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O Perispírito, a Memória e o Tempo
Dr. iso Jorge Teixeira
Isojorge@globo.com
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Doente de Alzheimer “lavando”
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“Apesar da expressão embotada, adverte-se nela a diligência
com que se dedica à atividade. A paciente entrega-se a um obscuro impulso
ocupacional, mas não compreende de modo algum aquilo que está fazendo e não se
dá conta de que está pondo a cama em desordem”
(Fig. 20
c., extraída do livro “Tratado de Psiquiatría” – EUGEN BLEULER)
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Santo Agostinho
(c. 354 –
430)
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Aquele que
se dispuser a estudar, profundamente, a questão da MEMÓRIA e, conseqüentemente,
do TEMPO VIVIDO verá quanto é complexo tal estudo e não foi à toa que o
importante filósofo SANTO AGOSTINHO chegou à conclusão dessa dificuldade ao
proferir a sua célebre frase sobre o TEMPO, contida no
Livro XI – item 14 de suas ”CONFISSÕES”
(Iso
Jorge Teixeira)
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No
dia 21 de abril /2005 recebemos a delicada mensagem do Webmaster do Portal
TERRA ESPIRITUAL:
“Bom
dia Dr. Iso,
Obrigado pelo envio de mais este
texto tão interessante. Aliás, aproveito para parabenizá-lo pela capacidade de
escrever sobre temas tão complexos de uma forma tão acessível. Mesmo para quem
é leigo, é fácil compreender seus artigos, o que torna seu alcance muito maior.
A leitora Marlene enviou um e-mail (reproduzo abaixo) agradecendo pela sua
resposta e dizendo que apreciou muito suas colocações e já aproveitou para
enviar outra pergunta, que eu sei que não é bem na sua área mas que
talvez o senhor possa ajudar a elucidar.
Um grande abraço
Edilson.
Eis
a mensagem, da carinhosa leitora e sua nova indagação:
"Primeiro
quero agradecer a atenção com a resposta sobre o TOC. Deu para eu ter uma visão
melhor sobre o problema principalmente a visão pela ótica espírita. Gostei
muito das explicações do Dr. Iso Jorge Teixeira.
Gostaria
de saber a visão espírita do Mal de Alzheimer, pois minha mãe é portadora do
Alzheimer e há anos que acompanhamos a evolução da doença pelo lado físico.
Gostaria de saber sobre como o espírito reage a essa doença e se minha mãe
sofre muito com isso. Na parte física vemos que a pessoa vai definhando,
perdendo o movimento e a noção das coisas. Sempre me pergunto como ela se sente
interiormente.
Para
quem cuida dela e convive é um sofrimento ver uma pessoa tão dinâmica ir definhando
aos nossos olhos sem que possamos ajuda-la e sem saber o que realmente ela está
sentindo.
Abraços
MARLENE ".
Agradecemos as
palavras elogiosas, tanto do confrade EDILSON BOTTO quanto da confreira
MARLENE, elas aumentam e muito a nossa responsabilidade para com nossos leitores.
Bem,
o novo tema proposto pela Sra. leitora deverá ser publicado sob uma outra
vertente em nossa Coluna SAÚDE, no JORNAL DE ESPIRITISMO (órgão da Associação
de Divulgadores do Espiritismo de Portugal – ADEP), respondendo a um leitor
português, intitulado “COLONAGEM - Os embriões congelados têm Espírito?”,
por isso e por questão de limitação de espaço, iremos ampliar aqui o que
dissemos lá...
Definição
e anotações sobre a psicopatologia da Doença de ALZHEIMER
O “Mal de Alzheimer”, ou Doença de ALZHEIMER, é um
quadro demencial, irreversível, com solapamento progressivo, principalmente, da
MEMÓRIA do paciente e de outras funções cognitivas (intelectuais).
Em
geral, a doença começa a partir dos 65 anos, mas há vários casos de início
precoce, isto é, a partir dos 45 anos.
