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Renato Costa
Introdução
Foi com emoção que
aceitamos o pedido de nossa querida Teresinha Oliveira para que apresentássemos
em seu lugar um estudo sobre Joanna de Ângelis, dado que estaria
impossibilitada de comparecer à sub-sede da Instituição para o evento marcado.
Tendo em mente a dimensão do assunto que nos foi oferecido, no entanto, ficamos
diante de um dilema. Em um estudo de uma hora não poderíamos abordar tudo o que
nos agradaria falar sobre a amorosa e sábia mentora de nossa casa.
Poderíamos falar da
obra de Joanna, mas teríamos que escolher se falaríamos da obra social ou da
obra literária. Obra social que inclui a Mansão do Caminho e uma diversidade de
outras entidades beneméritas às quais empresta o nome e que dirige da espiritualidade,
dentre elas a nossa Instituição e Escola Espírita Joanna de Ângelis. O site www.joannadeangelis.org.br relaciona, até agora, 78 entidades que levam
o nome de Joanna espalhadas pelo país. Obra literária que é composta, até o
momento, de 55 livros, 34 dos quais traduzidos para outros idiomas, além de
milhares de belíssimas mensagens, sempre através da mediunidade de Divaldo
Franco, a quem orienta e inspira.
Poderíamos, por outro lado, contar as vidas de Joanna, conforme foram por ela
reveladas a Divaldo e pesquisadas nos registros históricos e em mensagens da
espiritualidade. Como escolher?
Foi aí que nos nasceu
a idéia ou - quem sabe? - fomos intuídos a pensar: “E se a gente usasse o
relato das vidas de Joanna para tirarmos para nós algum aprendizado?” E foi
assim que resolvemos fazer.
Evolução e Aprendizado
Sabemos, conforme nos
ensina a Doutrina, que o Espírito deve evoluir em sabedoria e bondade desde seu
estágio inicial, quando é criado simples e ignorante, até alcançar a meta
final, qual seja, a perfeição dos Espíritos Puros.
Evolui o Espírito,
basicamente, de duas maneiras. Uma delas se dá quando um Espírito mais
adiantado que ele lhe ensina algo que sabe e ele, com humildade, aceita o
ensinamento recebido e passa a agir e pensar em conformidade com o que
aprendeu. Essa maneira, sem dúvida a mais rápida e suave e a única necessária
para a aprendizagem de Espíritos já esclarecidos, é, no mais das vezes, imprópria
para a aprendizagem de Espíritos ignorantes, que estão sempre a duvidar da
experiência alheia e nada aceitam sem que eles mesmos possam vivenciar as
experiências que os outros reportam ter vivido.
Ocorre, no entanto,
que, quanto mais evoluído é um Espírito, mais paciente e indulgente ele é e, em
lugar de, conhecendo nossas fraquezas, largar-nos aos nossos primitivos
critérios de escolha, ele prefere apostar sempre em nós e segue nos ensinando
sempre, com palavras e experiências de vida, confiante que, um dia, despertemos
de nossa letargia espiritual e constatemos que as leis de Deus são supremas e a
todos se aplicam sem exceção, passando a aceitar os ensinamentos recebidos e os
exemplos de vida relatados como se nossas próprias experiências e lições aprendidas
fossem.
Atingida a condição de
bons discípulos, simplificaremos para nós mesmos as etapas de aprendizado, mais
tempo nos restando para dedicarmos às boas ações, ao resgate de nossas dívidas,
ao engrandecimento de nossa mente em direção ao que é puro, ao que é belo, ao
que é sagrado.
Tendo em mente o que
acabamos de pensar, ouçamos, quais bons discípulos, o relato de algumas vidas
de nossa querida Joanna, procurando extrair de tais relatos os profundos
ensinamentos que eles nos trazem, para procurarmos usá-los em nossa conduta
daqui para frente.
Algumas Vidas de Joanna e o que elas nos Ensinam
Joana de Cusa
Sabe-se de Joana de
Cusa um pouco do que relata o evangelista Lucas e um tanto mais do que nos
informa o Espírito Humberto de Campos em sua obra Boa Nova, ditada ao nosso
querido Chico.
Joana foi a esposa de
Cusa, um alto funcionário de Herodes. Tendo recebido de Jesus alguma graça ou
cura e tendo conhecido os ensinamentos do Mestre, buscou segui-lo, sendo por
ele orientada a permanecer no lar, ajudando, com seu comportamento e suas
palavras, ao marido que lhe havia sido confiado naquela vida.
