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Adilson José de
Assis
Será contrário à lei da Natureza o
aperfeiçoamento das raças animais e vegetais pela Ciência? Seria mais conforme
a essa lei deixar que as coisas seguissem seu curso normal?
"Tudo se deve fazer para chegar à
perfeição e o próprio homem é um instrumento de que Deus se serve para atingir
seus fins. S endo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa
perfeição é corresponder às vistas de Deus."
a) _ Mas, geralmente, os esforços que o
homem emprega para conseguir a melhoria das raças nascem de um sentimento
pessoal e não objetivam senão o acréscimo de seus gozos. Isto não lhe diminui o
mérito?
"Que importa seja nulo o seu
merecimento, desde que o progresso se realize? Cabe-lhe tornar meritório, pela
intenção, o seu trabalho. Demais, mediante esse trabalho, ele exercita e
desenvolve a inteligência e sob este aspecto é que maior proveito tira."
(LE, Q. 692)[1]
Nas últimas décadas a Humanidade acompanhou
atônita os inúmeros progressos realizados no campo da Genética e suas
conseqüentes aplicações em vários departamentos da vida no Planeta. A Genética
é o "ramo da Biologia que estuda as leis da transmissão dos caracteres
hereditários nos indivíduos, e as propriedades das partículas que asseguram
essa transmissão" [2]. Tais partículas são os cromossomos (em número de 46
na espécie humana), constituídos de genes (estima-se que existem mais de 100
milhões, no homem), que por sua vez são estruturados a partir de moléculas
orgânicas (proteínas), formadas de átomos (principalmente Carbono, Hidrogênio e
Oxigênio).
Palavras como "gene",
"mutação genética", "clonagem", "alimentos
transgênicos", "Engenharia Genética", "Biotecnologia",
dentre outras, antes restritas aos ambientes acadêmicos ou de pesquisa
científica, ganharam domínio público, apesar de nem sempre seus empregos
denotarem conhecimento acerca de seus significados. Nunca se avançou tanto na
compreensão e capacidade de manipulação dos mecanismos responsáveis pela
organização dos seres vivos no Planeta... Juntamente com o domínio do
conhecimento advindo com a Genética, hoje é possível a clonagem de animais
(geração de uma cópia a partir de uma célula adulta do animal), obtenção de
espécies vegetais mais nutritivas ou resistentes a determinadas pragas e
doenças, melhoramento genético de animais a fim de obter indivíduos com
determinadas características (frango com mais carne no peito ou
"chester", espécies bovinas precoces, etc.), para citar apenas
algumas conquistas, sendo previstas para os próximos anos o completo
seqüenciamento dos genes humanos (Projeto Genoma), e a cura para inúmeras
doenças de cunho hereditário, ou genético.
Frente a este "Admirável Mundo
Novo" que nos é descortinado pelo saber, o que a Doutrina Espírita tem a
nos falar? Lembremos que não é tarefa do Espiritismo competir com as ciências
humanas, mas, sendo este uma síntese do conhecimento moral humano, compete-lhe
promover uma reflexão acerca dos acontecimentos que nos rodeiam e também acerca
dos rumos do futuro. A função do Espiritismo é dar suportes para uma análise
crítica dos fatos que nos são apresentados no dia a dia pela mídia e realizar
um debate acerca das suas conseqüências éticas e morais.
Através da pergunta de O Livro dos Espíritos
que transcrevemos no início deste artigo, percebemos facilmente que compete ao
ser humano auxiliar na Obra da Criação, agindo como Co-Criador em plano
menor, na feliz expressão de André Luiz [3]. A fim de assumir as futuras
funções de "mensageiros e ministros de Deus, cujas ordens executam para
manutenção da harmonia universal" (LE, Q. 113), entendendo que tais
funções envolvem a criação contínua, manutenção e aprimoramento da vida, nos
planos material e espiritual e que são executadas pelos Espíritos Puros,
necessitamos ensaiar em etapas anteriores, através de funções mais simples, as
futuras responsabilidades que nos serão apresentadas. Obviamente, que o
aprendizado é paulatino (e envolve além do conhecimento, o aprimoramento moral)
e há uma grande distância entre o nosso estágio atual e o futuro estágio de
Espíritos Puros que inevitavelmente alcançaremos, já que o único determinismo
que existe no Universo, segundo a visão espírita, é o da Perfeição, que estamos
todos destinados, afinal, "todos se tornarão perfeitos" (LE, Q. 116).