Para entendermos bem as
características e evolução dessa Doença é preciso tentar explicar o que se
denomina LEI DA REGRESSÃO MNÊMICA DE RIBOT... Segundo esta, quando uma pessoa
apresenta uma alteração mnêmica (da memória) orgânica, primeiramente é
comprometida a memória de fixação
e memória de curto prazo, ou seja, a pessoa começa a se esquecer
de acontecimentos ocorridos mais recentemente e, com o progredir da Doença, a
memória para fatos mais antigos também será deteriorada. Outro aspecto da Lei
de RIBOT é que as funções psíquicas mais complexas são afetadas, também,
mais precocemente do que as funções mais simples. É por isso que, no início da
Doença de ALZHEIMER o
paciente costuma se “perder” em via pública ou mesmo esquecer-se de fatos os
mais corriqueiros, pois a memória recente estando comprometida, o paciente fica
desorientado no tempo e no espaço; além disso, o paciente costuma
apresentar alterações ético-sociais -, o pudor (que é uma função
complexa) fica comprometido; conseqüentemente, não é raro indivíduos bem
educados apresentarem sintomas como despir-se na frente de uma multidão de
pessoas, não conseguindo ajuizar eticamente a sua conduta.
A
propósito, certa vez, tratamos um paciente com Doença de ALZHEIMER cujo
primeiro sintoma foi urinar em via pública, exibindo a genitália para os
transeuntes, no entanto, era um Sr. com um passado de moral ilibada e muito
responsável e elegante...
Enfim, a Doença
de ALZHEIMER vai afetando, progressivamente, as funções corticais do paciente,
pois o que acontece é que há uma ATROFIA DO CÉREBRO do paciente e, por isso
mesmo, as funções cognitivas (intelectuais) e até motoras (de movimento) são
deterioradas pela doença,
irreversivelmente, porque as
células cerebrais não se regeneram, uma vez atrofiadas não são
substituídas por outras, íntegras; por isto, diz-se que o tecido cerebral é
“tecido nobre”, isto é, as células lesionadas não são substituídas. Exatamente
como a Sra. leitora MARLENE afirmou: “na parte física vemos que a pessoa vai
definhando, perdendo o movimento e a noção das coisas.”
A nossa fiel leitora pergunta a si
mesma e a nós, como a Sra. sua mãe se sente interiormente e solicita-nos uma
visão espírita do “Mal de ALZHEIMER”...
Visão espírita do “Mal de ALZHEIMER”
Na época do lançamento de O LIVRO
DOS ESPÍRITOS (OLE), de ALLAN KARDEC (1857), não se conhecia a fisiopatologia
da Doença de ALZHEIMER, por isso, a Codificação não se refere à Doença
especificamente, porém, podemos extrair algum conhecimento sobre o que acontece
com o Espírito da pessoa com essa Doença se analisarmos bem a resposta à
questão 156 de OLE e, com tal análise, não podemos nos furtar a um melhor
entendimento da natureza e propriedades do PERISPÍRITO e suas correlações com a
MEMÓRIA e o TEMPO,,,
Assim, leiamos a questão 156 de OLE e a primeira parte da
resposta:
“A separação definitiva entre a alma e o corpo pode
verificar-se antes da cessação completa da vida orgânica?
“¾ Na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que
nada mais tem do que a vida orgânica (...)”.
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MORTE CORPORAL E ESPÍRITO
O Espírito desliga-se
definitivamente do corpo porque este está morto, masnão é o desligamento do
Espírito que causa a morte do corpo
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Parece-nos, Sra. MARLENE, que nas doenças crônicas em
geral, que afetam o cérebro (como é o caso da Doença de ALZHEIMER), estando
este deteriorado, ele não mais reagiria ao comando do Espírito - a vida na
doença de ALZHEIMER se resumiria, praticamente, à vida orgânica, vegetativa,
“a alma já deixou o corpo”, embora não definitivamente, pois isto só ocorre
na desencarnação...
