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João da Silva Carvalho
Neto
O Espiritismo caminha a passos
largos para o cumprimento de seu desiderato na Terra. As idéias propostas na
lucidez do pensamento Kardequiano granjeiam novos adeptos, transformando as
acanhadas fileiras vitimadas pelas perseguições do passado em multidões de
seguidores que quase dão um caráter de modismo ao movimento espírita.
Entretanto, os anseios
imediatistas ainda povoam as mentes desprevenidas que esperam encontrar curas
miraculosas ao abraçar a crença religiosa.
Lembramo-nos da pergunta de
Pedro a Jesus, diante da decepção do jovem rico: "Eis que nós deixamos
tudo, e te seguimos; que receberemos?" (Mt 19-27), e sentimos que, na
verdade, ela encontra eco nas expectativas de uma larga legião dos modernos
cristãos. Para muitos, o Espiritismo continua a ser a mesma tábua de salvação
buscada em outros caminhos, onde todo o mal e toda a dor deveriam desaparecer.
Certa feita, ouvimos uma
discussão acirrada, em uma casa espírita que visitávamos, sobre se o Espiritismo
cura. Ainda hoje acreditamos ser polêmica essa questão, mas que se define na
medida em que constituamos o que se entende, ou melhor, se espera por cura.
Se falamos da cura do corpo,
certamente que não. Quem cura são os médiuns curadores, os serviços de passe, a
água fluidificada, que utilizamos nos centros espíritas, mas que não são A
Doutrina Espírita. São explicados e aplicados por ela, sem que dela se
constituam postulado fundamental.
Postulados espíritas são a
existência de Deus, a imortalidade da alma, a reencarnação, a pluralidade dos
mundos habitados, a comunicabilidade entre os vivos e os chamados mortos.
Muitas práticas estão incorporadas às atividades espiritistas por serem
correlatas com a sua doutrina, contudo não compreendem uma ideologia, apesar de
nela serem elucidadas.
Agora, se falamos da cura da
alma, do espírito imortal, nenhum receituário jamais enunciou tantos
medicamentos que nos libertassem do sofrimento. Na medida em que esclarece as
leis da vida, e sua relação prática com o cotidiano, prepara o retorno ao
estabelecimento da saúde espiritual, em toda sua plenitude. Não de inopino, é
claro, já que o tempo de recuperação sempre estará ligado ao grau de
comprometimento com o erro e ao esforço por se modificar em função da
responsabilidade que se adquire com o saber. Dez anos, cinqüenta anos, duas
encarnações, não se sabe. Velho provérbio budista afirma que "se não for
em sete dias, ou em sete anos, será em sete reencarnações". Como
conseqüência do aprimoramento espiritual, as doenças do corpo, que são reflexos
das imperfeições do espírito, deixarão de existir, e este encontrará também a
saúde.
A diferença está em que enquanto
os serviços de passe, os médiuns curadores, a água fluidificada, objetivam
atender ao corpo, físico ou espiritual, beneficiando-lhe mas sem imunizá-lo
contra a recidiva, a aplicação do pensamento espírita reformula a própria
postura do espírito diante da vida, e, como nele se alojam as matrizes
primárias das enfermidades, a cura será definitiva.
Como dissemos alguns parágrafos
atrás que, se falamos do corpo, certamente o Espiritismo não o cura, acho que
acabamos nos contradizendo.
Talvez a Doutrina Espírita cure
mesmo. Talvez seja ela a tábua de salvação para as dores do mundo. A questão
continua a ser o que na verdade queremos curar; o que precisamos curar. Quanto
tempo estamos dispostos a esperar. Quanto sacrifício nos dispomos a doar. E
saber, por fim, se queremos a felicidade transitória do mundo ou a paz dos
bem-aventurados com Jesus.
Fonte: Jornal Mundo Espírita – Out/1997
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