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Paulo de Tarso São
Thiago
“Quem de
vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra” –
Jesus. (JOÃO,8:7.)
Uma das características nefastas que grassam nas
comunidades humanas é a maledicência. É sintoma de inferioridade espiritual e
sinaliza a presença, no coração do homem, de sentimentos opostos ao amor e à
misericórdia. Em conluio com a crítica acerba e impiedosa, pode destruir um ser
humano, ao colocá-lo, perante a opinião pública, em situações muitas vezes
vexatórias ou insustentáveis.
Há pessoas que passam a vida a perscrutar os defeitos
alheios e a divulga-los de forma furtiva ou ostensiva. Por vezes, sentem mesmo
prazer em fazê-lo. É o caminho que encontram para satisfazer o inconfessável
desejo de rebaixar o próximo ao nível em que se situam. As conseqüências
concretas sobre a pessoa atingida podem depender dos processos empregados, que
variam desde o mexerico, o “diz-que-diz-que”, até o uso dos meios de
comunicação de massa. E é importante ressaltar que, mesmo sendo verídico o que
se divulga, a única justificativa para fazê-lo seria a sincera intenção de
contribuir para o bem social.
Ainda assim, devem prevalecer a transparência, a
sinceridade e a lealdade.
Há que se distinguir, com clareza, a difamação e a
crítica despudorada, cujos objetivos sempre são de ordem inferior, da crítica
construtiva, do direito e do dever de cada cidadão em participar das
transformações positivas da sociedade humana.
Para dar maior consistência a essas idéias,
socorremo-nos, como freqüentemente o fazemos, do supremo modelo para a
Humanidade: Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. Durante os três anos de sua
pregação, Ele deixou a semente que viria revolucionar a ética comportamental e
as relações humanas. A Sua mensagem-Síntese de amor ao próximo, de cunho
universalista, que compreende a misericórdia e a caridade, estava destinada a
substituir os rígidos preceitos morais que vigoravam nas sociedades da época,
calcados numa justiça draconiana, na profunda desigualdade entre os homens, na
rígida estratificação social e na difundida e abjeta escravização dos povos
submetidos.
O amor entre os homens induz a atitudes de
indulgência e de tolerância, porque gera a percepção íntima de que as
imperfeições são ainda parte integrante da condição humana. Jesus procurou
enfatizar a importância de tais atitudes, como fatores contributivos à
concórdia e à paz. Ele também condenava duramente a hipocrisia, parceira
freqüente da intolerância e, por diversas vezes, deixou isso patente, ao se
dirigir a escribas e fariseus.
A passagem em epígrafe, transcrita parcialmente do
Evangelho de João, deixa claro o pensamento do Mestre, no que tange à
indulgência. Vale a pena reproduzi-la na íntegra:
“Entretanto, os escribas e
os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher apanhada em adultério e, depois de a
colocarem no meio, disseram-Lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante
adultério. Ora, Moisés na Lei, manda-nos apedrejar tais mulheres. E tu, que
dizes? Isto diriam eles para Lhe armarem uma cilada, a fim de terem de que O acusar.
Mas Jesus, inclinando-Se, pôs-se a escrever no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo,
ergueu-Se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a
lançar-lhe uma pedra! E, inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão.
Eles, porém, quando isto ouviram, foram saindo um a um, a começar pelos mais
velhos, ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. Jesus
ergueu-Se e disse-lhe: Mulher onde estão eles? Ninguém te condenou? Ela
respondeu: Ninguém, Senhor. Nem Eu te condeno, volveu-lhe Jesus. Vai e
doravante não tornes a pecar.” ¹
Observe-se que, a título de curiosidade, o
evangelista refere que Jesus, por duas vezes, pôs-se a escrever no chão com o dedo, o que é, no mínimo, intrigante. O que escrevia o
Mestre naquela ocasião? Será que Ele traçava rabiscos a esmo? Pode-se supor
muita coisa a respeito. Há interpretações no sentido de que Jesus escrevia na
areia a lista de pecados e imperfeições atinentes aos escribas e fariseus ali
presentes naquele momento. É uma hipótese bastante razoável e que se harmoniza
perfeitamente com o diálogo ocorrido.
O que há de sublime em tudo o que foi exposto é a
lição de indulgência e de tolerância deixada, não só aos contemporâneos, mas
também às gerações futuras. Mesmo Ele, Espírito angélico, guia e modelo da
Humanidade, eximiu-se de condenar a adúltera. Como então poderiam condená-la
aqueles homens, ainda dominados pelo orgulho, pela vaidade, pelo egoísmo e pela
impiedade?
Note-se que Jesus recomendou àquela mulher que não
tornasse a pecar, demonstrando com isso
não ser conivente e nem tolerante com o pecado. Era porém indulgente com o
pecador que, em última análise, é criatura de Deus em luta acirrada consigo
mesma, em busca do aperfeiçoamento espiritual. Ele considerava toda a humanidade
como Seu rebanho e era Seu supremo objetivo conduzi-lo ao aprisco, em
conformidade com os desígnios do Pai.
