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O ouro do rei Salomão e os lírios do campo
Apego aos bens materiais e a questão da Fé na
Providência Divina
Dr.
Iso Jorge Teixeira
OLHAI
OS LÍRIOS DO CAMPO (DETALHE).
PHILIP
HALLAWELL 2002

Foto de lírios amarelos

Philip Hallawell é um
pintor paulistano, contemporâneo, promotor de vários workshops para ensino de
pintura
Em toda a história da humanidade o Homem tem vivido
uma contradição, aparentemente insolúvel: a necessidade de sobrevivência física
e o acúmulo de bens materiais contrapondo-se à aquisição de bens espirituais. É
essa contradição que tentaremos esclarecer, baseados nos “textos bíblicos” e à luz dos ensinamentos ESPÍRITAS.
O OURO DO REI SALOMÃO
Uma
das épocas mais suntuosas da História, talvez, tenha ocorrido no reinado do rei
SALOMÃO, aproximadamente entre 970 e 931 a.C. Segundo o relato bíblico, a
riqueza era tanta que, além do “Templo de
Jerusalém” e do “palácio”,
construídos por ele - com ouro, pedras preciosas e madeira da melhor qualidade
-, podemos ter uma vaga idéia através da seguinte descrição:
"Todas as
taças que o rei Salomão usava para beber eram de ouro e toda a baixela da Casa
da Floresta do Líbano era de ouro puro; nada era de prata (...). Com efeito, o rei tinha no mar uma frota de Társis com a frota de
Hiram e de três em três anos a frota de Társis voltava carregada de ouro,
prata, marfim, macacos e pavões. O rei Salomão superou em riqueza e em
sabedoria todos os reis da terra. Todo o mundo queria ser recebido por Salomão
para ouvir a sabedoria que Deus tinha posto no coração, e cada um, anualmente,
trazia o seu presente: objetos de prata e objetos de ouro, roupas, armas e
aromas, cavalos e mulas" (1 Rs10,21-25).
Como veremos, a seguir,
toda essa fortuna e esplendor do reinado de SALOMÃO foi um
"acréscimo" da Providência Divina...

Representação artística do Templo de Salomão
O SONHO PREMONITÓRIO DE SALOMÃO E O
ACRÉSCIMO DIVINO
O texto bíblico descreve um sonho de SALOMÃO,
ocorrido em Gabaon, em que DEUS lhe teria dito: — Pede o que te devo dar. E, então, ele pediu a “sabedoria”, nestes termos:
Um
coração para escutar e governar seu povo e para discernir entre o bem e o
mal (cf. 1 Rs 3,9). Por isso,
"DEUS" lhe concedeu tudo o que pedira e ainda lhe ofereceu um
acréscimo, e assim determinou:
"Porque
foi este o teu pedido, e já que não pediste para ti vida longa, nem riqueza,
nem a vida dos teus inimigos, mas pediste para ti discernimento para ouvir e
julgar, vou fazer como pediste: dou-te um coração sábio e inteligente como
ninguém teve antes de ti e ninguém terá depois de ti. E "DEUS"
acrescenta:
“E TAMBÉM O QUE NÃO PEDISTE, eu te dou: riqueza e glória tais, que não
haverá entre os reis quem te seja semelhante. E SE SEGUIRES OS MEUS CAMINHOS, guardando os meus estatutos e os
meus mandamentos como o fez o teu pai Davi, dar-te-ei uma vida longa."
- grifos nossos - (1 Rs 3,11-14).
Embora considerado por muitos como
um aspecto lendário, o relato bíblico acima é
coerente e possível cientificamente, tanto do ponto de vista freudiano -
com a sua teoria do SONHO como “realização
de desejos conscientes ou inconscientes”, embora FREUD não admitisse a
realidade da “premonição” [como já estudamos no site PANORAMA
ESPÍRITA] -quanto do ponto de
vista espírita, pois o Espiritismo lança luz sobre fenômenos aparentemente
inexplicáveis cientificamente - exagerados pelo imaginário, pela superstição
popular, como eram os sonhos...
