|
Neíse Távora
Embora
diferentemente do que pode parecer a uma primeira vista, não é fácil conceituar
o que é o amor, porque variadas são as interpretações que se oferecem ao termo,
e muito menos ainda dos níveis, formas e possibilidades de seu exercício.
O
amor é compreendido, comumente, como um sentimento que impulsiona o ser e que o
leva a outro ser, com desejo de aproximar-se ou de unir-se a ele.
Mas
na verdade o amor reveste formas infinitas, como cita Leon Denis, ele se
expressa de diversas maneiras, que vão das mais simples até as mais sublimes.
O
amor está presente na natureza, como elemento que une todos a tudo. No reino
mineral se manifesta pela atração, no reino vegetal pela cooperação, no reino
animal pela proteção e no hominal pela fraternidade.
Joanna
de Angelis, no livro “Estudos Espíritas”, escrito através da psicografia de
Divaldo Franco, comenta que muitas são as conceituações que tentam definir o
amor, através dos tempos, dentre os quais:
·
Empédocles,
para quem o amor é a força que preside à ordem do mundo, como expressão da
divindade no ato da criação;
·
Heráclito,
sem perceber a transcendência do amor, compreendia-o como estímulo dos
contrastes;
·
Sócrates
dividia-o em duas dimensões, uma com feição divina, capaz de agregar todos e
tudo, e outra como forma que corrompe e abastarda os homens;
·
Epícuro,
coloca-o como ato de natureza fisiológica e sensual, como característica da
animalidade;
·
Zenão,
tomou o amor como ideal de beleza, como força libertadora dos sentidos mais
grosseiros, capaz de elevar o ser;
·
Plutarco,
observava sua exteriorização como paixão arrastadora e também como ato de
fervor que enobrece...
Na
versão original, em grego, do novo testamento, três palavras definem o amor. A
palavra Eros significava uma espécie
de amor estético ou romântico. A palavra
Philia traduzia afeição íntima, amizade, amor aos amigos... A terceira
palavra Ágape tinha por sentido a boa
vontade, o amor transbordante que redime e que nada espera em troca. Enfim, Ágape tem o significado do amor em plenitude,
do amor de Deus pela sua criatura.
Posteriormente,
os modernos pensadores das correntes utilitaristas, sensualistas e
existencialistas, reduzem o conceito do amor a algo puramente vinculado aos
instintos e apetites sexuais, que estimulados pela idéia da libido freudiana,
não distinguem o fator reprodutor no uso do sexo, da perversão e do abuso, onde
a busca pelo prazer transforma-se na finalidade da vida, com comprometimento
grave do equilíbrio dos centros genésicos. Ao contrário do sexo vivenciado pelo
amor que se transforma em fonte de sublimação.
De
acordo com Joanna de Angelis, o amor À luz da filosofia, pode se apresentar sob
dois aspectos. O primeiro que procede das tendências eletivas (por eleição e
escolha), dimana da razão, do ideal, das manifestações platônicas, do sensual e
do fisiológico. Origina-se das fontes íntimas do sentimento e se apresenta de
forma variada a partir de impulsos imediatos. Portanto, indo das manifestações
brutalizadas até as manifestações da excelência da estética, conduzindo até
mesmo à angelitude. O segundo que se origina nas inclinações e vivências
domésticas, se expressa na consangüinidade, através do amor maternal, filial, paternal,
conjugal, etc.
No
âmbito das religiões o amor é sempre citado como uma das mais caras virtudes.
No hinduísmo, por exemplo, o amor assume conotações diferenciadas de acordo com
o relacionamento envolvido. O mais sublime é o amor que une os homens a Deus,
entretanto distingui-se profundamente do amor dos pais pelos filhos, pois sua
essência é a proteção, a dos filhos inclui a dependência. O amor dos amigos é
diferente do amor conjugal, como também é diferente o amor do aprendiz para com
seu mestre. O hinduísmo sustenta que todas as formas de amor fortalecem o amor
a Deus.
Na
ciência, como na arte e em outras instâncias da vida encontram-se sempre
apóstolos e heróis que acreditam na força do amor como expressão da vida, da
beleza e do progresso humano e social de todos os povos e nações.
Diante
dessas explicações, pode-se constatar que existem variadas formas de conceituar
o amor, desde as explicações que tratam-no com atitude marcada profundamente
pelo comportamento instintivo, característica da sensualidade desenfreada e
exarcebada, capaz de gerar os atos que subjugam e escravizam o ser, impedindo-o
de progredir ainda que, temporariamente, como daquelas que o vinculam a
dimensões mais nobres.
Entretanto,
o marco que revolucionou as posturas diante do que é o amor, foi apresentado à
humanidade por Jesus. Dimensão construída, vivenciada e transmitida nos
ensinamentos e, sobretudo na experiência e demonstração concreta de sua própria
vida.
Jesus
vem propor a todos, uma reformulação dos ideais, dos princípios e conceitos
éticos vigentes, conclamando-os à prática cotidiana do verdadeiro amor. O amor
que liberta, que plenifica, capaz de transformar todos os seres e o mundo.
Afirma
que todas as coisas são criadas por um ato de amor de Deus e mais, que todos
indistintamente, foram criados para amar.
Idéias
posteriormente acrescidas, por meio de mensagens da Espiritualidade superior,
nas obras da codificação.
Explicações
de que o amor existente em cada criatura não se encontra plenamente
desenvolvido desde o princípio, porque essa é tarefa da criatura, no caminho a
ser trilhado no aprendizado da prática do amor.
O
amor, nesse aspecto, não é algo que surge e cresce espontaneamente nas pessoas,
sem nenhum esforço, mas ao contrário, necessita da vontade e do trabalho
contínuo e permanente para a consolidação desse aprendizado.
