|
Claudio C. Conti - Rio de Janeiro/RJ
ccconti@bol.com.br
Sempre que buscamos compreender o comportamento
humano, nos deparamos com a necessidade de entendimento da psique. O que seria
a psique? Quais seriam seus mecanismos?
É certo que ainda estamos longe de um real
entendimento de assunto tão complexo, contudo algumas ilações podem ser
tiradas, baseado-se nas teorias acadêmicas existentes e em informações provindas
dos espíritos responsáveis pela disseminação do conhecimento espírita.
Segundo a psicologia junguiana, a psique poderia ser
dividia em duas partes: o consciente e o inconsciente; sendo que este último
seria subdividido em duas outras partes: o inconsciente pessoal e o coletivo.
Pode-se dizer que o consciente seria de acesso direto pelo espírito enquanto encarnado
e em estado de vigília, isto é, o material que permearia o cérebro, tendo
condições de ser reconhecido e analisado, podendo ser explicado e equacionado
racionalmente pelo indivíduo, e no inconsciente pessoal estariam armazenados os
acontecimentos que não permaneceram no consciente, e se localizaria abaixo
deste.
A idéia de um inconsciente coletivo surgiu ao
observar pacientes que apresentavam manifestações psíquicas correlacionadas com
acontecimentos específicos ocorridos em épocas e locais diversos, além do
conhecimento do indivíduo em questão. Tais fenômenos, sob uma ótica não
reencarnacionista, somente poderiam conduzir à idéia de que a informação sobre
todas as ocorrências da humanidade, em todos os tempos, seria passível de ser
acessada.
Jung compara a psique humana com uma ilha cercada
pelo oceano. A ilha representaria o consciente, enquanto que o oceano
representaria o inconsciente1. Deste ponto de vista, pode-se perceber que somos
muito mais inconsciente do que consciente.
Se por um lado Jung define o inconsciente coletivo
como de natureza universal2, portanto comum a todos, por outro lado diz que,
quando conscientizado, assumem matizes que variam de acordo com a consciência
em que se manifesta3. Nota-se, portanto, a impossibilidade de se confirmar a
equivalência dos arquétipos que se apresentam em diferentes pessoas.
A semelhança não significa igualdade. Experiências
vivenciadas por duas ou mais pessoas diferentes serão, por si só, também
diferentes. Assim, sob uma ótica reencarnacionista, é possível analisar a
questão do arquétipo como não sendo influenciado pela consciência, como afirmou
Jung, mas sendo realmente como surgem, diferindo as ocorrências vivenciadas
pelos diferentes indivíduos em vidas anteriores. Contudo, espera-se que a
repercussão no espírito de fatos passados dependerá de sua condição evolutiva
no momento específico.
Esta forma de analisar apresenta a vantagem de
fornecer uma explicação lógica para a existência e acesso aos arquétipos pelo
indivíduo. Sendo possuidor da informação obscurecida no inconsciente que passa,
através de mecanismos desconhecidos, pelo menos em parte, ao consciente.
Em suas próprias palavras Jung diz que:
“O inconsciente coletivo é tudo, menos um sistema
pessoal encapsulado, é objetividade ampla como o mundo e aberta ao mundo. Eu
sou o objeto de todos os sujeitos, numa total inversão de minha consciência
habitual, em que sempre sou o sujeito que tem objetos. Lá eu estou na mais
direta ligação com o mundo, de forma que facilmente esqueço quem sou na
realidade. ‘Perdido em si mesmo’ é uma boa expressão para caracterizar este
estado. Este si-mesmo, porém, é o mundo, ou melhor, um mundo, se uma
consciência pudesse vê-lo. Por isso, devemos saber quem somos.”4
Percebe-se a profundidade com que Jung considera o
inconsciente coletivo, pois, se fosse composto apenas de ocorrências que o
indivíduo não tenha tido participação alguma, seria impróprio utilizar a
expressão “perdido em si mesmo”, seria mais coerente dizer “perdido no inconsciente
coletivo” ou algo semelhante, mas nunca na própria individualidade. Pode-se até
questionar esta abordagem dizendo que o “si -mesmo” é definido, no texto de Jung,
com uma conotação de mundo, contudo, ele próprio diferencia, ou melhor, especifica
que não se trata do mundo de forma ampla, mas, na realidade, um mundo em
particular.
Libertando-se do que denominou de “consciência
habitual”, esquece de si mesmo, isto é, do eu pequeno, individualidade
temporária cuja existência está limitada entre o período de nascimento e morte,
para entrar em comunhão com o eu grande, que pré-existe ao nascimento e
sobrevive a morte, com a consciência plena. Em outras palavras, o inconsciente
pessoal designaria todo conteúdo psíquico que já foi registrado pelo consciente
em algum momento na presente existência, enquanto que o inconsciente coletivo
designaria todo conteúdo que já tenha sido registrado em existências
anteriores. O primeiro seria superficial, possível de retornar à consciência
mais facilmente e com um sentido mais completo; o segundo seria mais profundo
e, por esse motivo, de acesso mais difícil, e quando surge no consciente, é
fragmentário.
Assim, todo conteúdo psíquico que não foi devidamente
trabalhado pela psique, como contrariedades, medos, atos escusos, tendências
negativas, etc., ficariam como que uvas passa dentro de um bolo (as uvas passa
seriam os arquétipos enquanto que o bolo seria o inconsciente).