O sonho de SALOMÃO é um exemplo de “sonho premonitório”, que ocorre com
certa freqüência no comum dos mortais, no passado e no presente...
O REI SALOMÃO ROMPEU PACTO DE
FIDELIDADE
A ligação de DEUS (Iahweh) com os judeus era feita
através de uma Aliança, de um pacto, em que era exigível a fidelidade, caso contrário, viria a justiça, a "ira de Iahweh"...
Como é freqüente acontecer nos seres
humanos, o rei SALOMÃO acabou desviando-se do compromisso assumido com DEUS:
casado com a filha do faraó, uma egípcia portanto; SALOMÃO amou muitas mulheres
“estrangeiras” (atitude condenável
pela antiga lei judaica), a saber: moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e
hetéias, isto é, mulheres pagãs, adoradoras de diversos deuses; e elas o teriam
desviado para a IDOLATRIA.
A "ligação por amor" do
rei SALOMÃO incluía "setecentas mulheres princesas e trezentas
concubinas", segundo o texto bíblico (cf. 1 Rs 11,3).
TENTATIVA DE ESCLARECIMENTO ESPÍRITA DO
SONHO DE GABAON
Quando estamos dormindo, o “perispírito” afasta-se do nosso corpo e estabelecemos, então,
contatos com Espíritos afins e, freqüentemente, com nosso Guia-Espiritual e, ao
acordarmos, a lembrança desses contatos, às vezes, vem à nossa consciência sob
forma de “sonhos”; isto pode ser
deduzido da Doutrina dos Espíritos.
O “sonho premonitório” de Gabaon, do rei SALOMÃO, ainda que lendário, pode ser
explicado, com bastante aproximação da realidade, não como um contato direto de
SALOMÃO com DEUS; mas, sim, através do contato com um Espírito Superior, provavelmente,
seu Guia-Espiritual... Como o rei SALOMÃO desviou-se dos conselhos desse Guia,
rompendo o pacto de fidelidade, nada há de inverossímil em que este não tenha
compactuado com sua desobediência à Lei e, conseqüentemente, ele acabou
perdendo o seu reinado, ou melhor, por consideração ao seu pai DAVI, a
Providência Divina não o tirou “diretamente”
do trono, mas arrebatou-o da mão do filho de SALOMÃO (cf. 1 Rs 11,12), o que
gerou, mais tarde, os fatos históricos para a divisão do reino dos judeus, isto
é, a luta fratricida entre os judeus do reino de Israel e do reino de Judá.
ABANDONAR-SE À PROVIDÊNCIA
A idéia de que todos os homens devem abandonar-se à
Providência não é nova, nem nasceu com JESUS, ela já existia no judaísmo antigo
e isso fica bem claro no pensamento do próprio rei SALOMÃO; ele mesmo teria
sido o autor do “Salmo 127”, de cujo
teor destacamos o seguinte:
"Se Iahweh não constrói a casa,
em vão labutam os seus construtores;
se Iahweh não guarda a cidade,
em vão vigiam os guardas.
É inútil que madrugueis,
e que atraseis o vosso deitar
para comer o pão com duros trabalhos:
ao seu amado ele o dá enquanto
dorme.(...).”
O último verso, acima, tem sido interpretado como
referência ao “sonho em Gabaon”, de
SALOMÃO.
Entretanto, JESUS teve de enfatizar
a crença na Providência Divina, pois na época em que encarnou havia um descuido
quase total pelo bens espirituais e, no SERMÃO
DO MONTE, ele ensinou aos seus discípulos, com palavras mais
esclarecedoras, belíssimas, perenes, numa linguagem que ultrapassou a barreira
do tempo, que podem e devem ser aplicadas contemporaneamente, com ênfase aos
valores “espirituais”; na sua
linguagem hiperbólica, enfática, ele pregou:
"Por
isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de
comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais
do que o alimento e o corpo mais do que a roupa? (Mt 6,25; Lc 12,22-23).
