|
(Questões 674 a
685 de O Livro dos Espíritos)
Inaldo Lacerda Lima
Nesta parte de O Livro dos Espíritos,
que trata das Leis Morais, a necessidade e o limite do trabalho tomam vulto
especial no capítulo III da Parte 3a da obra maior da Terceira Revelação
de Deus à Humanidade.
Se nada mais escrevêssemos além dessa
análise reflexiva, já teríamos dito o suficiente para que a missão de Allan
Kardec fosse encarada por quem quer que a conhecesse como algo do mais
sublimado teor.
Nosso propósito, no entanto, com estes
estudos é bem outro. É aprofundar reflexões sobre mensagem tão luminosa quanto
perfeita da Espiritualidade, cuja origem não temos condição de compreender
senão como emanada das planuras celestiais.
Recordamos, através da História, que a
ação de trabalhar era considerada de cunho tão ínfimo que os nobres não
trabalhavam. Nada expressaria condição tão desprezível para um nobre como a de
trabalhador; talvez por isso mesmo salientara Jesus – “Meu Pai trabalha até agora,
e eu trabalho também” (João, 5:17) – ao ser censurado pelos fariseus por
realizar uma cura num dia de sábado.
Na verdade, quem observa a Natureza e o
próprio Universo vê que em tudo há trabalho. A própria vida, em si mesma, é uma
ação contínua de trabalho. E a história das civilizações premia-nos com exemplos
magníficos de trabalho em todas as áreas do progresso. Do homem de nossos dias
ao homem primitivo, parece-nos a distância de um salto apenas! Efetivamente,
sem a bênção do trabalho estarímos, ainda, na era da pedra lascada. Vê-se,
pois, que na ação de trabalhar se encontra o principal fator que arrastou o
homem primitivo à condição do homo sapiens de nossos dias, retardando-o
apenas em moralidade.
Por trabalho, aqui, não entenda ninguém
apenas as ocupações materiais. Por isso enganavam-se os nobres, quando
malsinavam, principalmente na Idade Média dos senhores feudais, o trabalho como
atividade inferior. Eles administravam seus bens e poderes, desconhecendo, por
força do egoísmo, que isso também era ação de trabalhar.
É que o homem ainda ignorava sua
condição de Espírito eterno, que sempre trabalha quando pensa, quando estuda,
quando faz Arte, quando procura ser útil. O homem de mente elevada sente que o
trabalho se lhe impõe, como conseqüência espiritual, no comando do corpo.
Mas, só nisso? Claro que não! Na Casa
do Pai tudo trabalha, mesmo os Espíritos ainda de condição inferior trabalham
(LE, questão 540).
Eis que sua alimentação, sua segurança
e bem-estar estarão sempre na dependência de certa atividade, e que essa
atividade é trabalho.
Assim, quando extremamente fraco o
homem, Deus lhe desenvolve a inteligência como compensação da fraqueza,
apontando-lhe recursos de ação criadora e produtiva, do que encontramos
exemplos em toda a parte.
Observemos uma vez mais a Natureza, no
mundo dos seres simples e irracionais. O que vemos é que não há inação em parte
alguma.
Tudo trabalha, a partir do átomo com
seus elétrons e prótons em ininterrupta movimentação no seio das coisas, mesmo
inorgânicas, estruturando, assim, os seres do futuro.
Nas plantas, nos irracionais, nos seres
mais pequeninos e simples, na terra e nos mares, tudo se agita, buscando vida e
conservação. No homem, porém, o trabalho tem duplo fim: a conservação ideal do
corpo – saúde e bem-estar – e o desenvolvimento da capacidade de pensar, de refletir,
de aprender mais e mais.
Atentemos, por exemplo, no que está expresso
no item 11 do capítulo XVII de O Evangelho segundo o Espiritismo, para
melhor reflexão.
Eis que na questão 678, o Codificador do
Espiritismo, numa indagação aos Espíritos Superiores, leva-nos a pensar nos
mundos mais aperfeiçoados do Universo, ensinando-nos que lá também há
necessidades que só serão satisfeitas através do trabalho incessante.
O cientista de nossos dias assesta seus
instrumentos de observação na direção do espaço cósmico, e ao captar a imagem
do nascimento de um sistema galático, há milhares de anos-luz, extasia-se e
exclama: “Um big-bang, é o nascimento do Universo!”
Porque não tem, ainda, alcance para
entender que o Universo é ação da plenitude infinita de Deus, e que a Criação é
permanente, nunca se interromperá!
Repitamos, mais uma vez, a afirmação de
Jesus registrada por João (5:17): “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho
também.”
Recordemos aqueles que, por expiação ou
prova, impossibilitados se encontram de trabalhar. E Deus, na sublimidade de
Seu Amor e Justiça, manda-nos que, fraternalmente, lhes supramos as
necessidades, à luz do Evangelho. Acentua, ainda, na questão 681, ser obrigação dos
filhos assistirem os pais, quando a estes faltarem forças para trabalhar; e adverte
toda a sociedade do dever de amparar os que se incapacitarem.
Quanto ao limite do trabalho e à
necessidade do repouso, na velhice, quatro questões ocuparam a atenção dos
Espíritos Reveladores, que confirmaram ser o repouso, também, lei natural da
vida, tendo em vista que, fisicamente, o trabalho pode exercer desgaste na máquina física
do corpo.
Desse modo, o limite do trabalho é
decorrente do limite das forças.
Não obstante, quanto a isso, Deus deixa
o homem entregue ao seu próprio arbítrio, sem isentá-lo da responsabilidade de
prover o que lhe for necessário, na ordem física, social e moral.
Na velhice, por exemplo, pode ocorrer
total incapacidade, no homem, para trabalhar, diante do que não lhe deve faltar
assistência da própria sociedade através do Estado.
Pois, que há de fazer o velho que já
não pode trabalhar e precisa sobreviver? Na verdade, infelizmente, há países de
sociedades ainda tão atrasadas moral e espiritualmente que nem mesmo o poder
público se faz atento a esse tipo de compromisso fraternal...
Gostaríamos de estender-nos mais sobre
um melhor aprofundamento em torno do pensamento do inspirado Missionário da Doutrina
do Consolador. Em face, porém, de nossas deficiências, deixamos a cargo do
leitor refletir bem nas indagações do mestre Allan Kardec a respeito do que
compete à educação moral, social e cívica, tão necessária ao desenvolvimento
espiritual do homem...
Fonte: Revista Reformador – set/2004
|