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Deuteronômio - Lei Divina ou Mosaica?

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

  

... o Senhor escreveu nas tábuas, ... os dez mandamentos,... e pus as tábuas na arca ... como o Senhor me ordenou. (Dt 10,2-5)

Também o Senhor me ordenou ao mesmo tempo que vos ensinasse estatutos e preceitos, para que os cumprísseis... (Dt 4,13-14)

... tendo Moisés acabado de escrever num livro todas as palavras desta lei, deu ordem...  ponde-o ao lado da arca do pacto do Senhor... (Dt 31,24-26)

Introdução

Como sempre usam desse livro bíblico para condenar o Espiritismo, afirmando que a evocação dos mortos é proibida por Deus, resolvemos, por agora, desenvolver uma análise para saber até onde assiste a razão aos que assim pensam.

Pouco tempo atrás um bispo católico apresentou nosso livro A Bíblia à Moda da Casa aos fiéis, durante uma missa em que era o celebrante, dizendo: “A pessoa que o escreveu é muito inteligente, mas esse livro podia ser de um espírita”. Não poucas vezes ouvimos essa mesma cantilena. Entretanto, não ficamos chateados com isso, pois estamos certos de que realmente poderia mesmo vir de um espírita, pois ao espírita é dito para não aceitar as coisas passivamente, que deve questionar tudo, uma vez que os que não agem assim são encabrestados pelos que se julgam donos de um determinado conhecimento.

O sr. bispo recomendou às suas ovelhas que não lessem o tal livro. Engraçado, como são as coisas, pois para nós quando nos proíbem de ler alguma coisa é porque não estão tão certos da verdade que acreditam proteger, porquanto, quem tem certeza de sua verdade não teme absolutamente nada, nem mesmo os pensamentos contrários.

Como nós estamos constantemente em busca da verdade, não tememos ler nenhum livro ou artigo que seja contrário ao que achamos por certo, pois se os argumentos colocados nos convencerem de que a verdade está ali, abandonamos nosso pensamento anterior sem qualquer tipo de constrangimento: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32)

Deuteronômio: lei divina ou lei de Moisés?

É no livro Deuteronômio que buscam a base para a condenação do Espiritismo. Nós procuraremos demonstrar que são completamente incoerentes nessa assertiva, uma vez que, além de confundirem o objeto da proibição, nem eles mesmos fazem questão de cumpri-lo, usando, portanto, de dois pesos e duas medidas.

Primeiramente é importante saber o que significa Deuteronômio:

“O título grego do livro significa segunda lei ou cópia da lei: lei, porque o livro tem muito de código legal; segunda, porque outra a precedeu. Os judeus o chamavam debarim, ou seja, palavras: porque o livro, até o final do capítulo 33, é um longo discurso de Moisés. Um discurso no qual cabem muitas coisas. Se nos limitarmos a indicações programáticas, apontaríamos: começa o retrospectivo (1,1); começa a legislação (4,44); começa a aliança (28,69); começam as bênçãos (33,1)”. (Bíblia do Peregrino, p. 292)

O que contém:

“O Código deuteronômico contém também prescrições alheias ao Código da Aliança e por vezes arcaicas, que provêm de fontes desconhecidas”. (Bíblia de Jerusalém, p. 30)

Antes de morrer, Moisés dá início ao assentamento das tribos. Promulga um código que prevê e decide as situações mais importantes da comunidade: monarquia, sacerdócio, profetismo, culto, justiça social, guerra e paz, família, escravidão e sociedade, direito civil, processual e penal”. (Bíblia o Peregrino, p. 292).

“12,1-26,19. A Lei deuteronômica contém leis que se referem aos vários aspectos da vida nacional, como leis sociais, cultuais e criminais”. (Vozes, p. 211).

“O livro não é uma simples repetição da legislação contida nos livros precedentes, mas além de leis novas, oferece complementos, esclarecimentos e modificações às primeiras. É, de certo modo, uma segunda lei, promulgada no fim da longa peregrinação dos israelitas, paralela à lei dada no Sinai e destinada a regular mais de perto a vida do povo escolhido, no solo da Terra Prometida à qual eles estavam para chegar e dela tomar posse definitiva”. (Paulinas, p. 183).

Qual é a sua verdadeira origem:

“O Decálogo, dentro da Aliança, é a única Lei que provém diretamente de Deus; tudo o mais vem de Moisés” (Santuário, p. 242).

Quem quiser pode confirmar, que várias prescrições contidas nele podem ser encontradas no Código de Hamurabi, escrito cerca de 1780 antes de nossa era:

“A lei sobre os escravos aparece no Código da Aliança (Ex 21,1-5), como aparece também no Código de Hamurabi (art. 117), mas é fácil ver-se a grande diferença com a escravatura greco-romana”. (Santuário, p. 255).

“A lei de talião assenta-se em instituições sedentárias (Ex 21,24; Lv 24,19), contra os costumes nômades baseados nas represálias (Gn 4,15-24). O equilíbrio dos clãs exigia a lei de talião, em que o culpado é posto no lugar de sua vítima, existente no Código de Hamurabi (195, 197, 200, 210, 230)”. (Santuário, p. 260).

“O código de Hamurabi (par. 129) é mais benigno para estes casos que a lei de Israel”. (Santuário, p. 264).

Entendemos que se esse livro, o Deuteronômio, fosse mesmo de origem divina, os que têm a Bíblia como fundamento de sua religião, não deixariam de segui-lo. Entretanto, não é o que observamos, que, entre várias outras coisas, não cumprem:

Dt 21,15-16: Se um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem aborrece, e uma e outra lhe derem filhos, e o primogênito for da aborrecida, no dia em que fizer herdar a seus filhos