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O Código Da Vinci e o Santo Graal - Visão Espírita

 

Jesus e o Espírito Verdade

Dr. Iso Jorge Teixeira*

isojorge@globo.com

  

Este livro é de ficção, mas parece que qualquer semelhança com fatos e pessoas não terá sido coincidência...

JESUS –de GUSTAV DORÉ

Haveria um segundo Advento de JESUS, carnal ou espiritual, do ponto de vista espírita ?

O Santo Graal –

por Dante Gabriel Rossetti
em 1860

Já ouvimos dezenas e dezenas de dirigentes espíritas recomendarem o livro O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO (OESE), de ALLAN KARDEC àqueles iniciantes nos estudos da Doutrina dos Espíritos, com a alegação de que seria um livro “consolador” e “mais fácil de ser entendido”. Ledo engano, a nosso ver... Para entendermos bem OESE é necessário um mínimo de conhecimento seguro de Teologia e da própria Doutrina Espírita, contida em O LIVRO DOS ESPÍRITOS (OLE), de ALLAN KARDEC; ambas as tarefas são um pouco difíceis. Assim, no livro OESE vamos encontrar, principalmente o “ENSINO MORAL”, que é, indubitavelmente, um aspecto difícil de compreendermos, pois além de exigir seguro conhecimento doutrinário, não é fácil aplicarmos o que lemos, na prática, pois ainda somos inferiores, neste planeta de provas e expiações. Além disso, se não compreendermos alguns aspectos básicos de TEOLOGIA, como iremos entender o DESENVOLVIMENTO dos ensinos de JESUS à luz da Doutrina dos Espíritos? O Espiritismo foi necessário ser codificado, exatamente para cumprir este aspecto moral além de outros aspectos científicos e filosóficos, também essenciais...

            Neste trabalho, pretendemos responder a questões de dois leitores, ambas relacionadas direta e indiretamente à figura de JESUS.

            Recentemente, recebemos mail de um confrade, já citado em artigo anterior, a quem devemos uma resposta, vamos repetir a sua questão - no dia 13 de abril/2005 o Coordenador e Webmaster do Portal PANORAMA ESPÍRITA escreveu-nos:

“Dr. Iso, Fique à vontade para responder diretamente ao internauta. Segue e-mail recebido abaixo. Um abraço, JÚNIO ALVES.” :

“- Caro amigo e confrade Iso Jorge, leio com freqüência seus artigos e suas explicações sobre os mais variados assuntos à luz de nossa magnífica Doutrina, e creio que o Sr. é dotado de um grande conhecimento dentro da mesma, por isso gostaria de poder contar com seus conhecimentos  sobre um assunto que venho lendo, e que tem me despertado imenso interesse, a título de pesquisas, e que de certa forma, acredito que possa me ajudar com meu trabalho. O fato é que estou lendo o famoso livro de Dan Brown (O CÓDIGO DA VINCI), por sinal muito bom mesmo, e não sei se o Sr. já teve a oportunidade de ler, mas trata de um assunto que sempre esteve em pauta, porém, com outros focos, que é o famoso Priorado de Sião e o Santo Graal, sei que se trata de uma obra de ficção, porém, como o próprio autor  faz questão de deixar claro no prefácio (TODAS AS DESCRIÇÕES DE OBRA DE ARTE, ARQUITETURA, DOCUMENTOS E RITUAIS SECRETOS NESSE ROMANCE CORRESPONDEM RIGOROSAMENTE À REALIDADE).  Fiquei um tanto quanto curioso e gostaria de saber um pouco mais sobre o assunto, sobre uma ótica mais voltada para minhas convicções, ou seja, dentro da Doutrina Espírita. Certo de poder contar com suas maravilhosas explanações, desde já lhe sou muito grato e aproveito a oportunidade para lhe parabenizar pelo belo trabalho que vem realizando. Perdão pelo extenso texto, mas procurei ser o mais breve possível para me fazer entender. Abraços fraternos e que Jesus nos ilumine hoje e sempre.”         

