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A médium DÉSIRÉE GODU e as cartas do Dr. MOHRÉRY
Pajelança e lambança no diagnóstico e tratamento das doenças
mentais
Dr. Iso Jorge Teixeira
isojorge@globo.com

Jesus expulsa um demônio
Ilustração
de Julius Schnoor von Carolsfeld, originalmente
desenhado em Das Buch der Bücher in Bilden
++++++++++++++++++++++++

Ilustração
de Gustav Doré
Os Espíritos ajudam o médium reforçando
seu magnetismo, para o Bem ou para o Mal. Dize-me com quem andas que te direi
quem és, diz a sabedoria popular (Iso Jorge Teixeira) +++++++++++++++++++++
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"Curai
os enfermos, expulsai os maus Espíritos, dai de graça o que de graça
recebestes."
(Mateus, 10,8 ; Lucas 9,2 ; 10,9)
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No dia
04 de julho/2005 escreve-nos um confrade:
“Dr. Iso Jorge. Tomei contato com seus escritos
através do site Panorama Espírita, mais recentemente no site Terra
Espiritual.
Não posso negar a similitude de
pensamento doutrinário e o apreço pela responsabilidade como escreve, muitas
vezes - tenho notado - confundindo-o como 'um radical'. O propósito desta é o
tema desenvolvido no sub-item 7 Médiuns Curadores, Cap. XIV, Segunda Parte, do Livro dos
Médiuns. Kardec,
ali declina que "...um de
nossos amigos, médico, se propõe a tratá-lo em obra especial sobre a medicina
intuitiva."
Gostaria de saber - até a presente data nenhuma pista
tive de que tal obra fora escrita ou de quem era o indigitado médico amigo de
Kardec -, se o Sr. tem notícias deste escrito e/ou quem era o médico. Se
não existir tal escrito, se poderia desenvolver algo respeito e/ou fazer uma
indicação de leitura a respeito.
Um abraço
fraternal”. Alexandre Giordani – Santos – SP
Médico
referido por KARDEC em “O Livro dos Médiuns”
A nossa resposta preliminar ao Sr. leitor foi a seguinte:
“Prezado confrade
ALEXANDRE GIORDANI. Agradeço a fidelidade aos nossos textos, embora não
queiramos ser confundidos com os "radicais", pois sou radicalmente
contra o radicalismo, he he he...
Bem,
o texto contido em O LIVRO DOS MÉDIUNS, sobre MEDIUNIDADE CURADORA, de fato
contém essa referência a um médico, mas KARDEC não explicita claramente quem
seria ele. Creio que o médico referido seria o Dr. MORHÉRY... Ele escreveu
algumas cartas a KARDEC em 1860 sobre a "médium de cura", Srta. DÉSIRÉE
GODU, e, numa delas, diz:
"Aproveito a ocasião para vos remeter minha tese inaugural. Se
quiserdes tomar o trabalho de a ler, compreendereis facilmente quando eu estava
disposto a admitir o Espiritismo. Esta tese foi defendida quando a Medicina
havia caído no mais profundo materialismo. (...)".(REVISTA ESPÍRITA - jornal de estudos
psicológicos, abril/1860, trad. JÚLIO ABREU FILHO, EDICEL, pág. 119).
E
no mesmo ano, na Sessão Geral da Sociedade de Paris, na Ata de 27 de abril
consta: "1- Carta do dr. Morhéry, com
novos estudos sobre as curas obtidas com o concurso da senhorita Godu, por meio
daquilo que se pode chamar A MEDICINA INTUITIVA (Publicada a seguir)." (op.
cit., pág. 141).
Portanto,
Sr. GIORDANI, parece-me ser este o médico que KARDEC faz referência - o Dr.
MORHÉRY. Não sei se o tal médico publicou tal obra, não tenho conhecimento
dela; não obstante, as referências sobre a médium DÉSIRÉE GODU foram
rareando-se na REVUE SPIRITE, até que KARDEC perdeu aquele entusiasmo
inicial sobre a médium...
Sem
dúvida desenvolverei o assunto num artigo que o Sr. me propõe, quanto à
publicação deverá demorar um pouco, pois temos recebido muitas questões e
estamos obedecendo à prioridade de datas, quando possível.
Um
grande abraço e muita PAZ!”
Em
seguida, o Sr. ALEXANDRE voltou a nos escrever, dizendo:
“Dr.
Iso. Obrigado pela atenção. Aguardarei a publicação do artigo sobre o
assunto. Também seguirei a orientação (implícita) de adquirir a coleção da
Revista Espírita e estudá-la.
De
minha parte dispenso o Sr. Como diz um amigo, sou um Espírito ainda muito
jovem, portanto...(rs). (...)
Abraço e muita PAZ!”
Alexandre Giordani.
MEDIUNIDADE CURADORA
Bem,
vamos cumprir a promessa ao nosso leitor, pois o tema além de interessante é de
grande importância...
O texto referido pelo leitor de O Livro dos Médiuns (OLM) é o
seguinte:
“7. Médiuns
curadores
175.
Unicamente para não deixar de mencioná-la, falaremos aqui desta espécie de
médiuns, porquanto o assunto exigiria desenvolvimento excessivo para os limites
em que precisamos ater-nos. Sabemos ao demais, que
um de nossos amigos, médico, se propõe a tratá-lo em obra especial sobre a
Medicina intuitiva. Diremos apenas que
este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas
pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o
concurso de qualquer medicação. (...)” (op. cit., Cap. XIV, sub-título 7,
item 175, FEB, 30 ed., 1972, p. 208).
