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Paulo Henrique D. Vieira
Este foi o tema central do 2º Congresso Espírita
Mundial, que ocorreu em Lisboa no mês de outubro do ano que se findou, reunindo
espíritas de 29 países, num acontecimento que sem dúvida nenhuma deu mais um
importante passo para a consolidação do Espiritismo no Brasil e no Mundo.
Aproveitamos a temática central do 2º CEM para discorrer sobre o papel da doutrina
codificada pelo grande educador lionês ante o novo milênio que se descortina
para a Humanidade, marcando o início do processo de regeneração do orbe ao qual
estamos vinculados.
A Doutrina Espírita veio a lume, através das mãos de
Allan Kardec, numa época em que o materialismo pregava que a existência do ser
humano se reduzia à matéria e pretendia que a consciência humana era fruto de
mudanças físicoquímicas no sistema nervoso.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) 1, filósofo alemão, numa tentativa de desacreditar o
Cristianismo, afirmando que os preceitos morais do Cristo tinham perdido o poder
na vida das pessoas e formulando o seu niilismo passivo,
expressou esta concepção em sua proclamação “Deus está morto”. Amigo íntimo do
compositor alemão Richard Wagner, apaixonou-se perdidamente pela mulher do
musicista que representou a máxima expressão do romantismo na música européia,
não sendo por ela correspondido.
Nos últimos onze anos de sua vida sofreu um
desarranjo mental de que nunca se recuperou, talvez numa intercessão da
Misericórdia divina para que o filósofo não se suicidasse devido a sua
desilusão amorosa.
Os séculos que sucederam ao Renascimento e
desembocaram no Iluminismo foram uma espécie de “crise de adolescência do
pensamento humano”, numa época marcada pela retomada do desenvolvimento da
ciência, do pensamento filosófico, da música, da literatura e das artes, onde
pensadores sufocados pelo jugo clerical que vinha desde a Idade Média,
horrorizados com as barbáries praticadas pelos tribunais da Inquisição,
atribuíram à doutrina do Cristo as atrocidades praticadas pelos homens que
detinham o poder religioso.
Esqueciam eles que o Cristo não tinha qualquer
responsabilidade pelos atos praticados pelos religiosos que não compreenderam
sua doutrina ou não quiseram compreendê-la, adequando-a aos seus interesses
transitórios, pois Ele mesmo disse que quem usasse a espada, pela espada
morreria. (Mateus, 26:52).
Kardec, durante o desdobramento da Codificação, além
de enfrentar as correntes materialistas do século XIX, teve que defrontar
também com os religiosos ortodoxos, que não aceitavam a comunicabilidade dos
Espíritos – uma prática que era comum nos ritos da Igreja Católica Apostólica
Romana nos primórdios do Cristianismo e que foi proibida no início do século
IV, no governo do Imperador Constantino.
O Espiritismo, na França, apesar dos esforços do
Codificador em ressaltar o seu aspecto moral alicerçado na mensagem cristã,
sempre foi observado mais no seu aspecto científico-filosófico, do que
propriamente no seu aspecto religioso.
E muitos grupos no Exterior e mesmo no Brasil ainda
insistem neste erro. Tal vez seja por isso que a doutrina filosófica, de fundamentos científicos e
conseqüências religiosas, tenha se
transferido da França para o Brasil, onde graças aos esforços de Espíritos como
Emmanuel (um dos coordenadores espirituais do movimento literário-espírita
brasileiro) através do médium Francisco Cândido Xavier, o Espiritismo se
consolidou como religião, pois segundo as palavras de Emmanuel o Espiritismo é
o próprio Cristianismo redivivo. As obras de André Luiz representam um marco,
em que o autor espiritual explica com clareza pormenores do mundo dos
Espíritos, onde existem animais, plantas, cidades e uma vida social organizada,
pois em “O Livro dos Espíritos”, as Entidades superiores deixam claro que o
plano físico é uma cópia imperfeita do mundo espiritual, mas não minudenciam
estes detalhes.
O intermediador humano da Doutrina Espírita afirmou
que o Espiritismo nada teria a perder com o avanço da Ciência, e a própria
Ciência vem confirmando as assertivas de Kardec, provando que apesar de viver
no século XIX, o Codificador tinha uma visão da realidade que lhe permitiu
avançar sobre seu próprio tempo.
Os Espíritos revelaram, através do sistematizador da
Doutrina, que o homem possui um invólucro semimaterial, modelador do corpo
físico, ao qual, chamaram de perispírito.
J. Herculano Pires cita em sua obra 2 que cientistas soviéticos (materialistas) da
Universidade de Kirov na cidade de Alma-Ata no Kazakstão descobriram o corpo
bioplásmico do homem e puderam vê-lo e fotografá-lo.
Vários moribundos foram submetidos às câmaras Kirlian
* de fotografia, onde detectores de pulsações biológicas registraram a
sobrevivência do corpo bioplásmico (perispírito) após a morte física. Em 1968
os cientistas russos anunciaram que não só o homem, mas os animais e vegetais
possuíam, além da constituição física, um corpo energético formado de plasma
biológico.
Charles Richet, médico fisiologista (Prêmio Nobel de
Medicina em 1913), que mais tarde viria a ser pai da Metafísica, foi um dos
cientistas a pesquisar as materializações espirituais, sendo dele a
nomenclatura que deu nome à substância que se assemelha a uma massa de cor
clara liberada pelos médiuns de efeitos físicos, que permite a materialização
dos Espíritos desencarnados, conhecida por ectoplasma 3.
