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Ricardo Di Bernardi*
Caracteres anatômicos, isto é,
elementos que compõem a aparência física do ser humano, bem como caracteres
fisiológicos, ou seja, aqueles que se referem ao funcionamento de órgãos,
aparelhos e sistemas biológicos são determinados por herança genética.
Em função dos mais elementares
princípios da genética, sabe-se ser possível herdar a cor azul dos olhos do
nosso bisavô, ou outro ancestral mais distante mesmo que as gerações
subseqüentes ao mesmo não tenham manifestado esta característica.
Os genes (genótipo) que
ocasionam uma determinada aparência física ( fenótipo), neste caso cor azul dos
olhos, embora estivessem presentes em nosso pai e avô, não expressaram a mencionada
característica por terem sido encobertos por genes de característica dominante,
olhos castanhos .
Isto significa, em nosso
exemplo, que pelo fato do gene olhos castanhos estar também presente no
genótipo (conjunto de genes) dos descendentes, o fenótipo azul não se expressou
nas duas gerações anteriores, em função do gene azul ser recessivo, isto é,
dominado pelo gene castanho.
Sem pretendermos qualquer
aprofundamento nas explicações do mecanismo da hereditariedade, fica evidente
ser possível herdar peculiaridades anatômicas ou fisiológicas de ancestrais
longínquos.
Paralelamente aos caracteres
morfológicos e funcionais, cuja herança genética decorre da composição dos
genes paternos, estariam também sujeitos a mesma herança os caracteres psicológicos? E, da mesma
forma, seria possível herdar o psiquismo de antepassados distantes?
Esta é uma tese que nos
apresentam para questionar as recordações de vidas anteriores. Conforme a
hipótese da “memória genética”, uma criança ao “imaginar recorda-se de sua vida
pregressa” estaria apenas expressando informações, embora reais, arquivadas em
seus genes, decorrentes de experiências vividas por seus ancestrais e
transmitidas hereditariamente.
A princípio, parece não ser
destituído de lógica tal raciocínio, mesmo porque, freqüentemente o processo
reencarnatório pode ocorrer na mesma
família, e não é raro, na terceira ou quarta geração, ocorrer o renascimento de
um indivíduo como bisneto ou tataraneto dele mesmo.
Portanto, as recordações de sua
existência passada são, nada mais e nada menos, que a história do seu próprio
bisavô. Para os céticos, isto parece reforçar ainda mais a hipótese da memória
genética.
A teoria da memória genética
teve ampla aceitação por parte de fisiologistas, psicólogos e especialmente
psicofisiologistas de formação rigorosamente materialista para os quais
caracteres psicológicos são derivados da fisiologia cerebral do homem.
Consideram que o sistema nervoso não é apenas a sede da alma, mas própria alma.
Portanto, o espírito com todas
as suas manifestações, seria apenas o resultado das complexas reações
físico-químicas operadas no cérebro, em resposta aos estímulos externos e
internos captados pelos sentidos ou outros meios, e levados àquele órgão via
rede nervosa de todo o organismo.
Diversas teorias psicológicas baseadas no comportamento animal, especialmente
a psicologia animal, trouxeram grande reforço para tais idéias. A hipótese de
herança psíquica, ou memória genética, encontra significativos alicerces no
estudo do comportamento de mamíferos, répteis, pássaros e até vermes platelmintos.
Certos tipos de comportamento, como o de exibição, meneio de cabeça,
incitamento, corte do macho para a fêmea, etc., demonstram sua origem hereditária.
Willian C. Dilger efetuou um
interessante estudo sobre o comportamento de periquitos. Conforme pode se
observar, nos casos de
hibridagem, os indivíduos
resultantes do cruzamento herdam as duas formas de comportamento dos
pais. Assim, o periquito de “Fisher” tem o hábito de transportar no bico uma
tira de fibra vegetal de cada vez, visando construir seu ninho. Ao contrário, o
periquito “cara-côr-de-pêssego” carrega várias tiras de cada vez, entre as
penas.
Quando um híbrido começa a
construir seu ninho pela primeira
vez, age de forma completamente confusa,
levando as tiras ou palhas ora de uma forma ora de outra. Somente após três
anos ele fixa o comportamento de carregar a tira no bico, mas uma vez ou outra,
ele tenta colocar as tiras entre as penas.” (Dilger,
W.C. 1962”.