A Sra. poderia, talvez, argumentar que um corpo não
poderia viver sem alma, o que não seria verdade... O que mantém a vida corporal
é o “fluido” vital e não o Espírito, a vida só se extingue pela exaustão
dos órgãos e não pela ausência do Espírito (cf. resp. à questão
68 de OLE). É preciso que se repita: o Espírito desliga-se definitivamente do
corpo porque este está morto, mas não é o desligamento do Espírito que causa a
morte do corpo...
Obviamente, ainda há uma ligação, muito tênue, entre
o Espírito e o corpo de uma pessoa com Doença de ALZHEIMER, mas o rompimento de
tal ligação só não é definitivo porque a pessoa ainda não desencarnou, pois o
Espírito nada mais tem a fazer estando o cérebro sem NENHUM controle seu...
Sabemos que a alma desprende-se do corpo, pouco a pouco, gradativamente, nas
doenças orgânicas, crônicas (cf. se depreende da resposta à questão 155-A de
OLE) e, num grau avançado da Doença, acreditamos que a alma está quase
totalmente liberta do corpo.
Como um paciente
com Doença de ALZHEIMER sente-se interiormente? Parece-nos que isto irá
depender não só da evolução espiritual da pessoa, como também, do estágio
evolutivo da doença, da demência. Quando as funções cognitivas (intelectuais)
estão seriamente comprometidas, a pessoa
nada sente, isto é, não há nenhuma
repercussão ESPIRITUAL do que se passa no corpo... Aliás,
KARDEC afirmava mais ou menos isto, em outras palavras, quando disse que
de nada adianta ser um bom violinista se o violino estiver danificado. Como
tocar boa música, nessa situação?
Prezados Srs. leitores e leitoras, o grande
sofrimento na doença de ALZHEIMER é dos familiares e da Sociedade, não é do
paciente. É muito duro, às vezes desesperador mesmo, ver um ente querido, um
ser humano, desconhecer seus próprios parentes, não saber pronunciar seus nomes
(na afasia motora) e, às vezes, nem reconhecer as coisas do ambiente (agnosia)
e nem ter coordenação para os mais simples movimentos úteis, como vestir uma
roupa (apraxia), certamente, como disse a Sra. MARLENE: “é um sofrimento ver
uma pessoa tão dinâmica ir definhando aos nossos olhos.”... Aí está: a doença
de ALZHEIMER é uma PROVA, extremamente difícil para os familiares e exige muita
resignação e muito Amor e, antes de tudo, a certeza na imortalidade da alma
e de sua individualidade após a morte e confiança na Providência Divina
e aí está a “vantagem” de ser espírita, se é que assim podemos nos exprimir,
porque a Doutrina Espírita é Consoladora justamente porque nos dá essa CERTEZA
(através de FATOS positivos) nas respostas a questões existenciais que todos já
fizeram algum dia: por que aqui estamos? Para onde vamos? Por que sofremos?...
Enfim,
confreira MARLENE, cuide muito bem da Sra. sua mãe, embora acreditemos que não
é fácil, mas as dificuldades são postas em nossa vida para crescermos
espiritualmente e, quem sabe, se este gênero de prova não foi solicitado
pela Sra. antes de reencarnar?! A nosso ver, deve ficar tranqüila quanto ao
suposto sofrimento de sua mãe, pois, praticamente ele não existe, e aí é
que devemos agradecer à Providência Divina, pois, na maioria das vezes o
próprio paciente não percebe o seu comprometimento cognitivo, nem se dá conta
de que sua memória está gravemente comprometida. Se ela é um Espírito
com certa elevação, deve estar sentindo-se muito melhor que a Sra., disto temos
absoluta certeza, pois estando o Espírito dela com uma tal emancipação, as
coisas terrenas praticamente não a afetariam.
Onde ficarão “impressas” as vivências presentes e
passadas ?
Como dissemos, o sintoma principal na Doença de
ALZHEIMER é a deterioração da MEMÓRIA e tem havido muita distorção doutrinária,
a nosso ver, em relação à questão do PERISPÍRITO, que, para alguns, seria o
“arquivo” das nossas experiências terrenas.
