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Carlos Imbassahy
Tradicionalmente, diz-se que o Espiritismo possui um tríplice aspecto,
filosófico, científico, religioso, em decorrência de suas raízes nestas
respectivas áreas.
Modernamente, o conhecimento humano evolveu classificatoriamente
para dois conceitos: o científico e o religioso, a partir da origem das
palavras latinas correspondentes. Senão, vejamos:
No velho Lácio, segundo os grandes escritores como Virgílio,
Cícero, Plauto e outros, o termo sciens, entia - ciência - definia o
conhecimento humano e, como tal, a palavra "filosofia" de origem
grega - philos + ophia = amantes do saber -, acabava encerrando o mesmo
conceito, daí, para estes novos classificadores, teremos, além das ciências
exatas, ciências sociológicas, ciências biológicas, etc., as ciências
filosóficas.
Em contrapartida, o termo religio, onis também de origem latina,
definia o estudo da vida e das obras dos deuses - eles eram politeístas - bem
como seu culto, ritual e que mais, correlato com estes mesmos deuses.
Ora, portanto, a Religião se contrapõe à Ciência porque, enquanto
esta se preocupa com o saber puramente humano, aquele cuida das coisas divinas.
No Espiritismo vamos encontrar sua parte religiosa no cap. I do
LE e no cap. III da Gênese, definindo a doutrina pela linha monoteísta seguida
pela Igreja, em contraposição com os gnósticos, contemporâneos de Jesus e seus
verdadeiros seguidores, que eram dualistas, ou seja, admitiam duas divindades,
a do bem, que enviara Jesus à Terra para encaminhar seus fiéis seguidores, e a
do mal, representada pela vida material.
Não se pode garantir qual seria o verdadeiro pensamento de
Kardec, apenas, cabe analisar sua obra e nela, a impressão que se tem é que o
mestre não pretendia escandalizar a sociedade negando abruptamente seus valores
impostos pela religião. Basta ver o que ele diz no item 10 do cap. IV - Gênese
- em sua versão francesa, condenado o entrave da religião ao progresso da
ciência. Ele não quis, deveras, impor uma posição irreconciliável que afastasse
o religioso do seu estudo, daí, provavelmente, contemporizar certas posições,
limitando-se, apenas, a dizer que os dogmas que não se firmarem pela pesquisa
acabarão por ruir.
Ora, pois, o que se tem em vista é que ele pretendesse admitir
que, com o advento das novas descobertas científicas, o Espiritismo as
acompanharia para se reformular nos termos mais sensatos e atualizados com a
verdade conhecida, ou seja, a codificação avançaria com o progresso e jamais
poderia pensar que ela desse um passo atrás, no retrocesso das coisas, isto é,
que voltasse a ser um religiosismo fanático de crentes que aceitassem uma
imposição religiosa em detrimento do progresso. Que voltasse aos tempos da
imposição da Igreja onde os textos por ela emitidos eram sagrados e não se
admitia contestação.
Enfim, que o Espiritismo desse um passo atrás e viesse a ser mais
uma seita evangélica, tão combatida por ele em suas sutis observações feitas no
próprio livro dedicado ao Novo Testamento.
Enquanto a Ciência, com suas novas descobertas, caminha para dar
razão a Kardec, estando a um passo de descobrir o novo domínio das formas que
modula o nosso universos material dando-lhe origem a tudo, inclusive à vida,
militantes espíritas atuais, justamente, opondo-se a este avanço, querem impor
uma nova instituição doutrinária nos moldes eclesiásticos passados, deixando de
lado o progresso e os novos conhecimentos, para defender a fé salvadora.
E os que insistem em dar prosseguimento aos estudos do codificador,
estes passam a ser considerados hereges, negadores do Deus bíblico,
evidentemente, incompatível com o que já sebe a respeito da formação cósmica
dos mundos e de tudo mais mergulhado nesse espaço sideral que nos envolve.
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