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A Abnegação

 

InaIdo Lacerda Lima

 

“A abnegação e o devotamento são uma prece contínua e encerram um ensinamento profundo. A sabedoria humana reside nessas duas palavras.” - O Espírito de Verdade. (“O Evangelho segundo o Espiritismo” Cap. VI, item 8.)

 

A abnegação e o devotamento constituem uma prece e encerram um ensinamento profundo. E o que se lê no pensamento que ilustra esse trabalho. E mais adiante, na mesma mensagem, cientifica-nos o Espírito de Verdade que é dever do espírita tomar por divisa as duas palavras - abnegação e devotamento -, esclarecendo que com elas seremos fortes, porquanto elas resumem todos os deveres que a caridade e a humildade nos impõem.

Sugerimos a todos quantos nos vêm acompanhando nesta série de reflexões sobre a exercitação do Evangelho que leiam a referida mensagem e sobre ela meditem.

O capítulo VI de "O Evangelho segundo o Espiritismo" tem o título O Cristo Consolador e, em sua primeira mensagem, o autor espiritual faz-nos um apelo que nos leva a profundos transportes de seríssima reflexão e responsabilidade: "Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instrui-vos, este o segundo." Na última mensagem coloca-nos em destaque a necessidade da abnegação associada ao devotamento.

Inspira o Codificador na organização do capítulo XX dessa obra sublime, intitulado Trabalhadores da última hora, sendo que na mensagem, com a sua assinatura, sob o título Os Obreiros do Senhor, insiste na valorização do devotamento.

Não nos queremos deter neste termo - devotamento. Mas objetivamos enfatizar o espírito do termo abnegação. Não vemos grande dificuldade nem no entendimento nem na prática do devotamento a uma causa tão superior e sublime como a do Consolador prometido. Quanto, porém, à abnegação, consideramos da mais efetiva conveniência refletir bastante sobre a nossa conduta evangélica.

Que é afinal a abnegação? Em sua origem, no latim abnegatio, tem a significação e ação de sacrifício, em face do prefixo ab, que empresta ao vocábulo o sentido de renúncia, privação, negação de si mesmo.

A abnegação, por conseguinte, é uma virtude também de sublimação, porquanto das mais difíceis. A ela pode-se chegar pelo devotamento, pois quem se devota a uma causa nobre reconhecida pela consciência e aceitando-a com sinceridade, por ela pode abnegar-se.

A história da Humanidade está plena de exemplos notáveis de abnegação. Aqui mesmo, em nosso país, a nenhuma alma consciente suspeitamos a capacidade de negá-lo àquele que foi reconhecido como protomártir de nossa independência: Joaquim José da Silva Xavier, assumindo, sozinho, a responsabilidade da conspiração, a fim de poupar a vida de seus companheiros.

A própria presença do Cristo, no mundo dos homens, é um ato inconteste de abnegação. Ele sabia das conseqüências de sua missão, pois tinha a presciência de que nenhum outro Espírito, dentre os comprometidos com a evolução deste orbe, teria a condição de cumprir a tarefa de trazer à Terra a sabedoria do Evangelho que o Pai lhe confiara.

O ''Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais", de Mário Ferreira dos Santos (Editora Matese, 3ª Edição), uma das obras mais perfeitas no gênero, oferece-nos, filosófica e didaticamente, dois sentidos para o termo abnegação. Em sentido lato, abnegação é renúncia ou sacrifício de alguém a tudo quanto tenha de egoísta nos seus desejos; e em sentido restrito, como sacrifício voluntário de si mesmo em benefício de outrem ou de outros.

Sob o ângulo do Cristianismo do Cristo, cita Mário Ferreira dos Santos o evangelista Mateus (16:24) e o evangelista Lucas (9:23), quando registram as palavras de Jesus: - "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" - que ele interpreta como "abnegação do egoísmo para a conquista de uma vida divina".

É óbvio que isso não é fácil. Mas é a verdade. É efetivamente isso que o Senhor nos propõe em sua magna Doutrina. Nós é que somos tíbios ou talvez imaturos. E escrevemos esta palavra com imensa preocupação, principalmente em face da nossa condição de ESPÍRITA, que colocamos aqui em maiúsculas dada a responsabilidade que a nossa alma assume ao pronunciá-la, mormente depois daquele alvitre de Emmanuel, em seu livro "Religião dos Espíritos": "Espírita deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo."