Por isso, achamos útil repetir aqui
um artigo nosso publicado no JORNAL ESPÍRITA , órgão da FEESP, intitulado “O
PERISPÍRITO, A MEMÓRIA E O TEMPO” (JE,
março/2002, Coluna Saúde
Mental , p. 8),
ligeiramente modificado, pois
ele serviria para
melhor entendimento dos aspectos espirituais envolvidos nas doenças em
geral, especialmente no “Mal de ALZHEIMER”...
O Perispírito, a Memória e o
Tempo
No dia 06 de novembro/2000 escreveu-nos um leitor:
“Prezado Dr. Iso Jorge Teixeira.
Saudações Fraternais.
Estimado
mestre. Sou estudante da Doutrina dos Espíritos e encontrei divergências sobre
o assunto abaixo em algumas publicações. A Doutrina Espírita ensina, nas obras
básicas, que o ser humano é constituído do corpo físico, do espírito imortal
e do perispírito ou corpo
espiritual, este
último uma espécie
de envoltório do Espírito, de natureza material, porém, de uma matéria
com características de densidade, ponderabilidade e plasticidade que não
encontram paralelo na matéria densa que compõe a realidade. O aspecto polêmico
do problema é saber:
—
se
o perispírito continua a ser matéria e, como tal, mantém-se absolutamente
alheio à elaboração da inteligência e do pensamento, os quais são atributos
exclusivamente do elemento espiritual;
—
se
o perispírito desempenha a função de arquivista temporário dos conteúdos
mnemônicos;
—
seria
a biblioteca do Espírito, cujo acervo o acompanha para onde ele vá, e o arquivo
definitivo localizar-se-ia no Espírito.
Assim sendo, tendo em vista as
dúvidas e algumas opiniões contrárias, pergunto:
—
os
registros, conscientes e inconscientes, isto é, aqueles que jazem ocultos e
esquecidos, referentes à vida presente ou a vidas passadas na carne e na
erraticidade estão impressos aonde?
Pois bem, Dr. Iso, para terminar, os
meus agradecimentos desde já pelo esclarecimento à minha pergunta. Muito
obrigado.
Fraternalmente,”
GERD ARTUR WAGNER - Ijuí – RS
Agradecemos o
Sr. leitor pela deferência ao chamar-me de “mestre”... Em Psiquiatria isto é real, mas em
Espiritismo é um estímulo para que um dia cheguemos lá, sem falsa - modéstia.
As
questões levantadas pelo confrade GERD ARTUR WAGNER são pertinentes,
inteligentes, conseqüentes, sérias e complexas. Como prometemos a ele, em
resposta à sua carta, procuraremos aprofundar os problemas levantados e tentar
equacioná-los.
Inicialmente, gostaria de fazer um
reparo às palavras do Sr. GERD ARTUR, quando ele diz: “A Doutrina Espírita
ensina, nas obras básicas (...)”. Existem outras obras, além das básicas, da Doutrina Espírita ? Creio que não, pois não me consta que a
Espiritualidade Superior tenha se manifestado doutrinariamente, depois de KARDEC, com a concordância universal
dos seus ensinos; eis, talvez, uma das causas dos aspectos polêmicos
citados pelo leitor. Há um adágio, cuja autoria eu desconheço, do qual gosto
muito: quando os “espíritas” igrejeiros insistirem, estereotipadamente, em que
FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO, que, aliás, é uma verdade; poderemos
complementar com o adágio: ¾ E FORA DA
CODIFICAÇÃO NÃO HÁ DOUTRINA ESPÍRITA...
v
Perispírito
– Matéria e Espírito – Densidade e ponderabilidade da matéria
Como o próprio leitor
quis dizer, o perispírito
possui características especiais de
densidade, ponderabilidade e plasticidade. Está perfeito!
Perguntaríamos, então, ao leitor: conhecemos
a densidade e a ponderabilidade do perispírito?!.. Embora
seja matéria, desconhecemos
a natureza íntima do perispírito. Por
que? Porque só conhecemos, aliás não completamente, a matéria terrena. As qualidades de extensão, impenetrabilidade e que impressiona os sentidos cessam, quando desejamos conceituar a
matéria constitutiva do perispírito (cf. resposta à questão 22 de O Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC).
