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Estudos Espíritas
Joanna de Ângelis
(Espírito)
Escolas Antigas - Desde a mais recuada antigüidade o
homem sentiu necessidade imperiosa quão inadiável de vencer a dor e as
vicissitudes, libertando-se da angústia e superando o medo da morte. Sustentado
nos primeiros tentames pela inspiração espiritual buscou na intimidade dos
santuários a elucidação de vários dos enigmas que o afligiam, para diminuir a
crueza das perspectivas de sombra e morte a que se via constrangido considerar.
No entanto, com o nascimento das primeiras escolas de pensamento, que buscavam,
através dos seus insignes mestres, a elucidação dos tormentosos mistérios a
respeito da vida, perlustrou roteiros diversos, ora em ansiedade, ora em
lassidão, padronizando por meio de regras fixas uma conceituação filosófica de
tal modo eficaz que o libertasse do medo, fazendo-o tranqüilo.
Sem remontarmos à Antigüidade
Oriental estabeleceu-se, a princípio, na Grécia, que a felicidade se nutre do
belo, por meio do gozo que decorre da cultura do espírito.
Enquanto viveu, Epicuro procurou
demonstrar que a sabedoria é verdadeiramente a chave da felicidade, mediante a
qual o homem desenvolve as inatas aptidões da beleza, fruindo a satisfação de
atender as mais fortes exigências do ser.
Pugnavam os epicuristas pela
elevação de propósitos, demonstrando que as sensações devem ceder lugar às
emoções de ordem superior, a fim de que o homem se vitaliza com as legítimas
expressões do belo, conseqüentes aos exercícios da virtude por meio da qual há
uma superior transferência dos desejos carnais para as alegrias espirituais.
Posteriormente o ideal
epicurista, também chamado hedonista, sofreu violenta transformação, passando
essa Escola a representar um conceito deprimente, por expressar gozo, posse,
prazer sensual. Fixaram os descendentes do filósofo de Samos - que elaborara o
seu pensamento nas lições de Demócrito oferecendo-lhe vitalidade moral - , o
epicurismo nas lutas pela propriedade, ensinando que o homem somente
experimenta felicidade quando pode gozar, seja através do sexo desgovernado ou
mediante o estômago saciado. Fomentaram a máxima: possuir para gozar, ter para
sobreviver, esquecidos de que a posse possui o seu possuidor, não poucas vezes,
atormentando-o, por fazê-lo escravo do que tem.
Antes do pensamento epicurista,
Diógenes, cognominado o Cínico, graças à sua forma de encarar e viver a vida,
estabelecia que o homem deve desdenhar todas as leis, exceto as da Natureza,
vivendo de acordo com a própria consciência e com total desprezo pelas convenções
humanas e sociais. Era um retorno às manifestações naturais da vida, em
harmonia com o direito de liberdade em toda a sua plenitude. Pela forma como
conceituava a Filosofia, incorporando-a à prática diária, foi tido por
excêntrico.
Desdenhando os bens transitórios
passou a habitar um tonel. E como visse oportunamente um jovem a sorver água
cristalina que tomava de uma fonte com as mãos em concha, despedaçou a escudela
de que se servia por considerá-la inútil e supérflua, passando a fazer como
acabava de descobrir... Desconsiderou, em Corinto, o convite que lhe fora feito
por Alexandre Magno, desprezando a honra de governar o mundo ao seu lado e
admoestando-o por tomar-lhe o que chamava "o meu sol".
Fundamentada no amor à Natureza
e suas leis, a doutrina cínica considerava a desnecessidade do supérfluo e a
perfeita integração do homem na vida, pois que nada possuindo não podia temer a
perda de coisa alguma, desenvolvendo o sentido ético do "respeito à
vida". Os continuadores exaltados, porém, transformaram-na em uma reação
contra as regras da vida, semeando o desdém ou proclamando uma liberdade
excessiva, a degenerar-se em libertinagem.
Toda vez que o direito precede
ao dever esse desequilibra-se pela ausência de bases que lhe sustentem os
interesses, pois que, somente pode usufruir quem haja retamente exercido o
compromisso que a vida lhe impõe.
A liberdade é o direito inato,
mas desde quando perturba o direito alheio faz-se prejuízo da comunidade em que
se exterioriza.
Enquanto o homem não adquire o
legítimo amadurecimento espiritual que o faz espírito adulto, não pode viver em
regime de liberdade total, por faltar-lhe responsabilidade.
Contemporaneamente, floresceu o
pensamento estóico, cujos fundamentos estão acima da condição da posse ou da
ausência dela, mas da realidade do ser, do tornar-se. Zenão de Cício, seu
preconizador, expunha, vigoroso, quanto à necessidade de se banirem da vida as
expressões da afetividade e da emotividade, que, segundo lhe parecia, causavam
apego e produziam dor. Desejando libertar o homem de qualquer retentiva na
retaguarda, predispunha-o para enfrentar as vicissitudes e os sofrimentos com
serenidade, libertando-o de toda constrição capaz de o infelicitar. Ensinava
que o essencial na vida é a própria vitalidade interna, o encontro com o eu,
tangenciando-o para a suprema forma das atitudes de natureza subjetiva. "O
homem são os seus valores íntimos", lecionava, desejoso de fazer que o
conceito fecundasse na alma humana. No entanto, pelo impositivo de reação aos
elementos constitutivos o afeto e da emoção, não conseguiu oferecer a segurança
básica para a felicidade, por tornar o homem inautêntico, transformado em
máquina insensível ao amor, à beleza, ao sofrimento...
