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Adolpho Marreiro Júnior
A Senda do Discípulo, também chamada “Via Crucis” ou Caminho
da Cruz, parece ser um Curso da Pedagogia Divina, exigido de todo
Espírito que, amadurecido nas experiências reencarnatórias, e já saturado dos
valores perecíveis dos mundos materiais, suspira por libertar-se do seu jugo
hipnótico, determinando-se à conquista de valores eternos. Tal suposição
encontra respaldo nas provas dolorosas experimentadas pelos grandes benfeitores
da Humanidade, principalmente pelos heróis da fé. Ao que tudo indica, nenhum
Espírito se libertará dos grilhões que o prendem aos mundos das formas
passageiras, sem que percorra uma senda de sacrifícios semelhante à do Cristo.
Aliás, Ele mesmo sentenciou: – “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si
mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.” (Marcos, 8:34.)
O Messias, sem que necessitasse de tais provas, teria
sido o “Modelo Cósmico”
da senda espinhosa que conduz à Vida Maior: Ele foi o
modelo da Senda do Discípulo, porque tudo foi profetizado com antecedência de
mais de setecentos anos.
Recordemos Isaías (Cap. LIII):
“Levantar-se-á como um arbusto verde na ingratidão de
um solo árido...
Carregado de opróbrios e abandono dos homens.
Coberto de ignomínias, não merecerá consideração.
Será Ele quem carregará o fardo pesado de nossas
culpas e sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.
Parecerá um homem vergado sob a cólera de Deus...
Humilhado e ferido, deixar-se-á conduzir como um
cordeiro, mas, desde o instante em que oferecer sua vida, os interesses do
Eterno hão de prosperar em suas mãos.”
Tudo aconteceu como previra Isaías! E o Mestre não
nos ensinou o “Caminho” como quem ensina uma peça teatral, mas o exemplificou
na própria carne. Não raro, os que tentam percorrer a Senda do Discípulo
fracassam nas primeiras etapas. Assim ocorreu com os apóstolos: durante três
anos eles acompanharam o Mestre, ouvindo seus ensinos, testemunhando seus
exemplos e seus “prodígios”. Mas, ao que parece, aquilo era apenas o Curso
Elementar do Evangelho. A Senda Dolorosa que os elevaria à verdadeira
promoção espiritual viria mais tarde, quando fossem convocados aos extremos
testemunhos de fé, coragem, abnegação e renúncia de suas próprias vidas.
No dia de sua prisão, Jesus, sentindo que os
aprendizes do seu Evangelho ainda não estavam preparados, advertiu-os: – “Ainda
esta noite todos serão postos à prova e fracassarão.” Porque assim também se
cumpriria o que, com grande antecedência, previra o profeta Zacarias (13:7): –
“Ferirei o Pastor e as ovelhas se dispersarão.” Mas, se os apóstolos
fracassaram na primeira etapa, após a tragédia da cruz, todos, caindo em si,
aceitaram, jubilosos, a Senda de Sacrifícios que os elevaria às dimensões
vibratórias dos autênticos Discípulos do Senhor.
Sem dúvida, o Messias trouxe à Terra ensinos, hábitos
e comportamentos de uma Humanidade que ainda está por ser construída. Ele era
um estrangeiro, modelo de cidadão de um futuro remoto... uma espécie de
“estranho no ninho” terrestre. E, ainda hoje, todo aquele que ouve seus ensinos
e tenta praticá-los é nota dissonante no concerto da multidão. Estamos
ensaiando o tipo humano de uma nova era. Nossos gostos, nossas tendências e
nossos comportamentos não raro desafinam com o modo de ser de familiares,
vizinhos, colegas de profissão, etc. Justo, pois, que o mundo nos ofereça o
Caminho da Cruz, como fizeram ao Messias, aos profetas e a todos os benfeitores
da Humanidade.
Porém, se, como aspirantes ao grau de discípulos,
aceitarmos o Caminho, operar-se-á em nós misteriosa transformação: gradativamente,
as vibrações densas, de baixa freqüência, próprias do nosso egoísmo, orgulho,
vaidade e demais ramificações, cederão lugar às vibrações sutis, de alta
freqüência, inerentes à submissão à Vontade de Deus (humildade, paciência,
resignação, prudência, renúncia de bens efêmeros e trabalho constante em
benefício da coletividade).
Percorrer a Senda do Discípulo significa exercitar,
sem esmorecimentos, as virtudes citadas e outras que, em conjunto, representam
a vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha.
Entendemos que todos os Espíritos que se
transformaram em focos de bondade, luz e sabedoria, é porque superaram todas as
provas da Senda do Discípulo, despindo-se das vibrações densas de suas
imperfeições. A História do mundo está repleta de exemplos de vidas heróicas
que se sublimaram percorrendo uma “Via Crucis” semelhante à do Messias. Moisés
viveu entre experiências terríveis e dolorosas. Jeremias conheceu longas noites
de angústia, trabalhando pela preservação do patrimônio religioso entre as
perdições de Babilônia.
