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Marcelo Henrique Pereira*
O segmento artístico é pródigo em
apresentar, de tempos em tempos, produções que ressaltam temas espirituais.
Quem não se lembra de “O céu pode esperar”, “Ghost – Do outro lado da vida”,
“Os outros”, entre tantos títulos? E, no âmbito nacional, seriados, mini-séries
e novelas com a descrição de fenômenos ou acontecimentos de teor espiritual?
Mais recentemente, uma trama em horário nobre mostrava diálogos entre uma
criança de 6/7 anos de idade e um ser espiritual (descrito como um anjo)...
Quem não se lembra? O enredo, inclusive, envolvia aspectos premonitórios, pois
o “anjo” lhe informou que aconteceria uma morte.
Aproveitamos o assunto para enfocar as
relações entre as crianças e os tais amigos “invisíveis”. Quem de nós já não
presenciou tais fatos? Quem de nós já não teve, bem proximamente, uma criança
que “falava” com tais amiguinhos? Qual nossa reação e nosso raciocínio, em
relação a isto? Como explicar, à luz da lógica espírita, tais acontecimentos e
situações?
Inicialmente, faz-se necessário entender o
contexto e separar o tópico em dois grupos de análise. Um, relacionado ao mundo
do imaginário, e, outro, centrado nas relações espirituais entre “vivos e
mortos”.
No primeiro plano, tem-se que a infância é
um período de extrema facilidade para o campo fértil da imaginação do ser
espiritual. Se, comumente, dizemos que o homem é um ser sonhador por
excelência, tanto no sentido dos desejos e fantasias quanto das projeções e
sonhos, na época infante, pela ausência de grandes responsabilidades e “graves”
compromissos, o espírito se encontra mais propenso ao potencial criativo e
fantasioso. Deste modo, ao presenciar uma criança brincando no chão da sala,
enquanto assistimos televisão, é perfeitamente possível e aceitável que vejamos
ela “dialogar”, conversando consigo mesma e com algum “amigo invisível”.
Escutando as “conversas”, certamente nós adultos devemos rir dos “enredos”,
isto é, daquilo que a criança fala. Cenários, situações, objetos, personagens,
muitos egressos de gibis, programas ou desenhos de televisão, heróis, mocinhos
e bandidos, fadas, rainhas e princesas, cavaleiros ou homens do espaço... Todos
egressos do plano fértil da mente infantil, graças ao enorme potencial criativo
do ser espiritual.
À medida que vamos crescendo, em fases de
adolescência e juventude, e, até mesmo, na idade adulta, também temos nossos
sonhos e imaginações. Aquela modelo ou o galã-artista de novelas, o automóvel
importado, a lancha, o iate, o apartamento em frente à mais badalada praia...
Muitos de nossos desejos são apenas arroubos de nossas projeções mentais, sendo
impossível, pelas próprias nuances da vida, alcançá-los, por mais que nos
esforcemos, em razão de nossas próprias limitações. Outros – ou para outras
pessoas – acabam decorrendo de uma vida de esforços e desafios, nos quais a
persistência, a tenacidade, a capacidade e o foco centrado são os componentes
do sucesso.
Diríamos: “quando a alma sonha, o espírito
voa!”
No segundo plano, que tem como exemplo
característico a cena de novela descrita nas linhas iniciais deste ensaio,
verifica-se a presença efetiva de espíritos em nossas vidas, não somente na
infância, como nas demais idades. E, como aprendemos na filosofia espírita, a
questão essencial é a sintonia, porque os espíritos “bons” ou “maus” estão por
toda a parte, encarnados ou desencarnados, e vêm em nossa direção a partir dos
“comandos” ou “convites” que lhes façamos. Há muito tempo atrás, quando
estudávamos num grupo de estudo sistematizado sobre “a influência dos espíritos
em nossas vidas”, um dos assuntos levou aos “guias e mentores” e, conforme
minha memória registra, foi declarado que tais permanecem conosco “vinte e
quatro horas por dia”, só se afastando quando “cedemos” às “más inclinações”,
quando eles, por não poderem modificar nossas decisões ou alterar nossos atos,
apenas nos observam. Veja-se, assim, que aqueles aos quais o Pai “nos confiou”,
enquanto zelosos por nosso “sucesso”, não interferem em nossa liberdade de agir
(livre-arbítrio), e, de certa forma, são “responsáveis” pelos resultados
(positivos e negativos) que venhamos a experimentar, na vida, porque
conseguiram (ou não) exercer a boa influência sobre nós, direcionando-nos, através
de convites e sugestões mentais, para o melhor aproveitamento desta experiência
encarnatória.
