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Dr. Iso Jorge Teixeira**
isojorge@globo.com

Foto:
ANGELO MACIEL
Recebemos mail de um leitor português,
que faz parte da Associação Cultural Cristã Espírita, em Oliveira de Azemeis;
disse-me ele, em 31 de janeiro de 2005:
“Bom dia. Saudações especiais. Gosto muito de ler seus artigos de Saúde, no jornal
de espiritismo, de Portugal. Gostaria de ficar mais esclarecido sobre o tema da
colonagem. Principalmente naquela dos embriões congelados para fins terapêuticos
ou outros... Todos sabemos que a ligação do espírito ao corpo se dá na concepção,
união espermatozóide com o óvulo. Nessas experiências de embriões existe algum
espírito atribuído aquele embrião?
Em relação à doença de Alzheimer, o espírito fica como no coma, parcialmente
liberto?”
JOAQUIM FIGUEIREDO – Santa Maria da Feira – Portugal.
Respondemos, preliminarmente, ao Sr.
leitor, agradecendo o seu interesse pelo jornal de espiritismo e, em
particular, pela nossa página de SAÚDE. Bem, o tema CLONAGEM ou COLONAGEM é bem
polêmico, porque envolve aspectos considerados controvertidos, principalmente,
CIENTÍFICOS, ÉTICOS e ESPIRITUAIS. Não obstante, a controvérsia do ponto de
vista espírita ainda existe, porque, a nosso ver, há distorção da Doutrina dos
Espíritos por alguns confrades e confreiras, talvez, por leitura desatenta das
obras da Codificação, de ALLAN KARDEC...
QUE É COLONAGEM ou CLONAGEM ? A palavra
clone, tem origem etimológica grega – klón – que significa broto, ramo. O clone
é um ser VIVO, que tem a mesma constituição genética de outro; é o “broto” da
planta que, ao ser destacado, pode se desenvolver como a planta-mãe. De acordo
com os microbiólogos, o termo clone é aplicado a uma população de
microorganismos geneticamente idênticos. Nos animais, inclusive no Homem, pode
ocorrer um processo de clonagem natural, que leva à formação de gêmeos
“idênticos”. É preciso ressaltar-se que no clone natural humano os gêmeos são
idênticos genotipicamente, isto é, com características corporais semelhantes,
mas o fenótipo será diferente, pois dependerá de condições ambientais
(inclusive sócio-culturais) diversas, além disso, os Espíritos são diversos nos
clones humanos naturais.
A OVELHA DOLLY, PRIMEIRO MAMÍFERO CLONADO
DE CÉLULA SOMÁTICA. Naturalmente, a maioria dos organismos desenvolve-se da
união de um do sexo masculino com outro do sexo feminino (reprodução sexuada),
ou seja, um espermatozóide que contém n cromossomos fecundando um óvulo, também
com n cromossomos, dando origem a um indivíduo com 2n cromossomos.
A clonagem de animais foi realizada cientificamente pela primeira vez em 1952,
com girinos, embriões de sapos, por ROBERT BRIGGS e THOMAS KING...É importante
destacarmos que antes de 1952, a clonagem em vegetais foi amplamente realizada,
sem nenhuma repercussão internacional maior, apesar de tratarem-se de seres
vivos, também... Por que? A nosso ver, porque OS VEGETAIS NÃO TÊM ALMA, quase
todos concordam, entretanto, alguns espíritas distorcem o que os Espíritos
Superiores disseram, claramente, na obra O Livro dos Espíritos (OLE), de ALLAN
KARDEC, nas respostas às questões 71, 136-A, 585 (incluindo-se o comentário de
KARDEC), 586, 587, 588, e permanecem num pieguismo e num falso evangelismo
tolo. Mas, voltemos ao nosso breve histórico:
Em 1970 clonaram embriões de ratos. Bem antes de DOLLY, em 1979, foram clonados
embriões de ovelhas e, em 1980, embriões de gado. A partir de então, este tipo
de clonagem penetra como tecnologia avançada em Veterinária e reprodução
pecuária.