À mesma época, viveu Sócrates,
considerado o pai da ciência moral, que a exemplificou em si mesmo, em caráter
apostolar. Criticando e satirizando os falsos conceitos estabeleceu as regras
da virtude, aplicando-as na própria vida. A sua dialética a expressar-se, não
raro de forma irônica, combatia os males que os homens fomentam para gozarem de
benefícios imediatos, objetivando com essa atitude de reta conduta o bem geral,
a felicidade comunitária.
Diante dos juízes que o
examinavam sob pretexto falso, manteve serenidade superior, sendo um precursor
do pensamento cristão, relevantes como eram suas preciosas lições.
E diante da morte que lhe foi
imposta, através da cicuta que sorveu, conservou absoluta serenidade, conforme
se constata pouco antes dela pelo célebre diálogo mantido com Críton, seu jovem
e nobre discípulo, que o visitara no cárcere. "O homem não são as suas
roupas, o seu invólucro, mas o seu espírito"- afirmou, integérrimo,
preferindo o cárcere e a morte à desonra, ele que devia ensinar conduta reta e
consciência tranqüila. O seu legado ético é de relevante valor moral e
espiritual, rescendendo o sutil aroma da sua filosofia de vida no idealismo que
Platão apresenta nos memoráveis Diálogos, que refletem sempre a grandeza do mestre,
verdadeiro pioneiro das idéias cristãs e espíritas.
Conceituação Moderna - Abandonando o empirismo através dos
tempos, o pensamento atingiu o período tecnológico, estabelecendo a chamada
"sociedade de consumo" e fomentando entre as nações a divisão dos
países segundo o desenvolvimento, subdesenvolvimento e o terceiro mundo.
Resultado de diversas guerras calamitosas e destruidoras o espírito hodierno
experimentou vicissitudes jamais imaginadas, derrapando pelos resvaladouros do
pessimismo e do imediatismo, em busca de soluções apresentadas para os velhos e
magnos problemas da vida, sem encontrar a fórmula correta para atingir a
felicidade.
As lutas de classes e o
despotismo do poder, incrementados pelas paixões da posse, estabeleceram as
regras da usurpação, gerando a miséria social em escala sem precedentes, graças
ao desmedido conforto de alguns poucos com absoluta indiferença ante o abandono
das coletividades espoliadas. O homem moderno, no entanto, parece ter-se
perdido a si mesmo, conquanto as luzes clarificantes do pensamento cristão
insistindo teimosamente para romperem a treva do dogmatismo e da insatisfação
filosófica. O século XIX, herdando as valiosas lições de liberdade e justiça
dos pensadores e paladinos do último quartel da centúria anterior,
encarregou-se de zombar da fé, e o ceticismo apoderou-se das consciências que
foram arrojadas na direção do futuro sem paz e em desesperança, na busca dos
roteiros libertadores.
Depois da Segunda Guerra Mundial
o existencialismo reconduziu o homem à caverna, fazendo-o mergulhar nos
subterrâneos das grandes metrópoles e ali entregando-se à fuga da consciência e
da razão pelo prazer, numa atitude de desconsideração pela vida, alucinado pelo
gozo imediato.
Da aberração pura e simples a
desequilíbrio cada vez mais grave, renovando-se os painéis de paixões
exacerbadas, a juventude desgovernou-se e a filosofia da "flor e do
amor" assumiu proporções alarmantes, na atualidade, conclamando os homens
éticos e pugnadores da ciência da alma a atitudes de urgente e severa
observação, para procederem à elaboração de novos conceitos filosóficos capazes
de estancarem a onda de sexo, erotismo e degradação que de tudo e todos se
apodera. Todo o velho sistema de Diógenes, condimentado pelo superluxo e supremo
desinteresse pela vida, eclodiu nas últimas manifestações filosóficas, transformando
os alucinógenos e barbitúricos em apetecidos manjares para as fugas
espetaculares à realidade e mergulho do nada, do qual despertam mais apáticos,
amargos e inditosos.
Sem qualquer fundamento ético,
abandonando a afirmação otimista da vida, o homem moderno atravessa e vive
poderosa crise filosófica que o aparvalha ante os prognósticos deprimentes
sobre o futuro.
Os fantasmas da guerra e os
fluidos dos preconceitos de várias ordens, mantidos multissecularmente a
exsudarem miasmas venenosos, surpreendem a atual sociedade, gerando anarquia e
violência sob os estímulos de paixões desregradas, levadas à máxima
exteriorização. O homem recorda a vida tribal e procura fugir das regras
estabelecidas, por desvitalizadas, buscando criar comunidades para o prazer com
comunhão com a Natureza.
