|
Antônio Moris Cury
É impressionante a estatística
oficiosa dando conta de que em Curitiba, a cidade onde vivemos, são cometidos
14 suicídios em média por mês, ou seja, quase um suicídio a cada dois dias.
Este número só não é maior
porque os diretores dos meios de comunicação, felizmente, concluíram que o
melhor é não haver divulgação, a não ser em casos excepcionais ou que, pelas
circunstâncias, não possam ser omitidos, diante do efeito multiplicador que a
publicação certamente provocaria.
Conquanto sejam diversas as
causas alegadas para o suicídio, em bilhetes e cartas deixados pelos autores de
tão tresloucado gesto, em sua maioria, porém, aparece o desgosto pela vida como
o motivo determinante.
A esse propósito, na pergunta 943
de O Livro dos Espíritos, a obra basilar da Doutrina Espírita, questionou Allan
Kardec, o eminente e proeminente Codificador: "Donde nasce o desgosto
da vida, que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indivíduos?,
recebendo dos Benfeitores da Humanidade a seguinte resposta: "Efeito da
ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade. Para aquele que usa de suas
faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais, o trabalho
nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. Ele lhe suporta as
vicissitudes com tanto mais paciência e resignação, quanto obra com o fito da
felicidade mais sólida e mais durável que o espera" (texto encontrável
na página 439 da 75a edição da FEB).
Com efeito, a ociosidade é
perigosa sempre, o mesmo acontecendo com a saciedade, que cria a ilusão de que,
por estar aparentemente satisfeito em todos os sentidos, o indivíduo não teria
mais desafios pela frente, o que significaria, em última análise, estar
submetido à intolerável rotina.
De igual modo, a falta de fé
pode conduzir a criatura ao despenhadeiro, já que não tem confiança, e muito
menos convicção, de que a vida prossegue para sempre, a despeito da
desencarnação, conclusão a que se pode chegar pelo uso da razão, especialmente
se combinada com a observação dos atos e fatos do dia-a-dia.
Feliz, pois, é quem usa de suas
faculdades com finalidade útil, tornando-se útil onde quer que esteja,
procurando servir antes de ser servido, revelando por este modo ter plena
consciência de que mais se beneficia quem melhor serve.
Todos nós renascemos com
aptidões, com tendências oriundas de outras existências, remotas ou não, razão
pela qual quem a elas der vazão, com naturalidade, verá que nenhum trabalho é
árduo; bem ao contrário, qualquer trabalho será fonte inesgotável de
satisfação, sobretudo se realizado com esmero, do melhor modo possível, com
apreciável qualidade, o que se constituirá, no mínimo, em importante contributo
para o equilíbrio das relações sociais.
E, convém que não esqueçamos, "Toda
ocupação útil é trabalho", na enxuta e precisa definição de O Livro
dos Espíritos, que se pode encontrar na resposta dada à questão número 675
(página 328 da 75a edição da FEB).
Assim, aquele que usa esses
antídotos, ao alcance de todos nós, seguramente sentirá permanente alegria de
viver, renovando-se a cada dia, para melhor, e seguindo em frente, sempre em
frente, sem temor de qualquer espécie.
Por outro lado, não é difícil
concluir que o suicida direto pretende eliminar a aflição, a vergonha, o
desgosto pela vida, o problema maior, enfim, que esteja vivenciando,
acreditando que por este modo estará pondo um ponto final em tudo.
Ledo engano! Que desapontamento
terá depois!
Com efeito, o suicida pode pôr
fim ao seu corpo material, ao seu corpo físico, que irá se decompor e
transformar. Todavia, não conseguirá dar cabo de sua vida propriamente dita, à
sua individualidade, uma vez que todos nós, Espíritos, seres pensantes da
Criação, encarnados ou desencarnados, somos imortais. Depois de criados
passamos a ser eternos, tendo uma única vida, desdobrada em inúmeras
existências, cujo destino final é a perfeição relativa e a felicidade suprema.
Como as leis da Natureza são
perfeitas, e por esta razão imutáveis, a brusca interrupção da vida física
praticada pelo suicida, que não teve coragem e resignação suficientes para
prosseguir, independentemente das dificuldades que encontrou pelo caminho,
comuns a todos nós, deverá ser reparada, por ele, exclusiva e
intransferivelmente, sofrendo expiação proporcional ao ato, à sua gravidade e
demais circunstâncias.
Nem poderia ser diferente, uma
vez que ninguém, exceto Deus, tem o direito de dispor sobre a vida.
Entretanto, não obstante o
insano gesto, terá ele, com certeza, novas oportunidades para corrigir os
erros, males e equívocos cometidos, porquanto sempre é possível recomeçar, eis
que não há nas Leis Divinas ou Naturais condenação irremissível. Por mais
hediondo que seja o crime, por maior insanidade de que se revista o ato, a
reparação será sempre possível porque tendemos todos para a perfeição, que se
constrói gradualmente, devagarinho, a pouco e pouco, a exemplo do que acontece
com a própria Natureza, que não dá saltos.
Neste passo, interessante
reproduzir a questão 950 de O Livro dos Espíritos: "Que pensar daquele
que se mata, na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor? , que
obteve a seguinte e lúcida resposta dos Espíritos Superiores: "Outra
loucura! Que faça o bem e mais certo estará de lá chegar, pois, matando-se,
retarda a sua entrada num mundo melhor e terá que pedir lhe seja permitido
voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo de uma idéia falsa.
Uma falta, seja qual for, jamais abre a ninguém o santuário dos eleitos" (página
441 da edição da FEB, antes citada).
Por derradeiro, nestas rápidas
observações sobre tema tão complexo quão penoso, vale relembrar que há também o
suicídio indireto, que pode decorrer da gula, da ingestão de bebidas
alcoólicas, do uso do tabaco em suas variadas formas, da exposição voluntária a
riscos desnecessários (de que são exemplos as corridas de automóveis e de
motocicletas), etc., cumprindo dizer, ainda, que o suicídio indireto também
pode decorrer de viciações morais.
Pelo exposto, pode-se desde logo
extrair inarredável conclusão: a prática do Bem é um excelente remédio para
todos os males!
Fonte: Jornal Mundo Espírita – Nov/2001
|