|
Vinícius Lousada
“O objetivo essencial do Espiritismo é o adiantamento dos homens. Não é
preciso procurar senão o que pode ajudar ao progresso moral e intelectual.” - Allan Kardec
A sociedade espírita tem uma
finalidade, um objetivo superior orientado pela proposta educativa que o
Espiritismo apresenta para a humanidade terrena e que consiste na sua
regeneração programada por Jesus Cristo.
Para estar de acordo com o
projeto de educação moral e intelectual que os saberes espíritas exarados na
Codificação apresentam, aqueles que mourejamos na casas espíritas precisamos
levar em conta as exigências do nosso tempo, a complexidade da realidade social
em que estamos inseridos e, o mais importante: a transformação moral que
devemos empreender pela radical impregnação do conteúdo
científico-filosófico-religioso do Espiritismo em nós mesmos.
O centro espírita, para
cumprir a função educacional que o agora exige, não pode abrir mão da coerência
com os postulados espírita-cristãos em todas as suas atividades, sob pena de
desnaturar a sua proposta original de estudo, divulgação e vivência
genuinamente espírita.
Às vezes, em virtude do
desconhecimento do Espiritismo por uma parcela daqueles que o abraçam como
alternativa religiosa, temos assistido uma enxurrada de posturas no âmbito de
nossas instituições que descaracterizam a marca espírita das mesmas, onde cada
um faz o que lhe apraz, estabelecendo práticas e orientações descomprometidas
com o que deva ser uma sociedade espírita.
É hora de aprendermos mais
e melhor o Espiritismo. Carecemos de nos debruçarmos na leitura reflexiva, no
estudo dialógico e espistemologicamente curioso do legado kardequiano para que
não percamos o rumo, passando a distanciarmo-nos da valiosa contribuição da
casa espírita como agência educativa engajada na construção de um mundo melhor,
a partir da formação de homens e mulheres renovados.
Joanna de Ângelis, mediante
a mediunidade notável do educador Divaldo Franco,
recomendou aos confrades da Mansão do Caminho uma tríade – representada nas
vértices de um triângulo eqüilátero – para os labores daquela veneranda
instituição, que me parece muito oportuna de ser aproveitada de maneira mais
ampla por nosso movimento espírita.
A primeira diretriz apontada
pela nobre mentora espiritual diz respeito a espiritização. Consiste na ação de tornar aquele que freqüenta a
casa em espírita, ou seja, fazer com que através das atividades doutrinárias,
dos estudos, das leituras e do enraizamento nas diversas tarefas da sociedade
espírita, o sujeito se identifique com Espiritismo de tal sorte que deixe de
ser alguém que recolhe benefícios do tempo que passa ali para ser um militante.
E essa militância tem de
ser “(...) sem fundamentalismos, sem
verborragias, sem pieguismos, mas eivada de boa vontade, de ação, de práxis
renovadora, de não-violência ativa, de conscientização, de autotransformação,
de luta constante e equilibrada contra as próprias imperfeições.”
Ela começa quando o sujeito
abre os canais do raciocínio, da compreensão e do coração à mensagem espírita,
aderindo aos seus princípios pela convicção madura que desenvolve nas suas
leituras, estudos e vivências em torno das obras de Allan Kardec e na adesão
comportamental aos seus princípios éticos, revelada não pelo discurso, mas em
sua práxis diária, pois, como já nos advertiu o Codificador: reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua
transformação moral...
Tornando-se espírita, cabe
aquele que queira contribuir com a causa do Cristo qualificar-se para tal mister,
evitando a produção de “desserviços” que possam criar embaraços ao nobre
objetivo da Religião dos Espíritos de libertar as criaturas da influência do
materialismo, apontando sua verdadeira origem e destinação espiritual,
fomentando uma revolução paradigmática, cuja aceitação real é capaz de edificar
as bases da Era Nova nos corações humanos, instaurando um novo período
civilizatório na Terra.
A segunda diretriz, então,
assinala a necessidade da qualificação.
Seu início se dá com o estudo doutrinário, individualmente e nos grupos
destinados para esse fim. Como somo seres inacabados, jornadeiros de um vasto
processo evolutivo cuja finalidade é a perfeição relativa que nos cabe atingir,
a qualificação deve ser entendida de forma continuada. Ninguém fica “pronto”
para essa ou aquela tarefa, sempre podemos aprender algo que nos leve a pensar
de modo mais refinado sobre a lide que desempenhamos, levando-nos a agir com
consciência espírita, cada vez mais coerentes com os nossos referenciais que
são Jesus e Kardec.
Essa qualificação resulta
da correta compreensão do que fazemos na sociedade espírita, da razão ou
justificativa de nossa atividade, de como fazer e de quem pretendemos atender.
Para tanto, a simples boa-vontade é insuficiente. É fundamental uma boa-vontade esclarecida, estribada nos
livros clássicos do Espiritismo, na disciplina e recolhimento dos estudos, nos
cursos, treinamentos, seminários, etc.
A terceira diretriz
lecionada por Joanna de Ângelis é a humanização.
Sendo a finalidade maior do Espiritismo a educação das criaturas forjando-lhes
o caráter cristão, mediante a introjeção de seus saberes e a promoção de novas
atitudes, a humanização se refere a essa melhora intelecto-moral cujo paradigma
está bem caracterizado em “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
Para facilitar a nossa aprendizagem, Allan Kardec
enumerou algumas qualidades do homem de bem, considerando-o como aquele que
vive a lei de justiça, amor e caridade na sua pureza. Necessitamos de nos
esforçar para atingir essa meta resultante do Espiritismo bem compreendido e
vivido.
O processo de humanização
eclode no ser que percebe a sua vocação para o amor e passa a submeter as suas
ações, palavras e pensamentos ao controle da caridade, visando semear a paz à
sua volta, colaborando de alguma forma com o projeto do Criador para a
felicidade dos Seus filhos, na medida em que experimenta em profundidade a sua
expressão religiosa.
Assim, apoiando-nos na
trilogia “espiritizar, qualificar e humanizar” repensemos os rumos que estamos
imprimindo às nossas sociedades espíritas, conscientizando-nos da urgência de
valorizarmos um pouco mais Kardec e de sintonizarmos os nossos quefazeres com a
Codificação, vindo a contribuir efetivamente com o movimento espírita.
O
Espiritismo em sua expressão mais simples, item 35.
|