CRISTIANO F. CAIXETA - Patos de Minas – MG

            Não temos a pretensão nem a capacidade de analisar LITERARIAMENTE o livro O CÓDIGO DA VINCI, só entraremos em alguns aspectos polêmicos destacados no referido livro, para demonstrar a dificuldade intrínseca do assunto, quanto ao que se refere ao HOMEM JESUS – seria ele de descendência nobre, da realeza? Teria ele se casado com MARIA MADALENA ou MARIA de MAGDALA ou MIGDAL (vilarejo da Galiléia) e tido filhos dessa união? Tais hipóteses contidas neste livro de DAN BROWN, embora de ficção, teria conseqüências drásticas para ao profitentes do catolicismo, especialmente; e para os adeptos do Espiritismo? Será esta questão que tentaremos responder ao nosso leitor CRISTIANO, aliás, um leitor que demonstrou inteligência e atualização quanto ao que ocorre em assunto que poderia ter conseqüências para o Movimento Espírita...

            Antes de entrar no assunto específico, gostaríamos de relembrar que KARDEC advertiu, logo na Introdução do livro OESE, mostrando o “objetivo” desta obra, que as matérias contidas nos EVANGELHOS podem ser divididas em 5(cinco) partes: 1- os atos comuns da vida do cristo; 2- os milagres; 3- as profecias; 4- as palavras que serviram para os estabelecimentos dos dogmas da Igreja e, finalmente, 5- o ensino moral. Disse KARDEC em seqüência:

            “Se as quatro primeiras partes têm sido objeto de discussões, A ÚLTIMA PERMANECE INATACÁVEL.” – o grifo é nosso – (op. cit., Edit. LAKE, São Paulo, 27 ed., 1985, p. 17). Mais adiante, KARDEC acrescenta:

            “Todo mundo admira a moral evangélica; todos proclamam a sua sublimidade e a sua necessidade; mas muitos o fazem confiando naquilo que ouviram, ou apoiados em algumas práticas que se tornaram proverbiais, pois poucos a conhecem a fundo, menos ainda a compreendem e sabem tirar-lhe as conseqüências.” (op., cit., p. 17).

            Continuando, assevera o Codificador:

            Muitas passagens do Evangelho, da Bíblia e dos autores sagrados em geral são ININTELIGÍVEIS e muitas mesmo parecem absurdas, por falta de uma chave que nos dê o seu verdadeiro sentido. Essa chave está inteirinha no Espiritismo como já se convenceram os que estudaram seriamente a Doutrina e como ainda melhor se reconhecerá mais tarde.” (op. cit., p. 18).

            Portanto, caríssimos leitores, KARDEC preocupou-se, fundamentalmente, com o “ensino moral” de JESUS,  só se dedicou às outras partes do Evangelho no seu último livro – A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO -, até porque o livro trevoso de J.B. ROUSTAING já começava a criar dissidências dentro do Movimento Espírita nascente...

            Assim, caríssimo confrade Sr. CRISTIANO CAIXETA, vamos tentar esclarecer aqui alguns tópicos relacionados à descendência nobre de JESUS e o seu suposto casamento com MARIA MADALENA e, o que é mais importante do ponto de vista ESPÍRITA, expor a nossa opinião relacionada à IDENTIDADE do Espírito VERDADE. Seria este o próprio JESUS? Seria JESUS a “personificação” do Espírito VERDADE? Assim, também responderemos a outro confrade, que insistentemente vem pedindo para que lhe respondamos um mail a nós dirigido, no dia 16/01/2005, nestes termos:

            “Sr. Iso Jorge Teixeira

          Estava lendo um artigo do Sr. no site PORTAL DO ESPÍRITO sobre falsos profetas, em que o Sr. comenta de passagem, de que a opinião  de que o Espírito Verdade seja o próprio Jesus é uma idéia da FEB e de Roustaing. Gostaria de fazer meu comentário de que discordo da sua opinião e parece que Kardec também discorda. Pois essa idéia se encontra na própria codificação e portanto está presente em Kardec, pois ele, Kardec, em O Livro dos Médiuns refere-se a Jesus como o Espírito de Verdade e em outros livros como o Evang. Seg. o Espir. e em A Gênese, se não me engano, ele atribui  a presidência pelo movimento de regeneração do planeta Terra, ora a Jesus, ora ao Espírito de Verdade, indicando que se trata de uma mesma personalidade.

          Atenciosamente.”

PAULO ROBERTO PEREIRA – Juiz de Fora – MG

            Como se pode observar, o Sr. leitor PAULO ROBERTO simplesmente discorda de nossa posição, sem grande argumentações e leitura ligeira, ao dizer “se não me engano”... Bem, primeiramente, vamos à resposta  da questão do confrade CRISTIANO...