Amós, Esdras, Ezequiel, Daniel e muitos outros vultos
do Velho Testamento percorreram Sendas de Sacrifícios. Os seguidores do Cristo,
tanto os que com Ele conviveram, quanto os que vieram depois, só
alcançaram a sublimação espiritual após percorrerem o Caminho da Cruz... sem
esquecermos os milhares imolados no circo do martírio.
A Senda de Paulo
Ele se convertera, incondicionalmente, ao Cristo, às
portas de Damasco. Através de Ananias, recuperara a visão e conhecera a Boa-Nova.
Só por isso, imaginava-se pronto para dar início imediato ao apostolado da nova
causa. Como se enganara! Uma seqüência infindável de fracassos e
incompreensões, apupos e abandonos, solidão e remorsos, enfermidades e
lágrimas, marcaria o longo percurso que haveria de trilhar, a fim de tornar-se
aquele campeão das lides evangélicas que todos nós conhecemos e admiramos.
Para que se despojasse da indumentária grosseira das
imperfeições que abrigava o “homem velho”, teria de percorrer as estações do
martírio, cujo longo trajeto começara com sua entrega ao Cristo às portas de
Damasco, e só terminaria em Tarso, quando Barnabé foi buscá-lo para que desse
início à sua grandiosa missão.
Vale lembrar que, embora sua “Via Crucis” continuasse
até a morte, o discípulo agora estava pronto e sintonizado com o Mestre.
A Senda dos Modernos Discípulos
Nos dias do “Consolador”, o preconceito e a
perseguição, a calúnia e a mentira, a zombaria e o desprezo foram provas que
marcaram a senda de Modernos Discípulos. Allan Kardec, Adolfo Bezerra de
Menezes, Francisco Cândido Xavier e muitos outros diplomaram-se nesses cursos
difíceis, empregando suas vidas em benefício da Humanidade! São Espíritos que
se tornaram merecedores das bem-aventuranças prometidas por Jesus. São modelos
de uma futura Humanidade.
Seus trabalhos estão impregnados das vibrações da
verdadeira Caridade, conforme a conceituou o Apóstolo Paulo, em sua Primeira
Epístola aos Coríntios (13:1-7):
“Ainda que eu
falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Caridade, seria como o
metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e
conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de
maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Caridade, nada seria. E
ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda
que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse Caridade, nada
disso me aproveitaria. A Caridade é sofredora, é benigna; a Caridade não é
invejosa; a Caridade não trata com leviandade; não se ensoberbece. Não se porta
com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal.
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Se o Apóstolo dos Gentios estivesse hoje entre nós,
provavelmente diria que o trabalho do Discípulo, por abundante que fosse, se
destituído de Amor, melhor seria substituí-lo pelos incríveis robots, e
com grande vantagem, pois eles não se cansam, não dormem, são frios, insensíveis
e indiferentes a julgamentos, censuras ou aplausos. Podem operar nos mais
adversos ambientes, e executam com perfeição o programa que lhes foi traçado.
Finalmente, transcrevemos mensagem do Espírito Albino
Teixeira, ditada a Francisco Cândido Xavier, em 1964, com título e conteúdo bem
adequados ao assunto em foco:
“Promoção
1 – Quando o fracasso nos desafia de perto...
2 – Quando a tentação e a enfermidade nos visitam...
3 – Quando a nossa esperança se dissolve no
sofrimento...
4 – Quando a provação se nos afigura invencível...
5 – Quando somos apontados pelo dedo da injúria...
6 – Quando os próprios amigos nos abandonam...
7 – Quando todas as circunstâncias nos contrariam...
8 – Quando a mágoa aparece...
9 – Quando a incompreensão nos procura, ameaçadora...
10 – Quando somos intimados a esquecer-nos, em
benefício dos outros.
Então, é chegado para nós o teste de aproveitamento
espiritual, na escola da vida, para efeito de Promoção.”
O assunto pode parecer estranho, mórbido e até
amedrontador; todavia, ante fatos desmoronam quaisquer argumentos, pois, na
verdade, Jesus, os profetas do Velho Testamento, os apóstolos de ontem e de
hoje, assim como os grandes benfeitores da Humanidade... todos eles percorreram
o Caminho da Cruz. Quanto a nós, que estamos trilhando a Senda do Discípulo, se
ainda não fomos suficientemente provados, por certo o seremos mais adiante.
Quanto a mim, estou convicto de que, se ainda não
alcancei as freqüências vibratórias dos autênticos Discípulos do Senhor, é
porque ainda convivo com imperfeições cujas densidades me mantêm cativo de
baixos planos mentais e emocionais.
Enfim: tenho mais informações do que realizações.
Fonte:
Revista Reformador – dez/2002
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