Considera-se que tais
caracteres de comportamento representam uma forma de memória ancestral que se
fixou definitivamente. É provável que a nossa estrutura cerebral deve nos
induzir, mas não determinar, a uma tendência de comportamento e, talvez uma
maior ou menor facilidade na apreensão da realidade ou maneira de conduzir o
pensamento.
Seriam então os arquétipos de
Jung oriundos de experiências ancestrais que arquivar-se-iam nas delicadas
estruturas nervosas e posteriormente seriam
transmitidas aos descendentes através de genes ao longo de gerações.
Esta, portanto, é a tese de memória genética.
No entanto, a tese mencionada
estaria estribada em alguma experimentação cientificamente consistente? Para
todos nós, estudiosos da Reencarnação, é importante conhecer como os filósofos,
psicólogos e muitos pensadores tem debatido este problema.
A possibilidade de memória
genética ser capaz de transitar ao longo de várias gerações, para eclodir em
forma de recordações simulando lembranças reencarnatórias, tem sido utilizada
para justificar muitos casos. Analisemos a questão com a maior neutralidade
possível.
J B. Best, em 1963, efetuou
interessante trabalho com planárias que são vermes platelmintos. Nesse
trabalho, o autor demonstra transmissão aos descendentes dos reflexos
adquiridos pelo platelminto, em laboratório. Memória genética? Vejamos.
Conforme diversas outras
pesquisas, uma molécula gigante e especial
chamada RNA (ácido ribonucleico
) parece
ser a responsável pela transmissão e ou registro de memória. Vejamos a
curiosa experiência desenvolvida por Wiliian C. Corning, na universidade de
Rochester:
Como é do conhecimento daqueles
que conhecem zoologia, as planárias quando adequadamente cortadas em
fragmentos, regeneram as partes secionadas. Além disto, até fragmentos menores
e sem cabeça podem regenerar uma planária completa.
Observou-se que planárias previamente
treinadas em laboratórios ao terem partes cortadas, estas partes não só se
regeneram completamente como mantém todo o aprendizado. Mas o fantástico foi
que se observou na sequênia da investigação.
As planárias regeneradas a partir de pequenos
pedaços mantinham o aprendizado adquirido enquanto que outras, regeneradas
dentro de uma solução aquosa contendo uma enzima que destrói o RNA
(ribonuclease), perderam a memória. Portanto, sérios indícios havia de que o
RNA poderia ser a molécula transportadora da memória de um aprendizado.
Reforçando ainda mais esta
tese, McConnell, Jacobson e a Dra. Bárbara Humphries desenvolverem o seguinte
trabalho:
Planárias não treinadas foram
alimentadas com fragmentos de outras planárias previamente treinadas, O
resultado foi incrível: os vermes não previamente ensinados passaram a
adquirir, em grande parte, o condicionamento dos que lhes serviram de alimento.
Literalmente, comeram do conhecimento...
Supõe-se que as planárias
canibais ao ingerirem as outras que foram treinadas, absorveram o RNA e, como
este atua na síntese de proteínas, estocaram o reflexo condicionado adquirido
pelos vermes anteriores.
Ratos também foram utilizados
em experiências semelhantes por Ungar. Como é notório, estes roedores têm
nítida preferência por locais escuros, onde parecem se sentir mais protegidos
por predadores. Invertendo esta peculiaridade
natural destes animais, Ungar, usando descargas elétricas
provocou choques nos mesmos, ensinando-os a temerem o escuro.
Posteriormente, preparou um extrato feito com
cérebro desses roedores e aplicou-o, por injeção, ao abdômen de ratos não ensinados. O que sucedeu foi
que esses últimos passaram a fugir da escuridão, de maneira semelhante aos
primeiros. À medida que se aumentava a dose do extrato injetado, maior o temor
a escuridão que apresentavam.
Como vemos, a hipótese da
memória genética merece ser analisada com cuidado. Inicialmente, é importante
lembrar que o código genético já possui seu mecanismo básico esclarecido. Não é
o RNA, a molécula responsável pela transmissão dos caracteres hereditários aos
descendentes.
Considera-se suficientemente alicerçada em
fatos e amplamente aceita a hipótese de que a informação genética está
armazenada em outra molécula gigante: o DNA (ácido desoxiribonucleico). O DNA é
a molécula mestra de todas as atividades celulares e a única capaz de se
autoduplicar. Um gene corresponde a uma fração de DNA. Através do DNA, e não do
RNA, o espermatozóide e o óvulo levam as informações e o código genético de
todas as características de um novo ser.
