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Estudos Espíritas
Joanna de Ângelis
(Espírito)
Conceito - Toda e qualquer tentativa para elucidar a magna
questão da Divindade redunda sempre inócua, senão infrutífera, traduzindo esse
desejo a vã presunção humana, na incessante faina de tudo definir e entender.
Acostumado ao imediatismo da vida física e
suas manifestações, o homem ambiciona tudo submeter ao capricho da sua lógica
débil, para reduzir à sua ínfima capacidade intelectual a estrutura causal do
Universo, bem assim as fontes originárias do Criador.
Desde tempos imemoriais, a interpretação da
Divindade tem recebido os mais preciosos investimentos intelectivos que se
possam imaginar. Originariamente confundido com a Sua Obra, mereceu temido
pelos povos primitivos que legaram às Culturas posteriores a sedimentação
supersticiosa das crendices em que fundamentavam o seu tributo de adoração,
transitando mais tarde para a humanização da Divindade mesma, eivada pelos
sentimentos e paixões transferidos da própria mesquinhez do homem.
À medida, porém, que os conceitos éticos e
filosóficos evoluíram, a compreensão da
Sua natureza igualmente experimentou
consideráveis alterações. Desde a manifestação feroz à dimensão transcendental,
o conceito do Ser Supremo recebeu de pensadores e escolas de pensamento as mais
diversas proposições, justificando ou negando-Lhe a realidade.
Insuficientes todos os arremedos filosóficos
e culturais, quanto científicos, posteriormente, para uma perfeita elucidação
do tema, concluiu-se pela legitimidade da Sua existência, graças a quatro
grupos de considerações, capazes de demonstrá-Lo de forma irretorquível e
definitiva, a saber: a) cosmológicas, que O explicam como a Causa Única da sua
própria causalidade, portanto real, sendo necessariamente possuidor das
condições essenciais para preexistir antes da Criação e sobreexistir ao sem-fim
dos tempos e do Universo; b) ontológicas, que O apresentam perfeito em todos os
Seus atributos e na própria essência, explicando, por isso mesmo, a Sua
existência, que não sendo real, não justificaria sequer a hipótese do conceito,
deixando, então, de ser perfeito.
Procedem tais argumentações desde Santo
Anselmo, dos primeiros a formulá-las, enquanto que as de ordem cosmológica
foram aplicadas inicialmente por Aristóteles, que O considerava o "Primeiro
motor, o motor não movido, o Ato puro", consideração posteriormente
reformulada por Santo Tomás de Aquino, que nela fundamentou a quase totalidade
da Teologia Católica; c) teleológicas, mediante as quais o pensamento humano,
penetrando na estrutura e ordem do Universo, não encontra outra resposta além
daquela que procede da existência de um Criador. Ante a harmonia cósmica e a
beleza, quanto à grandeza matemática e estrutural das galáxias e da vida, uma
resultante única surge: tal efeito procede de uma Causa perfeita e harmônica,
sábia e infinita; d) morais, defendidas por Emmanuel Kant, inimigo acérrimo das
demais, que, no entanto, eram apoiadas por Spinoza, Bossuet, Descartes e outros
gênios da fé e da razão. Deus está presente no homem, mediante a sua
responsabilidade moral e a sua própria liberdade, que lhe conferem títulos
positivos e negativos, conforme o uso que delas faça, do que decorrem as linhas
mestras do dever e da autoridade. Essa presença na inteligência humana,
intuitiva, persistente, universal, faz que todos os homens de responsabilidade
moral sejam conscientemente responsáveis, atestando, assim, inequivocamente, a
realidade de um Legislador Absoluto, Suprema Razão da Vida.
Olhai o firmamento e vede a Obra das Suas
mãos, proclama o Salmista Davi, no Canto 19, verso primeiro, conduzindo a mente
humana à interpretação teleológica, cosmológica e cosmogônica, para entender
Deus.
Examina a estrutura de uma molécula e o seu
finalismo, especialmente diante do ADN, do ARN de recente investigação pela
Ciência, que somente a pouco e pouco penetra na essência constitutiva da forma,
na vida animal, e a própria indagação responde silogisticamente de maneira a
conduzir o inquiridor à causa essencial de tudo: Deus!
Outros grupos de estudiosos classificam os
múltiplos argumentos em ordens diferentes: metafísicos, morais, históricos e
físicos, abrangendo toda a gama do existente e do concebível.
Desenvolvimento - Diversas escolas filosóficas do século passado
desejaram padronizar as determinações divinas e a própria Divindade em linha de
fácil assimilação, na pretensão de limitarem o Ilimitado. Outras correntes de
pesquisadores aferrados a cruento materialismo, na condição de herdeiros
diretos do Atomismo greco-romano, do pretérito, descendentes, a seu turno, de
Lord Bacon, como dos sensualistas e cépticos dos séculos XVIII e XIX, zombando
da fé ingênua e primitiva, escravizada nos dogmas ultramontanos dos religiosos
do passado, tentaram aniquilar histórica e emocionalmente a existência de Deus,
por incompatível com a razão, conforme apregoavam, mediante sistemas sofistas e
conclusões científicas apressadas, como se a própria razão não fosse
perfeitamente confluente com o sentimento de fé, inato em todo homem, como o
demonstram os multifários períodos da História.
