|
Jorge Cecílio Daher
Júnior
Introdução
Ronald Laing, psiquiatra inglês, afirma que “os místicos e os esquizofrênicos encontram-se
no mesmo oceano; enquanto os místicos nadam, os esquizofrênicos se afogam.”
A relação entre mediunidade e doença mental vem de muito tempo. Veremos adiante
sua relação com o demonismo da era medieval. Allan Kardec dedica o capítulo
XVII de O Livro dos Médiuns para tratar dos “Inconvenientes e Perigos da
Mediunidade” e questiona se a mediunidade poderia desenvolver a loucura. Os
Espíritos respondem que não, desde que não haja predisposição para isso. A resposta
ensejará pequena consideração quando tratarmos da visão da loucura, à época de
Kardec.
Conceito histórico da loucura
Reconheço que cabe ao Prof Isaías Pessoti todo o
material que serve de base a essa parte , graças ao seu “ A Loucura e as
Épocas”.
Esquematicamente, veremos o conceito de loucura conforme as épocas mais importantes
da humanidade ocidental, nos fixando nos períodos que definiram novos
conceitos.
Conceito de Loucura na Antiguidade
A Antiguidade grega tem em Homero, autor de as Ilíadas, a primeira conceituação
de loucura. A época de Homero e de Hesíodo tem a loucura como conseqüente à
ação dos deuses, que a usavam como recurso para que os seus desejos não fossem
contrastados pelos desejos dos homens.
O homem não é soberano sobre si mesmo, têm os deuses poderes para
interferirem como queiram na vida dos mortais. A loucura é de origem externa ao
homem, é o roubo da razão pelos deuses, que determinam a vida do homem.
Eurípedes aponta a origem da loucura como decorrente de conflitos internos, o
homem não seria conduzido fatalmente à loucura, senão por uma parcela de responsabilidade.
Porém, cabe aos deuses roubar a razão.
Hipócrates vê o homem como um ser em equilíbrio orgânico. Qualquer desarranjo
nesse desequilíbrio, provoca a doença e a loucura. A causa da loucura é a
ruptura do equilíbrio orgânico, uma visão aparentemente organicista, não
fosse a anátomo-fisiologia de Hipócrates calcada em bases metafísicas.
Quem profundamente marcou o conceito médico de loucura foi Galeno. Ele restaurou
a vida psíquica do homem, trazendo o conceito de pneuma psychicon, a sede
da vida mental.
A Antiguidade Clássica apresentou, enfim, três perspectivas de loucura. Numa
ela aparece como obra da intervenção dos deuses, noutra afigura-se como um produto
dos conflitos passionais do homem, mesmo que permitidos ou impostos pelos
deuses; numa terceira, a loucura afigura-se como efeito de disfunções
somáticas, causadas eventualmente, e sempre de forma mediata, por eventos
afetivos.
A Doutrina Demonista
A idéia medieval da intervenção diabólica como causa da loucura, e de outros distúrbios
do homem, não deve ser entendida como algo que surgiu naquele momento, de modo
circunstancial.
Toda a fundamentação teórica do que chamaremos de período escuro do saber
humano, onde a imposição teológica serviu como instrumento coercitivo de poder,
vem dos primórdios do cristianismo e surgiu como conseqüência da doutrina desenvolvida
a partir dos Padres Apostólicos até Agostinho de Hipona.
A doutrina que se caracterizou como sendo a doutrina de Cristo, tem em sua concepção
teológica, a figura do satanás, no sentido nítido de opositor, como sendo a
figura do outro. Os pagãos e tudo que a eles se relaciona passam a ser
demônios.
Agostinho afirma que o mal não possui existência própria; Deus permite a existência
do demônio para tornar possível o aperfeiçoamento do homem pela busca de Deus.
Tomás de Aquino faz da Escolástica referência da doutrina demonista, que vê o
demônio como conhecedor das coisas e dos homens, habita o éter e age com a
permissão de Deus.
O mundo se povoou de demônios e, talvez, possamos resumir o que representou
essa época de obscurantismo para a psicopatologia compreendendo que, para a
doutrina demonista, não se afirma “ possesso, portanto louco; mas, louco,
portanto possesso.”
