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Márcia Eliza Bussolaro
Responda rápido: o que faria se ganhasse na mega sena
? Se a sua resposta foi “Eu pararia de trabalhar”, você não deve ter sido o
único. Muitos têm essa idéia de que quando tem muito dinheiro a primeira coisa
desnecessária é o trabalho. Trabalhar para que ? Eu não vou precisar de nada.
Poderei ter tudo o que quiser ....
Por que será que muitos fogem tanto do trabalho ? Toda
segunda feira é uma tortura, o chefe é um chato, o trabalho um tédio. A
primeira coisa que mudariam na vida é o trabalho. Um emprego melhor, ser
empresário, ganhar bem, fazer coisas “bacanas”. O objetivo do trabalho é a
recompensa material: o salário. O bom salário pode lhes prover tudo o que
gostariam, não só o que necessitam. Será que o trabalho não tem nada de bom ?
Será mesmo que o dinheiro é a pior invenção humana ?
O salário, como se conhece hoje, é uma maneira de
remuneração por um trabalho executado. Um trabalho mais difícil, mais
especializado recebe uma remuneração maior. Um trabalho mais fácil, mais
simples, recebe uma remuneração menor. O dinheiro serve como instrumento de
troca para adquirirmos o que é necessário para nossa existência. Com ele, é bem
mais fácil comprar os bens do que na base da troca.
Trabalhar todos os dias requer de nós primeiro
disciplina, temos um horário a cumprir, o serviço deve ser feito para que
recebamos o salário. Requer esforço para
aprender coisas novas, estudo, paciência e perseverança até dominarmos o que
foi aprendido, auto-motivação, força e coragem para superar obstáculos. Tudo
isso só falando do indivíduo sozinho. Levando em conta que o trabalho também
tem relacionamento com outras pessoas, somos obrigados a aprender respeito, cultivar amizades, resignação,
tolerância, saber ouvir, saber calar, humildade, paciência, obediência, etc.
Muito além da remuneração, o trabalho nos proporciona a aquisição de
conhecimento e de muitas virtudes. Na realidade ele é um grande motivador para
o nosso crescimento. Se não fosse pela remuneração, muitos não se sentiriam
motivados a aumentar seu conhecimento. Muito menos motivados ainda em aprender
a ser tolerantes e pacientes com seus companheiros. Iam ficar “aproveitando a
vida” como sonham os esperançosos jogadores da mega sena.
A máxima de que o dinheiro é um mal necessário faz
todo sentido. É um mal na maneira como é distribuído e utilizado. É necessário
porque é um grande motivador para o crescimento intelectual e moral da
sociedade. No mundo quase ideal, o dinheiro não deveria ser o objetivo do
trabalho, mas a conseqüência. O objetivo deveria ser aquilo que realmente
gostamos de fazer com prazer, com amor. O grande motivador deveria ser o
próprio trabalho. Acordar da cama feliz da vida porque vai encontrar aquela
equipe legal, o chefe bacana e ansioso para trabalhar. A mesma motivação que
temos quando nos preparamos para nosso hobby preferido. O tempo nem passa e
terminamos o dia exaustos, mas felizes. Os maiores exemplos neste tipo de
trabalho do mundo quase ideal são os artistas. Quanta inveja despertam naqueles
que dizem que são felizes porque fazem o que gostam. Cantam, interpretam,
dançam. Quantos deles o fazem tendo a remuneração como objetivo ? O objetivo
deles é sempre executar muito bem o trabalho e aprimorar-se. Enfrentam todos os
desafios de qualquer outro trabalho.
Saindo da esfera das celebridades, que são poucos, em
outras atividades o trabalho também desponta como objetivo maior e sem
remuneração. Os trabalhadores voluntários dedicam seu tempo com amor, sem
esperar nada em troca. Simplesmente pelo objetivo de exercer o trabalho.
Enfrentam as mesmas dificuldades do trabalho remunerado. Nos últimos anos, o
surgimento de ONG’s foi espantoso, principalmente no Brasil. Começa a despertar
na consciência das pessoas, o valor do trabalho pelo trabalho. Há até aqueles
que se dedicam com tanto amor, tanto prazer que fazem do trabalho voluntário
uma válvula de escape para os problemas do dia-a-dia. Esses, dizem que o dia do
trabalho voluntário é o seu domingo, seu lazer, o momento em que esquecem as
preocupações.
Ainda vamos levar um bom tempo para chegar no mundo
quase ideal, mas pequenos lampejos dele já começam a aparecer. O homem já
começa a repensar idéias consolidadas, a mudar a visão que tem das coisas, a se
transformar. Quando chegarmos a esse mundo quase ideal, começaremos a nos
transformar novamente para criar o mundo ideal: sem dinheiro.
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