Portanto,
só podemos definir a matéria,
muito genericamente, como “o liame que
escraviza o espírito; é o instrumento que ele usa, e sobre o qual, ao mesmo tempo,
exerce a sua ação” (cf. resposta à questão 22-A, op. cit.).
A matéria com que lidamos na Terra
possui densidade, ponderabilidade,
contudo, a matéria considerada como
derivada do fluido universal é imponderável para nós, encarnados e
imperfeitos. E isso é exposto claramente em resposta à questão 29 (op. cit.),
diz ela: “A ponderabilidade é atributo
essencial da matéria?
—
Da matéria como a entendeis, sim; mas não
da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que
forma esse fluido é imponderável para vós, mas nem por isso deixa de ser o
princípio da vossa matéria ponderável.” A seguir,
KARDEC comenta:
“A ponderabilidade é uma propriedade
relativa (o
destaque é nosso). Fora das esferas de
atração dos mundos, não há peso, da mesma maneira que não há alto nem baixo.”
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Espírito
KATE KING materializado, ao lado do eminente cientista
W. CROOKES
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Vários cientistas estudaram a
questão da matéria, tais como:
CHARLES RICHET, MORSELLI, CESARE LOMBROSO, W.J. CRAWFORD, WIILLIAM CROOKES,
etc., inclusive estudaram os fenômenos de ectoplasmia. Contudo, tais estudos foram realizados,
fundamentalmente, em médiuns, isto é,
com fluidos animalizados do médium em
conjunção com os da Espiritualidade
desencarnada. Assim, W. CROOKES no seu notável estudo da médium FLORENCE COOK
na qual se manifestava principalmente o Espírito de
KATIE KING, além
dos estudos com
a médium EUSÁPIA
PALADINO
realizados
por RICHET, LOMBROSO, CRAWFORD e outros... Todas essas experiências, realizadas
em geral por cientistas, a princípio, céticos em relação ao mundo espiritual,
serviram para a comprovação da realidade do
mundo espiritual e pouco mais se
conseguiu. A propósito, na obra O Psiquismo experimental, ALFREDO ERNY relata que escreveu ao Sr. CROOKES, em 1892, e perguntou-lhe se
KATIE KING ter-lhe-ia feito revelações sobre o outro mundo, recebendo do
ilustre químico a resposta:
“Tive
muitas conversações com KATIE KING, e naturalmente lhe fiz várias perguntas a
respeito do outro mundo. As respostas não satisfizeram. Geralmente ela dizia
que estava proibida de dar essas informações.”
Enfim,
caríssimo leitor GERD ARTUR, se o confrade leu algumas obras atuais
estabelecendo as correlações do
Espírito com a matéria, pontificando
a natureza eletromagnética dessa matéria, tenha muito cuidado; pois no
Espiritismo, infelizmente, há muitos espíritos pseudo – sábios, embora a
Física moderna têm lançado muita luz sobre tais obscuros problemas.
Creio que deverá demorar muito para que conheçamos, aqui na Terra, a densidade e ponderabilidade do perispírito; talvez isto ocorra com a regeneração da Terra... Talvez...
Talvez... Por enquanto, há boas hipóteses-de-trabalho, nada mais, o que já é um
avanço considerável...
ü
Perispírito
e participação na elaboração do pensamento e no desenvolvimento da inteligência
Ainda respondendo
ao leitor, não concordo
com que o perispírito – embora seja matéria quintessenciada – esteja “alheio à elaboração da inteligência e
do pensamento”. Na erraticidade, na Terra e em outros mundos o Espírito terá
sempre o seu envoltório (perispírito), exceto os Espíritos muito Superiores e
os Puros, se não estiverem encarnados; aliás, esta é uma eventualidade rara mas
não impossível, embora não estejam mais sujeitos à encarnação, eles podem
encarnar-se em missão, nada impede!... Frisamos isto, aqui, como um
obstáculo aos sofismas dos roustainguistas.