Como alguns sinais que evidenciam possessão diabólica, cita Chondrochi:
“… falar línguas desconhecidas ou entendê-las quando faladas por outros;
descobrir e revelar fatos ocultos, esquecidos, futuros, secretos, pecados e
pensamentos dos presentes; discutir assuntos elevados e sublimes quando se é
ignorante; falar com elegância e doutamente quando se é ignorante; sentir-se
impulsionado por uma persuasão interior a lançar-se num precipício ou ao
suicídio; tornar-se inesperadamente tolo, cego, coxo, surdo, mudo, lunático,
paralítico.”
Enfoque Médico da loucura
No século XVII a psicopatologia tem forte inspiração da doutrina platônica e do
galenismo. Mesmo assim, o conceito de possessão ainda é admitido como causa da
loucura. Mas a loucura passa a ser encarada como fenômeno natural e da alçada
médica.
No século seguinte, Cullen afasta-se do galenismo e classifica a loucura como
desarranjo das faculdades intelectuais. Não afasta a possibilidade, ainda que remota,
da intervenção demoníaca. Arnold reforça que o substrato da loucura é alteração
das faculdades mentais, não necessariamente das funções cerebrais.
A Loucura Segundo a Psiquiatria do Século XIX
O início do século passado foi a era de Pinel. Esse alienista que, quando
indicado para o Hospital de La Bicêtre, liberta os loucos das amarras por
entender que a loucura é fruto da imoralidade, entendida como os excessos e
paixões de toda a ordem..
Pinel admite a loucura como lesão das faculdades mentais, de ordem orgânica ou
moral. Por isso, propõe um tratamento moral da loucura, indicando a função de
um diretor espiritual e ação notadamente repressora sobre os pacientes, que
chamaria de reeducação moral.
Esquirol, discípulo de Pinel, esforça-se em buscar uma correlação orgânica com
as diferentes formas da loucura, mas admite que existe loucura sem que se detecte
qualquer lesão cerebral. Mas toda causa moral tem sua ação obrigatoriamente
sobre o encéfalo.
Perchappe, que teve o mérito de um estudo epidemiológico da loucura,
afasta do estudo da loucura qualquer especulação filosófica.
Cotard antecipa o enfoque psicodinâmico, mas trata de afastar a
metafísica, principalmente a especulação sobre os corpos do homem. Desenvolve
uma teoria psicopatológica de repressão do desejo, agindo sobre a mente, mas
recusando-se a estudar a alma e o espírito.
Conceito espírita da loucura
Podemos passar ao estudo do conceito espírita da loucura, que teremos em
Bezerra de Menezes, “A Loucura Sob Um Novo Prisma” e Manoel Philomeno, desenvolvendo
as idéias de Bezerra, em “ Loucura e Obsessão”.
À época da Codificação, o conceito de loucura elaborada por Esquirol encontrava
enorme repercussão. A busca de um substrato cerebral como causa da
loucura, em uma época marcada pelas mesas girantes, faz justificar a
mediunidade como fruto da alucinação.
A negação do princípio espiritual, ou a afirmação de uma alma apenas
metafísica, faz ver como produto de uma mente excitada os fenômenos visuais da
mediunidade. A teoria alucinatória tenta enquadrar a mediunidade na
psicopatologia, nos quadros de exaltação delirante.
Mas o que é a alucinação? Um erro da percepção, dirão os alienistas. Mas por
que ocorre esse erro? Se é um erro, por que o caráter inteligente da
alucinação, que se comunica com o que alucina de forma coerente e racional,
dando sobejas provas da existência de um ser comunicante? Qual a fisiopatologia
da alucinação?
Allan Kardec responde essas questões em O Livro dos Médiuns, propondo uma
teoria da alucinação, que ocorre como decorrência da leitura das impressões cerebrais
pela alma emancipada. Onde estariam essas impressões? Na verdade, não no
cérebro físico, mas registradas nas camadas mais grosseiras (ou mais
densas) do perispírito _ especulo ousadamente. O que se ressalta da fisiopatologia
da alucinação proposta por Kadec é a inclusão da alma, ou do Espírito reencarnado,
atuante, não abstrato.
