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Dalva Silva Souza
Não escapa a ninguém o fenômeno da proliferação das
diversas formas de culto no mundo moderno. O episódio chocante do suicídio em
massa liderado por Jim Jones e o fenômeno social em que se transformam algumas
igrejas devem provocar sérias e profundas reflexões, quando tentamos analisar a
cultura em que vivemos.
Afinal, o que leva as pessoas, muitas vezes, a
abdicarem da possibilidade de dirigir suas próprias vidas, delegando a outrem o
poder de fazê-lo? Que armas são usadas nesses cultos para a obtenção de quase
total dedicação e obediência dos seguidores?
Os fatos apontam para lacunas que se tornam cada vez
maiores em nossa cultura. O que os cultos oferecem às pessoas são elementos que
estão faltando a elas na estrutura social. Os líderes de tais seitas
compreendem a importância para o homem de três coisas: afeto, segurança e
sentido. Aos solitários, os cultos oferecem amizade e aceitação. O
recém-chegado é rodeado de afeto e é chamado de irmão. Tão compensador é esse calor
e atenção que o indivíduo, muitas vezes, é levado a desistir de sua família e
amigos e induzido a doar seus ganhos ao culto.
Os cultos também oferecem segurança, na medida em que
impõem uma rígida disciplina. A fase de transição pela qual atravessamos
alterou profundamente os papéis sociais antigamente tão definidos. Diante
disso, as pessoas sentem-se inseguras e incapazes de tomar suas próprias
decisões, apreciam que outros decidam por elas e se sujeitam aos rigores
disciplinares impostos a troco dessa ilusão de segurança.
O sentido é um outro produto oferecido com êxito.
Geralmente, cada culto possui a verdade única e os que deixam de reconhecer o
valor dessa verdade são caracterizados como mal-informados ou satânicos. A
mensagem do culto é pregada ao novo membro em sessões consecutivas até que ele
assimile os termos de referência, o vocabulário e, enfim, a interpretação
da realidade que lhe é oferecida.
O poder dessa mensagem reside em que ela proporciona
ao indivíduo uma síntese em contraposição à fragmentação da cultura
especializada em que vivemos. Não importa se a estrutura dada não corresponde à
realidade verdadeiramente, o fato é que ela alivia o stress, dando um
significado à vida. Embora possamos reconhecer um benefício imediato para o
indivíduo em tudo isso, é preciso considerar que o preço cobrado é muito
elevado: a entrega incondicional de si mesmo.
As ciências sociais oferecem também uma grande
contribuição para o entendimento dessa questão. Quando conseguimos olhar a
trajetória do homem na Terra, como se estivéssemos contemplando a paisagem do
alto de uma montanha, delineia-se ao nosso entendimento o caminho que vai dos
tempos primitivos, com suas práticas mágicas, ao advento da maturidade
espiritual, em que aparece o Cristianismo como o remate de um vasto processo. Mas
nem todos os indivíduos estão no mesmo patamar de desenvolvimento. Há uma
conquista coletiva, contudo é necessário que cada um dentro do conjunto realize
a sua parte. O que cabe ao homem é vencer dentro de si mesmo os impulsos que
ainda o prendem às manifestações primitivas da crença. Há resíduos das várias
fases que ainda se misturam nos sistemas religiosos da atualidade. Por isso
ainda há imagens, talismãs, cristais e outras formas de concretização da busca
de transcendência. Por isso também, há aqueles que necessitam dos dogmas e da
segurança fornecida pelos cultos praticados em massa.
E, como bem observou Hermínio Miranda: “Vemos, com
o rótulo de religião, poderosas multinacionais da fé, manipulando, como
qualquer megaempresa, milhões de dólares sob a batuta de gurus carismáticos.
Vemos disputas sangrentas entre facções divergentes, ainda que nominalmente sob
a mesma categoria, como, por exemplo, entre os chamados cristãos da Irlanda do
Norte. Vemos religiões empenhadas em implacável terrorismo político, como no
caso Indira Gandhi, ou na intolerância fanática de uns tantos aiatolás. Vemos
cultos satanistas, voltados para a magia negra, para as práticas orgiásticas,
os rituais insensatos, o uso de alucinógenos, o misticismo doentio, a fantasia
desvairada, o profetismo apocalíptico.Vemos, à margem disso, o religioso da
irreligião, montando sofismas como blocos invisíveis destinados a construir
monstrengos de arquitetura intelectual, empenhados em demonstrar que a fé é
burra. *
Quando consideramos o advento do mundo de
regeneração, previsto para o terceiro milênio, ao pensar na construção de uma
nova sociedade mais sadia e democrática, constatamos que não bastam novas
tecnologias ou novos suprimentos de energia, será preciso oferecer às pessoas
interação afetiva, segurança e sentido, e, ainda, possibilitar a elas condições
de desenvolverem o sentimento inato de fé que possuem, mas não a fé dogmática
e, sim, a fé que sabe, porque se apóia na razão. E essa é a missão do
Espiritismo nos tempos modernos. O Cristianismo definiu um novo horizonte de
manifestação religiosa, uma nova concepção da Divindade, numa prédica
inteiramente livre de formalismos. Mas, após o retorno de Jesus ao mundo
espiritual, os homens encarregados da difusão da sua mensagem acrescentaram à
prática cristã conteúdos pertinentes às estruturas simbólicas que recobriam seu
próprio sentimento religioso. Em primeiro lugar, vemos os apóstolos na
tentativa de enquadrar os ensinos cristãos no sistema judaico, com a exigência
de circuncisão dos novos adeptos, de oferta de sacrifícios no templo e a
aplicação do batismo. Em seguida, a época medieval em que se construiu uma
organização que reproduzia um modelo de religiosidade a se expressar por meio
de ritos, aparato litúrgico e formas sacramentais copiadas dos cultos pagãos.
Quando Jesus anunciou à mulher samaritana que um dia
os verdadeiros adoradores de Deus o adorariam em espírito e verdade, sem
necessidade de se dirigirem ao Templo de Jerusalém, estava prevendo o desenvolvimento
histórico do processo religioso. Ele sabia que os homens haveriam de se
libertar, com a evolução, dos formalismos do culto exterior. Foram necessários
séculos, a fim de que o mundo se encontrasse preparado para o advento do
Consolador. O Espiritismo, nascido na França em 1857, retoma as verdades
essenciais do Cristianismo, parte do estudo do fenômeno mediúnico, para
estabelecer a verdade dos princípios defendidos pelas grandes religiões já
instituídas pelos homens.
Com o advento do Espiritismo, o Espiritualismo supera
as fases mágicas do seu desenvolvimento e atinge o plano da razão, definindo-se
num esquema de idéias claras e distintas, capaz de restaurar seu prestígio
diante do avanço das Ciências.
Entretanto, inadvertidamente, muitos adeptos do Espiritismo
deixam-se empolgar ainda por comunicações mediúnicas de cunho profético,
manifestam-se dependentes das orientações dos guias, demonstrando que nos
recessos do seu inconsciente ainda persistem as matrizes do pensamento mágico
do passado. Precisamos inteirar-nos do pensamento espírita em sua pureza, para
divulgá-lo com coerência e fidelidade, a fim de que as criaturas encontrem as
respostas que buscam e se orientem para uma nova forma de manifestação
religiosa libertadora.
* MIRANDA, Hermínio C. As Mil Faces
da Realidade Espiritual, 2. ed. Sobradinho, DF: EDICEL, 1994, cap. 19.
Fonte: Revista Reformado – Fev/2000
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