Dólmen de
Pierre-Plates em
MORBIHAN, onde morava a Srta. DÉSIRÉE GODU
A médium DÉSIRÉE GODU e as cartas do Dr. MOHRÉRY
Enfim,
a nossa resposta ao leitor GIORDANI remete-nos para a REVISTA ESPÍRITA -
jornal de estudos psicológicos, de 1860... Vamos a ela: inicialmente, no
artigo “MÉDIUNS ESPECIAIS”, após dissertar genericamente sobre a natureza do
Espírito comunicante e da aptidão do médium e sobre a importância do “devotamento
e desinteresse”, que deve pautar a conduta de um bom médium, KARDEC faz uma
ligeira referência à Srta. DÉSIRÉE GODU, no fim do artigo, assim:
“Seria
o caso de falarmos aqui de um desses médiuns privilegiados, que os Espíritos
curadores parecem haver tomado sob seu patrocínio direto. A senhorita Désirée Godu, residente em Hennebon, no Morbihan, sob todos os aspectos, goza de uma faculdade verdadeiramente
excepcional, que utiliza com a mais piedosa abnegação. A respeito já dissemos
algumas palavras num relatório das sessões da Sociedade, mas a importância do
assunto merece artigo especial, que teremos a satisfação de lhe consagrar em
nosso próximo número.” (REVISTA
ESPÍRITA - jornal de estudos psicológicos, fevereiro/1860, EDICEL, trad, JÚLIO
ABREU FILHO, p. 47).
Assim,
o “artigo especial’ sobre esta médium foi publicado logo no mês seguinte, sob o
título “UM MÉDIUM CURADOR – SENHORITA DÉSIRÉE GODU, DE HENNEBON (MORBIHAN)” e
KARDEC anota, antes de passar a palavra a uma “testemunha ocular” dos fatos, o
Sr. PIERRE, professor em LORIENT, que lhe transmite detalhes em resposta às
perguntas que KARDEC lhe fizera; eis as palavras introdutórias de KARDEC sobre
a jovem médium:
“(...)
Há cerca de oito anos, passou ela sucessivamente por todas as fases da
mediunidade; a princípio, poderoso médium de efeitos físicos, tornou-se,
alternativamente, médium vidente, auditivo, falante, escrevente, e finalmente
todas as suas faculdades se concentram na cura de doentes, que parece ser sua missão que desempenha com um
devotamento sem limites.” (op. cit.,
março/1860, p. 78).
Depois de
transcrever o relato, detalhado, do Sr. PIERRE, prof. em LORIENT, sobre a Srta.
GODU, KARDEC enfatiza que ao reproduzir os elogios à médium, tem a esperança de
que eles “não alterarão a sua modéstia” e passa, então, a discorrer sobre o
perigo do “orgulho” dos médiuns. Vamos citar aqui o trecho, muito instrutivo:
“Eis porque é tão difícil erradicá-lo.
Desde que um médium possui uma faculdade, por menos notável que seja, é
procurado, elogiado, adulado. Isto lhe é terrível pedra de toque, pois acaba
julgando-se indispensável, se não for fundamentalmente simples e modesto. (...)
Custa-lhe reconhecer que foi iludido e, muitas vezes, escreve ou ouve sua
própria condenação, sua própria censura, sem acreditar que a ele seja
dirigida.. (...)”
E KARDEC prossegue no seu importante alerta:
“(...) Ora, é precisamente essa cegueira de que é
presa: os espíritos enganadores disso se aproveitam para o fascinar, o dominar,
o subjugar cada vez mais, a ponto de lhe fazerem tomar por verdades as coisas mais falsas.”
(op.
cit., p. 80).
Tais palavras de KARDEC deveriam ser lidas e
meditadas por todos os médiuns, inclusive pelos médiuns com BOA INTENÇÃO, pois
dissera ele, anteriormente, em relação aos Espíritos e médiuns:
“(...) As melhores intenções não garantem contra seus
embustes; e é precisamente contra os bons quer ele dirige suas baterias, (...)”
(op.
cit., p. 80).
O artigo sobre a Srta. DÉSIRÉE GODU é concluído por
KARDEC demonstrando a sua confiança no seu caráter e com a esperança de que “(...)
jamais comprometerá, como tantos outros, a missão que recebeu.” (op. cit., p. 81).
No mês seguinte (abril/1860) a REVUE SPIRITE publica
“CARTAS DO SR. MOHRÉRY SOBRE A SRTA. DÉSIRÉE GODU”...
O
Dr. MOHÉRY era um membro correspondente da Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas (SPEE) e enviou duas cartas à Sociedade, estando em Plessis-Bloudet,
perto de Loudeác (Côtes-du-Nord).
Informa
o Dr. MOHÉRY que a Srta. DÉSIRÉE GODU o
procurou como médium curadora, pedindo sua ajuda como “Doutor em Medicina” para
“provar a eficácia de sua medicação”.
Ele supunha que sua procura fosse em função de sua “prática médica sem
diploma”, porém, ela disse que “o Espírito que a dirige havia seis anos havia aconselhado
a medida, como necessária, do ponto de vista da Doutrina Espírita.” (op. cit., p.
117). A seguir, o Dr. MOHÉRY recebeu-a
em sua residência, passando a morar com ele, tendo sido levada pela mãe...
O
Dr. MOHÉRY informa que havia, então, 75 casos de observação de várias doenças
tratadas pela moça (a sua mediunidade iniciou-se aos de 17 anos e, então,
estava com 25 anos), onde se incluíam: “amauroses, oftalmias graves, paralisias
antigas e rebeldes a todo tratamento, escrofulosos, dartrosos, cataratas e
cânceres no último período.” (op. cit., p. 118).
