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(Homenagem aos 140 anos de
O céu e o inferno)
Marcelo Henrique Pereira
O quarto livro da Codificação, O céu e o
inferno (ou “A justiça divina segundo o espiritismo”) apresenta um caráter
jusfilosófico, porque constrói uma nova teoria acerca do julgamento espiritual
dos seres humanos, descrevendo o processo, as partes, o sistema jurisdicional
e, como tema marcante, as penas e os gozos (presentes e futuros). Kardec, com
maestria, após concluir a obra, apôs, logo abaixo ao título, a seguinte
inscrição: “Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à
vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e
demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação
real da alma durante e depois da morte”. Dizemos “nova teoria” porque ela
destoa do conhecido padrão judaico-cristão de definição da postura de um
Deus-juiz, segundo as igrejas derivadas do Cristianismo, para as quais um
tribunal de juízo final distribuirá, a seu tempo, a justiça para todos os
homens, designando-lhes a completa absolvição (céu), a provisoriedade das penas
(purgatório) e a definitividade da condenação (inferno).
Do contrário, a teoria espírita molda um
sistema mais racional, em que a isonomia de tratamento e a igualdade de
oportunidades permitem que cada um dos seres da Criação possa, a seu turno,
construir sua história pessoal, em infindáveis oportunidades – reencarnação –
compreendido um mecanismo perene e constante de distribuição da justiça,
avaliando-se pensamentos, palavras e ações dos Espíritos, quando tais ocorrem –
e não mais num dado momento existencial, como o tal “juízo final”. Ao invés de
aplicar penas e recompensas aos infratores e aos homens corretos, concebeu um
instrumento auto-avaliativo com participação dos Espíritos Superiores, de modo
que a agressão ou o desrespeito a qualquer das Leis Divinas seja
automaticamente reparado, numa equação que considera mérito, responsabilidade e
vontade em cada feito.
Kardec, a propósito, indagou[1] a Falange da
Verdade para obter a precisa informação acerca do “lugar” onde estaria sediado
o “conhecimento espiritual” sobre o bem e o mal ou sobre as Leis Divinas, dela
recebendo a capital proposição de que estaria situado na consciência de cada
ser.
A obra, deste modo, é um importante tratado
sobre justiça, que ganha contornos de perfeição na administração do julgamento
das ações espirituais (humanas), a partir de um mecanismo básico, isonômico e
indistinto: a lei de ação e reação, ou de causa e efeito, à qual todos os seres
estão sujeitos, no processo evolutivo. Estruturado em duas partes (uma teórica
e a outra exemplificativa), o livro, no dizer do filósofo e professor José
Herculano Pires[2], corresponde à narração e estruturação de um verdadeiro
Tribunal Divino, passando pelas diversas fases do contexto processual. São
elas: a exposição de fatos, a motivação do libelo (descrição das infrações
legais), o depoimento das testemunhas, e a pronúncia da sentença, que ele
configura como enérgica e tocada de misericórdia.
A nova tese ganha ares de cientificidade
justamente porque embasa sua construção filosófica na acurada e metodológica
pesquisa científica – não nos moldes tradicionais, mas conforme critério
específico – apontando inúmeros depoimentos, na Segunda Parte de O céu e o
inferno que ilustram e fundamentam cientificamente o trabalho. Para os
espíritas estudiosos, assim, nada mais palpável e real do que um conjunto de
depoimentos – obtidos e reunidos mediante o Controle Universal dos Ensinos dos
Espíritos (CUEE), critério concebido pelo Codificador para validar determinadas
informações de origem mediúnica em detrimento de outras, apócrifas ou
infundadas – capazes de identificar o julgamento espiritual, seus componentes
básicos, e a distribuição da justiça através das penas (reparação de erros, via
expiações e reestruturação das ações, via provas).
Para o Espiritismo, a idéia de Justiça só
pode ser aquela que deriva da própria gestão do Universo, não por pertencer a
um Ser Supremo, que “tudo vê e tudo sabe”, no adágio popular, e “segundo Sua
vontade”, mas porque concebeu um sistema jurídico incorruptível, absoluto e
soberanamente perfeito, pois justo e bom, que se aplica a todos os atos humanos
– como, também, aos atos e fatos de outros reinos, sem exceção.
Justiça que possui como características
fundamentais: abrangência universal, imaterialidade na execução, poder total de
sanção, perfeição na administração das penas e gozos, instância única e
absoluta de apreciação judicial e eficiência na reeducação do infrator.
Relembrando, uma vez mais Herculano,
lamentamos, apenas, que esta grande obra seja desconhecida dos próprios
espíritas, de vez que a sua leitura e o seu estudo sistemático seriam
verdadeiramente propícios a todos os que realmente desejam compreender o
sentido da vida humana na Terra, apoiado no balanço da evolução moral e
espiritual da humanidade até os nossos dias. Não mais superstição e misticismo
dogmático, mas, sim, análise racional e pesquisa científica.
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[1] Quesito 621, de O livro
dos espíritos: “Onde está escrita a lei de Deus?” Resposta: “Na consciência.”
[2] PIRES, José Herculano.
Introdução. In KARDEC, Allan. O céu e o inferno. A justiça divina segundo o
espiritismo. 10. ed. São Paulo: Lake, 2002, p. IX.
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