Ao nascer-lhe um
filho, entregou-se à sua criação e educação moral, com o mesmo zelo e amor com
que assistia ao marido. Seguindo Jesus à distância, foi uma das mulheres que,
com suas posses, atenderam às necessidades do Mestre e de seus discípulos.
Logo após o martírio
de Jesus, juntou-se a outras mulheres para irem ao sepulcro, levando
especiarias e ungüentos para envolver o corpo morto do Mestre. Em lá chegando,
encontraram o sepulcro vazio, constatando, conforme lhes ensinara Jesus, a
sobrevivência do Espírito quando da morte do corpo.
Após o falecimento do
marido, teve que trabalhar para outras famílias para poder sustentar o filho, o
que fez com dignidade até a velhice.
Em uma das muitas
perseguições que sofreram os cristãos nos primeiros séculos, foi encarcerada
com seu filho e outros seguidores de Jesus e levada ao circo em Roma. Lá, no
dia 27 de agosto do ano de 68, foi sacrificada numa fogueira junto com o filho
e diversos outros mártires que se negaram a abjurar sua fé.
O relato de Humberto
de Campos sobre os momentos finais de Joana contém uma informação adicional que
interessa, de forma particular, ao nosso intento. Nos conta Humberto de Campos
que, quando as chamas já lhe atingiam o corpo e ela, serena, vivenciava tais
momentos de dor com a mente fixa em Jesus, um carrasco a interpelou, indagando:
- O teu Cristo soube
apenas ensinar-te a morrer?
Ao que ela respondeu:
- Não apenas a
morrer, mas também a vos amar!...
No dilema emocional e
mental tremendo de ter que decidir entre manter-se fiel a Jesus ou traí-lo para
salvar a vida de seu filho, ela encontrou forças para dar vitória à mente e
dominar a emoção. E, mais, no momento supremo, demonstrou ter aprendido a amar
até mesmo aos seus algozes.
Quanto aprendeu Joana
de Cusa junto ao amado Mestre!
Ponderemos, agora.
Que lições nosso modesto estágio evolutivo nos permite tirar desses momentos
finais de Joana de Cusa? Será que seu exemplo só nos servirá quando estivermos
prontos a morrer por Jesus? Pensamos que não.
Tenhamos sempre
destemor em defender os ensinamentos de nosso Mestre e amigo. Não sejamos
covardes, omitindo-nos frente a injustiças, quando podemos enfrentá-las com a
luz do conhecimento que adquirimos. Não importa o quanto as circunstâncias nos
sejam desfavoráveis, jamais abandonemos os ensinamentos de Jesus, sendo
pacientes, gentis e dedicados para com todos aqueles que nos cercam, não
importa se nos tratam bem, mal ou com indiferença. Desenvolvamos nossos sentidos
para que aprendamos a amar aos que nos ofendem ou prejudicam, vendo neles
irmãos mais atrasados que nós e que, por isso mesmo, necessitam de nossa ajuda
e compreensão.
Ensaiemos em pequena
escala, desde já, essa atitude sublime de Joana de Cusa. Se ainda não
conseguimos amar nossos inimigos, que comecemos aprendendo a não mais odiá-los.
Se ainda não conseguimos utilizar o conhecimento que adquirimos para levar a
luz onde as trevas predominam, que, pelo menos, aprendamos a não aumentar as
trevas com nossos sentimentos desencontrados, dominando nossas emoções e
educando nossa mente para o bem.
Jesus não espera de
nós mudanças radicais, pois conhece nossas deficiências e fraquezas. Espíritos
adiantados seguem Jesus mais de perto para que possamos enxergar a meta a
atingir. Mas, como diz o velho ditado, o caminho de mil milhas começa com o
primeiro passo. Que tenhamos determinação, pois, para dar o primeiro passo. Com
os olhos fixos na meta, um dia chegaremos lá.
Será que as únicas
lições que temos a aprender da vida de Joana de Cusa são as expressas por seus
momentos finais? Cremos que não. A nosso ver, existe uma de imensa importância
que pode ter-nos passado desapercebida.
Estávamos, em um
Sábado à tarde, preparando este estudo e nada de nos vir a inspiração fácil. A
introdução, que tínhamos feito em um dia de semana à noite, depois de nossos
filhos terem dormido, havia corrido solta da mente ao teclado do computador,
direta, sem dúvidas, sem hesitações. Por que o texto seguinte vinha sendo tão
difícil? Escrevíamos, apagávamos, escrevíamos de novo, o trabalho não ia
adiante. Por que? Foi, então, que algo nos veio à mente: “Não está na hora de
estar com as crianças?”. Paramos tudo e fomos brincar com elas, assim ficando
até de noite quando foram dormir. Uma hora, nesse meio tempo, quando saímos com
eles para comprar refrigerantes, mais uma idéia nos veio à mente: “Como quer
ensinar aos outros algo que ainda não aprendeu?”