O CÓDIGO DA VINCI, de DAN BROWN

            O livro O CÓDIGO DA VINCI, de DAN BROWN pareceu-nos excelente... Prende a atenção, é bem escrito e é eletrizante, pois há uma série de “segredos”, que são desvendados, paulatinamente, com um bom suspense e ações policiais e políticas de bastidores do Vaticano, da entidade OPUS DEI e da Sociedade Secreta PRIORADO DE SIÃO e tudo se passa em torno de 24 horas e, no final do livro, o protagonista ROBERT LANGDON retorna a um quarto de hotel de Paris (HOTEL RITZ), o mesmo do início do livro, e o narrador informa que ROBERT LANGDON “despertou sobressaltado. Tivera um sonho”. É possível que, por isso, o ritmo do livro é tão acelerado, eletrizante e as 24 horas são descritas em 423 páginas de uma leitura agradabilíssima, onde os ingredientes de suspense, intrigas, sociedades secretas, obras de arte de LEONARDO DA VINCI e suas mensagens secretas são discutidas e algumas decifradas, além dos fatos reais, segundo o autor, como a atuação da OPUS DEI e do VATICANO, despertam a atenção e o desejo do leitor de um conhecimento novo...

            Como dissemos em nossa resposta preliminar ao confrade , as informações com base na realidade não são novas no livro, parecendo-nos um arremedo dos livros não-ficcionistas “O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA” e “A HERANÇA MESSIÂNICA” (Edit. Nova Fronteira, 1982, trad.  para o Português, aquele na 3 ed. em 1993), ambos de 3 autores: MICHAEL BAIGENT, RICHARD LEIGH e HENRY LINCOLN.

            A tese básica desses livros é a de que JESUS sendo descendente da linhagem REAL de DAVI, tinha SANGUE REAL e não era aquele pobretão descrito nos EVANGELHOS e as “BODAS DE CANÁ”, na realidade, teriam sido as comemorações do casamento de Jesus com MARIA MADALENA e os argumentos são bem convincentes, a nosso ver: se JESUS era um rabino, teria de ser casado por força das leis judaicas; além disso, as idas e vindas de MADALENA nas viagens de pregações de JESUS, admitindo-se que ela fosse solteira, teria de provocar a surpresa dos judeus, o que foi omitido pelos Evangelhos canônicos, aliás, dos canônicos, só o Evangelho de JOÃO faz referências às “Bodas de Caná”...

            Formou-se, então, uma Sociedade Secreta, para manter este segredo, pois, a partir de CONSTANTINO, fundiu-se a visão pagã com o Cristianismo nascente, aumentando o poderio da Igreja católica no mundo e o Concílio de Nicéia colocou a figura de JESUS como DIVINA e o papel da mulher foi praticamente negado. Assim, o “cálice sagrado”, ou “Santo Graal”, ou “Sangreal”, isto é, o “Sang Real” manteve-se oculto, guardado pelo PRIORADO DE SIÃO, uma Sociedade Secreta que viria se perpetuando, guardando este segredo até recentemente... E LEONARDO DA VINCI, assim como SANDRO BOTTICELLI, dois pintores renomados teriam sido Grão-Mestres desta Sociedade. Tais pintores teriam perpetuado o segredo através de mensagens ocultas em seus quadros. Assim, MONA LISA, A VIRGEM DOS ROCHEDOS e A Santa CEIA, quadros de DA VINCI, conteriam mensagens disfarçadas, de referência a MADALENA, que seria, em última análise, o tão procurado “cálice sagrado”, o SANTO GRAAL e ela teria tido filhos com JESUS...

            É nisso que a trama se concentra no livro O CÓDIGO DA VINCI, pois 3(três) responsáveis pelo segredo teriam sido assassinados por ordem da OPUS DEI, sendo que o último a ser assassinado, deixou mensagens ocultas antes de morrer e a história de ficção transcorre pela busca do SANTO Graal por ROBERT LANGDON, um prof. de simbologia e SOPHIA, a neta de SAUNIÉRE, este assassinado por SILAS, um albino protegido pela OPUS DEI, que matava em nome de JESUS. O livro também revela um FATO – é que a OPUS DEI cobriu o rombo do VATICANO, transferindo a quantia de  “QUASE UM BILHÃO DE DÓLARES” para o Instituto de Obras Religiosas (IOR) do Vaticano, em função do escândalo do Banco Ambrosiano, por isso, o Papa João Paulo II teria admitido oficialmente a OPUS DEI como “prelazia pessoal do Papa”, em 1982...