A
Srta. GODU utilizava ungüentos, plantas e outros recursos similares para tratar
os doentes. Foi nesta carta, que o Dr. MOHÉRY fez menção à sua tese inaugural
de “Medicina intuitiva”, que KARDEC consignou na ata da SPEE, em 27 de
abril/1860 (op. cit., p. 141), como vimos.
Doenças que a Srta. Godu curou – A Medicina intuitiva
No mês seguinte
(maio/1860), ALLAN KARDEC volta a publicar correspondência do Dr. MOHÉRY, na
qual este cita várias observações de
casos, com alguns detalhes de “curas”, num total de 12(doze)
observações, que resumiremos aqui:
1.ª)- Diagnóstico: febre terçã há 6 meses;
2.ª)-
Diagnóstico: inflamação e engurgitamento crônico das amídalas; cefaléia
violenta, dores na coluna vertebral, abatimento geral e apetite nulo. O mal
começou por arrepios e surdez há 2 anos;
3.ª)-
Diagnóstico: inflamação sub-aponevrótica no dorso e na palma da mão. Cura
obtida em menos de 15 dias;
4.ª)-
Diagnóstico: tumor branco cicatrizado no joelho esquerdo; abscesso fistuloso na
parte posterior da coxa, acima da articulação. O mal existia há 17 anos;
5.ª)- Diagnóstico: panarício muito intenso há dias.
Radicalmente curada em 15 dias, apenas com ungüentos da Srta. GODU;
6.ª)-
Diagnóstico: oftalmia aguda, conseqüente a uma erisipela intensa. Injeção
inflamatória da conjuntiva e larga belida se manifestando na córnea
transparente do olho esquerdo; estado inflamatório geral. Era de temer-se que o olho se perdesse em 10 dias;
7.ª)-
Diagnóstico: reumatismo antigo na mão direita, com debilidade completa e
paralisia das falanges; impossibilidade de trabalhar. Causa desconhecida.
Curada em 20 dias de tratamento;
8.ª)- Diagnóstico: cefaléia violenta, insônia,
freqüentes hemorragias pelas fossas nasais, desvio para dentro do joelho
direito e para fora da mesma perna. O doente estava realmente “estropiado”;
9.ª)-
Diagnóstico: inflamação da pleura e do diafragma, aumento e inflamação das
amídalas e da campainha, palpitações, tonturas; sufocação. Não pode dar dois
passos. Tratamento: infusões de plantas diversas. Cura radical em 8 dias;
10.ª)-
Diagnóstico: surdez desde os 18 anos, em seguida a uma febre tifóide.
Tratamento: injeções e uso de infusões de plantas diversas, preparadas pela
Srta. GODU. Hoje, o doente ouve o movimento de seu relógio; o barulho o
incomoda e atordoa, dada a sensibilidade do ouvido;
11.ª)-
Diagnóstico: reumatismo, com endurecimento das articulações, particularmente
nos joelhos; a criança só anda com muletas. Cura em menos de 20 dias;
12.ª)- Diagnóstico: saliência e inchação permanente
da língua, que avança de 5 a 6 centímetros além dos lábios e parece
estrangulada; a língua é rugosa, os dentes inferiores são estragados pela
língua, para comer a criança é obrigada a pôr a língua de lado com a mão e enfiar
o alimento com a outra mão. Quadro iniciado com 2 anos e meio de idade.
KARDEC
ressalta as observações, acima, do Dr. MOHÉRY, que era, obviamente, um
entusiasta da Medicina natural... KARDEC promete, no próximo artigo, um estudo
sobre essa “faculdade intuitiva” (op. cit., p. 151), que não se concretizou,
salvo engano nosso. Além disso, ele informa ter “preciosas informações” de práticas de “Medicina intuitiva pelos
naturais”, dadas por um homem muito esclarecido, natural do Indostão e de
origem indiana (op. cit., p. 151).
Enfim,
a Srta. DÉSIRÉE GODU possuía mediunidade intituiva excepcional na qual ela
própria fazia o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento, o qual era à base de
laxantes e substâncias naturais que ela mesma preparava. Não só conseguia
“curas” na maioria dos casos, acima citados, de inflamações; como também de
“úlceras, desvios ósseos, chagas de toda espécie”, que o sistema parecia dar
melhores resultados (op. cit., p. 148).
No mês seguinte
(junho/1860) foi publicado artigo intitulado “MEDICINA INTUITIVA” de autoria do
Dr. MOHÉRY, em carta dirigida a ALLAN KARDEC, onde expõe o “modo de tratar” da
Srta. GODU... Aqui, não há nenhum comentário de KARDEC (op. cit., p.
190-191)...
Foi publicado o
Boletim da SPEE de 27 de julho/1860 na Revue Spirite de setembro/1860 referindo
nova carta do Dr. MOHÉRY, com “novos detalhes sobre a Srta. GODU” e a
continuação das observações sobre as curas obtidas, sem maiores detalhes (op.
cit., p. 271 e 272). E, finalmente, o Boletim da SPEE de 20 de outubro/1860, é
publicado na Revue Spirite de dezembro / 1860 com a seguinte notícia, curta:
“4.º)- Carta do Dr. MOHÉRY relatando diversos fatos surgidos em sua presença,
com a Srta. Désirée Godu e que coincide com a chegada de uma carta do Sr. Allan
Kardec.” (op. cit., p. 381) e, nos estudos da SPEE foi feita a “evocação do
filho do Sr. MOHÉRY, que diz ter participado das manifestações ocorridas em
casa de seu pai.” (op. cit.,
p. 381). Sem nenhum detalhe a mais…
A partir de
então, nada mais foi publicado sobre a Srta. DÉSIRÉE GODU, nem sobre o Dr.
