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Paulo R. Santos
De
algum tempo para cá temos notado uma certa dificuldade em se estender qualquer
conversa séria quando se trata de assuntos relacionados à política, em seu
sentido amplo, aos problemas sociais, econômicos, culturais, científicos e até
mesmo éticos. Pode-se notar isso até mesmo nos programas de TV.
Dessa
observação ressalta a resistência de muitas pessoas em encarar a verdade e a
realidade de frente, como se soubessem de antemão que o desvelamento da verdade
trouxesse consigo um certo desconforto interior e alguma responsabilidade
diante dos acontecimentos. Curioso sinal dos nossos tempos.
Será
que o antiintelectualismo reinante é decorrência da aculturação norte-americana
sobre a América Latina, em especial sobre o Brasil, ou o fenômeno é mais amplo
e explicaria também a queda do nível de qualidade da programação das TVs e da
produção cultural em geral?
As
pesquisas mais recentes realizadas no campo da educação, por exemplo, demonstram
que apesar de uma nova legislação, aliás, discutível, o nível e qualidade de
ensino encontra-se em declínio. O chamado "Provão" acabou deixando
ainda mais clara a nossa pobreza educacional, e os mecanismos de correção (?)
criados pelo Governo resumem-se a emendas que só têm piorado o soneto.
No
meio espírita a maioria dos leitores procura apenas romances para seu deleite
nas horas vagas, deixando de lado o esforço de arranjar tempo e espaço para o
estudo e reflexão de obras com conteúdo doutrinário consistente e para obras científicas
e filosóficas que dariam um novo impulso à sua existência, além de explicar
melhor a vida e o mundo através do desenvolvimento do espírito de crítica e da
análise bem fundamentada.
Fora
do meio espírita as coisas não acontecem de modo muito diferente. A literatura
mística e esotérica tem encontrado bom número de leitores e os livros didáticos,
por mais atraentes e bem redigidos que sejam, só são adquiridos por obrigação,
quando são indicados – ou exigidos – pelos professores. No geral, os romances e
livros esotéricos significam uma fuga à realidade ou puro entretenimento, a par
de uma inegável possibilidade de reencantamento do mundo.
O
fato é que a maioria das pessoas se sente tão perdida e vulnerável num mundo
cada vez mais incerto, e por isso mais amedrontador, que a ignorância e a alienação
voluntária tornou-se um refúgio seguro. Não saber é melhor para se viver, pois
na medida em que aumenta o conhecimento, aumenta também o sofrimento, agravado
por uma permanente sensação de impotência diante de tudo.
Um
grave erro de avaliação, sempre e cada vez mais explorado por aqueles que têm o
poder decisório em suas mãos (ou acreditam ter) por algum suposto privilégio de
origem qualquer, seja de raça, classe ou casta.
A
história mostra que são as minorias conscientes que dão rumos novos às sociedades,
catalisando situações emocionais coletivas que desembocam em mudanças ou
rupturas, transições pacíficas ou comoções sociais que podem levar a verdadeiros
banhos de sangue, sempre explicados pelos políticos através das "razões de
Estado", pelos economistas através das "crises econômicas" ,
pelos místicos e esotéricos como "fim de ciclos", pelos
espiritualistas através da "vontade divina", pelos fundamentalistas
pela "ira sagrada", "punição divina" ou "está escrito",
pelos espíritas como "carma coletivo" ou pela ação das leis de Deus.
Seja
como for, cada um de nós encontra uma explicação e uma justificativa para os
acontecimentos, isentando-se de uma participação mais efetiva no rumo das
coisas da vida, como se não fizéssemos parte de um imenso condomínio chamado
Universo, no qual insere-se um condomínio menor chamado Terra, outro chamado
nação, outro chamado estado, cidade e o próprio bairro onde moramos. Estamos
todos ligados a tudo; interdependentes, interagentes e interatuantes.
Nesse contexto existencial, a alienação
voluntária ou induzida, explorada ou provocada, a opção pela ignorância sobre
as realidades da vida de relação, de nossas obrigações, direitos e deveres, de
nossa realidade espiritual, significa um acréscimo de sofrimento e um
retardamento da hora de sermos um pouco mais felizes, aqui mesmo e agora. O
caminho é a ação coletiva, comunitária e solidária, para darmos uma nova rota à
nossa vida pessoal e social, na Terra ou em outro lugar.
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