            Interessante destacar que no quadro A CEIA ou O CENÁCULO de LEONARDO DA VINCI houve uma descoberta SENSACIONAL, pois o Apóstolo que está pintado à direita de JESUS, que seria JOÃO, o mais querido de JESUS, na realidade não seria JOÃO e sim uma mulher, supostamente MARIA MADALENA e a Santa Ceia seria uma reunião em que JESUS estaria transferindo as responsabilidades da Direção do grupo para MARIA MADALENA e isto teria desagradado os Apóstolos, enciumados... Esta interpretação de DA VINCI encontraria base nas informações contidas nos Evangelhos apócrifos, que a Igreja não teria conseguido destruir, especialmente, o EVANGELHO DE FILIPE e da própria MARIA MADALENA, que teriam sido encontrados nos MANUSCRITOS DO MAR MORTO...

            O livro de DAN BROWN, O CÓDIGO DA VINCI, lançado nos EUA em 2003 e editado em nosso País pela Editora Sextante, em 2004, já vendeu mais de 20  milhões de exemplares em tão pouco tempo; é um bestseller mundial. Por isso, o Vaticano antes mesmo da morte do Papa JOÃO PAULO II, resolveu se manifestar repudiando o livro e recomendando aos católicos que não o lessem, pois seria um livro mentiroso...

A Ceia ou O Cenáculo, afresco de Leonardo da Vinci
em Santa Maria Delle Grazie, século 16, Milão – Itália


A Santa Ceia (DETALHE)

Crucificação Mística ou
Maria aos pés da Cruz (DETALHE),

de ALESSANDRO DI MARIANO FILIPEPI  ou SANDRO BOTTICELLI, 1496, Fogg Art Museum, Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos 

Alguns interpretam este quadro de BOTTICELLI dizendo que ele empregou os seguintes códigos: Maria Madalena veste "capa cardinalícia". O vermelho, símbolo do status clerical, símbolo dos bispos, demonstraria a reverência de BOTTICELLI a Madalena, versado como foi nas artes esotéricas assimiladas de Verrochio

O anjo segura uma raposa pelo rabo: a raposa seria o símbolo da "falsidade pia". Boticelli acreditaria que Jesus sobreviveu à crucificação

______________

AS BODAS DE CANÁ E SUA INTERPRETAÇÃO

            Bem, vejamos a tese defendida de que o Santo Graal ou Sang Real, seria a maternidade de Madalena; vejamos a tese de casamento de JESUS com MADALENA, não em O CÓDIGO DA VINCI, mas no livro referido que não é de ficção: O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA (op. cit., p. 274-275)...

            “(...) a hipótese de casamento se torna ainda mais aceitável em virtude do título de rabino ter sido freqüentemente atribuído a Jesus nos evangelhos. É possível, é claro, que este termo tenha sido empregado em seu sentido mais amplo, significando simplesmente um professor autonomeado.(...) MAS SE JESUS ERA UM RABINO EM SENTIDO ESTRITO, UM CASAMENTO NÃO TERIA SIDO PROVÁVEL, MAS CERTO. A lei judia é explícita: ‘Um homem não casado não pode ser professor’. – grifo nosso - (op. cit., p. 274).

            E prossegue a argumentação dos pesquisadores:

            “No quarto evangelho há um episódio relacionado ao casamento que pode ter sido do próprio Jesus. Trata-se do casamento de Canaã, uma história que, apesar de bastante familiar, provoca algumas perguntas que merecem consideração. De acordo com a narrativa, o casamento de Canaã teria sido uma cerimônia local modesta, um típico casamento de vilarejo, cujos noivos permanecem anônimos. Para este casamento Jesus foi especificamente “chamado” ¾  O que talvez seja ligeiramente curioso, pois ele ainda não tinha começado seu ministério como rabino. Mais curioso, contudo, é o fato de que sua mãe “simplesmente” se encontra presente. E sua presença é tida como normal, embora não seja de nenhum modo explicada.” (p. 274/275).

