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Para onde vai a Sociedade Espírita?

 

Vinícius Lousada

  

 “O objetivo essencial do Espiritismo é o adiantamento dos homens. Não é preciso procurar senão o que pode ajudar ao progresso moral e intelectual.” - Allan Kardec[1]

 

A sociedade espírita tem uma finalidade, um objetivo superior orientado pela proposta educativa que o Espiritismo apresenta para a humanidade terrena e que consiste na sua regeneração programada por Jesus Cristo.

Para estar de acordo com o projeto de educação moral e intelectual que os saberes espíritas exarados na Codificação apresentam, aqueles que mourejamos na casas espíritas precisamos levar em conta as exigências do nosso tempo, a complexidade da realidade social em que estamos inseridos e, o mais importante: a transformação moral que devemos empreender pela radical impregnação do conteúdo científico-filosófico-religioso do Espiritismo em nós mesmos.

O centro espírita, para cumprir a função educacional que o agora exige, não pode abrir mão da coerência com os postulados espírita-cristãos em todas as suas atividades, sob pena de desnaturar a sua proposta original de estudo, divulgação e vivência genuinamente espírita.

Às vezes, em virtude do desconhecimento do Espiritismo por uma parcela daqueles que o abraçam como alternativa religiosa, temos assistido uma enxurrada de posturas no âmbito de nossas instituições que descaracterizam a marca espírita das mesmas, onde cada um faz o que lhe apraz, estabelecendo práticas e orientações descomprometidas com o que deva ser uma sociedade espírita.

É hora de aprendermos mais e melhor o Espiritismo. Carecemos de nos debruçarmos na leitura reflexiva, no estudo dialógico e espistemologicamente curioso do legado kardequiano para que não percamos o rumo, passando a distanciarmo-nos da valiosa contribuição da casa espírita como agência educativa engajada na construção de um mundo melhor, a partir da formação de homens e mulheres renovados.

Joanna de Ângelis, mediante a mediunidade notável do educador Divaldo Franco[2], recomendou aos confrades da Mansão do Caminho uma tríade – representada nas vértices de um triângulo eqüilátero – para os labores daquela veneranda instituição, que me parece muito oportuna de ser aproveitada de maneira mais ampla por nosso movimento espírita.

A primeira diretriz apontada pela nobre mentora espiritual diz respeito a espiritização. Consiste na ação de tornar aquele que freqüenta a casa em espírita, ou seja, fazer com que através das atividades doutrinárias, dos estudos, das leituras e do enraizamento nas diversas tarefas da sociedade espírita, o sujeito se identifique com Espiritismo de tal sorte que deixe de ser alguém que recolhe benefícios do tempo que passa ali para ser um militante.

E essa militância tem de ser “(...) sem fundamentalismos, sem verborragias, sem pieguismos, mas eivada de boa vontade, de ação, de práxis renovadora, de não-violência ativa, de conscientização, de autotransformação, de luta constante e equilibrada contra as próprias imperfeições.”[3]

Ela começa quando o sujeito abre os canais do raciocínio, da compreensão e do coração à mensagem espírita, aderindo aos seus princípios pela convicção madura que desenvolve nas suas leituras, estudos e vivências em torno das obras de Allan Kardec e na adesão comportamental aos seus princípios éticos, revelada não pelo discurso, mas em sua práxis diária, pois, como já nos advertiu o Codificador: reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral...

Tornando-se espírita, cabe aquele que queira contribuir com a causa do Cristo qualificar-se para tal mister, evitando a produção de “desserviços” que possam criar embaraços ao nobre objetivo da Religião dos Espíritos de libertar as criaturas da influência do materialismo, apontando sua verdadeira origem e destinação espiritual, fomentando uma revolução paradigmática, cuja aceitação real é capaz de edificar as bases da Era Nova nos corações humanos, instaurando um novo período civilizatório na Terra.

A segunda diretriz, então, assinala a necessidade da qualificação. Seu início se dá com o estudo doutrinário, individualmente e nos grupos destinados para esse fim. Como somo seres inacabados, jornadeiros de um vasto processo evolutivo cuja finalidade é a perfeição relativa que nos cabe atingir, a qualificação deve ser entendida de forma continuada. Ninguém fica “pronto” para essa ou aquela tarefa, sempre podemos aprender algo que nos leve a pensar de modo mais refinado sobre a lide que desempenhamos, levando-nos a agir com consciência espírita, cada vez mais coerentes com os nossos referenciais que são Jesus e Kardec.

Essa qualificação resulta da correta compreensão do que fazemos na sociedade espírita, da razão ou justificativa de nossa atividade, de como fazer e de quem pretendemos atender. Para tanto, a simples boa-vontade é insuficiente. É fundamental uma boa-vontade esclarecida, estribada nos livros clássicos do Espiritismo, na disciplina e recolhimento dos estudos, nos cursos, treinamentos, seminários, etc.

A terceira diretriz lecionada por Joanna de Ângelis é a humanização. Sendo a finalidade maior do Espiritismo a educação das criaturas forjando-lhes o caráter cristão, mediante a introjeção de seus saberes e a promoção de novas atitudes, a humanização se refere a essa melhora intelecto-moral cujo paradigma está bem caracterizado em “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

            Para facilitar a nossa aprendizagem, Allan Kardec[4] enumerou algumas qualidades do homem de bem, considerando-o como aquele que vive a lei de justiça, amor e caridade na sua pureza. Necessitamos de nos esforçar para atingir essa meta resultante do Espiritismo bem compreendido e vivido. 

O processo de humanização eclode no ser que percebe a sua vocação para o amor e passa a submeter as suas ações, palavras e pensamentos ao controle da caridade, visando semear a paz à sua volta, colaborando de alguma forma com o projeto do Criador para a felicidade dos Seus filhos, na medida em que experimenta em profundidade a sua expressão religiosa.

Assim, apoiando-nos na trilogia “espiritizar, qualificar e humanizar” repensemos os rumos que estamos imprimindo às nossas sociedades espíritas, conscientizando-nos da urgência de valorizarmos um pouco mais Kardec e de sintonizarmos os nossos quefazeres com a Codificação, vindo a contribuir efetivamente com o movimento espírita.



[1] O Espiritismo em sua expressão mais simples, item 35.

[2] FRANCO, Divaldo. Novos rumos para o centro espírita. Leal: Salvador, Bahia, 1999.

[3] MACEDO, Cristian. Cântico de Liberdade. Sociedade Espírita Esperança: Gravataí/RS, 2003, p. 27.

[4] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 3.

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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