eternidade e o infinito.Caracterizam-se por serem adquiridas como
uma “revelação”. Podem ser interpretadas como sendo uma “vivência psíquica”.
Uma das suas características é a sua generalidade. Grandes místicos do passado
conseguiram expressá-las nos textos dos seus pensamentos memoráveis. Ao
recordar algumas destas idéias podemos perceber a harmonia com que combinam
simplicidade com complexidade: “O tudo está em tudo”. “Tudo é movimento”. “O
cosmo está no homem”. “O não visto é o visível próximo”.
Aqui se descobre a
complexidade do mundo, a extensão das experiências que nossas mentes já
acumulam. E, tanto efeito como causa, devem ser vistos no plural.
Uma visão psicológica
As idéias têm a propriedade
de revelar a atividade mental que estamos desenvolvendo. Isso não significa que
elas sejam sempre expressas na linguagem falada que estamos habituados a
expressar. Um gesto ou a expressão de um olhar nos mostra que o corpo fala, e
às vezes fala mais que as palavras.
Penso que o conteúdo da
nossa mente não é preenchido apenas por idéias, conforme afirmam alguns
filósofos. O que torna muito mais complexa as possibilidades de nos
expressarmos. Todos nós sabemos, que o conteúdo do inconsciente, é muito rico
de imagens que as idéias mantém por muito tempo desordenadas. Conhecemos a
dificuldade em traduzirmos este texto escondido no inconsciente. Muitas doenças
servem de linguagem traumática para expressar o que temos ali dentro.
À medida que vamos estabelecendo
idéias bem definidas, vamos acumulando um conhecimento que gradativamente
constrói a nossa cultura. Outras idéias são aceitas de modo dogmático
estabelecendo as crenças e criando os mitos. As crenças podem se adquirir a
partir de uma experiência subjetiva, difícil de ser transmitida para os
outros.
No diálogo interior que
fazemos com a nossa própria consciência estamos habituados a construir desejos
e intenções que podem se revelar no ambiente que nos cerca através de palavras
ou de gestos. Entendo a consciência como a “propriedade” que nos permite
perceber a realidade interna e externa.
No que se refere ao mundo
exterior, é sempre mais fácil construirmos idéias que descrevam o que
percebemos a respeito dele. É uma tarefa mais leve identificarmos e descrevermos
os objetos situados fora de nós. Quanto ao nosso mundo interior as idéias são
insuficientes para descreve-lo. Nossas impressões e reflexões são sempre mais
fortes do que os pensamentos que elaboramos sobre elas. Estamos habituados a
traduzir nossos pensamentos em palavras, e as emoções que nos afetam, podem ser
de tal magnitude, que nos faltem palavras para descreve-las. Outras vezes,
nossa surpresa é tão grande que nos faltam idéias para interpretar os fatos que
nos abalam.
Acreditamos que nossa consciência é preenchida de
pensamentos e idéias incessantes, parecendo-nos a todos que é impossível
pararmos de pensar. Os místicos, habituados a se concentrarem em meditações
profundas, descrevem a consciência como um fluxo incessante de energia e não necessariamente
de idéias. Nesse estágio, a consciência se apropria da essência das coisas e
atinge outras realidades.
No
processo de aquisição das idéias e da experiência que a evolução sedimentou,
podemos perceber que a mente humana é herdeira, de todas as formas de conhecimento
que cada célula, cada agrupamento celular e cada organismo de todas as espécies
que a evolução nos permitiu transitar, conduzindo, o “princípio inteligente”. É
perfeitamente possível identificarmos, em expressões do comportamento humano,
toda esta riqueza de idéias que a vida, expressa em tão grande diversidade
biológica, consegui fixar em nossa mente.
A
atividade celular em qualquer parte do nosso corpo ainda obedece à mesma
química das células dos primeiros animais que nos antecederam. Os reflexos primitivos
permanecem em total independência na sinfonia dos nossos órgãos internos. Os
instintos e automatismos de uma abelha que constrói seus favos ou de uma
libélula que localiza sua fêmea permanecem vivos no homem e na mulher que constroem
seus sonhos. Quase todos nós já vivemos a experiência de usar um reflexo de
fuga para dar um salto antes que alguém nos atropele. O instinto de
sobrevivência nos faz agasalharmos para não sermos surpreendidos pelo frio.
Muitas vezes caminhamos automaticamente por ruas que já conhecemos sem
precisarmos nos dar conta dos obstáculos que ela contém. É instintiva a necessidade
de correr quando um animal nos ameaça ou quando o cheiro de fumaça é alertado
pelo grito de que há fogo por perto. Com esses exemplos estamos ressaltando que
a química celular, os reflexos, os automatismos, o comportamentos instintivos
adquiridos nos cenários da vida, permanecem convivendo conosco em parceria com
a consciência, permitindo que através dela, toda nossa atividade seja
comprometida com nossa responsabilidade.
Uma
olhada na psicopatologia
A doença mental tem sido focalizada no decorrer dos
tempos a partir de variadas interpretações. Não pretendemos nos deter neste
histórico deixando apenas registrado que, na atualidade, ainda prevalece uma
visão organicista e outra psicodinâmica nos fundamentos da psicopatologia.