MOHÉRY, salvo engano nosso... Por que esse silêncio em relação à médium GODU e
ao Dr. MOHÉRY? Não o sabemos, no entanto, KARDEC voltou a falar sobre
MEDIUNIDADE CURADORA na Revue Spirite, nos anos de 1864 a 1869, isto é, até
desencarnar... Temos, então muitos subsídios para o conceito de MEDIUNIDADE
CURADORA, além de diferenças entre médium curador e receitista e entre
magnetização e mediunidade curadora e é disso que trataremos a seguir...
Que seria
“Mediunidade Curadora” propriamente dita?
Em O Livro dos Médiuns (OLM) ficam
claras essas diferenças... Assim, vejamos a conceituação da MEDIUNIDADE DE
CURA:
“(...) Diremos
apenas que este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que
possuem, certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um
gesto, sem o concurso de qualquer
medicação.” – grifo nosso (OLM, Cap. XIV, sub-título 7,
item 175).
Portanto, segundo esta caracterização, codificada, a
Srta. GODU não deveria ser considerada “médium curadora”, rigorosamente, pois
ela utilizava, e muito, medicação natural.
Podemos caracterizá-la como médium que
obtém prescrições médicas por meio de Espíritos, ou seja, médium
“receitista”... Com relação a tal
diferença, disse KARDEC na Revue Spirite de novembro/1866:
“Dissemos, e
nunca seria demais repetir, que há uma diferença radical entre os médiuns
curadores e os que obtêm prescrições médicas de parte dos Espíritos. Estes em
nada diferem dos médiuns escreventes ordinários, a não ser pela especialidade
das comunicações. Os primeiros curam só pela ação fluídica, em mais ou menos
tempo, às vezes instantaneamente, sem
o emprego de qualquer remédio. O poder curativo está todo
inteiro no fluido depurado a que servem de condutores.” (op. cit., 1866, p. 348).
Assim, a
mediunidade curadora, propriamente dita é MUITO RARA, seria semelhante àquela
de JESUS, o CRISTO, embora este não tenha sido propriamente médium, pois este
não precisava da assistência de Espíritos Superiores, ele mesmo o era (cf.
último parágrafo, item 2, Cap. XV, do livro “A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo”,
FEB, 25 ed., 1982, p. 311), porque ao médium
de cura, propriamente dito, é essencial a atuação dos Espíritos
Superiores...
Diferença e correlação entre
“Mediunidade Curadora” e Magnetismo
Quanto à
diferença entre mediunidade curadora e
magnetismo, ou melhor, quanto à concorrência entre
ambos, são esclarecedoras as questões 1.ª
e 2.ª do item 176 de O Livro dos
Médiuns (OLM):
1.ª -
Pode considerar-se as pessoas dotadas de força magnética como formando
uma variedade de médiuns?
<< Não há que duvidar>>.
2.ª
- Entretanto, o médium é um
intermediário entre o Espírito e o homem; ora, o magnetizador haurindo em si
mesmo a força de que se utiliza, não parece que seja intermediário de nenhuma
potência estranha.
<< É um erro; a força magnética reside, sem
dúvida, no homem, mas é aumentada pela ação dos Espíritos que ele chama em seu
auxílio. Se magnetizas com o propósito de curar, por exemplo, e invocas um bom
Espírito que se interessa por ti e pelo teu doente, ele aumenta a tua força e a
tua vontade, dirige o teu fluido e lhe dá as qualidades necessárias>>.
Portanto, aí
está, clara e cristalina a diferença, teórica, entre mediunidade de cura e magnetismo: este é um dom organísmico
sem a participação de um Espírito curador; na mediunidade curadora o
Espírito curador aumenta a força do magnetismo existente no médium, inclusive
naqueles que não acreditam em Espíritos (cf. resposta à questão 3.ª, item 176,
de OLM), aqui funcionaria o dito da sabedoria popular: Dize-me com quem andas que te direi quem és...
Na realidade, na prática, é extremamente difícil
afirmar-se que haja somente magnetismo na aplicação de um PASSE, por exemplo. O passe pode ter efeitos benéficos ou
maléficos, dependendo das INTENÇÕES de quem o aplica (cf. se depreende da
resposta à questão 3.ª, item 176, de OLM, “in fine”), ou seja, a ação benéfica
ou maléfica do PASSE dependerá sempre da boa ou má intenção do médium e, a
fortiori, do(s) Espírito(s) que estabelecerá (ão) a sintonia no momento do passe...
Em, resumo, a
mediunidade “receitista” seria uma variedade, especialíssima, da mediunidade psicográfica, ou mesmo psicofônica (ou de
“incorporação”), de forma análoga à psicografia e a mediunidade pictopsicográfica
(de médiuns pintores)...
O médium de cura poderia curar uma doença “fundamentalmente” incurável?
Em nosso
movimento espírita é freqüente ouvirmos pessoas excessivamente crédulas e
supersticiosas contando casos de que tal ou qual pessoa teria ficado curada de
doenças incuráveis, através de tratamentos espirituais, simplesmente.
Seria isto possível? Sempre acreditamos que não, e é o próprio ALLAN KARDEC
quem assim considera... Vejamos como ele nos esclarece esta questão:
“Um outro ponto a considerar é que sendo esta
faculdade [de cura] fundada em leis naturais, tem limites traçados pelas
mesmas. Compreende-se que a ação fluídica possa dar sensibilidade a um órgão
existente, faça dissolver e desaparecer um obstáculo ao movimento e a
percepção, cicatrizar uma ferida, porque então o fluido se torna um verdadeiro
agente terapêutico; mas é evidente que não se pode remediar a ausência e a
destruição de um órgão, o que seria um verdadeiro milagre.(...)” (REVISTA
ESPÍRITA – Jornal de estudos psicológicos, 1866, op., cit., p. 348).