Desnecessário nos é falar sobre as provas da realidade espiritual. Reforçamos
apenas que, o desenvolver de uma teoria espírita da loucura, tem por base o homem/Espírito,
tão bem apresentado por Kardec e pelos sábios Instrutores espirituais.
A decorrência natural de assumir-se a primazia do Espírito sobre o corpo é discutir-se
o papel do cérebro nas manifestações da alma.
Como pudemos observar na evolução do conceito de loucura, partiu-se de causas
exteriores à vontade do homem até a visão hipocrática de alteração dos humores
orgânicos. O cérebro se constituiu como órgão do pensamento, até que a doutrina
demonista trouxe o terror representado por intervenções além do cérebro, provocando
a loucura. Criou-se, depois o termo faculdades mentais como conseqüência de ter-se
loucura mesmo com o cérebro íntegro. No final do século passado a visão de que
alteração da fisiologia cerebral traz doença mental, reinforçou a centralização
da mente sobre as funções cerebrais.
Hoje, a ciência vê o cérebro como complexa glândula endócrina, indo mais além,
possuidor de bilhões de circuitos por onde transitam os pensamentos e as
idéias. Onde está a consciência, onde está a mente? Nenhum gênio das ciências
da mente saberá responder. Um tema palpitante de especulação científica é o da
interação mente-corpo, que é de orientação notadamente organicista, por isso,
muito mais próxima do materialismo vigente.
Como conseqüência dessa visão, que não admite qualquer especulação filosófica
nos moldes clássicos, decorrente da postura cientificista de Perchappe,
justifica-se, por exemplo, a esquizofrenia como alteração da neurotransmissão
cerebral, afetando sistemas neurotransmissores da dopamina, serotonina e
noradrenalina, de áreas específicas do cérebro. A mesma série de
neurotransmissores, em locais diferentes do cérebro, é evocada para justificar
a depressão, a dependência química, entre tantas doenças de manifestação,
evolução e tratamento diferentes.
A teoria psicodinâmica, que envolve os fundamentos da psicologia médica, entre
elas a psicanálise, a vertente cognitiva-comportamental, entre outras,
estabeleceu-se como ramo não-especulativo, modernamente, acomodando-se como
subsídio terapêutico e afastando de si as vertentes que não se adequam à
submissão ao organicismo.
O livro “ A Loucura Sob Novo Prisma”, de Bezerra de Menezes, após apresentar a
cosmogonia espírita, começa por definir o papel do cérebro nas manifestações da
mente. Seria o órgão do pensamento, gerador dos sentimentos, dos afetos, dos
ideais, do amor? A capacidade de amor ou ódio se mede por disposições cerebrais
diferentes? Tal especulação repugna à idéia. Reduz o papel dos avatares da
humanidade ao de simples produtos de um cérebro anormal (anormal enquanto fora
dos padrões usuais). Por outro lado, faz do depravado, do homicida cruel, do
serial killer, uma vítima de seu órgão diferenciado, porque pouco desviado do
normal. Uma visão como essa justifica uma sociedade que produziu idéias de seleção
de raças, a eugenia.
Mas há fragilidade em considerar-se o cérebro a sede da mente, ou consciência.
Em 1966, uma notícia teve repercussão em todos os Estados Unidos. Ernest Coe
tivera todo o seu hemisfério cerebral esquerdo destruído por um tumor, que foi
extirpado cirurgicamente. Para surpresa da equipe médica, o paciente permaneceu
vivo por mais de seis meses, mantendo todas as suas funções normais. Destaco
que o hemisfério esquerdo é o dito dominante. Mais ainda, se o cérebro é a sede
da consciência, como justificar tal fato? Por reação vicariante, ou seja, a hipertrofia
de funções pelo lado remanescente?