Pois é, caros irmãos
e irmãs, a outra lição dessa vida de Joana de Cusa foi o ensinamento que lhe
foi dado por Jesus. Quando ela quis segui-lo, o Mestre lhe disse que não o
fizesse, antes ficando junto de seu marido para tornar-se, junto a ele, um
exemplo de vivência cristã, cumprindo a missão que lhe havia sido confiada.
A missão principal de
quem constitui família é junto a ela, exemplificando, pelo seu comportamento e
pelas suas palavras, o verdadeiro significado de ser cristão. Quem coloca a
atividade que considera cristã ou, no caso que nos interessa, espírita, na
frente de seus deveres para com a família, deveres esses sempre assumidos na
espiritualidade, se equivoca se pensa que tal é a vontade de Deus. Não. Não foi
isso que Jesus ensinou a Joana e que o relato de sua vida nos permite aprender.
O trabalhador
espírita deve ser absolutamente sério com os compromissos assumidos, tanto na
casa espírita, quanto no trabalho que lhe traz o sustento, quanto no lar,
jamais faltando a qualquer deles por motivo fútil ou pueril. No entanto, jamais
deverá ignorar uma necessidade real da família sob a alegação de que um
compromisso com a casa espírita, ou, por outra, com o trabalho, lhe demanda a
presença. Se existem pais espíritas cujos filhos não seguem o Espiritismo, se
existem filhos de pais trabalhadores que se desencaminham na vida, não estará aí
uma indicação de que essa lição que nos passa a vida de Joana de Cusa não foi
aprendida?
Sóror Juana Inés de la Cruz
Juana Ramírez de
Asbaje nasceu em 12 de novembro de 1648 ou de 1651 (vide Nota) na pequena
cidade de San Miguel Nepantla, a pouca distância da cidade do México, filha
natural de Isabel Ramírez de Santillana e do Capitão Pedro Manuel de
Asbaje. Tendo ele abandonado a mãe de
Juana quando esta era ainda muito pequena, Juana acabou sendo criada pelo avô
materno, Pedro Ramírez, homem culto e educado, em uma fazenda deste, em
Pandoyán.
Foi precoce em seus
estudos, tendo produzido seus primeiros versos aos 5 anos. Aos 12, morando com
sua tia materna na Capital, aprendeu latim em 20 lições e português por conta
própria. Quando tinha 14 anos, aceitou convite do Vice-rei, Antonio Sebastián
de Toledo, Marquês de Mancera e foi ser dama de companhia de sua esposa,
Leonor, na corte dos Vice-reis do México. Contam suas biografias que, como o
talento de Juana vinha provocando comentários invejosos na corte, o Vice-rei
fez, uma vez, com que ela fosse argüida em público por uma banca de 40 homens
sábios, tendo ela, respondido com êxito a todas as perguntas. Ela tinha 17 anos
nessa ocasião.
Vivendo na Corte,
admirada por uns e perseguida por outros em função de sua beleza e saber, Juana
foi aconselhada por seu confessor a ingressar em um Convento, o que faz em 1667
entrando para o Convento de São José, da Ordem das Carmelitas Descalças. A rigidez ascética, no entanto, fê-la adoecer
em poucos meses.Transferiu-se, então,
para a Ordem de São Jerônimo da Conceição, onde pode dispor do tempo que
precisava para se dedicar às letras e às ciências.
Foi em São Jerônimo
que adotou o nome religioso de Sóror Juana Inés de la Cruz. Bem instalada,
cercada por livros e instrumentos diversos que utilizava em seus estudos, Juana
escreveu poemas, ensaios, dramas e peças de teatro religiosas, além de compor
canções natalinas e outras músicas sacras. Era visitada em sua cela no Convento
por diversos intelectuais da América Espanhola e pelos que vinham da Espanha,
encantados todos com sua beleza e seu profundo saber em todas as áreas do
conhecimento. Com seus escritos e seu modo de ser, Juana representou um marco
importante para a cultura da América Espanhola então dominada exclusivamente
pelos homens, tendo recebido de seus contemporâneos os pseudônimos de “A Décima
Musa” e “Fênix da América” e sendo reconhecida hoje em dia como a primeira
feminista das Américas.
