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Vera Gaetani
As
bem-aventuranças que se podem ler nos Evangelhos, analisadas fora do contexto
reencarnacionista, servem, na melhor hipótese, apenas para que os pobres, os
doentes e os injustiçados se conformem.
Excluída
a teoria materialista, segundo a qual a vida e a inteligência são frutos da
organização momentânea da matéria, nada se esperando além da morte, as teorias
espiritualistas de uma única existência não respondem a perguntas como estas:
Por que uns sofrem mais do que os outros? Por que nascem uns em ambiente de
extrema miséria sem oportunidade de uma vida digna e outros nascem na riqueza
com todas as oportunidades nas mãos? Por que uns se esforçam e nada conseguem,
ao passo que para outros tudo sorri? E principalmente: Por que sofrem criancinhas?
A
fé numa vida futura sem a idéia da reencarnação, pode até infundir paciência ao
sofredor, mas “desmente a justiça de Deus” para usar a expressão do próprio Kardec.
Sendo Ele bom e justo, o sofrimento tem que ter uma causa justa, forjada nesta
mesma existência ou em existências anteriores.
Quanto
às faltas desta existência, a lei humana pune algumas, mas não todas. Ela
incide principalmente sobre as que trazem prejuízo à Sociedade e não ao próprio
indivíduo que a pratica. E há ainda os crimes ocultos e as criminosas omissões.
Muitas vezes nós praticamos a delinqüência mas conseguimos escapar das punições
humanas porque não houve provas suficientes, ou porque certas faltas não são previstas
no código penal, ou porque a crueldade e a ingratidão foram praticadas dentro
do lar, não havendo denúncia. Isso não ocorre com a justiça divina porque esta
incide sobre todas as faltas.
Allan
Kardec, no livro “O Céu e o Inferno” resume a questão do sofrimento humano numa
única frase: “O sofrimento é inerente à imperfeição”. Toda imperfeição e toda
falta que dela decorre, traz o seu próprio castigo nas suas conseqüências
naturais e inevitáveis, como a doença decorre dos excessos, o tédio da ociosidade,
sem que haja necessidade de uma condenação especial para cada falta e cada
indivíduo. Quem, de boa vontade, corrige suas próprias imperfeições, poupa a si
mesmo do sofrimento que decorre dessas imperfeições. “A cada um segundo as suas
obras, tanto no céu como na terra” - Kardec.
Analisando
a dor humana é preciso lembrar também aqueles sofrimentos que não denotam a
existência de determinada falta. São as provas buscadas pelos espíritos para
concluir sua depuração e ativar o progresso. Em doutrina espírita, uma expiação
sempre serve de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação, embora ambas
sejam atestado de uma relativa inferioridade.
Há
ainda o sofrimento dos missionários, que sofrem pela incompreensão das criaturas
a quem desejam ajudar.
De
qualquer forma, o sofrimento que não provoca queixumes constitui já uma prova
de forte resolução, o que é sinal de progresso moral.
Há
espíritas ainda muito imaturos que esperam muito pela intervenção dos espíritos
guardiões, pedindo-lhes a remoção do sofrimento. Para esses existe uma página
de Emmanuel, comentando essa postura, na qual o mentor espiritual compara a
atitude dos espíritos benfeitores diante no nosso sofrimento com a atitude de
mães, pais, esposas e filhos que amam verdadeiramente aqui na Terra e são obrigados
a bendizer instituições como o manicômio para que os filhos não passem da
loucura à criminalidade confessa, ou o hospital onde será amputado um membro do
ente querido a fim de que a moléstia não abrevie a sua existência; obrigados a
concordar com o cárcere para que seus queridos não se aprofundem mais na
delinqüência ou a carregar os pais portadores de doenças infecto-contagiosas
para casas de isolamento a fim de que não se convertam em perigo para a comunidade.
Todos eles continuam mentalmente ligados aos seres que mais amam, orando e
trabalhando para que eles possam voltar ao seu convívio. Tal é a postura moral
dos espíritos guardiões que não podem afastar nosso sofrimento, quando esse é o
nosso remédio justo.
A
todos nós que sofremos fica a comparação de Emmanuel: Nos dias cinzentos,
frios, chuvosos, com o céu carregado de nuvens escuras e ameaçadoras, raramente
nos lembramos de que, acima de todas as nuvens, paira e brilha o Sol. Do mesmo
modo, o amor divino brilha e paira sobre todas as dificuldades. Ao invés de
revolta e desalento, ofereçamos paz ao companheiro que chora, para que o bem
prevaleça sobre todo o mal.
Bibliografia:
·
KARDEC, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo
·
XAVIER, F. C., Emmanuel - Livro da Esperança
·
KARDEC, Allan - O Céu e o Inferno
·
XAVIER, F. C., Emmanuel - Justiça Divina
Fonte: Jornal
Verdade e Luz Nº 192 – Jan/2002
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