A ovelha DOLLY foi o primeiro mamífero clonado por transferência nuclear de CÉLULAS
SOMÁTICAS, isto é, com 2n cromossomos do indivíduo original, ou seja, de uma
célula da glândula mamária de uma ovelha de 5-6 anos denominada BELLINDA, da
raça Finn Dorset.
Reprodução – FOLHA
IMAGEM
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Como foi o trabalho que culminou com
o nascimento da ovelha DOLLY? – Origem do nome DOLLY
A equipe do
prof. WILMUT utilizou 834 núcleos de célula de animais adultos e de fetos. De
todos os 156 óvulos implantados, somente 21 se desenvolveram e apenas 8 animais
nasceram. Destes, apenas um único (DOLLY) era oriundo de um núcleo de célula
animal adulto. O objetivo comercial desta pesquisa, talvez fosse a produção do
fator sanguíneo VIII, para o tratamento de doentes hemofílicos ou outros
produtos biológicos semelhantes. Em uma explicação
de especialistas da Comissão Técnica de Biosegurrança do Ministério da Ciência
e Tecnologia, os passos de obtenção da ovelha DOLLY foram, em resumo, os
seguintes (ver Ilustração): 1 – Uma
célula somática (célula mamária da ovelha doadora) – congelada havia três anos
– de 5 – 6 anos de idade, chamada BELINDA, da raça Finn Dorset foi levada a um estado de quiescência (Dormência)
durante o qual o núcleo da célula tornou-se possível de reprogramação. Em
seguida, esse núcleo contendo o DNA (Ácido Desoxirribonucléico) foi removido; 2 – O núcleo
de uma célula germinativa feminina (o óvulo da ovelha receptora – seria uma
outra ovelha chamada FUFFY, da raça Scottish
blackface) foi removido, para que pudesse recebeo o núcleo da célula doadora; 3 – O Núcleo
da Célula doadora e a célula receptora sem núcleo foram fundidos (por
microinjeção e manipulação, sob a indução de uma descarga elétrica controlada),
para obter-se um embrião. Em seguida, esse embrião foi implantado no útero de
uma terceira ovelha, gestante (Chamada LASSIE, da raça Scottish blackface), que pariu a ovelha DOLLY. Posteriormente,
a ovelha DOLLY teve filhotes, alguns com problemas e teria apresentado um “envelhecimento
precoce”, com uma forma rara de “artrite”,e surgiu uma grave infecção pulmonar
e, por esta, foi sacrificada, às 15 horas do dia 14 de janeiro de 2003. O nome DOLLY foi uma homenagem do prof.
WILMUT a uma cantora americana, DOLLY PARTON, que possuía a mamas muito
grandes, como a célula doadora foi retirada de uma glândula mamária... (Texto do Dr. Isso Jorge Teixeira)
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CLONAGEM
TERAPÊUTICA – EMBRIÕES CONGELADOS PARA FABRICAÇÃO DE TECIDOS ORGÂNICOS – AS
CÉLULAS – TRONCO
A clonagem da ovelha DOLLY produziu
grandes debates internacionais, principalmente, sobre a possibilidade de
clonagem humana artificial e a chamada “eutanásia” dos embriões, além da
criação de “monstros”...
É preciso que se ressalte que ao se falar em “clonagem humana”, hoje,
referimo-nos à modalidade REPRODUTIVA, que produz bebês como cópias FÍSICAS de
seres já existentes (clonagem natural) e a clonagem TERAPÊUTICA, que elabora
EMBRIÕES HUMANOS, que são congelados, com a finalidade de fabricar tecidos
orgânicos diversos, tratar infertilidade, etc...
