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Vinícius Lousada
“Um dia, um Homem
Sublime abandonou, por algum tempo, um jardim de estrelas para nascer na Terra
e depositar nas almas as gemas preciosas da esperança...”[1]
Alguns jovens queriam
brincar. Estavam ociosos e precisavam romper com o tédio; dessa forma, voltam
seus olhos a um mendigo estirado na entrada de uma casa fechada que estava à
venda. Eles não queriam ficar “presos” nos prédios que moram e deliberaram por
se divertir importunando um mendigo.
Sem se deterem, esses jovens acenderam “bombinhas” sobre
o morador de rua, ao mesmo tempo em
que gritavam, parecendo que retornavam à barbárie. Entre as pessoas que passavam, algumas “não” viam nada, eram
indiferentes e raramente alguém tomava uma atitude, exigindo daqueles moços o
mínimo de respeito para com aquela criatura que transformaram em alvo de sua
ignóbil brincadeira.
Essa
é uma cena muito comum e, como outros quadros cotidianos, é capaz até de
balançar-nos, do ponto de vista psicológico, levando-nos à uma certa desesperança...
Qualquer
pessoa sensível se repugnaria se viesse a assistir alguém brincando de ferir ou
assustar um mendigo na rua.
Porém,
a nossa reação pode variar desde o eximir-se da necessidade de intervir,
pensando conosco mesmo: “não tenho nada a ver com isso”, até a uma certa
indignação por não podermos admitir em pleno século XXI, com o “boom” científico
e tecnológico logrado pela humanidade, que alguém ainda possa sentir-se no
“direito” de considerar seu próximo “menos gente”, ao ponto de feri-lo ou, até
mesmo, matá-lo.
Lembramo-nos
de Paulo Freire, esse inesquecível educador, que um mês antes de sua
desencarnação (02/05/1997), escreveu uma de suas cartas pedagógicas sobre o episódio do índio pataxó Galdino de
Jesus, que morreu incendiado pela ação inconseqüente de jovens de classe média,
que lhe ataram fogo porque pensaram tratar-se apenas de um “mendigo”, com o
qual queriam se “divertir”, em Brasília - DF. Nesta carta, ele denuncia uma “ética” vigente que desvaloriza os
mais fracos, a vida humana, animal e vegetal, onde as pessoas valem o que ganham,
chegando o andarilho da esperança a
desabafar abismado: “Que coisa estranha,
brincar de matar gente.”[1]
Esses
fenômenos, de acordo com o esclarecimento
espírita, se dão na sociedade atual porque nós carregamos paixões e vícios,
dos quais “(...)as raízes de umas e
outros se acham no instinto de conservação, (...)” [2].
O que equivale a dizer que, nossas atitudes equivocadas tem a sua gênese no
“mal” que cultivamos dentro de nós
quando abusamos desse instinto, pelo uso de nosso livre-arbítrio, entregando-nos
à nossa própria animalidade, resultante de experiências acumuladas pelo
Espírito em existências primitivas e transatas.
Mas, é justamente por causa da compreensão que a Doutrina
Espírita nos faculta que, diante de
tantos desencontros nas relações humanas, como nos episódios acima citados, que
nós não nos dispomos a perder a fé no gênero humano e nem a esperança de que “o mundo tenha jeito”.
Pois o Espiritismo faz entender, com o princípio da reencarnação, que as coisas mudarão inexoravelmente, em
conformidade com as transformações que se derem em nosso mundo íntimo, na
medida em que aprendermos a conviver juntos, ao longo das vidas sucessivas.
E
essa aprendizagem – de conviver junto
– se consolida a cada reencarnação nova, onde vamos desenvolvendo um certo
sentimento de amor pelo próximo, nos mais diversos contextos, com as mais
variadas pessoas e, também, com aqueles com os quais nos reencontramos em
virtude de nossas necessidades evolutivas.
Ou
seja, com base na idéia de que somos Espíritos imortais e com a proposta da pluralidade das existências,
entendemo-nos como um projeto que se
“refaz” na própria experiência existencial, ficando a esperança como um elemento intrínseco ao nosso existir, já que
temos a possibilidade de “dar certo”, de triunfar espiritualmente, apesar dos
transitórios desacertos que venhamos cometer. E, desta forma, os quadros da
vida podem até se mostrar acinzentados, só que jamais ignoraremos a esperança, pois ela está presente na
possibilidade que a reencarnação
descortina, do algoz vir a ser o
irmão de sua vítima, restituindo-lhe
o que dela um dia usurpou, podendo ambos se reconciliarem.
Vemos
a esperança no sorriso dos pequeninos
quando ouvem atentamente as histórias que lhes contamos, a fim de lhes
enriquecer o caráter ou quando as crianças brincam despreocupadas com o mundo
conturbado dos adultos e soltam sua imaginação.
A esperança brota das lágrimas da mãe
aflita que recebe o pão de mãos da caridade que o oferece em nome de Jesus,
saciando-lhe a sua fome e a dos seus. Ela bate no peito do encarcerado quando
calcula os dias para retornar à liberdade e projeta a sua regeneração mediante
o trabalho justo ao qual se afeiçoa; como também, no abraço que o dependente
químico recebe dos que o amam, no instantes de dúvida e solidão.
A esperança pulula no trabalho digno, nas
obras educativas erguidas para atender as crianças e jovens pobres, ou na fala
do otimista aos ouvidos dos que estão quase desistindo... Ela desponta na alma
das criaturas que fazem de sua religiosidade uma oportunidade ímpar de
encontrar Jesus no coração dos filhos
do calvário, dos sofredores de toda a ordem, estendendo a
solidariedade, ao ponto de emprestar-lhes o ombro para que as mágoas das
experiências menos sucedidas não lhes esmaguem os sentimentos.
Ela
aparece na prece dos excluídos que laboram pela sua humanização e por uma sociedade planetária mais justa, cuja tônica seja o amor sem peias.
A esperança se espraia na alegria da
pessoa que vive com AIDS, quando descobre que a vida jamais termina com a
morte, mas que somente se modifica de plano vibratório. Essa virtude é amiga do
paladino do bem, que através dela
aprendeu a esperar a colheita de um
mundo melhor porque semeia a boa semente servindo sempre.
O
Espiritismo, reconfigurando a mensagem de Jesus Cristo às conquistas do
pensamento humano na atualidade, é uma voz
de esperança às criaturas na Terra – nesses dias de guerras, conflitos
e contradições sociais onde a ausência de uma ética universal faz sacudir
os pilares de uma vida democrática – convidando-nos a jamais desistirmos dos
nobres ideais ou da possibilidade de sermos felizes amando, porque nos ensina a
esperançosa certeza de que “(...) Deus a
ninguém deserda.”
Revista Espírita, fevereiro de 1862.
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