|
Vera Gaetani
Quando se pretende colocar a riqueza como
uma prova antes que um privilégio, é obrigatório começar citando uma passagem
da vida de Jesus narrada por três dos quatro evangelistas. Aproximou-se dele um
jovem que o interpelou: — Bom Mestre, que devo fazer para adquirir a vida
eterna? Depois de advertir que bom só Deus o é, respondeu-lhe Jesus: — Se você
quer entrar na vida, guarde os mandamentos. — Que mandamentos? perguntou o
jovem. Jesus enumerou alguns: Não matar; não cometer adultério; não furtar; não
dar falso testemunho; honrai pai e mãe e amar o próximo como a si mesmo. O moço
lhe respondeu: — Tenho guardado todos esses mandamentos desde que cheguei à
mocidade. Que é o que ainda me falta? Disse Jesus: — Se você quer ser perfeito,
vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres e terá um tesouro no céu.
Depois, venha e siga-me. Ouvindo essas palavras, o moço se foi tristonho,
porque possuía grandes haveres. Jesus comentou então com os discípulos: —
Digo-lhes, em verdade, que bem difícil é que um rico entre no reino dos céus. E
usa em seguida uma figura de linguagem bastante forte: — É mais fácil que um
camelo passe pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus.
Segundo Kardec, o que se deve entender dessa
passagem não é que seja impossível um rico entrar no reino dos céus pois, se
assim fosse, Deus teria posto nas mãos de alguns um instrumento fatal de
perdição; mas deve-se entender que é muito difícil um rico entrar no reino dos
céus. E por quê? Porque a riqueza gera tentações; exerce fascinação sobre as
pessoas, é excitante do orgulho, do egoísmo, da vida sensual; é o laço mais
forte que prende o homem à Terra e o faz esquecer das coisas do espírito.
Particularmente as pessoas que passam de repente da pobreza à riqueza, essas
sofrem uma tal vertigem que se esquecem até dos que lhe compartilharam a
situação anterior, tornando-se insensíveis, egoístas e fúteis.
Tudo isso que Kardec coloca faz-nos entender
que a riqueza é uma prova muito arriscada para o espírito, mais perigosa do que
a prova da pobreza. São palavras do próprio Kardec: “a pobreza é, para os que a
sofrem, a prova da paciência e da resignação; a riqueza é, para os outros, a
prova da caridade e da abnegação”.
O pobre está sempre esperando: na fila por
emprego; na fila por atendimento; esperando que cumpram o que lhe prometeram;
esperando o dia do pagamento para saldar suas dívidas; esperando abono de Natal
para comprar um objeto de utilidade doméstica e assim por diante. O pobre precisa
ainda contentar-se com o artigo inferior, porque esse é acessível ao seu bolso,
embora também aspire a coisas mais bonitas, mais perfeitas, mais confortáveis
e, conseqüentemente, mais caras. O pobre sem paciência e sem resignação
torna-se invejoso e revolta-se a ponto de assaltar e matar por causa de um
objeto de grife.
Todavia, a prova da riqueza é de mais alto
risco. Quando Jesus disse ao moço que se desfizesse de todos os bens, é lógico
que não pretendeu fazer do despojamento total o princípio absoluto da salvação.
É que, antes, o moço dissera que ele já observara os mandamentos desde a sua
mocidade, o que eqüivale a dizer que ele já era um homem perfeitamente honesto
para os padrões humanos, mas a sua virtude não chegava à abnegação. Por isso
Jesus lhe propõe a prova decisiva, porque põe a nu o fundo do pensamento e dos
sentimentos da criatura. Quando o dinheiro é muito, a criatura pode agir plena
e desembaraçadamente e então ela se revela tal qual é. Talvez um pobre
aparentemente humilde se revele um tirano se, de repente, se tornar rico.
Muitas vezes, para deixarmos de colaborar
com o bem, nós, de má vontade, nos dizemos pobres, como se a pobreza fosse uma
desculpa. Há outras riquezas que nos felicitam a cada hora. Muitos ricos dariam
grande fortuna pelo tesouro da fé, pela bênção da saúde, pelo recurso da
locomoção, por membros perfeitos, por equilíbrio e lucidez.
Antes de censurarmos o rico, saiamos de nós
mesmos e auxiliemos o próximo que, muitas vezes, espera simplesmente uma
palavra de entendimento e reconforto.
Este
estudo baseia-se na seguinte bibliografia:
O
Evangelho Segundo o Espiritismo - Kardec
Livro
da Esperança – Emmanuel
Religião
dos Espíritos - Emmanuel
Fonte: Jornal Verdade e Luz Nº 187 – Agosto/2001
|