Como
disse a Espiritualidade Superior: “(...)
o Espírito muda de envoltório, como muda de roupa.” (cf. resposta à questão
94 ‘in fine’ de O Livro dos Espíritos).
Só podemos conceber o Espírito sem a matéria “pelo pensamento” (cf. resposta à
questão 26, op. cit.).
Embora a Inteligência e o Pensamento
sejam atributos inalienáveis do Espírito, haverá sempre co-participação do perispírito em relação ao Pensamento e à
Inteligência. Por que o perispírito
não está “alheio à inteligência e ao pensamento”? Justamente porque o perispírito é o liame entre o mundo
espiritual e o material. Onde houver matéria,
aí estará o perispírito, mais grosseiro como o nosso ou menos grosseiro
como na erraticidade e nos mundos mais evoluídos.
Sem
a participação do perispírito não há
progresso material nem espiritual.
Como citamos, anteriormente (questão 26 de OLE), a separação entre o
perispírito e o Espírito é uma abstração
do pensamento dos encarnados e
inferiores, como nós.
ü
Memória
humana (psíquica ou verdadeira) e Memória animal (Memória orgânica ou Memória -
hábito) – A questão do tempo – A “durée” bergsoniana
As explicações da função do
perispírito como “arquivista temporário” ou como “biblioteca do espírito”, são
interessantes didaticamente, todavia,
não há rigor nessas explicações... A memória
humana não é um mero repositório de engramas
(imagens fixadas e conservadas) “arquivados”.
Coube ao
filósofo HENRI LOUIS BERGSON (1859-1941) a distinção entre
Memória orgânica
(ou Memória – hábito) e Memória
psíquica (ou Memória verdadeira).
Esta seria apanágio específico do ser
humano.
Com
o prof. NOBRE DE MELO podemos definir Memória, genericamente, como “a propriedade ou capacidade psíquica de fixar, conservar (em latência) e reproduzir,
evocar ou representar
(voltar a apresentar na consciência), sob a forma de imagens representativas ou mnêmicas aquelas impressões sensoriais
recebidas, transmitidas e conscientizadas sob a forma de sensações.” (A . L.
NOBRE DE MELO. PSIQUIATRIA Vol. I.
Civiliz. Bras. / MEC, Rio de Janeiro, 1979, p. 398). Prosseguindo, diz o nosso
mestre da Psiquiatria brasileira:
“Mas,
assim, genericamente concebida, a memória deixa de ser, é óbvio, atributo
específico do ser humano”. E exemplifica: “Um cão, digamos, que, alguma vez, tenha sido corrido a pedradas,
fugirá espavorido se alguém fizer menção de arremessar-lhe seja o que for, e
isso, por efeito, unicamente da dolorosa lembrança anterior fixada”.(op.
cit., p. 398 – 399).
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HENRI
Louis BERGSON
(1859 –1941)
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Para nós,
encarnados, o TEMPO cronológico basta para
operacionalizarmos as nossas tarefas quotidianas. Contudo,
como Espíritos, há uma grande diferença entre o TEMPO
VIVIDO e o dos relógios de pulso e das paredes. A DURAÇÃO
das nossas vivências subjetivas, concebida
pelo filósofo BERGSON aí está para demonstrá-lo
(Iso Jorge
Teixeira)
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MEMÓRIA HUMANA
A memória
orgânica existe no Homem como em
qualquer animal, mas a memória humana
tem algo de específico
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Então,
com aquela definição genérica, poderíamos dizer que a simples capacidade de armazenar (“arquivar”) e reproduzir impressões deixadas pelos
estímulos e excitações do meio externo pode ser encontrada até nos organismos
unicelulares, num disco CD, numa fita cassette e nos robôs eletrônicos da
moderna Cibernética. Mas seria simplesmente
isso a memória humana? Não, a memória orgânica existe
no Homem como em
qualquer animal, mas a memória humana
tem algo de específico...Vejamos a
explicação do prof. NOBRE:
“Algo
diversos, sem dúvida, são os fatos que definem a chamada memória psíquica ou verdadeira,
esta sim, apanágio do ser humano. Aqui, não somente se verifica a possibilidade
de reprodução mecânica ou automática (ecforia) de imagens perceptivas fixadas e
conservadas (engramas), mas também a
revivescência (evocação) voluntária ou involuntária, isto é, mercê de associações fortuitas, de
estados psicológicos passados, dos
pensamentos , sentimentos, emoções,
desejos e fantasias,
que constituem o patrimônio de nossa experiência vivida. Quer isso dizer
que o homem recorda, não apenas os acontecimentos do mundo externo ou
circundante, que lhe é dado aos sentidos, mas também os de sua realidade
interna, e suas significações respectivas, reconhecendo-os e localizando-os em
determinado momento da existência. A memória psíquica ou verdadeira implica, em
suma, um fator intencional e
significativo (o destaque é nosso), que, a libera do fatalismo (destaque nosso) da
memória orgânica.” (op. cit., p. 399).