Em seguida dizem os autores:

            “Além disso, Maria não só sugere a seu filho, mas na verdade lhe ordena que reponha o vinho. Comporta-se como se fosse a anfitriã (João 2,3-4): “E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm vinho’. E Jesus respondeu: ‘Mulher, que importa isso a mim e a vós? Ainda não é chegada a minha hora. ”Mas Maria, completamente à vontade, ignora o protesto do filho (João 2,5): “Disse a mãe de Jesus aos que serviam: ‘Fazei tudo o que ele vos disser.” E os servos prontamente obedeceram como se estivessem acostumados a receber ordens de Maria e de Jesus.

            Apesar da aparente tentativa de Jesus de repudiá-la, Maria prevalece; e Jesus realiza seu primeiro milagre, a transmutação de água em vinho. No que concerne aos Evangelhos, ele não tinha ainda  demonstrado seus poderes; e não havia nenhuma razão para que Maria assumisse que ele os possuía. Mas mesmo que houvesse, por que deveriam tais dons, singulares e sagrados, ser empregados com um propósito tão banal? Por que deveria Maria fazer tal pedido a seu filho? E, mais importante, por que deveriam dois “convidados” a um casamento tomar parte sobre si a responsabilidade de servir – uma responsabilidade que, por costume, seria reservada ao anfitrião? A menos, é claro, que o casamento em Canaã fosse o próprio casamento de Jesus. Nesse caso, seria sua a responsabilidade de servir o vinho.” (p. 275).

            E os inteligentes pesquisadores concluem, mais enfaticamente, com uma interpretação muito interessante:

            “Existem mais evidências de que o casamento em Canaã foi, de fato, o de Jesus. Imediatamente depois do milagre do vinho, o organizador da festa que “governava a mesa” – um tipo de mordomo ou mestre de cerimônias – prova o vinho recém-produzido. Em seguida, lemos em João (2:9-10): ‘O que governava a mesa (...) CHAMOU O NOIVO e disse-lhe: ‘Todo homem põe primeiro o bom vinho: e quando já os convidados têm bebido bem, então lhes apresenta o inferior. Tu ao contrário, tiveste o bom vinho guardado até agora.” (grifos nossos). Estas palavras parecem claramente dirigidas a Jesus. Segundo o Evangelho, contudo, elas são dirigidas ao “noivo”. Uma conclusão óbvia é que Jesus e o noivo são a mesma pessoa.” (p. 275).

            Aí estão expostas as argumentações da hipótese do casamento de JESUS com MADALENA, que não era uma prostituta, como se costuma propagar. Em O CÓDIGO DA VINCI há a informação de que MADALENA descendia da tribo de BENJAMIM e no livro O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA há também esta hipótese, lemos:

            “Jesus teria sido um rei-sacerdote da linhagem de Davi, que possuía uma pretensão legítima ao trono. Teria consolidado sua posição através de um casamento dinástico simbolicamente importante. Teria então ficado em condições de unificar seu país, mobilizar o povo ao seu redor, expulsar os opressores, depor a marionete abjeta e restaurar a glória da monarquia como na época de Salomão. Tal homem teria sido realmente o “rei dos judeus” (cf. op. cit.,p. 289).

Enfim, as argumentações dos autores são bem racionais e é sob este tipo de raciocínio, com base na realidade, que DAN BROWN desenvolve a trama de seu livro de ficção. Em ambos os livros, especialmente na interpretação dos quadros de DA VINCI, a nosso ver,  “si no é vero é bene trovatto”...

VISÃO KARDEQUIANA DAS BODAS DE CANÁ

            Vejamos o que nos diz KARDEC em relação às “Bodas de Caná” no livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEG. O ESPIRITISMO (Cap. XV, item 47, págs. 337/338, Edit. FEB, 25 ed., trad. Guillon Ribeiro):

            “47. Este milagre referido unicamente no evangelho de S. João, é apresentado como o primeiro que Jesus operou e, nessas condições, deverá ter sido um dos mais notados. Entretanto, bem fraca impressão parece haver produzido, pois nenhum outro evangelista dele trata. Fato tão extraordinário era para deixar espantados, no mais alto grau, os convivas e, sobretudo, o dono da casa, os quais, todavia, parece que não o perceberam.