Por que dissemos escrever com preocupação o vocábulo imaturos? Porque estamos diante de uma nova era, vivendo na plenitude dos tempos preditos. Já não nos ameaça a tortura nos calabouços inquisitoriais, nem o calor das fogueiras qual a que teve de enfrentar João Huss, em 6 de julho de 1415, no Concílio de Constança, há mais de meio milênio.

Do ponto de vista da abnegação, a que é que temos de renunciar, então? Ao nosso orgulho mascarado de amor-próprio, à nossa vaidade de não querer parecer vaidoso, sem abandonar no entanto a auto-suposição de ser o melhor, o mais inteligente ou de maior nível. Nada disso é realmente fácil porque, no fundo, predomina ainda em nós o jugo do egoísmo que nada tem de suave.

Para Blaise Pascal (1623-1662), inventor da primeira máquina de calcular concebida aos 19 anos de idade por amor e abnegação, porquanto sacrificava o tempo destinado às matemáticas e ciências a fim de criar um instrumento que facilitasse o penoso trabalho de seu pai. Para Pascal, a abnegação "é o amor de Deus através da negação de nós mesmos”, ou seja, a extinção do eu odiento, capaz de ser mau e execrável.

Vejamos, o conceito espírita da palavra abnegação, que não deverá destoar do conceito evangélico citado acima pelo professor e filósofo Mário Ferreira dos Santos. E convém não olvidarmos que o nosso objetivo, nesta série, é desenvolver a exercitação do Evangelho trazido a este planeta por seu Plenipotenciário divino.

Na questão 709 de "O Livro dos Espíritos", Allan Kardec indaga dos Espíritos reveladores se terão cometido crime os que são constrangidos a sacrificar seus semelhantes acossados pela fome.

Isto é, se alguém mata levado pela contingência da fome, o fato de ter agido em função do instinto de conservação não lhe atenua delito?

E os Espíritos respondem que, em tal situação, há homicídio e crime de lesa-natureza, classificando-se como dupla a falta, pois que há mais merecimento em sofrer todas as provações com coragem e abnegação.

Falando a respeito do amor materno e filial (questão 890 referida obra), ensinam os Espíritos que, no homem, esse amor persiste pela vida inteira e comporta devotamento e abnegação como virtudes.

Curiosa é a resposta dos Espíritos à questão 912 elaborada pelo Codificador do Espiritismo:

"Qual o meio mais eficiente de combater-se o predomínio da natureza corpórea?" E eles respondem com simplicidade e firmeza: "Praticar a abnegação." Reflitamos. Da resposta podemos concluir que praticando a abnegação o homem tem condição de superar o predomínio da natureza corpórea.

Coloca-se, portanto, acima de qualquer de suas carências ou necessidades.

Allan Kardec, na Conclusão de "O Livro dos Espíritos", elucida-nos, por sua vez, que a fraternidade pressupõe desinteresse e abnegação da personalidade. Realmente, tentando alcançar a profundidade do ensino do Codificador, convencemo-nos de que a verdadeira fraternidade não pode prescindir do valor dessa grandiosa virtude. E ao término do item VII de sua Conclusão, depois de se referir às coisas que são decorrentes do princípio egoísta como as mais difíceis de desarraigar, conclui que "a abnegação da personalidade constitui sinal de grandíssimo progresso".

Entretanto, não conseguimos sopitar a indagação íntima: Como abnegar-se alguém da própria personalidade se a personalidade constitui a síntese estrutural da alma, o conjunto característico de todos os seus traços a ela agregados, ao longo da existência, nesta e nas anteriores encarnações?

Abnegar da personalidade não é destruí-la, renunciá-la, negá-la, operação impossível e inadmissível, mas inteligentemente purificá-la, desarraigando dela todos aqueles traços sob os quais possam ocultar-se os germens do egoísmo.