As CÉLULAS-TRONCO, também chamadas por alguns de “sementes da vida” estariam
presentes nos primeiros 14 dias do desenvolvimento embrionário. Por serem
células INDIFERENCIADAS, estão sendo utilizados em alguns países para
tratamento da “Doença de Parkinson”, “Diabetes”, “músculo cardíaco enfartado”,
etc., com resultados promissores. Porém, ao serem retiradas as células-tronco
de embriões, estes ficam danificados, transformam-se em um “amontoado de tecidos”,
como teria dito o prof. JAN WILMUT...
A primeira pergunta do nosso leitor
JOAQUIM FIGUEIREDO é: “Nessas experiências de embriões existe algum espírito
atribuído aquele embrião?”, bem, é o que tentaremos responder, a seguir:
Em que momento o Espírito une-se ao corpo? O nosso confrade, Sr. FIGUEIREDO,
afirma como tácito que “a ligação do Espírito ao corpo se dá na concepção, união
do espermatozóide com o óvulo”... Isto é parcialmente verdadeiro, pois a união
do Espírito ao corpo “COMEÇA na concepção”, mas só “SE COMPLETA no momento do
nascimento”, como foi revelado pelos Espíritos Superiores na resposta à questão
344 de O Livro dos Espíritos (OLE), “ab initio”... Além disso, essa união NÃO É
DEFINITIVA (cf. se depreende da resposta à questão 345 de OLE), pois tais laços
“fluídicos” são muito “FRÁGEIS” (cf. explicitado na mesma resposta da questão
345 de OLE).
Portanto, Srs. leitores e Sras. leitoras, não conseguimos conceber que um embrião
permaneça congelado, nos seus primeiros 14 dias, e um Espírito ali permaneça
ligado a ele nestas condições!! E há até uma classe de espíritas, contrários a
tais experiências, que dizem que “o espírito sofreria muito, pois ficaria
congelado”!!! Ora, Espírito não é líquido para ser congelado e, muito menos
matéria!...
Não obstante, o Sr. leitor ou leitora poderia argumentar: ¾ E se aquele embrião
for implantado no útero de uma mulher e vingar, ele teria um Espírito?
Responderíamos, então, em tese: ¾ Obviamente, sim, SE NASCER VIVO, sem
dúvida!... O que desejamos argumentar é que a Providência Divina a tudo provê;
o Espírito será atraído para o feto por poderosas forças, cuja natureza ainda
desconhecemos... Alguns falam em força “magnética”... É possível, mas o fato é
que tal força é DESCONHECIDA cientificamente. A propósito, lemos no item 18,
Capítulo 11, do livro “A Gênese, os milagres e as predições segundo o
Espiritismo”, de ALLAN KARDEC:
“Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um
laço fluídico, que mais não é do que a expansão do seu perispírito, o liga ao
gérmen que o atrai por FORÇA IRRESISTÍVEL [o grifo é nosso], desde o momento da
concepção. À medida que o gérmen se desenvolve, o laço de encurta. Sob a
influência do princípio VITO-MATERIAL DO GÉRMEN, o perispírito, que possui
certas propriedades da matéria, se une, MOLÉCULA A MOLÉCULA, ao corpo em
formação (...)”
Outros diriam: ¾ Mas, a estrutura do feto não é determinada pelo “perispírito”,
através do Modelo Organizador Biológico (MOB), e, portanto, antecede a formação
do embrião?!... Diremos nós: não aceito a tese contida na teoria humana do MOB,
por ser FATALISTA e por conceber o perispírito como se fosse matéria. Sim, o
perispírito é “semimaterial”, mas a matéria aqui é QINTESSENCIADA... O que me
parece é que haja uma Diretriz Organizadora Biológica (DOB), através de uma
força ainda desconhecida por nós, seres humanos ainda imperfeitos, até porque
desconhecemos COMO nasce o Espírito! A propósito, na resposta à questão 78 de
OLE, a Espiritualidade Superior enfatiza para KARDEC, e para nós:
“(...) mas quando e como cada um de nós foi feito, eu te repito, ninguém o
sabe, isso é um mistério.”