Essas palavras de JESUS são extremamente importantes
e não devem levar à falsa conclusão de que devemos deixar de fazer a nossa
parte, em nosso trabalho profissional, importantíssimo, tanto do ponto de vista
material quanto espiritual... O verbo “preocupar (-
se)”, no contexto em que JESUS o usou, tinha o sentido de ressaltar o
aspecto “espiritual” e, com ele, quis
dizer que não nos devemos mortificar, ficarmos ansiosos, “desesperados” com a nossa eventual situação de pobreza material, e
ficarmos voltados somente para os aspectos “materiais”
da vida, pois a vida verdadeira, imperecível, é a vida ESPIRITUAL.
Por outro lado, não devemos querer “consumir” sempre, como é comum em nosso
País dos tempos atuais em que se deseja sempre imitar o que o nosso vizinho
está vestindo; enfim, não devemos ser vítimas do “efeito demonstração”, como diriam os economistas, vestindo-nos
sempre com as chamadas "roupas de marca", muitas vezes caríssimas.
Tais roupas não existiam no tempo de JESUS, mas existia a cobiça, que é uma imperfeição humana que nos acompanha há milênios.
JESUS prossegue seu discurso aos
discípulos e à multidão:
"Olhai as aves
do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso
Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis mais do que elas? Quem dentre vós, com
as suas preocupações, pode acrescentar um só côvado à duração de sua
vida?" (Mt 6,26-27; Lc
12,24-25).
CERTEZA
JESUS não recomendou a inércia ante o sofrimento e sim a
resignação,
pela certeza no futuro do Espírito e crença em um Ser Absoluto
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JESUS
exemplifica, aqui, de forma simples, a ação constante da Providência Divina. A
sobrevivência das "aves do céu", "de arribação", por
exemplo, é bem difícil; não obstante, DEUS a tudo provê, harmoniosamente, e as
aves sobrevivem de maneira “instintiva”,
embora com uma inteligência ”rudimentar”.
Aos Homens não foram dados os “instintos”
e a “inteligência” plena,
criativa?!... Por que temermos as dificuldades?!
Por tudo isso,não devemos choramingar nas horas de
dificuldade financeira. Devemos aceitar as “provas”
para nossa evolução espiritual. JESUS não recomendou a inércia ante o
sofrimento físico e sim a resignação, pela certeza no futuro do Espírito e
crença em um Ser Absoluto que nos protege, o Pai...
Concluindo o tema, disse JESUS:
"E com a
roupa, por que andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como crescem e
não trabalham nem fiam e, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda
sua glória, se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo,
que existe hoje, e amanhã será lançada ao forno, não fará ele muito mais por
vós HOMENS DE POUCA FÉ? Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que
iremos comer? Ou, que iremos beber? Ou, que iremos vestir? De fato, são os
gentios que estão à procura de tudo isso; O
VOSSO PAI CELESTE SABE QUE TENDES NECESSIDADE DE TODAS ESSAS COISAS. BUSCAI, EM
PRIMEIRO LUGAR, O REINO DE DEUS E A SUA JUSTIÇA, E TODAS ESSAS COISAS VOS SERÃO
ACRESCENTADAS. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o
dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal" -
grifos nossos - (Mt 6,28-34; Lc 12,25-31).
O “abandonar-se à
Providência” proposto por JESUS é bem cristalino e o que o Mestre pregava,
ele o vivenciava, autenticamente, mostrando ser possível viver na pobreza, sem
ostentação, destacando o benefício espiritual desta Filosofia de vida, diferentemente
dos “falsos profetas”, de ontem e de hoje, que aplicam aquela máxima: “¾ Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”....
PERFEIÇÃO DO CRIADOR
Com
a moderna tecnologia e os avanços científicos, cada vez mais sofisticados, e
com a discussão da “clonagem humana”,
por exemplo, ainda não se descobriu a
CRIAÇÃO de um ser humano e de nenhum ser vivo; aí está a “perfeição” da Criação Divina. A analogia
que JESUS estabelece entre os “lírios do
campo” e o vestuário humano, terreno, pareceu-nos genial, pois mostra a “antítese” entre a Criação divina e a
humana. A geração e a beleza, diáfana, delicada, de uma flor é incomparável,
inimitável, e nunca deverá ser equiparada aos esplendores do rei SALOMÃO, com
seu ouro puro, bruto...