Atormentado, porém, pelo
desequilíbrio interior, infesta o ideal de liberdade com a virulência dos
instintos em descontrole, obliterando as fontes do discernimento, com que
engendra argutos programas de alucinação e morte, sem lobrigar o cobiçado aniquilamento,
o róseo fim de sonho e esquecimento...
Felicidade e Jesus - Estabelecendo, conforme o Eclesiastes,
que a verdadeira "felicidade não é deste mundo", Jesus preconizou que
o homem deve viver no mundo sem pertencer a ele, facultando-lhe o autodescobrimento
para superar o instinto e sublimá-lo com as conquistas da razão, a fim de
planar nas asas da angelitude. Não é feliz o homem em possuir ou deixar de
possuir, mas pela forma como possui ou como encara a falta de posse. O homem é
mordomo, usufrutário dos talentos de que se encontra temporariamente investido
na condição de donatário, mas dos quais prestará contas. O ter ou deixar de ter
é conseqüência natural de como usou ontem a posse e de como usará hoje os
patrimônios da vida, que sempre pertencem à própria vida, representando Nosso
Pai Excelso e Criador.
Situando no "amar ao
próximo como a si mesmo" a pedra fundamental da felicidade, o Cristo
condiciona a existência humana ao supremo esforço do labor do bem em todas as
direções e latitudes da vida, dirigido a tudo e todos, e elucida que cada um
possui o que doa. A felicidade é o bem que alguém proporciona ao seu próximo. O
eu se anula, então, para que nasça a comunidade equilibrada, harmônica e feliz.
A alegria de fazer feliz é a felicidade em forma de alegria.
Construída nas bases da renúncia
e da abnegação a felicidade não é imediata, fugaz, arrebatadora e transitória.
Caracteriza-se pela produtividade através do tempo e é mediata, vazada na
elaboração das fontes vitais da paz de todos, a começar de hoje e não terminar
nunca. Por isso não é "deste mundo".
Vivendo as dores e necessidades
do povo, Jesus padronizou a busca da felicidade no amor por ser a única fonte
inexaurível, capaz de sustentar toda aflição e vencê-la, paulatinamente. E
amando, imolou-se num ideal de suprema felicidade.
Espiritismo e Felicidade - Concisa e vigorosamente fundamentada
no Cristianismo, a Doutrina Espírita apresenta a felicidade e a desgraça como
sendo a conseqüência das atitudes que o homem assume na rota evolutiva pelo
cadinho das incessantes reencarnações.
O espírito é a soma das suas
vidas pregressas.
Quanto haja produzido
reaparece-lhe como título de paz ou promissória de resgate, propondo, o homem
mesmo, as diretrizes e as aquisições do caminho a palmilhar. Quanto hoje falta,
amanhã será completado. O excesso, hoje em desperdício, é ausência na escassez
do futuro. Todo o bem que se pode produzir é felicidade que se armazena.
A filosofia da felicidade à luz
do Espiritismo se compõe da correta atitude atual do homem em relação à vida, a
si mesmo e ao próximo, estatuindo vigorosos lances que ele mesmo percorrerá no
futuro. As dores, as ansiedades e as limitações são exercício de morigeração a
seu próprio benefício, transferindo ou aproximando o momento da libertação dos males
que o afligem.
A consciência da
responsabilidade oferece ao homem a filosofia ideal do dever e do amor.
Respeito à vida com perfeita
integração no espírito da vida - eis a rota a palmilhar.
Serviço como norma de elevação e
renúncia em expressão de paz interior.
Servindo, o homem adquire
superioridade, e, doando-se, conquista liberdade e paz.
Nem posse excessiva nem
necessidade escravizante.
Nem poder escravocata nem a
indiferença malsinante.
O amor e a caridade como
elevadas expressões do sentimento e da inteligência, conduzindo as aspirações
do espírito, que tem existência eterna, indestrutível, sobrevivendo à morte e
continuando a viver, retornando à carne e prosseguindo em escala ascensional,
na busca ininterrupta da integração no concerto sublime do Cosmo, livre de toda
dor e toda angústia da sombra e da roda das reencarnações inferiores, feliz,
enfim!
Estudo e Meditação:
"Pode o homem gozar de
completa felicidade na Terra?
Não, por isso que a vida lhe foi
dada como prova ou expiação. Dele, porém, depende a suavização de seus males e
o ser tão feliz quanto possível na Terra." (O Livro dos Espíritos, Allan
Kardec, questão 920.)
"Em tese geral pode
afirmar-se que a felicidade é uma utopia a cuja conquista as gerações se lançam
sucessivamente, sem jamais lograrem alcançá-la. Se o homem ajuizado é uma
raridade neste mundo, o homem absolutamente feliz jamais foi encontrado."
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. V, item 20.)
Fonte: Livro Estudos Espíritas, de Divaldo
Pereira Franco pelo espírito de Joanna de Ângelis.
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