Voltando à questão específica das crianças,
entendo que podemos classificar os espíritos que delas se aproximam em variados
“grupos”: 1) os parentes e conhecidos, já desencarnados; 2) os guias e
mentores; 3) os “amiguinhos”, de aparência infantil; e, 4) as crianças
desencarnadas, que, ainda no estágio pós-morte, permanecem num estado tal de
perturbação, que insistem em permanecer na Terra, como se encarnados
estivessem. Esta “classificação”, contudo, nada tem de absoluta, taxativa e nem
é conclusiva, mas oferece-nos, com certeza, algumas explicações racionais sobre
os fatos ao nosso derredor.
No grupo 1, é comum a criança falar do avô,
de uma tia, de um irmão, ou alguém que, mesmo não sendo parente consangüíneo ou
afim, gozava de certa proximidade com ela, e que, após a sua morte, “retorna”
para conversar com a criança, pelo afeto que lhe nutria, e pelo desejo de lhe
fazer o bem.
No que tange ao grupo 2, os guias e
mentores, pela “missão” de nos acompanhar por toda a vida, interessam-se pelos
“assuntos” e “gostos” da criança, aproveitando o ensejo de uma brincadeira ou
situação, para infundir orientações, sobretudo àquelas direcionadas a
“respeitar e obedecer aos pais”.
Em se tratando de “amiguinhos” de aparência
infantil (grupo 3), a possibilidade de “assumir qualquer roupagem”,
espiritualmente falando, favorece que os mesmos possam “se passar” por
crianças, para incutirem boas lições aos infantes, auxiliando no processo de
despertamento espiritual em mais uma experiência encarnatória, assim como, em
qualquer das fases da vida, constituem-se como bons amigos a nos fornecer
informações ou conselhos úteis.
Finalmente, no grupo 4, as crianças que
morrem em tenra idade e em circunstâncias dolorosas ou violentas podem estar
sujeitas a um processo de maior perturbação e, conforme o grau desta, podem, em
sensações de medo e desespero, procurar a companhia de “outras” crianças –
estas, vivas – para brincadeiras ou por estarem solitárias, desejando
companhia. Outras, também, já se deram conta de que estão “mortas”, mas ainda
não se conscientizaram de que precisam continuar o curso evolutivo, no Plano
Espiritual e, principalmente, no preparo para uma nova encarnação, e ficam por
aqui, tais quais aqueles espíritos que permanecem nos cemitérios ou em outros
locais, recalcitrantes quanto à necessidade de “tomarem o curso” de suas vidas.
Em todas as situações, nossa postura deve
ser a da mais absoluta tranqüilidade, uma vez que a relação entre encarnados e
desencarnados faz parte do próprio contexto evolutivo de cada ser. Estamos,
sempre, rodeados de espíritos, acreditemos neles ou não, sendo espíritas ou
não. Ao percebermos as “conversas” de crianças com o “nada”, tenhamos
serenidade e procuremos “entender” o processo, visando certificar-nos, se for o
caso, de qual situação – das descritas acima – realmente está ocorrendo, se for
do nosso interesse a descoberta.
Embora seja possível, em alguns dos grupos
acima, a aproximação de espíritos de má índole, os casos observados ou
relatados, assim como a possibilidade do exercício mediúnico, para o
“acompanhamento” de algumas crianças a pedido dos pais, geralmente a presença
espiritual é positiva ou inofensiva, porque os seres dos grupos 1 e 2 procuram proteger as crianças das más
influenciações, nesta fase.
Aos pais e parentes mais próximos,
recomenda-se, ainda, o diálogo com a criança, sem interrogatórios ou
curiosidade excessiva, mas, procurando “entrar” na história, participar do
contexto, para perceber, na naturalidade da conversa, quais os “personagens”
que efetivamente acham-se presentes junto à criança.
Como se tratam de coisas naturais, quanto
maior for a naturalidade com que encaremos tais acontecimentos, menos a criança
e nós, adultos, ficaremos assustados ou “com medo”. Afinal, em termos de
envolvimento espiritual, os laços que nos ligam aos espíritos (encarnados ou
desencarnados) não são rompidos em razão da alteração de nosso estado vivencial
(na carne ou fora dela). Pelo contrário, se fortalecem e perduram. Eis a lição
espírita, para nós e para nossos filhos!
* Diretor de Política e
Metodologias de Comunicação da Associação Brasileira de Divulgadores do
Espiritismo (www.abrade.com.br) e Secretário para a Promoção da Juventude e
Delegado Regional da Confederação Espírita Pan-Americana (www.cepanet.org)
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