Como se pode
observar, muitos confrades estão em erro ao julgarem que se pode curar tudo,
inclusive as doenças fundamentalmente
incuráveis. Argumentam eles que “para DEUS nada é impossível”... Com certeza,
não há nada impossível para DEUS, mas ele não derrogaria suas próprias Leis
Naturais, o que seria um milagre e
nós, espíritas, conhecedores da Doutrina dos Espíritos sabemos que milagre não
existe... Mas, prossigamos com o instrutivo texto de KARDEC:
“(...) Assim, a vista poderá ser restaurada a um cego
por amaurose, oftalmia, belida ou catarata, mas não a quem tivesse os olhos
estalados. Há, pois, doenças fundamentalmente
incuráveis e seria ilusão
crer que a mediunidade curadora vá livrar a humanidade de todas as suas
enfermidades.” (op.
cit., p. 348 -349).
Aí está: os que
hoje dizem possuir métodos para curar deficientes mentais, demências, isto é,
doenças atróficas cerebrais ou uma série
de doenças congênitas, não sabem o que dizem, alguns, ou agem de má-fé (o maior
número)...
A propósito,
lembro-me de um episódio ocorrido na minha infância no qual minha mãe,
católica, quis levar-me a um bairro da periferia do Rio de Janeiro, onde, numa
Igreja, a imagem de uma “santa” estaria vertendo lágrimas e estaria “curando”
uma série de doenças incuráveis...
Ora, sou portador
de uma ptose palpebral congênita, no olho direito, não optei pela cirurgia.
Como curá-la sem cirurgia? A ptose palpebral consiste numa anomalia congênita
em que há atrofia do
músculo elevador da pálpebra... Seria possível curá-la instantaneamente como
alegavam os beatos e beatas na igrejinha do subúrbio do Rio de Janeiro?... Não,
IMPOSSÍVEL; assim como é impossível a um médium curador curar uma ptose
palpebral, pois esta é uma anomalia fundamentalmente
incurável...
Outras enfermidades fundamentalmente
incuráveis são as lesões definitivas de nervos importantes como: nervo óptico,
auditivo, nervo facial, feixe piramidal e extrapiramidal (Doença de PARKINSON,
Coréia de HUNTINGTON e outras doenças neurológicas irreversíveis).
Entenderam,
agora, Srs. leitores e leitoras, os limites da mediunidade curadora?
Pajelança e lambança no tratamento dos pacientes psiquiátricos e suas
(in) conseqüências
Dando armas aos inimigos do Espiritismo.
Em
artigo publicado no jornal espírita (órgão da FEESP), “Curas
espirituais, indeterminação quântica e determinismo científico” (JE,
abril / 2002, ÚLTIMA PÁGINA, ESPECIAL), ampliado recentemente e publicado nos
Portais TERRA ESPIRITUAL e PANORAMA ESPÍRITA, sob o título “Glândula Pineal
e “cientificismo” esotérico – espiritual. Curas Espirituais,
Indeterminação Quântica e Determinismo científico”, anotamos a questão da
ingenuidade ou da prepotência de alguns confrades em julgarem, sem conhecimento
de causa, que haveria tratamento espiritual para esquizofrênicos e deficientes
mentais com índice de "cura" de 90%... As pessoas fazem afirmações
sem nenhum compromisso com a realidade e a leviandade delas chega às raias do
absurdo, pois não se dão conta da gravidade de tais doenças. Em
conseqüência, dão armas aos detratores do Espiritismo, como por exemplo, o
mágico Pe. QUEVEDO e, o que é pior, interferem negativamente no tratamento de
tais doenças, como veremos, em nome de uma falsa caridade...
Vamos
citar aqui 3(três) solicitações a nós dirigidas por pessoas cuja privacidade
ficará preservada por pseudônimos, por motivos óbvios e, através delas,
poderemos aquilatar as conseqüências sócio-familiares produzidas pela doença
dos pacientes, agravadas pela conduta da "pajelança" e “lambança” de
leigos em Medicina e de alguns psicólogos em relação aos transtornos mentais...
Um
Sr. fez-me algumas perguntas a quem respondemos preliminarmente; em determinado
trecho, diz ele em sua carta:
"(...) Vim de São Paulo há um ano, comecei a apresentar um quadro
de ansiedade, insônia, confusão mental, falta de concentração, taquicardia,
medo, pesadelos, sudorese, falta de ar, apatia, irritação e dores musculares
por falta de relaxamento, etc. Um colega seu, neurologista, diagnosticou o
problema como sendo Síndrome do pânico e me receitou uns remédios que tomei
durante algum tempo: Clonazepan e Maprotilina. Durante todo o tratamento não me
sentia muito disposto, mas pelo menos dormia. Foi quando na Federação Espírita
de São Paulo – FEESP, passei por uma
consulta com X [o leitor citou o nome completo], de Peirópolis-MG,
fitoterapeuta-espírita, sem formação médica, que já participou do GLOBO
REPÓRTER e trabalhou com o CHICO XAVIER, que fez a seguinte recomendação: ––
Pare de tomar este remédio de tarja preta que isso é remédio para louco. Você é
louco? Indagou ele. E daí me receitou seus remédios, que não fizeram grandes
efeitos.(...)"