Se tratava às vezes com certa dureza algumas das Suas
ovelhas, não era porque se deixasse dominar pela cólera. Tal não condizia com a
grandeza espiritual do Mestre. É que Ele aproveitava todas as ocasiões para
transmitir aos interlocutores, de forma prática e direta, os Seus ensinamentos.
O Seu objetivo era didático e o Seu método pedagógico, incisivo. Insistia em
que os homens se preocupassem, antes de
mais nada, em se conhecer a si próprios, em perscrutar a intimidade do ser e da
consciência. Freqüentemente somos magnânimos com as nossas imperfeições e
implacáveis com o nosso próximo. Fazemos uma falsa imagem de nós mesmos,
realçando as virtudes e minimizando os vícios.
Na Antiga Grécia, existia, na cidade de Delfos, um
santuário oracular ao deus Apolo (hoje em ruínas), construído por volta do ano
800 a.C. Diz a História que os chamados Sete Sábios, entre os quais figuravam
Tales de Mileto (624-546 a.C.), e Solón, o legislador, mandaram gravar no átrio
daquele templo algumas máximas de cunho ético-moral. Entre elas constava a
famosa frase: “Conhece-te a ti mesmo”. 2
Sócrates (470-399 a.C.), em suas prédicas,
freqüentemente repisava o assunto, estabelecendo o autoconhecimento como
condição indispensável à aquisição das virtudes, especialmente da humildade. 3
Mateus (7:1-5) e Lucas (6:37) reproduzem o pensamento
de Jesus, segundo o qual há que se ter extrema cautela em julgar os outros,
justamente porque, de regra, falta a autoridade moral para fazê-lo. 4 A transcrição que se segue é a versão de Mateus,
menos lacônica que a de Lucas:
“Não julgueis para não
serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim serei
julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos.
Por que reparas no argueiro
que está no olha do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Como
ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tendo tu uma
trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então veras para
tirar o argueiro do olho do teu irmão.”
O leitor desavisado, que interpretasse estas palavras
segundo o rigor da letra, seria induzido a pensar que Jesus se contrapunha às
instituições jurídicas, ao processo educativo e a quaisquer posicionamentos
críticos, os quais pressupõem idéia de juízo. Evidentemente não deveria ser
este o pensamento do Mestre. Se assim fosse, Ele estaria condenando as
sociedades humanas ao caos, à desagregação, à autodestruição. A Humanidade não
estava e ainda não está suficiente madura e evoluída para se permitir abrir mão
de seus mecanismos de controle. À medida que nos despojarmos das nossas
imperfeições, o Mundo irá prescindindo de tais mecanismos. A liberdade, em
última análise está na razão direta da responsabilidade, a qual é proporcional
a evolução espiritual.
O cerne do pensamento de Jesus, nas passagens aqui
transcritas, resumisse na apologia da indulgência, da tolerância e da
misericórdia e na condenação veemente da hipocrisia.
Encerrando estas considerações, passo a palavra a
Allan Kardec 5, com seu discernimento e lucidez proverbiais:
“O reproche lançado à
conduta de outrem pode obedecer a dois móveis: reprimir o mal, ou desacreditar
a pessoa cujos atos se criticam. Não tem escusa nunca este último propósito,
por quanto no caso, então só há maledicência e maldade. O primeiro pode ser
louvável e constitui mesmo, em certas ocasiões, um dever, porque um bem deverá
daí resultar, e porque, a não ser assim, jamais na sociedade, se reprimiria o
mal (...).
Não é possível que Jesus
haja proibido se profligue o mal, uma vez que ele próprio nos deu o exemplo,
tendo-o, feito, até, em termos energéticos. O que quis significar é que a
autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que
censura (...) Aos
olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo
que dá do bem. É
o que, igualmente, ressalta das palavras de Jesus.” (Grifo
de Kardec.) •
__________
Referência
Bibliográfica:
1. Bíblia
Sagrada – Novo Testamento. João, 8:3-11. Stampley Publicações Ltda. -
São Paulo
(SP), 1974.
2.
AMANDRY, Pierre. Delfi e la sua storia. Guide Archeologiche della Grecia.
Atenas,
1985, pp 12-13.
3.
PADOVANI, Humberto; CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 15ª ed.
– Companhia
Melhoramentos - São Paulo; 1990 – pp 100 e 110.
4. Bíblia
Sagrada – Novo Testamento. Mateus (7:1-5); Lucas (6:37). Stampley Publicações
Ltda. São Paulo - SP - 1974.
5. KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 113ª ed.,
Rio de Janeiro. FEB - 1997. 435p. pp 174-175. Cap. X-13.
Fonte: Reformador – abril/1998
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