Mais ainda, em se considerando o cérebro como sede da mente, produtor dos
pensamentos, idéias, emoções, sentimentos. Mesmo entre gêmeos univitelinos,
existe discordância de 50-40% na incidência de esquizofrenia quando um dos pares
é afetado. Fosse o cérebro a sede da mente, por serem os gêmeos univitelinos
donos de aparelhos idênticos, por que a discordância e não o fatalismo?
Estejamos prontos para a visão espírita do cérebro como instrumento da mente.
Emmanuel define a mente como “ o espelho da alma”, em seu livro “Pensamento e
Vida”. Na verdade, a mente não é a alma, mas é fruto dela. Não está no cérebro,
mas no perispírito, que reflete as disposições do Espírito eterno.
O corpo intermediário entre o Espírito e o corpo imprime na matéria densa as disposições
colhidas nas experiências passadas e atuais, atuando como vigoroso modelador
biológico. Assim, cada célula, em sua ligação molecular com o perispírito,
recebe as impressões de variada ordem, reflexo da jornada individual. Ao ser
encaminhado à reencarnação, o Espírito expressa seu propósito de renovação,
confrontando com o arrastamento das tendências. Essa psicologia profunda se
irradia por todo o perispírito que a transpõe ao corpo físico, gerando as
disposições orgânicas às doenças, que no fundo são sempre de gênese espiritual.
O Espírito se exprime, o que o perispírito manifesta como pensamento. Quando
encarnado, encontra no cérebro físico apenas um instrumento. Se esse instrumento
encontra-se lesado, não exprimirá o pensamento vindo do perispírito. Mas se o
cérebro encontra-se alterado apenas funcionalmente, sem lesão alguma, é porque
o gerador do pensamento o faz de modo defeituoso. Qual a causa da alteração do
pensamento, em nível anterior ao cérebro, ou seja, no campo do corpo
espiritual?
O próprio corpo espiritual pode achar-se alterado transitoriamente, devido a
sentimentos diversos, cuja gênese está no remorso, gerado
por sentimento de culpa. Pode, também, estar sob a influência nociva de outra
mente espiritual, interferindo diretamente sobre suas funções, no caso,
obsessão espiritual.
Nos casos onde há o que chamei de alteração transitória do perispírito,
transitória no sentido de que não é eterno, ocorre o que conhecemos por
processos auto-obsessivos. Nesses fenômenos, não há a interferência direta de
entidades estranhas na Gêneses da psicopatologia de nível espiritual.
O livro “Os Mensageiros”, de André Luiz, traz o caso de Paulo, internado em
Posto de Assistência, ligada a Nosso Lar. Esse Espírito, recolhido em estado de
profunda alienação, apresentava psicosfera repleta das imagens por ele geradas,
quando foi acometido pelo remorso por suas ações nefandas. André Luiz auscuta
todos os conflitos que o paciente vivencia, as imagens das pessoas por ele
lesadas, as conseqüências de seus atos. Paulo, esse o nome do Espírito
adoentado, experimentava fenômeno auto-obsessivo, já no plano espiritual.
Em “Loucura e Obsessão”, Manoel Philomeno traz-nos o caso de Ânderson, que
estava sendo tratado no terreiro de Umbanda, dirigido espiritualmente por Emerenciana.
Ânderson se enquadrava no diagnóstico médico de autismo, tal seu estado de
introspecção e fuga da realidade. Dr. Bezerra diagnostica processo
auto-obsessivo, cuja gênese está em carpir intensa atividade mental em faixas
do crime e da viciação, cometendo delitos que podem ser ocultados de todos,
exceto da consciência que os registra e exige reparação. Transmite ao cérebro
essa realidade, gerando circuitos cerebrais que aniquilam a polivalência das
idéias. Tais são os processos depressivos graves, sem resposta terapêutica, por
que o cérebro apenas transmite os fenômenos do Espírito adoentado.
No caso em questão, Ânderson buscava sofregamente o refúgio de seu castelo
celular para não enfrentar a própria consciência que acusava, agravado
pela presença de cobradores espirituais.
Quando o processo se dá pela interferência obsessiva, geralmente o Espírito
interferente logra atingir seus resultados pela sintonia que faz com sua
vítima.