Enfim,
caríssimo leitor, a memória humana, verdadeira, não é um simples
“arquivo”, estático, de
nossas vivências pretéritas. Nem
a memória de um
computador é assim!... O élan vital
caracterizado por BERGSON implica numa continuidade do tempo e numa duração
(‘durée”). Ou, como dizem os filósofos existencialistas, implica numa intencionalidade, significativa... O
movimento humano é para o futuro, evolutivo; nunca retroagimos. Nossa vivências
passadas são sempre modificadas pelo nosso psiquismo presente e pelas nossas perspectivas futuras... Quando me lembro de uma vivência ocorrida na minha
infância, estando com 61 anos, tal vivência não é hoje, rigorosamente, igual
àquela que tive na infância. O que mudou? O meu passado? Não, eu mudei e,
portanto, mudou a minha vivência.
Além disso, a lembrança atual de um acontecimento será
vivenciado diferentemente pelas pessoas, o que levou, inclusive, o escritor
PIRANDELLO a falar na “Verdade de cada um”... Aliás, a vivência atual pode ser
modificada por uma série de associações
fortuitas como bem assinalava o prof. NOBRE. Através dessas associações há
“mudanças qualitativas” na duração
(“durée”) e o passado é recuperado ,
de acordo com o bergsonismo (cf. sua
obra “Matéria e Memória. Ensaio sobre a
Relação entre o Corpo e o Espírito”).
Assim, pode ser traçado um
paralelo entre o bergsonismo e a música do compositor CLAUDE ACHILLE DEBUSSY
e a obra do escritor MARCEL PROUST.
Obviamente, não cabe neste artigo
uma análise pormenorizada da questão do tempo
vivido, do tempo como duração. A propósito disse SANTO
AGOSTINHO, encarnado, nas suas Confissões
em relação ao que seja o tempo:
“Si
nemo me quaerat, scio; se quarenti explicare velim, nescio” (Se ninguém mo
pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não
sei.).[cf. op. cit. Livro XI – item 14].
Ou seja, a questão do tempo implica um caráter eminentemente intuitivo. Ora, um filósofo, encarnado,
afirma não poder explicar o que é o tempo,
imagine-se definir o tempo vivido no
mundo espiritual!...
A duração (“durée”) do ponto de vista espiritual é bem diferente da nossa e isso foi explicitado na
resposta à questão 240 de O Livro dos
Espíritos e KARDEC comentou a seguir:
“Os
Espíritos vivem fora do tempo, tal como o compreendemos; a duração (o destaque
é nosso), para eles, praticamente não
existe, e os séculos, tão longos para nós, são aos seus olhos apenas instantes
que desaparecem na eternidade, da mesma maneira que as desigualdades do solo se
apagam e desaparecem para aquele que se eleva no espaço”.
O tempo vivido pode alterar-se em algumas doenças
mentais (Esquizofrenias, depressão, etc.) e até em pessoas normais. Por
exemplo, o cantor popular ROBERTO CARLOS diz nos seus versos na canção Amor sem limites: “(...) Aprendi que pouco
tempo é muito, se estou longe de seus braços.” . E nos pacientes com a
denominada Síndrome de COTARD observa-se
um delírio de negação dos órgãos (delírio
niilista) e um delírio de eternidade,
em conseqüência, o paciente sofre muito por julgar que nada existe e que aquela situação durará eternamente...