Realizando uma análise na História da
Humanidade percebemos que percorremos algumas etapas distintas, com relação à
nossa capacidade de influir no aperfeiçoamento do Planeta:
1a Fase _ Observação: O homem era um espectador da Natureza e era completamente
submisso aos seus fenômenos; por não compreendê-los, temia-os. Corresponde às
etapas iniciais da Espécie Humana, quando esta se limitava a caçar, colher
frutos, escolher uma boa caverna para morar, etc.
2a Fase _ Manipulação da Matéria
Grosseira: Através do aprendizado
efetuado na etapa anterior, da observação, o Homem começa a manipular o solo
para construir moradias mais confortáveis; manipula os metais, através da
metalurgia, para construir utensílios e armas; manipula as reações químicas
para produzir inúmeros produtos químicos. Esta fase vai do domínio do Fogo, até
o domínio das forças atômicas, pela desintegração nuclear, limite da matéria,
nos moldes que a percebemos.
3a Fase _ Manipulação da Vida Orgânica: Estaríamos vivendo os primórdios desta era, na qual
aprenderemos a manipular os segredos da vida orgânica no Planeta. Com o
aprendizado realizado nas etapas anteriores, agora o ser humano se ensaia para
criar corpos. Veja que não estamos falando de criar a vida, pois a
manipulação da vida orgânica envolveria apenas os corpos e não os espíritos. Segundo
a Doutrina Espírita, a vida no planeta se dá pela interação entre o elemento
espiritual (espírito) e o material (corpo físico). Nesta 3a Fase, o homem
estaria aprendendo a manipular apenas um dos componentes da vida, ou seja,
aquele que pertence à matéria. Talvez pertencerá a etapas futuras, o
aprendizado acerca das origens do elemento espiritual!
Paralela aos desenvolvimentos científicos,
há uma discussão ética que necessita ser feita, e perpassa por questões tais
como: Quais os interesses econômicos que estão impulsionando os recentes
avanços? Que será feito do conhecimento advindo com estes avanços? Este
conhecimento estará a serviço da melhoria das condições de vida no Planeta para
todos, ou disponível apenas a uma pequena parcela? Quais as ideologias
presentes em todos estes avanços? Pensamos que perguntas acerca das finalidades
dos avanços, do egoísmo (ou outras paixões) presente naqueles que querem o
conhecimento para aumentar seus gozos, dentre outras, estão já respondidas na
Questão 692 de O Livro dos Espíritos.
Percebemos assim que a Doutrina Espírita,
apesar de codificada em uma época na qual a Genética ainda nem existia (as Leis
de Mendel, consideradas o marco inicial da Genética, foram publicadas em 1866),
permanece atual na sua tarefa de esclarecer, instruir e consolar o Homen,
mostrando sempre a capacidade de responder novas questões que vão surgindo com
os avanços da ciência humana, que ainda é um pálido reflexo da Ciência Divina.
Referências
Bibliográficas:
[1]
KARDEC, ALLAN. O Livro dos Espíritos. Questão no. 692. 67a Ed. Rio de Janeiro:
FEB, 1987.
[2]
FERREIRA, AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA. Dicionário Aurélio Básico da Língua
Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988.
[3] LUIZ, ANDRÉ. Evolução em Dois Mundos. Psicografia
de F. C. Xavier e Waldo Vieira. Pág. 23. 10a Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
Fonte: Jornal Mundo Espírita – junho/2002
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