O DNA está localizado no núcleo
das células e envia seu comando, ou informações, por uma molécula a ele
subordinada que é o RNA. Este último é o mensageiro que conduz ou transporta as
determinações do DNA. Razão por isto, enquanto o RNA não se destrói ou não se
perde, funciona apenas como um depósito privisório de informação. Além disso, o
DNA é quem comanda a síntese ou formação do RNA. Este último é o efeito e não a
causa.
Como somente o DNA detém o
código genético, as informações adquiridas em função de absorção, ou
introdução, de RNA carregadas de informação, não se tornam hereditárias.
Como explicar, no caso das planárias a transmissão do
reflexo condicionado às suas descendentes? Isto não é difícil.
Não podemos esquecer que a referida
transmissão ocorreu quando a regeneração destes platelmintos se efetuou por
seccionamento. Partes que irão
gerar outros indivíduos possuem ainda
certa quantidade de RNA-mensageiro, portador da informação. Lembrar que as
planárias regeneradas em
soluções
contendo ribonuclease (enzima destruidora de RNA) não
geraram indivíduos portadores dos reflexos. Isto significa que os genes ou DNA
do núcleo das células, não sofreu alterações. Em síntese, não houve transmissão
genética de memória adquirida, significando, portanto, não ter havido memória
genética.
Quanto aos ratinhos que
receberam o extrato feito de cérebro de outros ratinhos treinados, não consta,
da referida experiência, que seus descendentes nascessem com aversão ou temor a
escuridão, ou seja, não houve memória genética.
Hydén e seu colega Joseph T.
Commins, apresentaram no Congresso Internacional
de Bioquímica, em Moscou, importante trabalho onde, entre outros temas, aborda
o problema do papel do RNA no mecanismo da memória. Considera, o
cientista, que o desempenho do RNA é
muito mais especulativo e é oferecido somente para incentivar uma posterior
discussão. Hydén afirma que “A maioria dos neurofisiologistas admitirá que
está faltando uma satisfatória
explicação para a memória”.
Sem dúvida, caracteres de comportamento herdados geneticamente não são o
mesmo que recordações de eventos ou de imagens. Se o mecanismo da memória no
que tange ao seu armazenamento pode estar sendo elucidado, parcialmente; sob o
ponto de vista psicológico deve ser considerado que, processos de recordação de
cenas de vidas passadas ainda não podem ser explicados por memória genética.
Parece, também, duvidoso que a
questão da memória pode se limitar pura e simplesmente a questão da estocagem,
ao estilo dos computadores, através dos códigos químicos contidos nas moléculas
de RNA e DNA de nosso cérebro. Na oportunidade, lembramos que na Universidade
da Virgínia, nos Estados Unidos da América, existem arquivos referentes aos
2000 casos de memória extracerebral
estudados por Ian Stevensen.
Necessário é que sejam
valorizadas as experiências com planárias e ratos acerca das transferências de
aprendizado dos mesmos. Destas experiências, derivar-se-ão outras, importantes
para a
confecção de modelos
teóricos para começarmos a, entender, um pouco mais, o
mecanismo da memória. No entanto
cremos que os novos modelos da ciência irão
gradativamente, incluindo os fatos bem documentados da memória extracerebral.
Recomendamos para um estudo
profundo do tema, a obra do Dr. Hernani Guimarães Andrade, “Reencarnação no
Brasil”. Valorosa, também, a citação de Marilyn Ferguson, no editorial do
Boletim Brain Mind:
“Nossos cérebros constroem matematicamente a realidade
concreta, interpretando freqüências vindas de outra dimensão, um
domínio da realidade primária, ordenada
e significante que transcende o tempo e o espaço. (...)”
As lembranças de vidas passadas,
tão comuns em infantes, não podem ser atribuídas, cientificamente, a genes
recebidos de antepassados. Tratam-se de registros energéticos existentes na
estrutura extrafísica (espiritual) da própria criança. Registros estes,
decorrentes de fatos efetivamente vivenciados em outras encarnações.
A possibilidade de experiências vividas por
ancestrais longínquos transitar, sem
manifestação, por muitas gerações para aparecer subitamente em uma criança
(memória genética) simulando lembranças reencarnatórias, não apresenta nenhuma
solidez científica, é apenas uma mera hipótese.
O Dr. Ricardo Di Bernardi é Presidente da AME - SC
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