Em pleno auge de sua
carreira literária, Juana recebeu do Bispo de Puebla, Dom Manuel Fernández de
Santa Cruz, a incumbência de comentar, por escrito, o Segundo Sermão do
Mandato, que o valoroso e erudito Padre Jesuíta Antonio Vieira, português com
longa estada no Brasil, havia pregado na Capela Real da Corte Portuguesa em
1655, cerca de 40 anos antes. Dom Manuel, após receber os comentários de Juana,
onde ela brilhantemente demonstrava erros teológicos do Padre Vieira, fê-los
publicar com o nome de Carta Atenagórica, não sem antes tê-los precedido por um
prefácio seu, em que assinava como Sóror Filotea de la Cruz. Nesse prefácio,
Dom Manuel, ao tempo em que elogiava o trabalho crítico de Juana, lhe censurava
de forma sutil a abrangência dos estudos, orientando-a a que se dedicasse
somente às questões religiosas.
Àquela época, somente
aos membros mais altos do Clero, todos homens, como hoje, era dado o direito de
dissertar sobre questões teológicas. Desse modo, a publicação da Carta
Atenagórica por certo provocou grande escândalo na comunidade religiosa.
Juana respondeu ao
Bispo através de uma longa mensagem autobiográfica, onde defendeu, de forma
eloqüente e brilhante, a necessidade de se estudar todos os ramos do
conhecimento para melhor entender Deus e a criação, argumentando ainda ser essa
uma necessidade não só dos homens mas igualmente das mulheres..
Pouco tempo depois da
magistral resposta, no entanto, Sóror Juana colocou à venda os quatro mil
volumes de sua biblioteca e seus inúmeros instrumentos científicos e musicais,
dando uma imensa quinada em sua vida.
A razão de decisão
tão radical permanece obscura. Após consultar diversas fontes que falam da vida
de Sóror Juana, fica a dúvida entre duas hipóteses. Terá a resposta à “Sóror
Filotea” sido um desabafo final da erudita religiosa, autora e cientista após
ter resistido por longo tempo às investidas contrárias de censores invejosos ou
terá sido ela o próprio estopim que terá feito explodir uma avalanche de
críticas e pressões que ela não pode enfrentar dada a origem de onde vinham?
Talvez nunca se saiba ao certo, no entanto, tenha sido qual tenha sido o
motivo, o fato é que a surpreendente quinada se deu e o foco de nossa querida
Joanna naquela memorável vida se voltou para a caridade.
Após vender seus
pertences, Sóror Juana aplicou o produto obtido para fins caritativos, fazendo
doações aos pobres e famintos. Quatro anos mais tarde, em 1695, quando uma
epidemia de peste assolava a região, envolveu-se de corpo e alma no auxílio aos
doentes. Socorrendo suas irmãs enfermas, acabou por se contagiar, desencarnando
em 17 de abril, aos 44 anos de idade.
Vejamos o que nos é
possível aprender da vida de Sóror Juana Inés de la Cruz.
O que nos chama a
atenção, primeiramente, é a gana por saber que Juana demonstrou desde pequena.
Não apenas lia ela as obras teológicas, antes estudando com afinco todos os
ramos do conhecimento humano, argumentando com habilidade em sua resposta a
“Sóror Filotea” (Dom Manuel, bispo de Puebla) sobre a necessidade de tais
estudos.
Não nos limitemos,
pois, a estudar obras espíritas de cunho religioso ou moral. Se aquela página
de A Gênese ou de uma das obras de André Luiz nos parece difícil de entender é
porque nos falta estudo científico. Se não encontramos na Codificação resposta
exata a um problema que nos assalta no cotidiano, quem sabe nos falta
conhecimento sobre sociologia, história ou filosofia?
Temos toda a
eternidade para aprender. No entanto, Sóror Juana, com seu exemplo, nos mostrou
que devemos agir como se tudo devêssemos aprender em uma só vida. Na senda da
evolução, mesmo sabendo que temos toda a eternidade para aprender, devemos nos
portar em cada vida como se ela fosse nossa única oportunidade de atingir a
perfeição.
Se nossa condição
evolutiva ou as circunstâncias por que passa a nossa vida tal não nos permitem,
façamos, pelo menos, o que está a nosso alcance. É certo que cada um de nós
teve um preparo diferente nesta vida, uns tendo estudado mais e outros menos. É
certo que a constituição física do encéfalo de cada um de nós permite maior ou
menor expressão de nossa capacidade mental.
Se, no entanto,
aprendemos a ler, existem várias boas obras de divulgação disponíveis à espera
de nossa iniciativa. Mãos à obra, portanto. Estudemos o máximo que pudermos no
tempo que nos for possível.