Ele
é conseqüência e expressão do nível de consciência e de evolução do ser,
portanto, ele é proporcional ao progresso obtido.
Quanto
menos evoluído o ser mais dificuldade ele tem na compreensão e no exercício do
amor.
As
formas de manifestação do amor estão vinculadas ao nível de consciência alcançado
e ao grau de evolução do ser que o pratica.
No
Evangelho são observadas algumas referências ao processo de evolução do amor.
No início, diz-se, há apenas instintos que aos poucos se transformam em
sentimentos e o mais sublime deles é o amor.
Nesse
aspecto, compreende-se que no seu processo evolutivo o espírito projeta um
caminho cuja direção é conduzida no sentido do aprimoramento desse sentimento e
cuja finalidade é destiná-lo e dirigi-lo em benefício do próximo.
De
uma forma precária pode-se dividir o processo evolutivo do amor em alguns
estágios, tais como:
·
Primeiro
estágio: O Amor Instinto, que faz do
ser amado um objeto de manifestações ainda brutalizadas. Forma primitiva de amar;
·
Segundo estágio:
O Amor Possessivo, trata o ser amado
como propriedade, como coisa, como objeto capaz de ser manipulado, coagido,
controlado. É marcado pelo egoísmo;
·
Terceiro
estágio: O Amor Obsessivo, aquele
que envolve o ser amado numa idéia fixa, como única razão e sentido da vida,
amor que sufoca o ser amado;
·
Quarto estágio: O Amor Dominador, que aprisiona o ser
amado, envolvendo-o pelo sentimento, não permite que o ser amado tenha sua
própria identidade. Marcado pelo ciúme;
·
Quinto estágio: O Amor Parceiro, que compartilha
cotidianamente com o ser amado a vivência do amor, mesmo diante das dificuldades.
Característica básica a compreensão, a amizade, o afeto, o companheirismo;
·
Sexto estágio: O Amor Fraterno, capaz de dividir-se,
de doar-se sem necessidade de reconhecimento nem gratidão;
·
Sétimo estágio: O Amor Divino, caracterizado pelo amor
de Deus às criaturas, como o amor que é perfeição, presente no ato de criação
dos seres;
Como
se pode observar, pelos estágios acima, o desenvolvimento do amor é fruto
direto da evolução do espírito que o pratica. Exceto o amor divino que é a
própria expressão da perfeição.
Vários
foram os exemplos vivos do amor fraterno que a humanidade conheceu, depois de
Cristo, o Mestre dos mestres no ensinamento prático do amor, a partir de então
surgiram outros que dirigiram suas vidas para essa finalidade, como o fizeram
Francisco de Assis e tantos outros.
Entretanto,
o amor que Cristo veio transmitir não é apenas o amor sentimento, embora
importante como ponto de partida, como a piedade e a misericórdia.
Mas,
o amor que vai muito além, o amor que Ele ensinou e que marcou toda Sua
existência na Terra, foi o amor que transforma o outro. O amor que é capaz de
sair de si e comprometer-se com o progresso do outro, com o progresso da
humanidade.
O
amor conduzido a essa dimensão, vinculado a destinação da própria humanidade,
ultrapassa o simples sentimento. Lembra uma passagem do Evangelho Segundo o
Espiritismo que ao falar da caridade diz que esta não pode ser identificada com
a esmola, pois essa é a mais fácil forma de manifestação. A caridade verdadeira
é de outro nível, é aquela que se compromete com o desenvolvimento, autonomia e
independência do semelhante.
Essa
também deverá ser a forma de compreender e praticar o amor, sabendo que a
caridade também é expressão do amor que se deve ter pelo próximo.
Enfim,
todos os seres foram e são criados por Deus, por amor e para amar.
O
amor se constitui então, no princípio e finalidade da vida. Ele se apresenta
como o caminho da evolução.
É
para isso que todas as criaturas se renovam e se programam diante do processo
reencarnatório, aprender a amar é sua finalidade. Reencarnar-se porque ainda
não se aprendeu a amar.
O
amor é ação, não apenas um sentimento que se nutre por alguém, ou por alguma
coisa.
E
como se aprende a amar? É o que muitos perguntam. Aprende-se a amar amando.
Ama-se quando se doa. Ama-se quando agimos em benefício e com o outro. Não há
como aprender a amar sem o exercício da vontade, sem o uso consciente do livre
arbítrio. Amar não se aprende nos livros, mas na vivência cotidiana, com o
próximo. Alguns há que conseguem aprender mais rápido que outros, mas todos hão
de conseguí-lo.
Na
grande maioria das vezes, o amor que se doa retorna multiplicado inúmeras
vezes. O grande beneficiário não é, embora possa parecer, o que recebe, mas
quem o doa.
O
Cristo não cativou as multidões pela oratória, mas pelo amor que dedicou aos
semelhantes.
Segundo
Leon Denis: “De grau em grau, sob a influência e irradiação do amor, a alma se
desenvolverá e engrandecerá, verá alargar-se o círculo das sensações. Lentamente,
o que nela não era senão paixão, desejo carnal, ir-se-á depurando,
transformando num sentimento nobre e desinteressado; a afeição a um só ou a
alguns, converter-se-á na afeição de todos, à família, à pátria, à humanidade”
(O problema do Ser, do Destino e da Dor).
E
ainda, que é pelo amor que Deus atua no mundo. Através dele atrai todos os que
se retardam nos domínios da paixão, os espíritos cativos da matéria,
elevando-os e conduzindo-os na espiral da ascensão infinita para esplendores da
luz e da liberdade.
|