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Marcelo Henrique Pereira*
A morte de Karol
Wojtyla, o líder da Igreja Católica, deve nos motivar a uma profunda reflexão
acerca dos líderes espirituais do planeta e suas missões de divulgação da
mensagem do bem. Afinal, inegável é a influência da religião oficial do
cristianismo sobre pessoas e instituições, mormente nos tempos atuais. A
mística e o carisma de João Paulo II, com certeza, exorbitam as fronteiras de
instituições e movimentos católicos, e as idéias, a postura, as encíclicas e as
viagens do papa-peregrino, influíram de modo decisivo na moral contemporânea.
Espiritualmente
falando, o trabalho de Wojtyla é digno de registro. Seus biógrafos acentuam
que, nos 26 anos em que esteve no Vaticano (o quarto maior pontificado da
história do catolicismo), João Paulo fez campanha pela paz e pelos direitos
humanos, aproximou a Igreja Católica de outras religiões e culturas, defendeu
as liberdades individuais, mas, em contraponto, condenou o uso de preservativos
justamente numa época das mais críticas em termos de saúde, onde o mundo viu
surgir a Aids. Ou seja, adotou uma postura progressista socialmente, mas ao
mesmo tempo conservadora religiosamente, que defendia veemente os direitos
humanos, criticando, por exemplo, a globalização como instrumento de acentuação
da desigualdade social e concentração de renda, mas era inflexivelmente moralista
quanto à biotecnologia e à sexualidade. Na encíclica “Preocupação com a
Realidade Social”(1987), por exemplo, o papa propunha uma nova ordem social,
enfatizando problemas de distribuição de renda e políticas financeiras dos governos.
Foi, ainda, um dos homens que mais trabalhou para encerrar a Guerra Fria no
final do século passado, sendo responsabilizado pelo líder Mikhail Gorbatchov
pelo fim dos regimes socialistas do Leste Europeu. Porém a oposição ao homossexualismo,
ao aborto ou qualquer prática contracepcional (mesmo para o caso de prevenção à
Aids), à fecundação artificial, à manipulação genética e à eutanásia lhe custou
severas críticas de diversos setores da sociedade.
Em termos
culturais-filosóficos, destacou-se pela formalização do perdão público e
institucional pela realização da Inquisição, reconhecendo que a igreja partia
do princípio de que detinha a verdade e, por isso, obrigava pela força que
todos os demais estivessem de acordo com suas idéias.
João foi um grande
comunicador. Amante da poesia e da dramaturgia na juventude, Karol Josef
Wojtyla cursou literatura e teologia. Duas de suas grandes habilidades eram a
fluência em várias línguas (polonês, italiano, inglês, francês, alemão,
espanhol, português e latim) e a diplomacia. Viveu nos limites das culturas,
viajou o mundo inteiro (125 países, em 104 viagens oficiais internacionais) e
buscou uma aproximação das religiões em torno da fé, sem atuação política e
condenando quem mata em nome de Deus. Nenhum outro papa realizou tantos encontros:
mais de 18 milhões de peregrinos participaram de uma de suas 1.160 audiências e
realizou 982 encontros oficiais com chefes de Estado.
No viés
espiritual, com base nas informações básicas espíritas (contidas, sobretudo, em
O livro dos espíritos), como poderia ser analisada a tarefa de João Paulo?
Teria ela, características de uma existência missionária? Ou enquadrar-se-ia, apenas,
em uma tarefa provacional, decorrente apenas do cargo ocupado, como sói
acontecer com a maioria das pessoas em suas profissões e ocupações habituais?
O ponto de partida
para o entendimento de missão é a questão 573: ela consiste “Em instruir os
homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por
meios diretos e materiais. As missões, porém, são mais ou menos gerais e
importantes. O que cultiva a terra desempenha tão nobre missão, como o que
governa, ou o que instrui. Tudo em a Natureza se encadeia. Ao mesmo tempo que o
Espírito se depura pela encarnação, concorre, dessa forma, para a execução dos
desígnios da Providência. Cada um tem neste mundo a sua missão, porque todos
podem ter alguma utilidade.”
Doutrinariamente,
neste exemplo, um agricultor, ou um bombeiro, policial, professor, médico,
desempenham missões particulares, das quais resulta, essencialmente, um
proveito pessoal para aqueles que a (bem) desempenham, podendo, alguns frutos
ou resultados serem benéficos para outrem, na gradação do tipo de proveito que
possam ter usufruído. Também o livro básico considera a paternidade (pai e mãe)
como mister missionário, sobretudo porque relacionado à educação, instrução e
condução dos filhos pelo mundo. Tais misteres, todavia, mais parecem ocupações
comuns do que missões. Em paralelo, há o conceito técnico, stricto sensu, de
missão, para enquadrar existências valorosas em favor do próximo, em atividades
de esclarecimento, orientação, assistência social, educação, saúde, entre
outras. Nisto reside a colocação do Espírito Verdade “instruir [...], auxiliar
o progresso” dos homens.
É por isto que
qualquer análise acerca das características do trabalho paulino deve permear o
esforço em manter viva a chama da fé cristã, renovando mandamentos,
sacramentos, motivos de fé, disseminando o conhecimento e a crença nas máximas,
parábolas e feitos de Jesus, embora, claro, segundo a interpretação da Igreja,
com seus dogmas e ritos. No entanto, Jesus, cada vez mais, torna-se uma
personalidade conhecida para a Humanidade, com o notório trabalho do mandatário-mor
religioso. Já seria suficiente este trabalho. Mas, João foi muito além disso,
conforme relatado acima. Ao assumir sua vocação comunicativa, o papa revolucionou
a forma de diálogo com a Sociedade e, neste particular, pode ser considerado um
“farol ao gênero humano, que o iluminam com a luz do gênio” (item 581, de OLE)
e, por revelar aos homens a lei de Deus, pode ser considerado como um Espírito
Superior (questão 622), à luz do contido na escala espírita (quesito 100),
reconhecido por suas palavras e atos (item 624). Tal reúne a ciência, a
sabedoria e a bondade e sua linguagem é benevolente, encarnando na Terra para
nos oferecer o tipo da perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo.
Woytyla,
missionário, foi um dos maiores pontífices da história da Igreja e o mais
popular de todos: o papa que conduziu a Igreja ao Terceiro Milênio.
* Diretor de Política e Metodologias de Comunicação da
Abrade eSecretário para a Promoção da Juventude e Delegado da CEPA.
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