Numa rememoração rápida, Allan Kardec classificou a obsessão, conforme sua
intensidade, em simples, fascinação e subjugação. André Luiz afirma que os processo
de fascinação e subjugação podem ser agravados por fenômeno de vampirização.
O mecanismo que leva à fascinação e à subjugação é apresentado pelo Dr. Bezerra
de Menezes, que o subdivide em duas fases distintas, desfalecimento e arrastamento.
Na fase de desfalecimento, o que ocorre é reação advinda da concessão a um mal
que subjugava intimamente. Nesse caso, um homem bom, tinha nos seios da alma
uma paixão que subjugava e, um dia, por circunstância imprevista, foi por ela
arrebatado. Despertado após o mal já cometido, tenta encobrir a falta ao invés
de vomitar o veneno, instalando em si o gérmen do desequilíbrio.
Com o abrir as portas da invigilância os maus Espíritos, é incitado a saciar a
sede da paixão represada, porém não o obtém senão às custas de um mergulho profundo.
Se começa tremendo, vai envolvendo-se mais e mais, até o total rompimento com
os valores que cultivava. Isso é o arrastamento.
Na fase de arrastamento, está de todo vulnerável, as defesas acaso erguidas baixam-se
e pode, finalmente, ser atingido por inimigos de outrora, que se tornam
empedernidos cobradores, buscando tirar muito mais do que deram, em vingança
cruel. Outras vezes, se torna joguete de Espíritos cruéis, que o utiliza
como um mero servo de seus desejos, escravizando-o em vampirizações cruéis.
Quem não se lembra do jovem candidato à mediunidade, apresentado por André Luiz
em “Os Missionários da Luz”, que traz em seu centro de força genésico duas
entidades vampirizadoras, acopladas parasiticamente pela sintonia dos lupanares?
Certa ocasião, foi encaminhado ao nosso Grupo de Desobsessão, jovem, masculino,
alcoólico, que apresentava distúrbios da conduta sexual, manifestada por travestismo
e prostituição. Buscando auxiliá-lo, em técnica de desdobramento, o médium Z
detectou entidade espiritual de aspecto degenerado, de formas esquálidas, como
se fosse um corpo mumificado, segurando em sua mão algo semelhante a uma
garrafa, fixado ao paciente através do centro genésico. Após intervenção dos
dirigentes espirituais na remoção do ser oportunista, houve acentuada melhora
do paciente, que até hoje não cumpriu a promessa de retornar ao grupo.
Devemos, também, abordar os casos de loucura decorrentes de alterações funcionais
do cérebro que se dão em função de processos expiatórios, decorrentes das
faltas cometidas pelo que hoje padece.Nesses casos, como o Espírito culpado
gera vítimas, pode-se associar quadros obsessivos que atuam como complicadores
da doença.
Quando o Dr. Bezerra de Menezes foi solicitado a acompanhar o caso de Carlos,
conforme está no livro “ Loucura e Obsessão”, o paciente, de vinte anos, há
oito padecia de esquizofrenia do tipo catatônica. O bondoso médico deu o
diagnóstico como correto, mas questionou o prognóstico. Além da realidade
cerebral, a realidade espiritual de Carlos mostrava agravante quadro obsessivo,
complicador de seu resgate expiatório.
O paciente sofria todos os processos orgânicos da doença grave, mas a
influência obsessiva perturbava-lhe as funções do sangue, gerando anemia e
carências várias.
Tanto nos casos de obsessão de longo curso, como de loucura agravada por subjugação,
o cérebro pode sofrer conseqüências danosas, o que torna a cura complexa e de
difícil curso.
O sofrimento imposto pela doença, gerada pelo Espírito, que imprime em seu perispírito
os transtornos conseqüentes às faltas perpetradas, refletidas nas alterações
sobre os centros de força nos casos expiatórios, ou em transtornos
auto-obsessivos, bem como nos processo de subjugação pelo arrastamento, pode
levar o cérebro a processo demenciais.