            Considerado em si mesmo, pouca importância tem o fato, em comparação com os que, verdadeiramente, atestam as qualidades espirituais de Jesus. ADMITIDO QUE AS COISAS HAJAM OCORRIDO, CONFORME FORAM NARRADAS, é de notar-se seja esse, de tal gênero, o único fenômeno que se tenha produzido. Jesus ERA DE NATUREZA EXTREMAMENTE ELEVADA PARA SE ATER A EFEITOS PURAMENTE MATERIAIS, próprias para aguçar a curiosidade da multidão que, então, o teria nivelado a um mágico.” (op. cit., p. 338).

            Como podemos observar, KARDEC questiona este suposto milagre de JESUS, e com razão, porque não há nele nenhum elemento eminentemente espiritual; embora, mais adiante, KARDEC ainda tenta explicar, do ponto de vista MORAL a alegoria: “(...) durante o repasto, terá ele aludido ao vinho e à água, tirando de ambos um ensinamento na frase final: ‘Toda gente serve em primeiro lugar o vinho bom e, depois de todos o têm bebido muito, serve o menos fino; tu porém, guardas até agora o bom vinho’.”. Entretanto, KARDEC não se ateve ao detalhe de que O NOIVO e JESUS seriam a mesma pessoa, porque, como dissemos no início deste trabalho, a KARDEC importava, basicamente, o ENSINO MORAL de JESUS.

            Mas, o que fazem hoje alguns que se dizem espíritas, fanáticos? Identificam JESUS com o Espírito VERDADE e há, sem dúvida, alguns dirigentes, expositores e escritores espíritas bem-intencionados, que, pinçam palavras de Espíritos e de KARDEC, interpretadas à moda-da-casa, para tentarem fundamentar seus argumentos...

JESUS E O ESPÍRITO VERDADE – O SEGUNDO ADVENTO DE JESUS

            De fato, o assunto é polêmico, mas acreditamos que JESUS NÃO É O ESPÍRITO VERDADE e há inúmeros argumentos para sustentar a nossa opinião. Poderíamos, aqui, criticar os argumentos daqueles que defendem a tese contrária, baseados em alguns fragmentos, metodologicamente mal interpretados, contidos na REVISTA ESPÍRITA – Jornal de estudos psicológicos, anos de 1860, 1861, 1866 e, principalmente, numa comunicação publicada em O LIVRO DOS MÉDIUNS (OLM) – Cap. XXXI, comunicação IX.

Nesta comunicação, KARDEC admite a superioridade moral do Espírito que a assinou (Jesus de Nazaré), mas, mesmo assim, absteve-se de colocar a assinatura na publicação. No entanto, publicou a MESMA mensagem no livro O EVANGELHO SEG. O ESPIRITISMO (OESE), Cap. VI, item 5, assinada pelo Espírito VERDADE (Paris, 1860). Tal comunicação é bem conhecida dos espíritas, ela assim se inicia: “Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel (...)” e assim termina:

“(...) Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instrui-nos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!”

Agora, perguntamos nós: por que KARDEC admitiu que a mensagem, acima referida, poderia ter sido de JESUS, em 1861, e a republicou em 1864, assinando ESPÍRITO VERDADE? Seria porque ele as considerava a mesma entidade? Em caso positivo, por que não colocou a mensagem em OESE, assinando simplesmente JESUS? Seria por excesso de escrúpulo, excessiva admiração pelo nome do Mestre JESUS ou seria por excessivo pudor ou superstição mística? Não nos parece convincente nenhuma explicação que justifique a mudança de assinatura, a não ser a de que seriam Espíritos diferentes, embora muito semelhantes...

Ora, sabemos que os Espíritos Superiores reúnem-se por afinidade, em famílias. Nada impediria que o Espírito VERDADE assinasse em nome de JESUS! Teria ocorrido isto? Parece que não, pois o mais provável seria o contrário, posto que um importante médium recebeu a comunicação em 1860 e assinara JESUS, logo, a substituição por Espírito VERDADE foi  posteriormente...

Na realidade, sem elucubrações, KARDEC possuía informações seguras (através de VÁRIOS Espíritos) desde 1858, quando foi publicado o livrinho “INSTRUÇÕES PRÁTICAS SOBRE AS MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS” e neste opúsculo, disse ele:

“Tendo eu interrogado esse Espírito, ele se deu a conhecer sob um nome alegórico [VERDADE] eu soube depois, por OUTROS ESPÍRITOS, que fora o de um ILUSTRE FILÓSOFO DA ANTIGÜIDADE. (...)” (cf. “INSTRUÇÕES PRÁTICAS SOBRE AS MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS”, in INICIAÇÃO ESPÍRITA, EDICEL, São Paulo, 10 ed., 1986, p. 232).