Se sequer a ler nos
foi possível aprender nessa vida, se nossos olhos são doentes e a leitura nos é
dolorosa ou impossível, ainda assim o estudo não nos é vedado, havendo uma infinidade
de casas espíritas com horários públicos dedicados a estudos da Doutrina, pessoas à nossa volta a quem apraz uma conversa salutar e programas de rádio e
boa qualidade, demandando tão somente o tempo de uma escolha criteriosa.
Podendo escolher
entre um programa fútil na TV e um educativo, escolhamos o educativo. Podendo
escolher entre uma boa leitura e uma conversa sobre trivialidades, escolhamos a
boa leitura ou, por outra, dirijamos o colóquio para assuntos construtivos.
Podendo escolher entre ficarmos em casa ruminando nossas deficiências e irmos
para locais onde podemos aprender, tenhamos coragem e façamos a melhor escolha.
Como dissemos antes,
se ainda não nos julgamos preparados para seguir o exemplo de Sóror Juana que,
pelo menos, ensaiemos os primeiros passos nessa direção.
Sóror Juana
ensinou-nos, também, a ter desapego aos bens terrenos e senso de prioridade. Ao
decidir dedicar-se à caridade, vendeu todos os seus livros e pertences para
aplicar o dinheiro no amparo aos necessitados. Possuía aqueles livros e
instrumentos para se instruir e não como objeto de posse. Decidindo dedicar-se
de corpo e alma à caridade, não titubeou em deles se desfazer.
O Espírito da
Verdade, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. VI, Item 5, nos conclama
“Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o
segundo.”
Se nos instruirmos é
o segundo mandamento, nos amarmos é o primeiro. E se, para exercermos o amor
cristão, é necessário que abramos mão do impulso urgente de instrução, que
assim o façamos.
Mais uma vez,
lembremos que muitas iniciativas modestas podem ser inspiradas pela atitude de
Sóror Juana. Digamos que uma pessoa que se encontra em perturbação nos peça
emprestado um livro de que gostamos e não nos o devolva. Aceitemos isso com
naturalidade, pensando que nas mãos dela aquele livro talvez seja mais útil que
nas nossas. Se nosso maior desejo é estudar e nos aparece uma oportunidade de
ajudar a quem necessita, saibamos interromper nosso estudo para sermos úteis ao
nosso irmão. Se estivermos com tudo marcado para ir naquela palestra de um
orador famoso e nos aparecer uma pessoa carente de nosso carinho, querendo
conversar conosco ou apenas alugar nossos ouvidos para desabafar, tenhamos
paciência e saibamos, como Sóror Juana, que, quando a caridade cristã se faz
necessária, o estudo pode e deve ficar para depois. É claro que devemos ter
nossos sentidos e razão atentos para não confundirmos reais necessidades com
fingimento ou exagero de emoções. No entanto se não tivermos com diretriz que a
caridade se impõe à instrução, corremos o risco de falhar quando mais se espera
de nós.
Lembremos sempre que
caridade não é apenas o ato de dar esmolas ou de se alistar como voluntário
para ajudar em um asilo, em um orfanato ou em outra instituição do gênero. Não,
caridade é algo para ser praticado a toda hora. Ter paciência para escutar e
aconselhar a quem sabe menos que nós, quer assim se reconheça quer o ignore e
se julgue mais sábio. Caridade é saber ouvir, dando atenção a todos, não
importa a idade, o sexo, a raça ou a religião. É ter olhos para todos os seres
à nossa volta, não fazendo mal a nenhum e a todos dirigindo um olhar de amor,
de aceitação, reconhecendo sermos todos, sem exceção, filhos do mesmo Pai.
Junto a Francisco de Assis
Em uma das idas de
Divaldo à Itália Joanna lhe revelou por palavras e emoções uma ligação
fortíssima com Francisco de Assis (1182-1226), sem ter, contudo informado quem
fora. Francisco de Assis é, também, um tema muito usado por Joanna em seus
escritos, em palestras ou workshops, sempre através da abençoada mediunidade de
Divaldo Franco, fato que reforça a impressão de que há entre os dois iluminados
Espíritos um elo muito grande. Como as seguidoras de Francisco eram dirigidas
por Clara de Assis (1193-1252), é certo que Joanna teria sido, naquela vida,
uma irmã Clarissa bastante próxima ao pobrezinho de Assis ou, quem sabe, talvez,
a própria Clara.
