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A Era da Globalização e o Livro Espírita

 

Edvaldo Roberto de Oliveira

  

Nos dias atuais da denominada globalização, impera a cultura do lucro, na qual as pessoas são induzidas a agir apenas em função do ganho monetário. Até o lazer, a produção e o consumo de símbolos, palavras, sons e imagens passam a ter por objetivo reforçar o sistema de lucro.

A revista Exame, de 6 de setembro do ano 2000, em um artigo de Jeremy Rifkin, analisando a cultura na Era da Globalização, assinala algumas considerações: “Os cidadãos mais abonados podem adquirir praticamente qualquer experiência no mercado cultural. É possível buscar a orientação espiritual de um monge tibetano num retiro renascentista de fim de semana, jantar em restaurante de cozinha internacional, praticar um esporte radical ou levar a família a um parque temático onde se produz a vida no século XVIII. A venda de cultura sob a forma de atividades humanas pelas quais cada vez mais é preciso pagar está nos conduzindo a um mundo no qual o relacionamento entre as pessoas é medido pelo dinheiro.

As atividades que costumavam ser parte da esfera cultural estão sendo rapidamente incorporadas pelo mercado. Parece que nenhum ícone cultural está mais imune ao carimbo comercial. Veja, por exemplo, os campeonatos universitários de futebol americano. Outrora, uma expressão do espírito comunitário, eles se tornaram um evento comercial.”

O que isto tem a ver com o Espiritismo?

Tomando como referência Herculano Pires e Humberto Marioti que, por sua vez, utilizaram um pensamento de Léon Denis, pode afirmar-se que na cultura contemporânea (símbolos, palavras, sons, imagens, etc.) o Espiritismo é um processo cultural que começou com o livro, e através dele continua, apesar e talvez em virtude do Auto-de-Fé em Barcelona.

Haja vista que o Movimento Espírita, no Brasil, pode ser considerado antes e após os livros que vieram pelas mãos abençoadas do Chico Xavier. Já que nada parece escapar à lógica do mercado, o livro – o ícone cultural do Movimento Espírita –  Também não está mais imune ao carimbo comercial.

O livro é um “produto” para divulgar a Doutrina Espírita, uma cunha que se introduziu na cultura atual, em hora de crise de valores, com o objetivo maior de contribuir para a transformação dessa mesma cultura? Ou o livro é um “produto” comercial que deve como tal ser tratado?

Certamente, há quem não veja estas duas posições de forma excludente, afirmando que sem dúvida o livro espírita tem como razão de ser a divulgação da Doutrina Espírita, mas que não se pode abrir mão das tecnologias modernas, das técnicas do bom gerenciamento de empreendimentos, de marketing e de circulação/distribuição. E dirão ainda que a utilização dessas modernidades poderá contribuir muito para que o livro espírita, cada vez mais, possa divulgar a Doutrina Espírita.

No entanto, a questão não é se devemos ou não adotar a modernidade no “negócio do livro” que faz o livro correr mundo.

Considerando a finalidade precípua da divulgação do Espiritismo para que este possa “contribuir com a transformação da humanidade”, significando isto “melhorar as massas – o que se verificará gradualmente, pouco a pouco, em conseqüência do aperfeiçoamento dos indivíduos” – a questão fundamental é que os espíritas e as instituições espíritas não podem simplesmente se entregar à cultura do lucro na qual vale tudo em nome do ganho monetário.

Como resistir às “ondas avassaladoras da globalização”?

O caminho é aquele apontado pelo próprio Allan Kardec e preconizado por Bezerra de Menezes – a Unificação: “Dez homens unidos são mais fortes do que cem desunidos.”

É necessário que a Unificação – o processo de reunir instituições e unir pessoas – tenha como centralidade a divulgação do Espiritismo, levando em conta o cenário atual marcado por extremas desigualdades sociais (54,4% dos brasileiros são pobres que mal conseguem comer, e não ganham o suficiente para roupa e moradia, e ainda mal escrevem e lêem) e pelo fundamentalismo de algumas denominações religiosas que expressam claramente um projeto hegemônico.

É importante registrar o pensamento da professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Raquel Paiva, em suas pesquisas: “A atividade cultural básica do brasileiro é ficar em frente da televisão. A TV está em todas as instituições que nos tornam indivíduos.” São mais ou menos 120 milhões de telespectadores, o que evidencia a hegemonia da TV como meio de comunicação da denominada Cultura de Massa.

A recente pesquisa Retrato da Leitura realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), tendo como uni- verso a população brasileira alfabetizada com mais de 14 anos, estimada em 86 milhões de pessoas, constatou que 30% são leitores efetivos (leram ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa); 20% formam o mercado comprador de livros no país; em números absolutos, o consumidor típico pertence às classes B e C (somando 12 milhões).

O livro espírita pode e deve cumprir um papel fundamental na “revolução cultural” – idéias/ações por um mundo melhor. E para tal, os livros espíritas, quais sementes, precisam espalhar-se, caindo na terra fértil dos corações desejosos de paz.

É uma tarefa de todos. Não deve haver produtores/consumidores; escritores/leitores; editoras/distribuidoras; livrarias/bibliotecas; mas uma convergência de esforços – o verdadeiro sentido da Unificação –, uma verdadeira Cruzada de Espiritismo de Vivos (expressão de Leopoldo Machado) para que o livro espírita seja bom, belo e nobre e esteja ao alcance de todos.

 

Fonte: Revista Reformador - Abril/2002

 

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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