É
exatamente pelo fato da duração ser
diferente no mundo espiritual, que
muitos espíritos desencarnados, ainda apegados à vida carnal, julgam-se no inferno, acreditando assim na eternidade das penas. Assim,
KARDEC dá inúmeros exemplos dessa
situação na 2ª.
parte do seu livro O Céu e o Inferno – A
Justiça Divina seg. o Espiritismo. Ilustrando-se
isso, sugiro ao leitor que leia o caso BENOIST (op. cit., 2ª parte,
cap. VI, Criminosos arrependidos,
especialmente as questões 3, 9 e 11); e que leia também o caso DUPLO SUICÍDIO,
POR AMOR E POR DEVER (op. cit., 2ª parte, Cap. V, Suicidas, especialmente a resposta à
questão 4, atentando para o clamor da que foi a jovem PALMYRE: “sempre assim!”).
EPÍLOGO
Enfim, caríssimo GERD ARTUR WAGNER,
acreditamos que nossas vivências sejam “impressas” em nosso cérebro e aquelas
mais importantes espiritualmente (intelectuais e morais) são levadas ao Espírito, através do perispírito. Mas, tais vivências não
ficam ali “arquivadas”, o Espírito as modifica de acordo com o seu livre – arbítrio.
Admitir-se o perispírito como
“arquivista temporário” ou como “biblioteca do espírito” é
admitir-se a memória orgânica,
pura e simplesmente, e, portanto, cair num fatalismo
materialista mecanicista, ao qual muitos indivíduos que se dizem espíritas e defensores do “Evangelho de JESUS” são
conduzidos, sem se aperceberem que são cegos guiando cegos, como adagiava o
Mestre JESUS.
Caro leitor, estou terminando este
artigo... Precisarei utilizar o comando “Salvar como” do meu computador para
que ele fique arquivado. Toda vez que clicarmos no título O PERISPÍRITO, A
MEMÓRIA E O TEMPO, aparecerá na tela
todo o meu artigo, porque ele ficará na “memória” do meu computador...
Embora
as minhas vivências significativas também fiquem “arquivadas” no meu Espírito,
o comando “Salvar como” é sempre “Salvar automaticamente” e eu terei acesso a
elas clicando não o título, mas sim a “tecla” VONTADE, aqui ou na erraticidade;
contudo, nem todo o “texto” estará disponível para ser revivenciado na minha
consciência, como numa ecmnesia
(revivescência do passado individual), pois a Providência Divina interdita pensamentos, emoções, sentimentos, etc.
que sejam inúteis para o nosso progresso espiritual.
Obrigado ao confrade GERD pela
complexa e bela pergunta. Se alguma coisa do meu artigo for útil para a vida
espiritual do leitor estarei me aproximando da conquista de “discípulos” como
ele, o que muito me alegrará e se nos encontrarmos na erraticidade não seremos
nem mestre nem discípulos, e sim, companheiros viajores em busca do
conhecimento e da prática na vereda do Bem.
Muito obrigado, também, à nossa fiel
leitora MARLENE pela nova indagação. Gostaríamos de dizer a ela que as
vivências do Espírito da Sra. sua mãe são qualitativamente diferentes das
suas, pois o Espírito dela está parcialmente EMANCIPADO do corpo, ao passo que
a Sra. e nós, encarnados, vivemos as nossas experiências na “prisão” da
carne... O “Mal de ALZHEIMER” aniquila a vivência do tempo para o corpo,
porque este não “obedece” ao comando do Espírito.
Esperamos
que sua mãe tenha sido e continue a ser uma exímia violinista, mas, quanto ao
violino... Bem, se no futuro ela precisar de um novo violino, certamente ele
não faltará para que continue tocando boa música... Por enquanto, toque o seu
violino, e Bem tocado!
Amém.
* Médico. Psiquiatra. Professor
Livre-Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
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