Joana Angélica de Jesus
A 11 de dezembro de
1761, isto é, há exatamente 242 anos, nasceu na cidade de Salvador Joana
Angélica, filha de uma abastada família. Ingressou aos 21 anos no Convento da
Lapa, naquela cidade. No ano de 1783, professou como irmã Joanna Angélica de
Jesus, das Religiosas Reformadas de Nossa Senhora da Conceição. No Convento da
Lapa foi vigária, exercendo diversos cargos burocráticos na comunidade, entre
os anos de 1798 e 1801. Em 1809 foi conduzida ao posto de conselheira,
retornando ao vicariato em 1811. Eleita Abadessa em 1814, permaneceu no cargo
até 1817. Três anos após foi reeleita Abadessa, função que exercia por ocasião
de sua morte.
Em agosto de 1820
ocorreu a chamada Revolução Liberal do Porto, assumindo o poder uma junta
provisória, que convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes e
forçou Dom João VI a retornar a Portugal. As Cortes reunidas em Lisboa
dissolveram o reino do Brasil e forçaram Dom João a jurar uma nova Constituição,
cancelando todos os cargos públicos que haviam sido criados no Brasil e fazendo
antever aos brasileiros o retorno à situação de colônia, que eles não mais estavam
dispostos a suportar.
Então, a
insubordinação explodiu, com os brasileiros não aceitando as ordens dos
oficiais portugueses, e estes se recusando a aceitar as ordens do
príncipe-regente Dom Pedro, pois as Cortes de Lisboa já lhe haviam anulado esse
cargo e exigido seu retorno a Portugal.
A população da Bahia
dividiu-se e os conflitos entre brasileiros e portugueses aumentaram. Quando as
Cortes Portuguesas nomearam o general português, Madeira de Melo para governar
a província, a violência aumentou. A partir de 14 de fevereiro de 1822,
Salvador se tornou um grande campo de batalha, com brasileiros e portugueses
buscando controlar pontos estratégicos a fim de dominar a cidade.
Em 19 de fevereiro de
1822, os portugueses atacaram o Forte São Pedro, em Salvador. Na manhã
seguinte, investiram contra o Convento da Lapa, suspeitando que lá eram
escondidos brasileiros libertários. Postando-se, corajosamente, à entrada do
Convento, com a cruz em suas mãos, a Abadessa Joana Angélica resistiu à
investida dos homens armados, dizendo, segundo registra nossa História:
“Para trás, bárbaros.
Respeitem a casa de Deus. Ninguém entrará no convento, a menos que passe por
cima de meu cadáver!"
Uma baioneta
atravessou, então, o peito da destemida Abadessa que, com seu gesto, não só
dera tempo para que as irmãs e demais brasileiros que estavam no Convento
escapassem, como fez-se alçada para as páginas de nossa História como símbolo
de resistência à opressão e mártir da Independência. Era o dia 20 de fevereiro
de 1822.
Após cinco dias de
combate, os portugueses anunciaram o controle de Salvador, enquanto os
brasileiros comandados por Manuel Pedro se refugiaram na região do Recôncavo
Baiano.
A independência de
Salvador do domínio português viria somente em 2 de julho de 1823 quando o
general Madeira de Melo se rendeu depois de demorado cerco da cidade pelas
tropas mandadas por Dom Pedro I, chefiadas pelo francês General Labatut e pelo
inglês Almirante Cochrane.
Temos uma
interessante lição a comentar. Após o brilho da personalidade de Sóror Juana
Inés de la Cruz, Joanna reencarnou com discrição. São poucas as referências
disponíveis sobre a vida da heroína de nossa Independência. Nos livros de
História, apenas o evento final de sua vida é contado. Somente agora em nosso
século estudos têm sido feitos por pesquisadores da UFBA sobre os escritos de
Joana Angélica durante o tempo em que esteve como escrivã do Convento da Lapa
e, mais tarde, como Abadessa. Tais estudos, no entanto, ainda carecem de maior
divulgação e por muito tempo talvez assim permaneçam.
Joanna nos ensinou
que um Espírito evoluído não deve aspirar ao reconhecimento e à fama. Se Sóror
Juana brilhou como estrela de primeira grandeza no panorama cultural do século
XVII, tal não se deu porque buscava a fama ou o reconhecimento alheio. Brilhou
por fora porque já era brilhante por dentro e, na busca do saber, não poupou
esforços, a todos causando admiração pelos resultados que obtinha ao perseguir
o seu intento. No entanto, ao perceber, pela reação negativa que sofreu, que a
fama que havia adquirido não lhe convinha, de pronto a tudo renunciou,
encolhendo-se aos olhos dos homens e agigantando-se aos olhos de Deus no
serviço anônimo de amparo fraterno.
