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Marcus Alberto De Mario
Alguns
segmentos religiosos mantém em seu discurso uma acusação grave contra a
Doutrina Espírita, a de que nossa doutrina não é baseada nos ensinos de Jesus.
É comum ouvirmos padres e pastores afirmarem que o Espiritismo é doutrina do
demônio, e que os espíritas desconhecem o Evangelho.
Primeiro,
há necessidade de se esclarecer o entendimento sobre o demônio, palavra de
origem grega, daimon, que significa gênio ou protetor familiar. Sócrates,
famoso filósofo grego, dizia conversar constantemente com seu daimon, de quem
recebia orientações de ordem moral. Portanto, a palavra demônio só muito mais
tarde veio receber a acepção de um ser criado para fazer o mal, concepção essa
contrária ao bom senso e à lógica, pois se Deus, o Criador, é todo bondade,
amor e justiça, não pode criar um ser destinado, por toda a eternidade, a fazer
o mal, sem condição alguma de progresso. O reconhecimento da existência do daimon
sanciona a crença na imortalidade da alma, na continuidade da vida após a morte
e na comunicabilidade dos espíritos com os homens, e nada tem a ver com a
maldade absoluta, pois a crença espírita é a da existência de espíritos imperfeitos,
ainda se comprazendo no mal, mas que, pela lei do progresso, irão caminhar
paulatinamente para o bem.
Quanto
à argumentação de que o Evangelho não faz parte do Espiritismo, façamos um
pequeno estudo de “O Livro dos Espíritos”, a obra básica da doutrina. Logo no
frontispício, a página de abertura da obra, lemos: “O Livro dos Espíritos,
contendo os princípios da Doutrina Espírita sobre (...) as leis morais (...)
segundo o ensinamento dos Espíritos Superiores (...)”. Perguntamos: que leis
morais? São aquelas inscritas nos Dez Mandamentos e que servem de fundamento
aos ensinos e exemplos de Jesus.
No
item seis da Introdução, quando resume os pontos principais da Doutrina,
baseado nos ensinos do Espíritos, Allan Kardec expressa a crença em Deus como
condição básica da fé espírita. Depois informa: “A moral dos Espíritos Superiores
se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: “fazer aos outros o que
desejamos que os outros nos façam”, ou seja, fazer o bem e não o mal. O homem
encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo para as menores
ações.” Como podemos perceber, é um ensino de Jesus recomendado como princípio
universal de conduta para o homem.
Na
mensagem dos Espíritos Superiores que antecede os estudos na forma de perguntas
e respostas, lemos: “A vaidade de certos homens, que crêem saber tudo e tudo
querem explicar à sua maneira, dará origem a opiniões dissidentes; mas todos os
que tiverem em vista o grande princípio de Jesus (acima referido) se
confundirão no mesmo sentimento de amor ao bem e se unirão por um laço fraterno
que envolverá o mundo inteiro; deixarão do lado as mesquinhas disputas de
palavras para somente se ocuparem das coisas essenciais.” Novamente a alusão a
Jesus e seus ensinos, desta vez como roteiro para união das doutrinas religiosas.
A
primeira parte de “O Livro dos Espíritos”, tratando das Causas Primárias, faz
um amplo estudo sobre Deus e a criação divina, e se o Espiritismo nenhuma
relação tivesse com o Evangelho, não poderia construir seu edifício doutrinário
na crença em Deus, pois toda a cristandade, seja ela católica ou protestante,
baseia-se na crença divina.
Na
segunda parte, estudando o Mundo Espírita ou dos Espíritos, compreendemos que
os Espíritos são os próprios homens desencarnados, e que tudo no universo é
regido pela lei de Deus, e que temos o progresso intelectual e também o
progresso moral, e que é este último o que distingue as diferentes ordens de
Espíritos. Mais uma vez a questão moral como base do pensamento espírita.
Quando
Allan Kardec chega à terceira parte, As Leis Morais, nenhuma dúvida temos
quanto a estar o Espiritismo intimamente ligado ao Evangelho. Basta lermos a
questão 625: Pergunta: “Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem,
para lhe servir de guia e modelo?” Resposta: “Vede Jesus.” A seguir o
Codificador faz este comentário: “Jesus é para o homem o tipo de perfeição
moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais
perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua
lei, porque ele estava animado do espírito divino e foi o ser mais puro que já
apareceu na Terra.”
Jesus
como guia e modelo da Humanidade e mais, a sua doutrina, ou seja, os seus
ensinos, como expressão perfeita da lei divina fazem parte dos princípios
básicos do Espiritismo, não havendo possibilidade, portanto, do espírita estar
desligado do Evangelho ou não poder ser considerado cristão.
O
que acontece é que o Espiritismo não considera o Evangelho ao pé da letra.
Temos que o Evangelho é o conjunto de escritos dos discípulos e apóstolos sobre
Jesus, recorrendo os mesmos para essa tarefa, da sua memória e de anotações
diversas. Não transcreveram fielmente a vida e obra de Jesus, e cada um
escreveu de acordo com seu ponto de vista, sofrendo maior ou menor influência
da cultura judaica. Também o Evangelho sofreu mudanças nas traduções para
outras línguas e recebeu acréscimos e decréscimos por parte da Igreja Católica,
o que é fato histórico. Assim, o Espiritismo considera unicamente os ensinos
morais de Jesus, tomando todo o resto da obra como subsídio histórico, o mesmo
acontecendo com os escritos que compõem o Velho Testamento, ou Bíblia.
O
espírita não se preocupa em decorar capítulos e versículos para recitá-los
mecanicamente, pois sua meta é a vivência dos ensinos morais do Mestre Jesus, e
essa vivência deve ser exercida através do amor ao próximo.
Evangelho
e Espiritismo são indissociáveis, e quem afirma o contrário o faz por
desconhecimento ou má fé. Não encontrando na prática espírita os fundamentos
das cerimônias e dos rituais litúrgicos e nem das recitativas evangélicas de
missas e sermões, condenam o Espiritismo julgando-o pela superfície, quando, se
o estudassem, encontrariam a caridade recomendada por Jesus em ação, no silêncio
de quem dá com a mão direita sem estender a mão esquerda para receber, como
recomendou o guia e modelo da Humanidade.
Fonte: Jornal Verdade e Luz
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