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Rodolfo Calligaris
"Assim,
pois, é que haveis de orar:
Pai-nosso que estais nos céus;
Santificado seja o Vosso nome.
Venha a nós o vosso reino.
Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como nos céus.
O pão-nosso de cada dia dai-nos hoje.
Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.
Assim seja".
(Mateus, 6: 9-13)
A oração dominical é sem dúvida, o mais
perfeito modelo de prece que poderia ser concebido. Concisa, simples e clara,
"ela resume - como diz Allan Kardec - todos os deveres do homem para com
Deus, para consigo mesmo e para com o próximo. Encerra uma profissão de fé, um
ato de adoração e de submissão, o pedido das coisas necessárias à vida e o
princípio da caridade".
Pena é que muita gente, ao recitá-la nos
seus exercícios devocionais, não procure compreender a profunda significação do
seu contexto, nem se aperceba das normas de bem viver que ela prescreve a
todos.
Detenhamo-nos, pois, na análise de tão sublime
oração, meditando um pouco sobre cada uma das partes que a compõem.
"Pai-nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso nome".
A noção que tenhamos da Divindade
reflete-se, inevitavelmente, no nosso modo de agir.
Nos primórdios da civilização, os homens
faziam dos deuses um conceito mais ou menos uniforme, tornando-os por potências
iradas, às quais era preciso agradar com a oferta de presentes, não só para
desviar os dardos do seu furor, como também para granjear-lhes os favores e,
com a sua ajuda, conseguirem saúde, bem-estar e prosperidade.
Tais oferendas, a princípio, consistiam em
frutos; depois começaram a ser oferecidos animais, que os próprios sacerdotes
degolavam, sendo que entre muitos povos se introduziu, por fim, o costume
horrível de sacrificar criaturas humanas, especialmente crianças e moças.
Abrimos o Velho Testamento e Deus que ali
deparamos - Jeová, o Senhor dos Exércitos, também se nos apresenta como um ser
faccioso, violento, iníquo e vingativo, eis que "escolhe para si um povo
no meio das nações", cumulando-o de graças, enquanto aos demais só faz
conhecer desgraças; que ordena as mais cruentas matanças, inclusive de crianças
e de animais; que aconselha pilhagens dignas dos piores bandoleiros e ameaça
com pragas repugnantes todos quantos lhe não atendam às determinações.
Com tais idéias a respeito da Divindade, os
homens de então não poderiam mesmo ser melhores, e daí o darem vazão aos seus
instintos brutais, serem implacáveis nos seus ressentimentos e mostrarem-se
impiedosos para com os inimigos.
Um dia, porém o Cristo desce à Terra e nos
fala de um Deus diferente. Um Deus infinito nas Suas perfeições, cuja
onisciência e onipotência se manifestam através das leis imutáveis e sábias que
regem a Criação; um Deus sem favoritismos de espécie alguma: um Deus bastante
inteligente para saber corrigi-las e não para castigá-las; um Deus que não quer
pereça uma só alma, mas que todas se salvem e participem da Sua Glória; um
Deus, enfim, a quem podemos dirigir-nos confiadamente, chamando-o pelo doce
nome de Pai.
Notemos, entretanto que, ao ensinar-nos a
chamar-lhe Pai Nosso, Jesus deixa claro ser Ele pai de toda a grande família
humana, e não apenas de uns poucos escolhidos.
Contrariamente, portanto, ao ensino de
certas religiões, são filhos de Deus todos os homens espalhados por todas as
longitudes e latitudes do globo; de todas as raças e civilizações; de todas as
classes e de toda a fé; católicos e protestantes, espíritas e budistas,
muçulmanos e judeus, rosacrucianos e fetichistas, e até os ateus, apesar de
pecadores, apesar de transviados, porque todos, absolutamente todos, são amados
por Ele com igual e paternal solicitude e hão de ser proclamados e salvos pelo
divino pastor: Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso, ó Deus, porque sois todo Amor e
Bondade, Justiça e Misericórdia, seja o vosso santo nome bendito e louvado por
toda a Terra, assim com por todo o universo, nos astros mais remotos, nos
espaços incomensuráveis, onde quer que a vida que provém de vós se haja
manifestado, pois não há quem não pressinta a vossa existência e o fim ditoso
para que nos criastes!
Fonte: Livro
"O Sermão da Montanha"
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