Isso porque, nos casos expiatórios, os centros de força estão
desorganizados, reflexo das faltas passadas e da culpa assumida pelo Espírito.
Nos casos de subjugação, a emanação fluídica do Espírito obsessor atua
diretamente sobre o perispírito da vítima, também fazendo com que o fluxo
energético entre os centros de força não se dê de modo adequado. Nos processos
auto-obsessivos, há excessiva contração dos chakras afetados.
Tratamento Espírita da Loucura
Uma vez que tentei tratar de tema tão complexo, vasto, difícil, que é a visão
espírita das causas da loucura, o que poderíamos esperar de um tratamento
genuinamente espírita?
Nos casos onde há a intervenção médica, as substâncias recomendadas devem
ser ministradas. No caso de Carlos, Dr. Bezerra não desaconselha o
tratamento médico. Isso porque os anti-psicóticos trazem alívio ao
cérebro excitado, diminuem os ricos decorrentes das atitudes bizarras e
condutas inapropriadas. Depois, aprimoram, no que é possível, o instrumento já
avariado em seus circuitos, ainda que não conseguindo atingir o agente causal
do distúrbio, que é o Espírito.
Ao tratar da terapia espírita da loucura, o sábio Bezerra de Menezes propõe:
fluidoterapia intensiva: Carlos era submetido, pelos Espíritos, a fluidoterapia
quatro vezes ao dia;
terapia ocupacional, voltada para o próximo, em atividades de benemerência, que
visam despertar o ser eterno e fazê-lo granjear méritos que aliviarão suas
dívidas a serem resgatadas;
desobsessão, que visa moralizar o Espírito obsessor, não pela repressão, mas
pelo convite ao perdão como instrumento da própria liberação;
moralização do paciente, que tem por objetivo despertá-lo para os erros
cometidos e para a necessidade de renovar-se pela prática do bem.
Nesse ponto, poderíamos questionar como moralizar um louco? É o que questiona o
próprio Bezerra de Menezes, para depois responder que o faz através da evocação
do Espírito encarnado, fato esse que não se faz sem risco de mistificação,
exigindo a mais alta seriedade de propósitos e profundo senso crítico e conhecimento
profundo dos mecanismos da obsessão.
A proposta terapêutica espírita é absolutamente uma terapia moral. Desconsideremos
aqui o conceito de moral como costumes aceitos, mas ressaltemos moral como
conduta de elevação espiritual. Por isso, diferentemente de Pinel, a terapia a
ser empregada não é repressora, pelo contrário, visa libertar o doente das amarras
através do esclarecimento, do convite à prática de atividades de benemerência,
do envolvimento daqueles que, antes de serem tratados por Espíritos obsessores,
são seres como nós, que merecem nossa atenção e nosso carinho.
Certa ocasião, em desdobramento fisiológico, fui conduzido ao Sanatório
Espírita de Anápolis, para uma praça que não tem equivalência física. Encontrei
Justino, um paciente psicótico crônico, cuja família não o suporta, mas que
sempre mantive animado relacionamento. Ele estava sério, não tinha a fácies de
alienação, mas seu olhar era de uma lucidez que jamais vi em Justino. Se
aproximou mais e mostrou-me uma cena em que ele protagonizava um
desequilibrado, como o era na realidade cotidiana dessa existência. Disse-me
que era louco por imposição da corrigenda, que sofria muito, como Espírito,
vivenciar tudo aquilo, as experiências como um celerado.
Desde aquele dia, percebi que Justino não era doente, era um ser como qualquer
um de nós, ele tinha alma. Suas dificuldades, oriundas de pesada expiação, por
certo não encontrariam alívio imediato nessa existência, e lembrei-me do amigo
Bezerra de Menezes, que dava apenas o que tinha de si, o amor.
Quando diante de irmãos em expiações pelos corredores da alienação, lembremos
da Dra. Kübler-Ross que, nomeada psiquiatra numa instituição que abrigava
psicóticos crônicos, ofereceu a eles amor, e, aos poucos, eles foram recobrando
a lucidez que lhes era ainda possível, mas o suficiente para retornarem aos
seus lares.
|