Diz um adágio popular que “dinheiro não traz felicidade, mas ajuda!”... Isto nos parece conter
uma “parcial verdade”, pois o ditado
é referido por aqueles que acreditam no poder do dinheiro, mas tal poder é “temporal”... Quantos casos, concretos,
conhecemos de pessoas muito ricas, que se tornaram pobres e infelizes, “ainda” aqui na Terra?!...
Por tudo isso, não devemos ficar aflitos, desesperados,
com o que haveremos de vestir ou comer, DEUS “sabe” das nossas necessidades, pois um dos seus atributos é a ONISCIÊNCIA e muita gente que diz
acreditar em DEUS, revolta-se contra a própria sorte esquecendo-se desse
atributo Divino.
NECESSIDADE DA FÉ RACIOCINADA
Se
nos revoltamos contra a nossa sorte, demonstramos "pouca fé" e JESUS
disse isso mais de uma vez aos seus discípulos, portanto, devemos aproveitar
esse ensino no mundo de hoje.
A "busca" pelo “Reino de Deus” foi ensinada, exaustivamente, por ele, através de
inúmeras PARÁBOLAS, descritas pelos
evangelistas; hoje, cabe ao ESPIRITISMO
desenvolver e pôr em prática o ensino do Mestre JESUS.
Disse
KARDEC em O Evangelho segundo o Espiritismo:
"Quando Jesus disse ao moço que o
interrogava sobre os meios de atingir a vida eterna: ´Desfaze-te de todos os bens,
e segue-me´, não pretendia estabelecer como princípio absoluto que cada um
devia despojar-se do que possuía, e que a salvação só se consegue a esse preço,
mas mostrar que o APEGO AOS BENS
TERRENOS é um obstáculo à salvação" - grifo do autor -(op. cit., item 7, 2.º parágrafo, ab initium, cap.
XVI).
A VERDADEIRA POSSE
A
nossa “verdadeira propriedade”,
aquilo que realmente nos pertence, foi assim descrito pelo Espírito PASCAL, em
Genebra (1860):
"O homem não possui seu senão
aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa
ao partir, goza sua permanência na terra; mas, desde que é forçado a deixá-los,
é claro que só tem o usufruto, e não a posse real. O que, então, ele possui?
Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma:
a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que traz e leva
consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá
no outro mundo do que neste."
(op. cit., item 9,ab initium, cap. XVI).
EPÍLOGO
Enfim, prezados leitores de O
SEMEADOR [e da Internet], se considerarmos a Harmonia da Natureza, como vivem
os seres vivos em geral, os pássaros e as flores e acreditarmos firmemente na
vida depois da morte e na individualidade espiritual ao desencarnarmos, os
nossos sofrimentos e a nossa eventual miséria financeira nada significam se
comparados com os bens espirituais adquiridos; bens estes que "ninguém tem
o poder de tirar-nos", como disse o Espírito PASCAL...
DEUS
a tudo provê, abandonemo-nos à Providência, responsável e ativamente, façamos a
nossa parte, cumpramos nossas provas, que “escolhemos”
antes de reencarnarmos e encaremos os bens materiais como um EMPRÉSTIMO, que não nos pertencem
definitivamente, só temos o seu usufruto.
Se
ante as nossas imperfeições apegamo-nos sofregamente aos bens materiais, somos
homens fracos na fé e ainda não aprendemos a lição que JESUS nos legou e o
Espiritismo aí está para desenvolver o seu exemplo. À contradição entre a
necessidade dos bens espirituais e a “mais-valia”
do ouro do rei SALOMÃO, respondemos com JESUS:
Ninguém pode servir a dois senhores:
com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o
outro.Não podeis servir a Deus e ao dinheiro. (Lc 16,13; Mt 6,24).
Fonte: O artigo, acima, foi publicado, originariamente, no jornal O SEMEADOR
-Órgão da FEESP -, março/2003, págs. 8 e 9, ESTUDOS, e adaptado pelo autor para
publicação nos Portais PANORAMA ESPÍRITA e TERRA ESPIRITUAL.
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