Quando voltou, no
século seguinte, reencarnando na Bahia, elegeu desde cedo a discrição, sem,
contudo, abandonar a busca pelo saber, a coragem, o amor aos seus irmãos e todos
os demais atributos que, Espírito evoluído, já havia conquistado.
Temos mais, sem
dúvida, a aprender da vida de Joana Angélica. É algo, contudo, que faremos mais
adiante.
De São Damião à Lapa: Um Interessante Paralelo
Uma ocasião, no ano
de 1234, quando as tropas de Frederico II, Rei Alemão e Imperador do Sacro
Império Romano, estavam devastando o vale do Espoleto, onde está situada a
cidade de Assis, os soldados, preparando-se para entrar na cidade, começavam à
noite a escalar as paredes do Convento de São Damião. Alertada pelas irmãs,
Clara, como superiora do Convento, apesar de adoentada, levantou-se de sua
cama, apanhou o ostensório na pequena capela ao lado de sua cela e foi até uma
janela que havia em uma parede por onde os invasores já subiam por uma escada.
Diz a tradição que, quando ela elevou o ostensório ao alto em oração, pedindo a
Deus proteção para suas irmãs, já que ela, doente, não se sentia em condição de
ajudar, os soldados teriam recuado estarrecidos e se posto em debandada para não
mais voltar.
Que curioso paralelo
com o ataque ao Convento da Lapa, quase 600 anos mais tarde! Na Idade Média, a
Abadessa Clara, sentindo o corpo fraco, elevou a vibração da alma a altura tão
grande que colocou os atacantes para correr. Em nosso Brasil, prestes a se
tornar independente, a Abadessa Joana Angélica, sentindo o corpo forte,
coloca-se à frente dos soldados e enfrenta a morte do corpo com bravura e
consciente da prática do bem.
Paralelos sempre nos
colocam a pensar. Terá o personagem que Joanna animou na Idade Média sido a
própria Clara? Terá sido uma irmã tão
próxima de Clara que, tendo assistido a tudo o que ocorreu em São Damião, teria
tido a cena heróica marcada em seu psiquismo como grata lembrança a emular?
Na defesa dos nossos
semelhantes frente às injustiças e agressões, devemos ser destemidos e imbuídos
de fé, na certeza de que estamos a seguir os ensinamentos de Jesus
exemplificados por Clara de Assis e Joana Angélica. Se nossa condição física
não nos garantir sucesso na empreitada, os bons Espíritos estarão lá, prontos e
dispostos a ajudar.
Se nossa fé não é tão
intensa a ponto de afugentar os agressores, se nossa coragem não é tão grande a
ponto de colocarmos nosso corpo entre eles e aqueles a quem desejam ferir, que
façamos, pelo menos, o melhor que nossas limitações nos permitem.
Fiquemos do lado de
quem está do lado do bem, apoiemos as iniciativas nobres em defesa dos fracos e
oprimidos.
Caso sejamos ainda
menores e medrosos, se ainda não nos sentirmos sequer capazes de apoiar quem
luta para proteger nossos irmãos das injustiças e agressões, que pelo menos não
as cometamos nós, nem estejamos do lado de quem as pratica.
Se Joanna foi Clara de Assis, Por Que não o Revela?
Se observarmos com
atenção, das poucas existências reveladas por Joanna, nenhum dos personagens
que ela animou contém grande séqüito de devotos. Sóror Juana Inés de la Cruz é
muito respeitada pelas suas obras e por sua postura de vida, mas aqueles que a
admiram não têm por ela devoção religiosa. Os que admiram a Abadessa Joana
Angélica vêm nela uma heroína de nossa Independência e não uma Santa. Joana de
Cusa é distante no tempo e cultuada como santa pela Igreja Ortodoxa Grega,
sendo pouco conhecida no Ocidente, onde seu nome não consta nas listas de
santos católicos mais populares, mas apenas nas completas, onde aparece como
Santa Joana. Clara de Assis, por outro lado, é uma santa com inúmeros devotos
no Ocidente, além de ter uma Ordem religiosa que leva seu nome.