OS EMBRIÕES E OS CLONES TÊM ALMA? Respondendo ao confrade, em síntese, diremos:
os clones humanos naturais (gêmeos), obviamente, têm alma, já os clones humanos
artificiais teriam uma ALMA LATENTE, isto é, haveria uma ligação “fluídica” do
Espírito “àquele Ser que deverá nascer”, pois aquele que já tiver, de antemão,
previsto pela Providência Divina para “não nascer”, o Espírito ali não estará
ou abandonará aquele corpo (ou aquele feto)... Aqui, a situação seria análoga
aos NATIMORTOS; assim, na questão 356 de OLE é perguntado e respondido:
Há crianças natimortas que não foram destinadas à encarnação de um Espírito?
¾ Sim, há as que JAMAIS tiveram um Espírito [o destaque é nosso] destinado aos
seus corpos: nada devia cumprir-se nele. É somente pelos pais que essa criança
nasce.
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VIDA
O que dá vida a um corpo é o “fluido vital” e não o Espírito. Conhecemos vários
casos de vida “vegetativa” de vários seres humanos, sem que necessariamente ali
exista um Espírito.
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A resposta a essa pergunta é fundamental
para entendermos que o que dá vida a um corpo é o “fluido vital” e não o
Espírito. Conhecemos vários casos de vida vegetativa de vários seres humanos,
sem que necessariamente ali exista um Espírito. A propósito, leia-se nosso
artigo A SUBLIMIDADE DA MORTE (jornal de espiritismo, janeiro / fevereiro 2005,
Coluna SAÚDE, p.4).
Alguns confrades poderiam argumentar: ¾ Mas, se no futuro os fatos vierem a
demonstrar que a teoria do MOB está correta? Responderíamos nós, como o célebre
dramaturgo brasileiro NELSON RODRIGUES: ¾ Pior para os fatos!...
Parafraseando ALLAN KARDEC: as fantasias científicas de hoje podem ser uma
realidade amanhã, antes que chegue o amanhã, fiquemos com a realidade de hoje!
Respondendo à segunda pergunta do nosso
leitor, em relação à doença de ALZHEIMER, se o Espírito ficaria como no coma,
parcialmente liberto, diremos que a situação é ligeiramente diferente da
anterior (no embrião), pois o Espírito precisaria, eventualmente, concluir suas
PROVAS, e o desprendimento mais ou menos rápido irá depender da elevação
intelectual e moral do Espírito. A este respeito, os comentários de KARDEC
sobre a resposta da questão 155-A de OLE, quase “in fine”, são esclarecedores:
“(...) Por outro lado, a atividade intelectual e moral, a elevação dos
pensamentos, operam um começo de desprendimento, MESMO DURANTE A VIDA CORPÓREA
e quando a morte chega, é quase instantânea” – o destaque é nosso.
A Doença de ALZHEIMER é um quadro
demencial, irreversível, com solapamento, progressivo da memória e outras
funções cognitivas da pessoa, é uma doença de evolução crônica. A Doença de
ALZHEIMER é uma prova duríssima, cáustica para os familiares, mas também pode
ser prova e expiação para o doente; contudo, em todos os casos, parece-me, “o
Espírito estará parcialmente liberto do corpo”, semelhantemente ao “coma”,
concordamos com o Sr. leitor e a ele agradecemos perguntas tão pertinentes e
interessantes para o nosso estudo doutrinário.
* Artigo
publicado, originariamente, no JORNAL DE ESPIRITISMO (Órgão da Associação dos Divulgadores
de Espiritismo de Portugal – ADEP), intitulado “Clonagem: os embriões
congelados têm espírito?” (JDE- Coluna SAÚDE, maio/junho-2005, p. 4) e
ligeiramente modificado pelo autor para publicação neste Portal).
** Médico. Psiquiatra. Prof. Livre - Docente de Psicopatologia e
Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador
do Curso de Especialização em Psiquiatria (FCM - UERJ).
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