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Ana Cristina Campos
A constatação da falta de fé
reinante em todos os níveis da vida é um facto de observação diária para
qualquer pessoa que se preocupe com o estado actual da humanidade. Falamos não
somente da fé divina, mas também da fé humana.
Chegou-se a um tal estado de
desânimo, de pessimismo, de descrença das potencialidades da criatura humana,
que a maior parte das pessoas não acredita em si própria. Surgem dúvidas quanto
à eficácia da bondade e caridade face ao domínio das trevas; qual a utilidade
da labuta diária, tantas vezes feita de renúncias e sacrifícios, quando o
futuro se apresenta sombrio e inatingível, devido em grande parte às ideias
divulgadas pelos profetas da desgraça, que se comprazem em baixar o nível moral
e mental de todos os que deles se aproximam; que gosto ou estímulo dá a
observação diária dos noticiários do mundo que só apresentam desgraças, crimes,
violências, sem que as notícias boas compensem as más (não se faz aqui a
apologia de ignorar o estado do mundo só porque ele é desagradável, mas a
simples verificação de que o que vende mais é a notícia triste e macabra).
Estamos, é certo, no "fim
dos tempos" preditos por Jesus e por todos os profetas antes e depois
dele. Mas, reconhecer isso é sinónimo de cruzar os braços e desanimar? Não!
Definitivamente não. É agora que nos cumpre trabalhar mais e melhor, fazendo
tudo o que estiver ao nosso alcance para levantar a moral da humanidade. E aí
cabe um importante papel ao espiritismo como Consolador prometido e ao movimento
espírita em particular. É agora o momento ideal para informar as pessoas, não
que chegou o "fim dos tempos", mas que se avizinha uma nova era que
está ao nosso alcance e em que todos somos chamados a colaborar.
Para mudar este estado de coisas
é preciso que o ser humano tenha fé em si próprio. Qualificando a fé como o
sentimento inato no homem sobre o seu destino, vemos que ela não se impõe, mas
que todos podem adquiri-la em maior ou menor proporção, desde que se mentalizem
capazes de uma vontade de querer e acreditem que essa vontade pode realizar-se.
Era isto que Jesus referia ao dizer aos apóstolos: "Gente de pouca fé,
porque na verdade vos digo que se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis
a este monte: passa daqui para acolá; e ele há-de passar, e nada vos será
impossível (Mateus, XVII, 14-19).
Todos temos que acreditar nas
nossas próprias forças para vencer as dificuldades, para "mover as
montanhas" da indiferença, da angústia, da má vontade, da rotina, das
paixões inferiores. A fé traz-nos paciência, calma e o discernimento necessário
para enfrentar o futuro, por mais incerto que se apresente. Esta é a fé humana
de que precisa toda a criatura.
Se a esta juntarmos a fé divina,
que é a alavanca do progresso da humanidade, chegaremos à fé que realiza
milagres. Actualmente acreditar em milagres não faz mais sentido, desde que a
ciência, principalmente o magnetismo, tem vindo a explicar as leis naturais por
que se regem esses factos prodigiosos. Também aí é ainda a fé que, aliada à
acção magnética, age sobre o fluido que é agente universal, princípio e causa
de todas as coisas.
Quem melhor que Allan Kardec
estudou esses fenómenos do magnetismo e que o levaram a concluir: "Eis
porque as pessoas que aliam uma fé ardente a uma grande potência fluídica
normal podem, pela simples vontade dirigida para o bem, operar esses fenómenos
estranhos de cura que antigamente eram considerados prodígios, quando são
apenas a consequência de uma lei natural (em "O Evangelho Segundo o
Espiritismo", cap. XIX). Desde que se conheça as leis naturais que regem
todos os actos da vida, explicando e compreendendo-os, deixa de haver milagres,
porque os factos como tal qualificados hoje terão a sua explicação lógica na
ciência de amanhã.
A fé é humana e divina. Se todas
as pessoas tivessem consciência da força que trazem em si mesmas e se
estivessem dispostas a colocar a sua vontade ao serviço dessa força, seriam
capazes de operar prodígios que mais não são que o desenvolvimento harmónico e
equilibrado das faculdades humanas. Qualquer ser humano que esteja disposto a
agir, trabalhando com vontade séria para o bem dos outros, será sempre
secundado e ajudado pelos bons espíritos que se preocupam com o destino da
humanidade.
Fonte: Revista de Espiritismo nº 40, Julho/Set/1998
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