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Vinícius Lousada*
“(...) A
infelicidade é a alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a
satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, (...).” –
Delphine de Girardin[1]
[1]
Todo mundo que se encontra reencarnado na
Terra, de uma forma ou de outra, já se viu às voltas com as decepções
ocasionadas por experiências que não deram certo. Os malogros nas expectativas
geram em nosso íntimo um sentimento de frustração capaz de nos levar às
lágrimas ou até mesmo, se formos descuidados, a um quadro de desequilíbrio
emocional.
A reação diante das desilusões varia de acordo com o nível de consciência, de
quem as experimenta, com relação à dinâmica da vida. Existem pessoas que, em
suas análises descabidas, se revoltam e põem-se a culpar terceiros de seus insucessos;
alguns também dizem ser por causa dos Espíritos desencarnados o mau resultado
de seus empreendimentos. Muitos se revoltam, abandonam as crenças que
“deveriam” – no seu mesquinho entendimento – facilitar-lhes o acesso às coisas
boas da Terra.
Ainda há aqueles que se crêem perseguidos pelo azar ou que pensam terem nascido
para sofrer – lançam mão da idéia distorcida do “carma” –, deixando-se conduzir
por pensamentos de masoquismo e lamentação onde, muito provavelmente, desencarnados
infelizes se satisfazem associando-se ao campo mental de suas invigilantes
vítimas.
Outros, porém, quando atravessam qualquer surpresa desagradável, embora sofram,
chorem porque são gente e sintam uma tristeza decorrente do fato infeliz, que
num primeiro momento parece significar o naufrágio de seus sonhos, aproveitam o
saber espírita que já internalizaram para entender o porquê de suas aflições
presentes. Estes estabelecem mediante a prece um alargar dos horizontes sobre
sua reencarnação atual, e se candidatam a concretizar um belo roteiro de fé, renúncia
e coragem, rumo às alternativas para atingirem o tentame que tanto anelam.
Eles agem “(...) como bravos soldados que, longe de fugirem ao perigo, preferem
as lutas dos combates arriscados à paz que não lhes pode dar glória, nem promoção!(...)[1][2] Aliás, uma certa canção do Sul já
apontou: “Não tá morto quem peleia!”
Dessa forma, quem se dispõe a seguir em frente, buscando captar – à luz do Espiritismo
– a lição que a dificuldade lhe traz, passa a desenvolver um comportamento
otimista diante das ocorrências ruins, identificando as pedras do caminho como
material para erguer uma estrada rumo ao seu ideal, porque compreende racionalmente
que tudo conspira ao seu favor e se algo não aconteceu como o esperado, não
obstante toda a sua dedicação e esforço, foi porque a Divina Providência não
julgava fundamental para a sua evolução, como nos elucida o Espírito Joanes,
através da psicografia de Raul Teixeira: “(...) coisa nenhuma é essencialmente
importante para o seu progresso espiritual a não ser a sua sempre crescente integração
no espírito da vida, (...).”[1][3]
Assim, dentro de uma resignação ativa, façamos o possível para depreender o que
se passa conosco, senão especificamente, ao menos em linhas gerais e quando
nosso sonho seja nobre e útil no “reino do espírito”, tenhamos perseverança,
pois tudo correrá bem.
Nada de depressão! Nem tampouco de desespero ou inconformismo doentio. Ensina-nos
Allan Kardec, ao comentar as causas das misérias humanas que “(...) A situação
material e moral da Humanidade terrestre nada tem que se espante, desde que se
leve em conta a destinação da Terra e a natureza dos que a habitam.”[1][4] Deste modo, podemos considerar a nossa
Casa Planetária como uma escola onde precisamos galgar passo-a-passo seu
currículo para, no tempo devido, avançarmos nos níveis de estudo e obtermos
condições para realizar as tarefas exigidas pelo aprendizado adquirido.
Espíritos calcetas que somos, apresentamo-nos na Terra como alunos rebeldes em
estado de repetência de experiências com vistas a um futuro promissor.
Essa é a possibilidade de um amanhã mais prazenteiro, que se inicia no presente
momento no qual nos dispomos a aprender, crescer e conquistar uma vitória diferente
da que o mundo materialista, promotor de um consumismo fanatizante propõe: uma
vitória sobre nós mesmos, no tocante à libertação de nossos condicionamentos
inferiores.
Para tanto, é preciso muita coragem porque nesses dias de disputas descabidas,
de agressividade exacerbada nas mais diversas formas de sua danosa apresentação,
compondo o horrendo espetáculo de nossa insistente animalidade, enfrentar a si
mesmo, num esforço hercúleo de nos tornarmos criaturas melhores, promotoras da
felicidade e do amor onde estivermos é um desafio descomunal, mas necessário
aos que abraçamos o Espiritismo.
Então querido irmão ou irmã, não nos agastemos com qualquer forma de desânimo,
recordemo-nos que o Pai sabe de tudo quanto precisamos para sermos felizes,
jamais nos desamparando, concedendo-nos até mesmo um “(...) Espírito protetor
de uma ordem elevada(...)[1][5] para nos inspirar ânimo e alegria em cada
etapa de nossa jornada evolutiva, sendo este um ser amorável que não deixa de
apostar em nossas potencialidades, fazendo-se conselheiro fiel e irmão
constante no consolo de nossas aflições.
Caso estejamos enfrentando graves provações, sejam elas de afastamento dos
seres queridos por motivos alheios à nossa vontade, enfermidades difíceis, uma
perda qualquer, ou até mesmo a infelicidade de ver nossos sonhos projetados ao
longo do tempo não se efetivarem, guardemos confiança na Providência Divina,
que nos reserva sempre o que há de bom e verdadeiramente imprescindível.
Lembremo-nos sempre do Mestre de nossos corações quando ditou às almas sofridas
pelas intempéries da existência corporal: “Observai as aves do céu: não
semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as
sustenta.(...)”[1][6] E destarte, fiquemos alegres!
[1] O Evangelho segundo
o Espiritismo, Cap. V, item 24.
[2] Idem.
[3] TEIXEIRA, J. Raul. Para uso diário. Pelo Espírito Joanes. 3.ed.Niterói, RJ:
Fráter, 2001; p. 43.
[4] O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap III, item 6.
[5] O Livro dos Espíritos, questão 491.
[6] Mateus 6: 26.
*O autor é Pedagogo,
Mestrando em Educação na UFRGS e expositor espírita vinculado à Federação
Espírita do Rio Grande do Sul.
Fonte:
Revista Internacional de Espiritismo – Maio/2005
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