PERSEUS
SILVA
Jd. Centenário – SP
No
dia 21/02/02 escreveu-nos um Sr., ao qual pedimos pseudônimo, dizendo:
"Prezado Dr. Iso Jorge Teixeira
Venho por intermédio dessa carta solicitar um grande
favor, se for possível. Eu, com 72 anos e minha irmã Maria, com 66 anos somos
tios de R., com 56 anos, órfão de pai e mãe, portador de deficiência mental,
segundo o médico do Hospital Pinel ele é portador de esquizofrenia crônica. Nós
estamos procurando um Hospital psiquiátrico espírita que seja no Estado do Rio
de Janeiro, que possa receber o nosso sobrinho como paciente. A causa deste
pedido é a depressão e a saúde em geral que minha irmã está passando, com insônia,
falta de apetite, enfim, com a saúde em geral abalada. Um dos sintomas do meu
sobrinho é que ele repete as palavras:
'Perdoa, mãe! Perdoa avó! Perdoa tia! Perdoa tio!' Ou, então: 'sol,
chuva', etc. Esta repetição é feita num timbre de voz bem alto, onde a
vizinhança reclama, chegando a perturbar o nosso lar. Isto se dá em geral à
noite, se prolongando até a madrugada.
Ele (R.) não é agressivo, ele tem uma índole boa, por exemplo: ele fuma,
se chegar alguém pedindo o cigarro que ele está fumando, ele dá o mesmo.
Interessante que, às vezes, ele fala ao médico que o problema dele é
ESPIRITUAL.
Ele já nasceu com este distúrbio mental e, segundo o
médico do Pinel, a tendência é piorar com a progressão da idade.
Estimado Dr. Iso, queríamos reiterar mais uma vez que nos ajude a
encontrar este Hospital, por favor. Aí está mais ou menos o histórico do meu
sobrinho.
Aguardamos a vossa resposta com ansiedade.
Que deus vos proteja, se tivermos o merecimento do nosso pedido.
CÉZAR
Copacabana – Rio de Janeiro – RJ
Já
no dia 08/03/02, um Sr., cuja família seria quase toda de esquizofrênicos, como
vimos no artigo "Genética e
esquizofrenia" publicado
no jornal espírita,
enviou-nos mail solicitando-nos "duas caridades" sendo que a 1.ª foge ao propósito deste
artigo. Na solicitação da 2.ª caridade, disse dentre inúmeras outras coisas:
"Tenho um primo que apresentava crises esquizofrênicas alternadas e
de uns tempos para cá estão cada vez mais freqüentes. O problema é que ele é e
sempre foi arredio a qualquer tratamento médico. Há muitos anos, seus irmãos
levaram-no a um psicólogo (se não me engano, em São Paulo) e comenta que tal
psicólogo o aconselhou, concordando com ele e até incentivando-o mesmo a jamais
fazer uso de remédios ou quaisquer tratamentos químicos.
Já me cansei de aconselhá-lo sobre esse erro. Já venho alertando-o há
tempos de que as crises serão cada vez mais freqüentes, que neurônios são as
únicas células do corpo passíveis de necroses sem retorno, etc. etc., mas nada
o faz aceitar-me.
Será que você poderia enviar-me um E-mail especificamente em nome
dele,........, incentivando-o, com a sua sabedoria peculiar, ao tratamento? Nem
poderia avaliar a grande caridade que faria, não só a ele mas a todos da
família.
E.T.: a irmã dele também, há pouco tempo, começou a ter tais crises, mas
está se tratando."
Atropelado pela hereditariedade (pseudônimo proposto pelo leitor)
Franca
– SP
Respondemos
preliminarmente a todos os Srs. acima.
Pajelança maculando
a FEESP
Em
2002 dizíamos que a Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) devia
estar atenta ante a responsabilidade e grandeza do seu trabalho, e no passado
isso nem sempre ocorreria. Senão vejamos: não conhecemos o Sr. X, mas tivemos informações de que, de
fato, há anos atrás ele freqüentava a FEESP e recomendava que os pacientes
tomassem o conteúdo de um vidrinho e que nada cobrava por ele... Seria
verdadeira a informação do Sr. leitor, PERSEUS SILVA, de que o Sr. X teria sugerido que ele suspendesse
os medicamentos com tarja preta, pois estes seriam remédios para
"loucos"? A atitude atribuída ao Sr. X, sem formação médica,
foi equivocada e estapafúrdia e sujeita a conseqüências delicadas, porque:
a)- suspendeu a prescrição de um médico, sem ter formação
médica;
b)- a suspensão repentina de determinados psicotrópicos
pode causar o fenômeno chamado rebote,
de conseqüências funestas, imprevisíveis.
c)-
os remédios com tarja preta NÃO SÃO para "loucos"; aliás, tais
psicotrópicos controlados, com receita B, referem-se principalmente aos tranqüilizantes menores (benzodiazepínicos)
e são indicados para ansiedade,
não têm nenhuma indicação para "loucura".
Aí
temos um exemplo de como é importante que os dirigentes das Casas Espíritas
tenham cuidado com os atos em nome da Instituição. Suponhamos que o relato do
Sr. PERSEUS seja verdadeiro, que de fato foi sugerido suspender a medicação
prescrita pelo médico e tenha sido oferecida uma droga desconhecida!...
Suponhamos que o Sr. PERSEUS contratasse um advogado que processasse o Sr. X criminalmente, como incurso no artigo
284 (curandeirismo) do Código Penal Brasileiro (CPB)... Embora haja julgado de
que a boa-fé seria excludente de dolo
neste crime (RT,425:328), a imagem da FEESP não ficaria maculada?... Suponhamos
que ao suspender repentinamente a medicação psicotrópica, o Sr. PERSEUS
apresentasse um quadro confusional e desencarnasse, como ficaria a imagem da
FEESP?