Qualquer que seja nossa abordagem permanecerá no
palco das manifestações dos distúrbios mentais uma perturbação no contexto das
idéias que cada indivíduo revela nos seus desvios mentais.
Como nos parece que as idéias foram construídas a
partir de um processo evolutivo acrescentando níveis de aquisições
hierarquizadas, creio que poderíamos dar uma olhada no discurso das doenças
mentais a partir da idéias que revelam o quadro clínico destas manifestações.
Nossa proposta é apenas um ensaio despretensioso.
No caso do autista, podemos enxergá-lo fixado em um
nível de reação extremamente limitada que não lhe permite interagir
adequadamente com o meio exterior. Sua capacidade de gerar respostas aos
estímulos exteriores está fortemente comprometida. Sua vida se limita a
reflexos simples sem os componentes de associação entre os diversos módulos de
atividade cerebral
No transtorno obsessivo compulsivo as atitudes estão
fixadas em automatismos primários cuja repetição é impositiva para o paciente.
Na esquizofrenia ocorre uma regressão violenta na
capacidade de construir idéias coerentes com a realidade tanto do meio externo
quanto interno. O paciente tem uma aparência de constante sensação de
hostilidade. Suas capacidades parecem se limitar a reações de fuga, tal qual um
animal onde as “idéias” se limitam à atividade celular.Os estímulos exteriores
não têm competência para gerar um padrão de resposta integrada.
A Hierarquia das idéias na
Formação da Consciência
Diversos fatores contribuíram para que o estudo da
consciência voltasse a despertar interesse da Ciência. Este estímulo se
iniciou com a “Década do Cérebro” e o estudo das funções cerebrais
através das imagens com a Tomografia de Pósitrons e a Ressonância funcional.
O neurologista Antônio Damásio e o físico Francis
Crick são dois exemplos atuais de estudiosos que se propuseram a esclarecer o “enigma
da consciência”. Em ambos persiste a visão materialista que
reconhece no cérebro e no arranjo dos seus neurônios a capacidade de produzir a
mente e estabelecer as condições que constrói a consciência. Os elementos
envolvidos são outros, mas é o mesmo conceito de que se serve Thomas Hobbes
(1588-1679), quando publicou o Leviatã (1651), afirmando que a realidade
interna se resume em movimento e que nossos pensamentos e nossas paixões são
efeitos do movimento da matéria.
No modelo materialista, utilizado pelas escolas
neurológicas da atualidade, temos de lidar com redes de neurônios e tentar
conhecer o mínimo de estrutura cerebral que é exigida para permitir a
determinado animal permanecer consciente. Esta resposta não é difícil quando
estivermos procurando apenas o que a consciência representa em termos de estarmos
alerta, em contacto com o meio exterior. Teremos muito mais dificuldade quando
discutirmos a extensão toda da consciência, o significado do “self”, o grau de
apreensão que podemos fazer de uma determinada situação ou mesmo do ambiente
que afeta a nossa consciência.
Num sistema organizado e de alta complexidade como o
cérebro, é perfeitamente possível estabelecer os fundamentos neurofisiológicos
para uma expressão limitada da consciência humana.
Para
os que aceitam o paradigma espiritualista, sabemos que nossa Alma, devido a
suas múltiplas existências, tem um conteúdo de conhecimento muito maior do que
o que o cérebro físico possa revelar. É exatamente esta limitação apresentada
pelo cérebro que nos impede de identificar uma lei abrangente, capaz de apreender
toda fenomenologia da consciência.
Ao invés de se tentar equacionar o “enigma da
consciência” pela estrutura das redes neurais e seus sistemas de
organização, estamos apresentando uma via de acesso à consciência, pela
elaboração e hierarquização das idéias. Ao estabelecermos um fundamento
hierárquico para suas expressões, podemos questionar quais conteúdos e
significados das idéias que seriam compatíveis com o aparecimento da
consciência. Dessa forma, quando aumentar nosso conhecimento sobre os diversos
aspectos da consciência, os fundamentos serão sempre os mesmos, irão variar
apenas o significado das idéias necessárias para explicar determinada
apresentação da consciência. Para estarmos alertas e perceptivos em relação ao
ambiente, precisamos de um determinado padrão ideatório e para estarmos consciente
do Eu, nos é exigido um outro determinado padrão de idéias. Para a expansão da
consciência a outros planos da vida, são exigidos os padrões transcendentes de
idéias.Os ganhos anatômicos do cérebro foram adquiridos, presumivelmente, pelo
desenvolvimento de uma crescente constelação de idéias que a evolução estimulou
nos desafios da vida.
A importância das idéias se revela na percepção
que temos da realidade, bem como, nas ações que executamos acreditando
serem procedentes de nossa vontade. Ambas, nada mais são que impressões do
imaginário que a evolução nos permitiu construir na consciência.
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Luiz, A / Xavier, F.C. – Evolução em
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Fonte: Site do Dr. Nubor Orlando Facure em
04/09/2005 - www.geocities.com/nubor_facure
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