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Marcus Alberto De Mario
Lemos em "O Livro dos
Espíritos", na questão 930, a seguinte frase do dita pelos Espíritos
Superiores: "Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém
deve morrer de fome. E qual é a lei do Cristo?" Ainda segundo o entendimento
da espiritualidade, como lemos na resposta dada à questão 886, é a caridade,
entendida como: "Benevolência para com todos, indulgência para com as
imperfeições alheias, perdão das ofensas".
Lembramos as duas questões acima
motivadas por um dado estatístico que aflige o coração de todos nós. São 32
milhões de pessoas vivendo abaixo do nível de indigência, o que significa
estarem vivendo com menos de um salário mínimo por mês, impossibilitando- as de
comprar pelo menos a cesta básica de alimentos. É um respeitável contingente
humano à margem da organização social e dependente de programas sociais
públicos e particulares.
Esses 32 milhões de pessoas
representam 19% da população brasileira, e estão localizadas em bolsões
populacionais do norte/nordeste e no entorno dos grandes centros urbanos, no
processo de favelização que tomou conta das cidades brasileiras.
A miséria de boa parcela da
população brasileira não é um fenômeno novo, mais histórico, que vem se acentuando
nas últimas décadas apesar das políticas públicas desenvolvimentistas, pois
estas privilegiam a busca do aumento da riqueza e não os mecanismos de
distribuição da renda.
O que os espíritas estão fazendo
para melhorar essa situação? Qual tem sido a contribuição dos espíritas no
combate à miséria? Para responder as duas pergunta pode apontar o trabalho
realizado por quase todo Centro Espírita na distribuição de gêneros
alimentícios, roupas e medicamentos à população pobre, mensalmente, atendendo
milhares de famílias. Mas, será que essa distribuição efetivamente combate à
miséria?
É natural que para uma pessoa
faminta, primeiro seja-lhe dado o alimento, para depois tratarmos de seus
outros problemas, e é justamente aqui onde está o nó do serviço assistencial
espírita, tratar os outros problemas, as outras questões que não apenas fome
imediata, pois a miséria existe causada pela falta de emprego, de salário
digno, de distribuição de riqueza equilibrada, de promoção do ser humano como
pessoa, de justiça igual para todos, de educação moral prevenindo males
sociais.
É, sem dúvida, meritório
socorrer a fome com a distribuição gratuita do alimento, entretanto maior
mérito é promover condições para que o ser humano se desenvolva e consiga sair,
por si próprio e graças aos esforços sociais, da miserabilidade. Assim,
serviços de alfabetização, profissionalização, capacitação técnica, orientação
familiar, atendimento psicológico, encaminhamento profissional são fundamentais
para que a miséria seja efetivamente retirada do cenário social.
Espíritas europeus em visita ao
movimento espírita brasileiro ficaram maravilhados com nossa ação social, mas
ao mesmo tempo constrangidos e desnorteados, pois em vários países do velho
continente a miséria não existe, não faz sentidos a distribuição de bolsas de
mantimentos, roupas e remédios. Tudo isso é provido pelo governo através de
programas sociais bem definidos e estruturados. Não existe a miséria, mas
existe o suicídio, o desemprego eventual, o alcoolismo, o aborto, a violência,
o consumismo exagerado, o materialismo. Quais são as ações espíritas
brasileiras nesse sentido? Poucas, bem poucas.
Embora encontremos nas obras da
Codificação, a todo o momento, o alerta de que o Espiritismo é doutrina de
educação do homem imortal, nem mesmo apoio ao trabalho em escolas encontramos.
Apesar de algumas campanhas pela família, boa parte dos Centros Espíritas não
possui grupo de pais.
Ainda persiste o Centro Espírita
visto apenas do ponto de vista religioso confessional, com reuniões públicas,
mocidade, evangelização infantil, reunião mediúnica e assistência material a
famílias cadastradas, com os trabalhadores e freqüentadores marcando ponto em
dias e horários preestabelecidos, tomando passe, bebendo água fluidificada e
completamente desvinculados da sociedade em que vivem.
Os que trabalham para mudar esse
quadro, com visão abrangente e ações exteriores intensas, embora sejam motores
do progresso do movimento espírita, passam os dias da existência criticados,
repudiados, analisados, suspeitos eternos de descaracterizar a doutrina, quando
na verdade são operários vigilantes obedecendo à máxima dos Espíritos
Superiores: se nos regemos pelos ensinos de Jesus, ninguém, na sociedade
humana, pode morrer de fome.
Naturalmente não estamos
defendendo radicalismos e nem condenando os trabalhos desenvolvidos pelos
Centros Espíritas, pois toda ação no bem com desinteresse é meritória, mas não
basta distribuir hoje o que amanhã tornará a faltar e assim sucessivamente. É
necessário promover o desenvolvimento social para todos formar as novas
gerações nesse pensamento, para que elas, mais tarde ao assumirem seu papel
adulto, corrijam as distorções e mantenham a nação brasileira longe do
espetáculo da miséria, da indigência, dos sem teto, sem terra, sem emprego.
A caridade é a lei do Cristo, e
ela não se confunde com a esmola ou com a atuação emergencial, como repetimos
há mais de um século com relação à seca no nordeste. O problema nunca é
resolvido e quando a calamidade chega aos meios de comunicação providenciamos
alguns carros pipa, frentes de trabalho para construir açudes secos pagando
meio salário mínimo aos trabalhadores, bolsas básicas de mantimentos, tudo isso
por um período breve, suficiente apenas para minorar as agruras que voltarão no
próximo ano, e no outro, e em tantos outros anos. Repetimos isso no atendimento
aos moradores de favelas urbanas, ou comunidades carentes, sustentando famílias
por determinado período e depois substituindo-as, pois as necessidades são
grandes e não podemos atender todos. Mas a família desligada do serviço
assistencial está pronta para caminhar sozinha? Seus responsáveis já estão
empregados? Os filhos estão na escola? Boa orientação moral comanda agora essa
família? Vamos repetir, neste primeiro século do novo milênio da era cristã?
A ação espírita deve contemplar
a espiritualização do homem, fazendo com que ele estude, compreenda e coloque
em prática os ensinos de Jesus, ampliando os horizontes da caridade e
moralizando a sociedade em que vive. Esse é o trabalho que deve ser feito,
combatendo e erradicando para sempre a miséria.
Fonte: Correio Fraterno do ABC Nº 364 – Maio/2001
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