Como
a atuação do Sr. X teria sido há
muitos anos, fica o alerta para os dirigentes atuais da FEESP e de todas as
Instituições espíritas quanto à prudência em casos semelhantes. Não
questionamos a boa-fé específica do Sr. X,
até porque nem o conhecemos, mas genericamente nas Instituições Espíritas é
sempre bom lembrar os ditos
populares: Prudência e caldo-de-galinha não fazem mal a ninguém e A estrada do inferno está calçada de boas
intenções!
Lambança no tratamento de esquizofrênicos e deficientes mentais
A atitude atribuída ao psicólogo que
incentivou um paciente supostamente esquizofrênico a suspender a medicação,
conduz-nos à pergunta: será que um psicólogo clínico, sem nunca ter prescrito
um medicamento (a lei proíbe a prescrição de psicotrópicos por psicólogos)
estaria em condições legais de suspender a medicação prescrita por um médico?
Estaria ele em condições de diagnosticar
uma doença, como a esquizofrenia ?
Embora o psicólogo tenha algum conhecimento médico, não é sua atribuição
sugerir a suspensão de um medicamento. Seria o caso do Sr. ATROPELADO PELA
HEREDITARIEDADE consultar um advogado e processar o psicólogo, que teria
adotado tal conduta, como incurso no artigo 282 do CPB (exercício ilegal da
Medicina) ? Este não seria um caso isolado, pois temos dezenas de casos
ocorridos no Rio de Janeiro, embora seja difícil prová-los; pois os psicólogos
que assim agem não deixam pistas materiais e se forem chamados ao Tribunal
certamente dirão que não realizaram diagnóstico nem que aconselharam a
suspensão do tratamento medicamentoso...
Um
dos sintomas das esquizofrenias é a ausência
de noção do estado mórbido, o paciente esquizofrênico não se
julga doente e, por isso mesmo, resiste à ingestão da medicação, como é o caso
do primo do leitor ATROPELADO PELA HEREDITARIEDADE. Ao invés do psicólogo
tentar convencê-lo a se tratar medicamentosamente com o médico – o que seria
difícil –, irresponsavelmente, teria lhe aconselhado a fazer o oposto!... Que
tratamento estaria propondo? Psicoterapia? Ou seria um defensor das chamadas
"terapias alternativas"? Em ambos os casos - tratando-se de um
paciente esquizofrênico – podemos deduzir a sua proposta, sem medo de errarmos:
seria uma conversa fiada, ou
melhor, a conversa seria "fiada" se o paciente não tivesse dinheiro
naquele momento...
Ora,
após uma crise, o paciente esquizofrênico apresentará, mais hora menos hora, o
que se chama estado residual esquizofrênico
ou defeito esquizofrênico e,
quanto mais tempo o paciente permanecer em surto, sem tratamento medicamentoso,
seu defeito será bem maior... Enfim,
o defeito é uma situação gravíssima
de alheamento, de falta de iniciativa, indiferença afetiva e, muitas vezes, de
desestruturação do pensamento. Não há uma verdadeira demência, com "necrose
dos neurônios" como sugeriu o leitor, no entanto, há algo semelhante,
tanto assim que antes de 1911 (quando EUGEN BLEULER cunhou o nome da doença),
esta era conhecida como “demência precoce”...
Nossa
indignação não se dirige aos psicólogos em geral, mas àqueles que adotam
condutas semelhantes às que descreveu o leitor. A esses faríamos o seguinte
desafio, retórico é claro: levem um paciente esquizofrênico, como o primo do
leitor acima descrito, para suas casas, experimentalmente, e convivam com ele
por 15(quinze) dias somente e não lhe ofereçam nenhum tipo de medicamento
psicotrópico e, então, confirmarão aquilo que um homem do povo - familiar de um
esquizofrênico, disse-me certa vez: ––
Queria ver eles levarem um esquizofrênico prá casa, prá ver o que é bom prá
tosse!...
Quanto
ao caso descrito pelo Sr. CÉZAR, é evidente a difícil situação em que se
encontra a tia, idosa, do paciente. Pode chegar o momento que a vizinhança
exija, com razão, o afastamento do paciente daquela casa. Não conhecemos
Hospital "espírita" no Rio de Janeiro. Mas, onde internar um paciente
com deficiência mental, adulto, no Rio de Janeiro? Não o
sabemos!... Além disso, a atual política de desinstitucionalização
do paciente psiquiátrico, instituída pela chamada Lei PAULO DELGADO é quase proibitiva em relação à internação de
doentes mentais.
Dissemos
ao Sr. CÉZAR que a medicação do colega do Hospital PINEL talvez tenha de ser
ajustada, para diminuir a turbulência do paciente R. Sendo ele doente desde a
infância é provável que o caso seja de deficiência
mental e não de esquizofrenia
como teria aventado o colega. Como se pode deduzir, aqueles que proclamam que
não se internem os pacientes psiquiátricos, muitas vezes não são capazes de
distinguir um deficiente mental de um esquizofrênico, pois dizem que "a
doença entre aspas é provocada pela Sociedade" e durma-se com um barulho
desses !... Ou melhor, que não se durma, pois ouvir frases estereotipadas, madrugada
adentro, é inconcebível para a convivência social harmoniosa, especialmente
para aqueles que precisam trabalhar após uma noite mal dormida...
Epílogo
Enfim, prezado
confrade ALEXANDRE GIORDANI, são essas as contribuições para estudo da mediunidade de cura e Medicina intuitiva, que trouxemos para o
Sr. e nossos leitores, sabendo que o assunto é muito amplo, não obstante,
procuramos resumir aquilo o que consideramos conceitualmente importante sem,
obviamente, esgotarmos o tema.