O psicólogo americano Joseph Banks Rhine, que
lecionava nas Universidades de Chicago, Harvard e Duke, desenvolveu extensas
pesquisas experimentais sobre telepatia, clarividência e outras, chegando a
afirmar que a mente não é física e sim extrafísica, fato comprovado pelas
experiências com o sonambulismo magnético, onde doentes mentais em transe
conseguiam resolver até cálculos matemáticos, comprovando-se que o que se
encontrava em desordem era o cérebro físico, instrumento do qual o Espírito se
utiliza para exteriorizar a inteligência.
A Doutrina Espírita se apresenta sob três aspectos:
a) o das manifestações espirituais, que serviram de
base para a codificação do próprio Espiritismo;
b) os princípios e a conseqüente filosofia que delas
decorrem;
c) a aplicação desses princípios, que nos levam ao
aspecto religioso do Espiritismo, que está alicerçado sobre o Evangelho de
Jesus, encontrando nas suas máximas o caminho para a reforma moral e a
transcendência da personalidade.
Insistir em negar o aspecto religioso do Espiritismo é
entrar em choque com a própria codificação feita por Kardec. É fato patente que
somos imortais, é lei a necessidade da reencarnação, mas o que adianta tudo
isto desvinculado do Evangelho do Cristo?
O Evangelho de Jesus representa, pela palavra dos
próprios Espíritos, "um compêndio de leis da sabedoria divina”. Contestar
o aspecto moral da Doutrina Espírita é querer reduzi-la a mais uma ciência, que
sequer é reconhecida pela ciência ordinária.
O entendimento do tríplice aspecto do Espiritismo
descortina para o ser humano o Evangelho de Jesus em toda a sua coerência, pois
são as diretrizes expostas nele que ajudarão no desenvolvimento do nosso senso
moral, pois as máximas cristãs visam à educação e ao controle de nossas reações
inferiores como o ódio, a vingança, a maledicência, a maldade e tantos outros
sentimentos inferiores que agasalhamos dentro de nós – sentimentos, aliás,
típicos em Espíritos que estão em evolução, na luta pelo aprimoramento da
individualidade.
Vemos que os postulados espíritas vão-se confirmando
com o aparecimento de fenômenos que surgem por assim dizer fora do Espiritismo
como a TCI (Transcomunicação Instrumental) que comprova a imortalidade da alma
e a comunicabilidade dos Espíritos com os encarnados, por uma via até então
inédita – a eletrônica.
O mesmo ocorre com a da TVP (Terapia de Vidas
Passadas) que tem feito que psiquiatras e psicólogos se rendam às evidências da
reencarnação.
As experiências de quase morte (EQM), que já foram
vivenciadas por pessoas do mundo inteiro, e que em alguns casos até provocam
uma melhora moral na pessoa que pôde passar algum tempo entre a fronteira do
mundo físico e a do mundo espiritual.
Nossa doutrina é evolucionista e em se falando de
Espiritismo, “se disse a primeira palavra mas nunca se dirá a última”.
A divulgação do Espiritismo no próximo século pelo
resto do mundo, além de ser inevitável, tende a trazer enormes benefícios para
a Humanidade, pois o Espiritismo é a doutrina que esclarece ao homem a sua
origem, o porquê da sua existência, o que ele pode esperar depois da morte
física, mostrando-lhe a responsabilidade de seus atos, pois se a semeadura é
livre, a colheita é obrigatória para cada um de nós. Alem disso, a Doutrina
Espírita tende a destruir o materialismo, a acabar com o racismo gerado pelo
sentimento de raça, cor e casta, uma vez que mostra que por nossa origem
espiritual somos irmãos uns dos outros. Ela é o mais poderoso antídoto contra o
suicídio, por deixar claro que a vida é indestrutível.
O Espiritismo provocará a maior revolução histórica
no pensamento humano, como está explícito nas questões 798 e 799 de “O Livros
dos Espíritos” 4
quando ocupar o lugar que lhe é devido
no conhecimento humano, pois seus princípios morais ensinarão aos homens a
grande solidariedade que os há de unir como irmãos, mostrando também que o
progresso intelecto-moral na vida de todos os Espíritos é lei, tomando por
exemplo Jesus, o maior arquétipo da perfeição que um Espírito pode alcançar até
onde nos é dado conhecer, lembrando suas próprias palavras:
“Eu disse: vós sois deuses (...)”. (João, 10:34) .
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* Espécie
de câmara fotográfica que detecta a aura (irradiação perispiritual que seria uma espécie de extrapolação de eflúvios
dos seres biológicos), e que é usada pelas pesquisas da efluviografia.
Referências
bibliográficas:
1.
NIETZSCHE, Friedrich. Enciclopédia ® Microsoft ® Encarta 99. ©
1993-1998.
2. PIRES,
J. Herculano. Concepção Existencial de Deus, Editora Paidéia, 1981. P.
39
3.
MONTEIRO, Benedito da Gama. Materializações Espirituais, Revista Reformador, outubro de
1995.
4. KARDEC,
Allan, O Livro dos Espíritos, Parte 3ª, q. 798 e
799, cap. VIII, item VI – Influência
do Espiritismo no Progresso.
Fonte: Revista Reformador – Maio/1999
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