Aí está cristalinamente o que disse KARDEC, mas alegam que ele teria mudado de idéia, sem nenhuma prova disso, somente com elucubrações relacionadas àquela comunicação IX de OLM...

ANUNCIAÇÃO DO CONSOLADOR

            Cremos que o nosso argumento maior de que o espírito VERDADE não era o próprio JESUS está contido, especialmente, no livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEG. O ESPIRITISMO. Assim, no Cap. XVII, item 39, leiamos KARDEC:

            “Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo: “Pedirei a meu Pai e ele vos enviará OUTRO Consolador”, JESUS CLARAMENTE INDICA QUE ESSE CONSOLADOR NÃO SERIA ELE, pois, do contrário, teria dito: “Voltarei a completar o que vos tenho ensinado.”  Não só tal não disse, como acrescentou: A FIM DE QUE FIQUE ETERNAMENTE CONVOSCO E ELE ESTARÁ EM VÓS.” – grifos nossos. E o Codificador acrescenta:

            “Esta proposição não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, visto que não poderia ficar eternamente conosco, NEM, AINDA MENOS, ESTAR EM NÓS; compreendemo-la, porém, muito bem com a REFERÊNCIA A UMA DOUTRINA; a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado PODERÁ ESTAR ETERNAMENTE EM NÓS. O CONSOLADOR é, pois, SEGUNDO JESUS, A PERSONIFICAÇÃO DE UMA DOUTRINA soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o ESPÍRITO DE VERDADE.” –grifos nossos.

            E no item 45 do mesmo capítulo da referida obra, parece-nos cristalina a tese kardequiana e ESPÍRITA, complemento da anterior... Comentando o SEGUNDO ADVENTO DE CRISTO (Mt 16, 24-28) disse KARDEC (op. cit., p. 389):

            “Jesus anuncia o seu segundo advento, mas não diz que voltará à Terra com um corpo carnal, NEM QUE PERSONIFICARÁ O CONSOLADOR(...)”...

            Ou seja, caríssimos confrades, quem admite que JESUS e o Espírito VERDADE (Espírito Santo, na linguagem católica) sejam o MESMO Espírito, implicitamente, estará admitindo as teses dos teólogos católicos, pois, segundo estes, quando JESUS diz: “ e rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito [o termo PARÁCLITO corresponde à melhor tradução, pois implica em uma espécie de advogado, de intercessor junto ao Pai]” estaria aí, TEOLOGICAMENTE, a personalidade do ESPÍRITO SANTO, relevada acentuadamente por um paralelo entre sua ação junto aos fiéis e a do Cristo” – grifos nossos. Ou seja, Srs. leitores, JESUS SIMULTANEAMENTE PAI, FILHO e ESPÍRITO SANTO...

            Quando diz a Bíblia que o Paráclito é o “Espírito DA Verdade” (João 14,17), os teólogos da Bíblia de Jerusalém (BJ) interpretam que ele é Espírito DA Verdade em oposição ao “Príncipe do mundo”, que é “pai DA mentira”. Ou seja, em oposição ao DIABO...

            Enfim, caríssimos leitores, se admitirmos que JESUS e o ESPÍRITO VERDADE são a mesma entidade (aliás com sofríveis argumentos) estaremos caindo na esparrela teológica de que Pai, Filho e Espírito Santo são a MESMA entidade da TRINDADE UNIVERSAL, milagrosa, misteriosa... Que faltaria a nós para dizermos que não seríamos católicos? Ou ESPIRITÓLICOS, como diria o prof. IMBASSAHY ?!... Se assim é, vã é a Doutrina dos Espíritos, vãs seriam nossos princípios filosóficos.