Sócrates já nominava Deus como "A Razão
Perfeita", enquanto Platão O designava por "Idéia do Bem".
O neoplatonismo, com Plotino, propôs o
renascimento do Panteísmo, fazendo "Deus, o Uno Supremo", que
reviverá em Spinoza, não obstante algumas discussões na forma de Monismo, que
supera na época o Dualismo cartesiano. O monismo recebe entusiástico apoio de
Fichte, Hegel, Schelling e outros, enquanto larga faixa de pensadores e
místicos religiosos empenhava-se na sobrevivência do Dualismo.
Mais de uma vez alardeou-se que "Deus
havia morrido", proclamando-se a desnecessidade da fé como da Sua
paternidade, para, imediatamente, reiteradas vezes, com a mesma precipitação,
voltarem esses negadores a aceitar a Sua realidade.
A personagem concebida por Nietzche, que sai
à rua difundindo haver "matado Deus", chamando a atenção dos
passantes, após o primeiro choque produzido nos círculos literários e
intelectuais do mundo, no passado, estimulou outras mentes à negação
sistemática, Fenômeno idêntico acontecera no século anterior, quando os
convencionais franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de
Paris e posteriormente de todo o país, entronizando a jovem Candeille,
atormentada bailarina do Ópera, como a Deusa Razão, que deveria dirigir os destinos
do pensamento intelectual de então, ante Robespierre e outros, em Notre-Dame.
Logo, porém, depois de múltiplas vicissitudes, o curto período da Razão fez que
Deus retornasse à França, e muitos dos seus opositores a Ele se renderam,
declarando haver voltado ao Seu regaço, cabisbaixos, arrependidos,
melancólicos. Deus vencia, mais uma vez, a prosápia utopista da ignorância
humana!
Repetida a experiência no último quartel do
"século das luzes", tornou a ser exilado da Filosofia e da Ciência
por uns e reconduzido galhardamente por outros expoentes culturais da
Humanidade.
Novamente, ante o passo avançado da
tecnologia moderna, através da multiplicidade das ciências atuais, pretende-se
um Cristianismo sem Deus, uma Teologia não teísta, fundamentada em cogitações apressadas,
que pretendem levar o homem à "busca das suas origens", como
desejando reconduzi-lo à furna, em vez de situá-lo em a Natureza, mantê-lo
selvagem por incapacidade de fazê-lo sublime.
Tal fenômeno reflete a apressada decadência
histórica e moral das velhas Instituições, na Terra de hoje, inaugurando uma
Nova Era...
As construções sociais e econômicas em
falência, as arquiteturas religiosas em soçobro, as aferições dos valores
psicológicos e psicotécnicos negativamente surpreendentes, o descrédito inspirado
pelos dominadores, em si mesmos dominados, pelos vencedores lamentavelmente
vencidos pela inferioridade das paixões em que se consomem, precipitaram o
agoniado espírito humano na "busca do nada", das formas primeiras,
rompendo com tudo, como se fora possível abandonar a herança divina inata
indistintamente em todas as criaturas, para tentar esquecer, apagar e confundir
a inteligência com os impulsos dos instintos, num contumaz e malsinado esforço
de contraditório retorno às experiências primitivistas da forma, quando ainda
nas fases longevas de formações e reformações biodinâmicas...
Concomitantemente, porém, surgem figurações
morais, espirituais, mística e científicas, sofrendo os embates que a dúvida e
o cepticismo impõem, resistindo, todavia, estoicamente, na afirmação da
existência de Deus, apoiadas pela Filosofia e Ética espíritas, que são as novas
matrizes da Religião do Amor, pregada e vivida por Nosso Senhor Jesus-Cristo.
Conclusão - "Deus é Amor", afirmava João.
"Meu Pai", dizia reiteradamente
Jesus, conceituando-O da forma mais vigorosa e perfeita que se possa imaginar.
E Allan Kardec, mergulhando as nobres
inquirições filosóficas nas fontes sublimes da Espiritualidade Superior,
recolheu através dos Imortais que "Deus é a Inteligência suprema, causa
primária de todas as coisas", em admirável síntese, das mais felizes,
completando a argumentação com a asserção de que o homem deve estudar "as
próprias imperfeições a fim de libertar-se delas, o que será mais útil do que
pretender penetrar no que é impenetrável", concordante com o ensino do Cristo,
em João: "Deus é Espírito, e importa que os que O adoram, O adorem em espírito
e verdade."
Estudo e meditação:
"Onde se pode encontrar a prova da
existência de Deus?"
"Num axioma que aplicais às vossas
ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do
homem e a vossa razão responderá."
Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar
sobre as obras da Criação. O universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da
existência é negar que todo efeito tem uma causa a avançar que o nada pôde
fazer alguma coisa. (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 4.)
"A existência de Deus é, pois, uma
realidade comprovada não só pela revelação, como pela evidência material dos
fatos. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram; entretanto, crêem
instintivamente na existência de um poder sobre-humano. Eles vêm coisas que
estão acima das possibilidades do homem e deduzem que essas coisas provêm de um
ente superior à Humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do que os
que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?" (A Gênese, Allan
Kardec, cap. II, item 7.)
Fonte:
Livro Estudos Espíritas
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