Àqueles
que dizem curar esquizofrênicos e deficientes mentais, sem nenhuma base
científica, sem o uso de psicotrópicos, receitando-lhes substâncias sem nenhum
efeito ou recomendando a suspensão de medicamentos prescritos pelos médicos ou,
ainda, recomendando "tratamentos espirituais" cuja eficácia ainda não
foi demonstrada cientificamente e que se dizem muito "humanos",
"caridosos", cabe aqui o pensamento do escritor MACHADO DE ASSIS :
Suporta-se com paciência a dor no
fígado alheio...
A
eles a Justiça Divina alcançará um dia, certamente a lei-de-causa-e-efeito terá
atenuantes para os ingênuos, mas para
aqueles cuja intenção é de se locupletarem com a dor alheia, agindo como pajés
ou fazendo lambanças, como alguns médicos e psicólogos, a Lei Divina será
inflexível, certamente não se aplicará a pena de talião, pois DEUS é
Misericordioso, como disse GHANDI: Olho
por olho...o mundo acabará cego.
Gostaríamos
de lembrar palavras de ALLAN KARDEC em relação aos médiuns interesseiros e a garantia contra o charlatanismo (Artigo 283 do
nosso Código Penal), mas que servem também para o curandeirismo (Artigo 284 do nosso Código Penal), palavras a que
pedimos ao internauta muita atenção:
"A faculdade mediúnica, mesmo restrita às manifestações físicas,
não foi dada ao homem para ostentá-la nos teatros de feira e quem quer que
pretenda ter às suas ordens os espíritos, para exibir em público, está no caso
de ser, com justiça, suspeitado de charlatanismo, ou de mais ou menos hábil
prestidigitação. Assim se entenda todas as vezes que apareçam anúncios de pretendidas
sessões de Espiritismo, ou de Espiritualismo, a tanto por cabeça. Lembrem-se todos do direito que
compram ao entrar.
De tudo o que procede, concluímos que o mais absoluto desinteresse é a
melhor garantia contra o charlatanismo. Se ele nem sempre assegura a excelência
das comunicações inteligentes, priva, contudo, os maus Espíritos de um
poderoso meio de ação e fecha a boca a
certos detratores." (O Livro
dos Médiuns. Cap. XXVIII, item 308, ab initium).
O
Srs. leitores conhecem algum médium, que ostenta a sua faculdade em teatros e
cobram entrada?... Calemos a boca do Pe. QUEVEDO e seus sequazes e abramos a nossa, sem
telhados de vidro, pois temos uma Doutrina ditada por Espíritos Superiores...
Finalizando,
vamos levantar uma hipótese explicativa sobre o silêncio de KARDEC, após 1860,
em relação à médium DÉSIRÉE GODU e ao
Dr. MORHÉRY. Ora, KARDEC foi acusado, e ainda tem sido acusado hoje por alguns,
de não dar importância aos chamados “fenômenos físicos” (materialização, curas
físicas, etc.)... Não é bem assim! De fato, tais fenômenos tinham a sua
importância no início do Espiritismo moderno, e ainda têm, mas, simplesmente
para chamar a atenção; mas por si sós não levam ao convencimento da realidade
da vida espiritual... A respeito da importância dos chamados “fenômenos
físicos”, o Espírito SÃO LUÍS, Presidente da SPEE, ditou a seguinte mensagem,
em novembro/1858, relembrada por KARDEC na Revue Spirite de
dezembro/1860 (op. cit., p. 382):
“Zombaram das mesas girantes; jamais zombarão da Filosofia, da sabedoria
e da caridade que brilham nas comunicações sérias. Elas foram o vestíbulo da
ciência; é nela, que ao entrar, devem ser deixados os preconceitos, como se
deixa um manto. Não é demais insistir para que façais de vossas reuniões um
Centro sério. Que alhures façam demonstrações físicas, vejam, ouçam, que
entre vós se compreenda e se ame [o grifo é do Espírito
comunicante]. Que pensais ser aos olhos dos
espíritos superiores, quando fazeis girar ou erguer-se uma mesa? Escolares.
Passará o sábio a recordar o á-bê-cê da Ciência? Ao contrário, vendo que
buscais as comunicações sérias, vos consideram como homens em busca da
verdade”. SÃO LUÍS.
Embora
o trabalho do Dr. MORHÉRY e da Srta. GODU tivesse o cunho, indubitável, de caridade, não estariam eles, especialmente
ela, realizando um serviço de “cura”, excessivamente material, que caberia aos
médicos? É uma hipótese...
Tais
curas “extraordinárias” já tinham sido demonstradas pelo Mestre JESUS, e de
maneira muito melhor, posto que sempre acompanhada de uma mensagem espiritual
e, não obstante, não tocou a sensibilidade dos fariseus e saduceus há 2000
anos. Tais curas tinham o objetivo de “provar que o verdadeiro poder é o
daquele que faz o bem.” Como disse KARDEC no livro “A Gênese, os milagres e as predições segundo o
Espiritismo” (item 27 “ab ibnitium”, Cap. XV, FEB, 25
ed., 1982, p. 326): o objetivo de JESUS ao operar as curas, “(...) era ser útil,
e não satisfazer a curiosidade dos indiferentes, por meio de coisas
extraordinárias”.
Deixemos
a cura dos doentes para os médicos, terrenos, pois certamente a Providência
Divina irá inspirá-los e deixemos os chamados fenômenos físico-espirituais e
preconceitos científicos no vestíbulo do Espiritismo, só utilizemos esse
“manto” quando for estritamente necessário; pois, ao praticarmos o Bem,
estaremos provando o nosso poder, com boa intenção, sem inveja dos médicos, se
é que os médicos devam ser invejados e se inveja houver...
* Médico.
Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador do Curso de Especialização em
Psiquiatria (FCM - UERJ).
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