EPÍLOGO

            Concluindo, gostaríamos de dizer ao confrade CRISTIANO CAIXETA que o livro O CÓDIGO DA VINCI é muito bom, pois desmistifica a figura de JESUS, DO HOMEM Jesus, mas não nega, em nenhum momento, a sua superioridade moral e ele é útil para os espíritas, pois serve de alerta para lembrar que o Espiritismo deve acompanhar as descobertas científicas e os MANUSCRITOS DO MAR MORTO (especialmente os 1200 papiros de Nag Hammadi, no Egito, descobertos a partir de 1945) estão sendo desvendados e, se de fato, comprovarem a AUTENTICIDADE dos EVANGELHOS DE MADALENA E DE FILIPE, que estariam entre os documentos ali encontrados, será muito verossímil que MADALENA casou-se com JESUS e teve filhos; porém, isso em nada afetaria o Espiritismo, pois FÉ INABALÁVEL SÓ É AQUELA QUE ENFRENTA A RAZÃO FACE A FACE, EM TODAS AS ÉPOCAS DA HUMANIDADE e em nossa época as crendices e fanatismo já deveriam ter acabado , pelo menos entre os que se dizem espíritas...

Gostaríamos de citar, também, uma mensagem carinhosa de um confrade, pois ela vem ratificar o que temos sempre repetido em relação aos riscos do FANATISMO, inconcebível num espírita verdadeiro, disse o confrade no dia 22 de abril/2005:

Caro Iso, Li e me entusiasmei com seu artigo, [ ERRATICIDADE E FANTASIAS ESPIRITUAIS ], publicado no PANORAMA ESPÍRITA. Realmente quando articulistas que dominam a doutrina espírita discorrem sobre temas tão controversos com segurança e equilíbrio renovamos as esperanças de não cairmos no fanatismo dogmático de certas vertentes dito espíritas. Meus parabéns pelo artigo.” Jader.

JADJALBAR F. LIMA – Calda Novas – GO

            Que os espíritas se conscientizem de que os desafios científicos que nos aguardam devem ser enfrentados com muita sensibilidade e RAZÃO. Tudo o que for descoberto sobre o homem JESUS em nada afetará a sua mensagem MORALIZANTE que todos nós encarnados precisamos para seguirmos o seu exemplo. Ele foi, é e continuará sendo, nosso Guia e Modelo; tendo sido ou não casado; tendo sido por direito, ou não, REI DOS JUDEUS; porque, ele próprio teria afirmado que O SEU REINO NÃO É DESTE MUNDO e a nossa busca não é pelo “REINO DOS CÉUS”?... Aperfeiçoemo-nos espiritualmente, pois somos perfectíveis, sem dogmatismos!

 

            Em 27 de março/2001 foi divulgada a conclusão a que chegaram os produtores de uma série especial da BBC de Londres, intitulada “Filho de Deus”, sobre o rosto de JESUS, utilizando modernas técnicas forenses para recriar o rosto de JESUS, O CRISTO. Surgiu muita polêmica e críticas ao processo, que seria inespecífico, no entanto, mais próximo da realidade do que aquele JESUS, no estilo dos pintores europeus, de olhos azuis e tez branca. Mas, do ponto de vista espírita, não roustainguista, a prova da verdadeira característica corporal de JESUS mudaria o aspecto MORAL da mensagem de JESUS? Certamente, NÃO! Leiamos o que nos diz KARDEC, palavras que, a nosso ver é um “tiro” de Misericórdia, tanto para os ROUSTAINGUISTAS, quanto para aqueles que, como ROUSTAING, dizem que JESUS é “O Fundador, O Protetor, O Governador da Terra”:

            “Como homem, tinha a ORGANIZAÇÃO DOS SERES CARNAIS; porém como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível.” – o grifo é nosso.

A seguir, destacamos as palavras de KARDEC:

            “A sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e da do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres (cap. XIV, n º 9)” (A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEG O ESPIRITISMO,  trad. GUILLON RIBEIRO, FEB, Rio de Janeiro, 25 ed., Cap. XV, item 2, 2 º parágrafo, p. 310).

O rosto de JESUS segundo pesquisa da BBC de
Londres, divulgada em 27 de março/2001


Quanto à opinião de alguns confrades de que JESUS seria o próprio “Espírito DA VERDADE” é sempre respeitável, mas, sinto dizê-lo, erraram na tradução (L’ Esprit de Vérité) e a argumentação está comprometida pela premissa (” parti pris” )  de que o Espírito VERDADE e JESUS seriam “O Governador da Terra”, inspirada no cavernoso livro de J.B., ROUSTAING e, por isto, só por isto, infelizmente, citaremos um pensamento atribuído a EINSTEIN, que temos repetido:

“HÁ DUAS COISAS INFINITAS: O UNIVERSO E A TOLICE DOS HOMENS”.

 

* Médico. Psiquiatra. Professor Livre-Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da  Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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