|
Adolpho Marreiro Júnior
Disse o
Apóstolo Paulo: “Portanto dai a cada um o que deveis: a
quem tributo, tributo: a quem
imposto, imposto; a quem
temor, temor; a quem honra,
honra.” Epístola
aos Romanos. (13:7.)
Francisco Cândido Xavier, o mais consagrado médium
deste século, ausenta-se do mundo aos 92 anos de idade, dos quais, 75 foram de
ininterruptos labores mediúnicos.
O número de livros por ele psicografados atinge 412
títulos, cujas reedições constantes ultrapassam a casa dos trinta milhões de
unidades.
A notícia de sua partida é destaque em jornais,
revistas e demais veículos de comunicação do Brasil e até do Exterior, pois sua
fama é hoje internacional.
Acreditamos que, nesta hora, milhões de pessoas
sentem as emoções da saudade, tristeza, vazio e até um certo receio de que
jamais desponte, neste país, alguém que possa preencher a lacuna por ele
deixada.
A mão que, ao comando dos Mensageiros invisíveis,
segurava o lápis, escrevendo, celeremente, páginas incontáveis de
esclarecimentos, consolação e esperanças, imobilizou-se. Doravante cessam as
romarias que, por várias décadas, se faziam, primeiramente a Pedro Leopoldo e
depois a Uberaba, onde o Chico cumpriu a maior parte de sua missão.
Com sua partida encerra-se um dos mais belos,
importantes e revolucionários capítulos do livro da história do Espiritismo
brasileiro. É o fim da inesquecível Era Chico Xavier, principal
responsável pela alta conceituação e popularidade de que goza a Doutrina
Espírita, atualmente, neste país. Se o Brasil é hoje a nação mais espírita do
mundo e o maior celeiro do livro espírita, é, na maior parte, graças ao volume imenso
de livros que os Espíritos ditaram, da Pátria Espiritual para a Terra, através
do extraordinário médium.
Sua vida e sua obra já foram amplamente descritas em
prosa e versos, portanto seria redundância apresentarmos, aqui, mais uma
biografia desse moderno apóstolo do Cristo. Nosso desejo é apenas ressaltar a
“dimensão cósmica” da obra que uma plêiade de Espíritos (semelhante àquela que
assistiu Allan Kardec, nos dias gloriosos da Codificação) elaborou e verteu
para a Terra. Dimensão cósmica, repetimos, porque assim como ocorre com a obra
da Codificação, também as mensagens contidas no majestoso “monumento
literário”, que aí fica, não são endereça- das apenas ao cidadão de qualquer
nação, mas ao Espírito Imortal, ao irmão eterno, cujos anseios de sabedoria e
ventura são inatos e pairam acima dos valores transitórios dos interesses
materiais que separam pessoas e nações.
Allan Kardec e Francisco Cândido Xavier, segundo
entendemos, embora com tarefas diferentes, cumpriram etapas das mais difíceis e
importantes do Consolador prometido por Jesus, cujo maior foco de expansão é o
Brasil, a nova Pátria do Evangelho colocada no coração geográfico do mundo.
Sem comprometerem o sólido e inabalável alicerce da
Codificação, os Espíritos ergueram sobre ele o monumento literário, cujas
mensagens revivem, em pureza e plenitude, os ensinos de Jesus,
acrescentando-lhes novas e palpitantes revelações que há dois mil anos seriam
extemporâneas. Porventura, não foi isso mesmo que o Divino Mestre prometeu
pouco antes do seu regresso à Pátria Espiritual?
Digno da missão recebida, Francisco Cândido Xavier
tornou--se protótipo do cidadão de uma nova era, sendo ele mesmo o maior
exemplificador dos sublimes ensinamentos que recebeu do Mundo Espiritual.
Pode-se dizer que sua vida foi desapropriada em favor do bem coletivo. A obra
que aí fica, só as gerações futuras poderão melhor compreendê-la e valorizá-la
em sua plenitude.
Não ganhou o Prêmio Nobel da Paz, que amigos
carinhosos e bem intencionados lhe pleitearam, mas... que importa? Talvez seja
a Vontade de Deus que a virtude da Humildade, tão exaltada por Jesus na lição
da Manjedoura, e por ele, Chico Xavier, em toda a sua vida, não fosse, ao final
da tarefa, tisnada pelas gloríolas deste mundo.
E, se bem-aventurados são os mansos de coração e os
pacificadores; se bem-aventurados são os misericordiosos e os perseguidos e
caluniados por amor do Mestre, Chico Xavier é, sem dúvida, um autêntico
discípulo digno dessas e demais bem-aventuranças prometidas por Jesus em Seu
famoso Sermão do Monte.
Francisco Cândido Xavier, modelo de cidadão de uma
humanidade futura, arauto da Paz e do Amor, que o teu despertar na Pátria
Espiritual seja em cenário paradisíaco, ouvindo melodias celestes inspiradas
nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha e na felicidade dos trabalhadores
triunfantes. Desejamos que, longe dos despojos do fiel veículo físico, que durante décadas
te serviu, possas, agora, usufruir da perene juventude e leveza de teu corpo
espiritual – o perispírito.
Imaginamos a multidão dos teus felizes
recepcionistas, tendo à frente o teu querido mentor espiritual, Emmanuel, assim
como os poetas que inauguraram a tua obra com o precioso livro Parnaso de
Além-Túmulo, e André Luiz, Espírito igualmente querido de todos nós, que se
popularizou como autor da preciosa série de livros, cujas mensagens devassaram,
aos leitores da Terra, não só cidades paradisíacas do Mundo Espiritual, com
seus elevados padrões morais e intelectuais de vida, como também as regiões
purgatoriais de extremos padecimentos e reeducação das almas falidas em suas
experiências terrestres.
Além, vemos que se aproximam centenas de Espíritos
que, com seus escritos, enriqueceram a grande obra literária. Vêm
recepcionar-te, também, muitos dos teus amigos de outras eras e uma multidão
formada pelos beneficiados pela tua obra.
Todos, reconhecidos e jubilosos, vêm abraçar-te com
votos de boas-vindas e felicidade pelo dever cumprido.
Coroando nosso devaneio, contemplamos, extasiado,
descerem das alturas luminosos Arautos do Cristo, trazendo-te, em Seu nome, as
bênçãos e felicitações pelo êxito da obra concluída.
Fonte:
Revista Reformador – ago/2002
|