Se afirmasse ter sido
Clara de Assis, Joanna estaria mexendo com os sentimentos de inúmeros devotos
da santa, ensejando, por parte dos mais radicais, agressões que nenhum bem
fariam ao movimento espírita ou a quem quer que fosse. Perturbar os outros e
causar desgastes sem propósito são atitudes que Joanna nunca teve em sua longa
missão junto a nós. Logo, por que haveria de fazê-lo neste caso? Não esperemos,
pois, que Joanna nos diga ter sido Clara naquela distante existência. Lembremos
que o próprio Mestre Jesus declinou de identificar-se com precisão por ocasião
da Codificação Espírita, usando o epíteto de Espírito de Verdade. Com isso,
queria Jesus evitar desgaste desnecessário ao processo de divulgação da
Doutrina, pois os Católicos ficariam revoltados a extremos ainda maiores do que
ficaram.
Nos ocorre, no
entanto, que, se Joanna tivesse sido uma irmã próxima a Clara e não a própria,
as justificativas que existem para a não revelação do nome que ela teve não
persistiriam. E, apesar disso, Joanna tampouco informou qual dentre as irmãs
Clarissas corresponderia à personalidade que animou naquela vida. Existem,
portanto, a nosso ver, fortes evidências sugerindo que Clara de Assis tenha
sido um dos personagens vivido por Joanna de Ângelis.
Em respeito à
discrição de Joanna não devemos alardear nossas hipóteses, por mais sustentadas
que elas nos pareçam. No âmbito deste estudo, entretanto, entendemos que tal
questão não poderia deixar de merecer nossa atenção.
Fica-nos mais uma
lição. De que vale uma revelação se ela trouxer perturbação a alguns e nenhum
bem fizer aos demais? Jesus e os grandes mensageiros da humanidade causaram
cizânia e contendas de toda natureza mas lograram, ao final de tais
desencontros, legar uma mensagem de luz e paz à humanidade, mensagem esta que
aos poucos se revela e vai sendo aceita pelo mundo. Por outro lado, que saldo
positivo traria a revelação que estamos abordando? A nosso ver, nenhum. Ora, se
o que temos a dizer nenhum bem traz e causa perturbação a alguém, por mais
humilde e ignorado que seja esse alguém, é sempre melhor que nos calemos.
Na Equipe do Espírito de Verdade
Em sua obra Após a
Tempestade, Joanna de Ângelis revelou ter participado da equipe do Espírito de
Verdade quando da Codificação de nossa amada Doutrina.
Fiel discípula de
primeira hora, não poderia Joanna omitir-se em tarefa não nobre capitaneada
pelo seu amado Mestre Jesus.
Em seus primeiros
contatos com Divaldo, Joanna declinou de informar seu nome, identificando-se
como “Um Espírito Amigo”. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, há duas
mensagens assinadas por “Um Espírito Amigo”, uma no Cap. IX, item 7 e outra no
Cap. XVIII, itens 13 a 15. A identidade da designação sugere tratarem-se da
mesma entidade.
São ambas mensagens
inspiradas e altamente educativas. Vamos, no entanto, citar apenas uma parte da
primeira, por tocar em um ponto por nós comentado mais acima. Trata-se do
segundo parágrafo da mensagem intitulada A Paciência.
“Sede pacientes. A
paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada
pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres
é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e,
conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em
nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova
a paciência.”
Lembremos, neste
instante, das últimas palavras que Joana de Cusa dirigiu a seu algoz, quando
perguntada por ele se o Cristo a havia somente ensinado a morrer:
- Não apenas a
morrer, mas também a vos amar!...
Nota:
Os autores divergem quanto ao ano do nascimento de Juana de Asbaje, o que
compromete toda a cronologia posterior. Adotamos, neste trabalho, o ano de
1651, que é o que consta mais freqüentemente em suas biografias disponíveis na
Web.
Bibliografia
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Obtido, em Dezembro de 2003, de
http://www.nethistoria.com/index.php?pagina=ver_texto&titulo_id=104
Bíblia
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Opressor
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Dezembro de 2003, de http://www.almanaquebrasil.com.br/almanaque45/voce_sabia/voce_sabia2.htm
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Joana Angélica de Jesus. Boletim do GEAE no 188, de 14 de maio de 1996. Obtido
de http://www.geae.inf.br, em Dezembro de 2003.
St. Clare of Assisi. Catholic Encyclopedia. Obtido, em
Dezembro de 2003, de http://www.newadvent.org/cathen/04004a.htm
The
Sor Juana Inés de la Cruz Project. The
Department of Spanish and Portuguese. Dartmouth College. Hanover, New
Hampshire. Obtido, em Dezembro de 2003, de http://www.dartmouth.edu/~sorjuana/
(Estudo
apresentado originalmente na Subsede da Instituição Espírita Joanna de Ângelis
no dia 11 de Dezembro de 2003, data do 242º Aniversário de nascimento de Sóror
Joana Angélica de Jesus)
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