Esse é um processo dificílimo, por vezes penoso. É a razão pela qual cerca de dois mil anos de Evangelho não conseguiram libertar o homem de suas mazelas morais. Lançamos os olhos em tomo de nós, perscrutativamente, e nos espantamos com tanto progresso da tecnologia em contraste com tanto ódio e tanta dor!

A abnegação representa o bisturi indispensável a essa delicada cirurgia nos tecidos da alma e sob a anestesia da alegria cristã.

"Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.''

Não é e nem será com um passo de mágica que seguiremos o Cristo. Veja bem, leitor consciencioso:

''Tome cada dia a sua cruz..." É um processo e um exercitamento consciente.

É necessário que se tenha a coragem de auto-examinar-se a cada passo. É o nosce te ipsum a que já nos reportamos em trabalho anterior, quando falamos do Auto-exame. Pois a abnegação constitui um excelente instrumento de autopurificação, quando temos a coragem de olhar-nos de fora para dentro.

Fora efetivamente difícil para o moço rico desfazer-se de todos os seus bens, distribuí-los com os pobres e seguir as pegadas do Mestre. Sejamos empáticos e coloquemo-nos em seu lugar... Jesus não o censurou, apenas aproveitou a oportunidade para prevenir-nos, advertindo-nos de que é bem mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha! (...)(Mateus, 19:l6-26).

Não nos exige muito esforço verificar que não temos, hoje, as dificuldades encontradas pelo moço rico. Ele fora tocado pelo verbo de luz do Embaixador da divindade, mas faltava-lhe amadurecimento e conscientização evangélica. O conjunto de traços egoísticos enraizados em sua personalidade era muito grande, entorpecendo-lhe profundamente a consciência. Acreditamos que a consciência de ser espírita nos coloca em condição bem diferente...

Quantos de nós, espíritas hoje, não estivemos na situação do moço rico de ontem?!

Maravilhados com os ensinamentos do Mestre, mas com a personalidade dominada por traços fementidos de egoísmo.

Abrimos, hoje, "O Evangelho segundo o Espiritismo", na última mensagem do Espírito de Verdade, no capítulo VI a que já nos referimos, e sempre nos surpreende a luminosidade desta expressão: "A abnegação e o devotamento são uma prece contínua e encerram um ensinamento profundo."

E voltamos a murmurar no recesso da consciência: Por que o apego obstinado a coisas que são próprias deste mundo, que não podemos levar daqui porquanto já daqui não somos? Por que não o devotamento sincero ao desenvolvimento de conhecimentos e trabalho a prol de tudo o que nos possa libertar das causas do mal e da aflição?

Não sabemos até quando aqui ficaremos presos ao grabato carnal. No entanto, já alcançamos a consciência de que, abeberando-nos na fonte inesgotável do Evangelho, suave se tomará o jugo decorrente de nossos fracassos de ontem e leve, muito leve o fardo de nossas provações, que sabemos justas.

Oh! E que dizer do chamamento contido naquela última mensagem do capítulo vigésimo desse mesmo Evangelho organizado por Allan Kardec sob a orientação do Mundo Maior? Por que não transcrevê-lo aqui e com destaque?

“Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!”

Todavia, leitor amigo, irmão a cuja alma endereçamos, com humildade, a nossa alma, por que rivalidade? O educando do Evangelho não se sente rival mesmo daqueles que cultivam doutrinas estranhas à Doutrina do Consolador e a ela opostas. Para o espírita sincero quem quer que combata o Espiritismo combate, antes de tudo, ao Cristo de Deus. Rival quem o for, sê-lo-á de si mesmo, em função da própria ignorância que o inibe da luz.

A eles a mesma resposta de Gamaliel, no Sinédrio, aos que combatiam os seguidores do Cristo (Atos, 5: 35-40). Não temos condição para entender espíritas em rivalidade com irmãos espíritas. Por quê? Por vaidade? Por orgulho? Por tentativa de se lhes vedar o direito de pensar! E o livre-arbítrio como concessão do Pai a todos os seus filhos, que farão dele?

A abnegação é mais do que renúncia ao eu ignorante e perverso. Abnegação é a exercitação do Amor supremo, é prática de altíssima qualificação espiritual e exige que o ser se compenetre de sua condição de Espírito em busca da Luz...

 

Fonte: Revista Refomador – fev/1997

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

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Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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