Esta forma de analisar o inconsciente não estaria tão
em desacordo com as idéias de Jung, pois ele mesmo diz que “o que se segue à
morte é de uma amplitude ilimitada, cheia de incertezas inauditas” 5.
Esta idéia sobre o inconsciente coletivo junguiano é
apresentada por Joanna de Ângelis6. Ela diz que “Atravessando os diferentes
períodos da humanidade, nos quais esteve, arquivou, nos recessos do ser, todas
as impressões que ora se encontram adormecidas e podem ser exteriorizadas pelo
perispírito”, e completa dizendo que “A visão espírita, porém, a respeito de um
arquivo extracerebral, formado por uma maquinaria energética centrada no
Self ou Espírito, cujo campo de
informações é infinito...” (grifo nosso) Por esta
última afirmação, e para efeito de comparação, podemos apresentar a psique como
um campo de energia, que seria a massa do bolo mencionado anteriormente.
Contudo, ainda resta interpretar, também comparativamente ao que se conhece, o
seu conteúdo, os arquétipos, que seriam as uvas passa do nosso bolo.
Em outras palavras, podemos imaginar a psique como
uma esfera energética formada pelas aquisições do espírito ao longo de sua
existência, caracterizando, assim, sua individualidade. Esta esfera seria de
dimensão equivalente ao nível evolutivo e nela existiriam alguns pontos que causariam
perturbação no campo. Estes pontos seriam devido às más tendências e ações em desacordo
com as leis Divinas, e que, como perturbam o campo, promovem um desequilíbrio.
Por isso, os arquétipos existem enquanto forma e não
como conteúdo, como afirma Jung7, pois não são os erros que são registrados,
mas as desarmonias que causam. Portanto, quando o efeito de algum destes pontos
se faz presente, se apresentará conforme o estado da consciência.
Uma questão de difícil compreensão é o comportamento
dos arquétipos, pois, embora tenham sua origem na própria psique e permanecem
como parte integrante desta, apresentam como que uma ação autônoma, como se
tivesse vida própria.
Ao tentarmos compreender a interferência dos
arquétipos no campo energético da psique e calcados na própria idéia de Jung de
que, embora não fosse possível a comprovação, a energia psíquica estaria ligada
a processos físicos8, nos lembramos dos fenômenos de supercondutividade, mais
precisamente na perturbação causada no campo magnético.
Primeiramente é preciso esclarecer uma importante
propriedade de um campo magnético, que é sua capacidade de permear os materiais
que estão ao seu alcance. Isto é demonstrado por uma brincadeira muito comum na
infância que consta em colocar um alfinete, ou uma pequena peça metálica, sobre
uma folha de papel e movimentar um imã sob esta folha, observando, assim, a
peça seguir os movimentos do imã. Neste exemplo, percebe-se que o campo
magnético não sofreu nenhuma alteração devido a presença do papel.
Quando um material supercondutor é introduzido em um
campo magnético, primeiramente, o comportamento é similar ao descrito com a
folha de papel, como está representado na Figura 1.
Porém, quando o material é resfriado a temperaturas
abaixo de um limite crítico, que dependerá do material utilizado, surgirá uma
supercorrente no material supercondutor que será capaz de cancelar o campo em
seu interior, onde o valor do campo magnético será nulo. Neste ponto haverá uma
perturbação no campo e existirá independentemente deste, como apresentado na
Figura 2.
Analogamente poderíamos compreender a psique.
Quando em estado de harmonia, como no caso dos
espíritos evoluídos, o campo energético estará completamente homogêneo, onde
todas as experiências negativas já se encontram inteiramente depuradas, embora
a lembrança permaneça, não são mais motivos de aflições, pois estaria em
equilíbrio com o campo. É o que ocorre quando introduzimos, no campo magnético,
a folha de papel ou o material supercondutor antes de resfriá-lo.
Porém, na condição de espírito não muito evoluído, as
experiências negativas e,
conseqüentemente, os sentimentos menos nobres, ainda
se encontram ativos na psique, apresentando um comportamento análogo ao
material supercondutor após o resfriamento, formando pontos de perturbação no
campo energético que existirá, como já dissemos, independente deste.
Esta independência, ou melhor, pseudo independência,
é que torna tão difícil de se combater as aflições morais e, embora se deseje
eliminar as más tendências, elas teimam em permanecer, necessitando de grande
esforço pessoal para que, gradativamente, diminuam de intensidade até que desapareçam
por completo. O trabalho é lento e gradativo porque, embora façam parte da
psique, pois foram inicialmente geradas por esta, permanecem como nódulos e
possuem uma energia própria que necessita ser dissolvida no campo maior que a
engloba, o que seria o equivalente ao aquecimento do supercondutor para que o
campo retorne ao estado normal.
Bibliografia:
[1] Jung, C. G.; Psicologia e
Religião; 6a edição, Editora Vozes, 1999, pg 89.
[2] Jung, C. G.; Os Arquétipos e o
Inconsciente Coletivo; 2 a edição, Editora Vozes, 2002, pg 15.
[3] Idem, pg 17.
[4] Idem, pg 32.
[5] Idem, pg 31.
[6] Joanna de Ângelis (Psicografia
de Divaldo Franco); Triunfo Pessoal; 1a edição, Livraria Espírita
Alvorada Editora, 2002, pg 23.
[7] Jung, C. G.; Os Arquétipos e o
Inconsciente Coletivo; 2 a edição, Editora Vozes, 2002, pg 91.
[8] Jung, C. G.; A Energia Psíquica;
7 a edição, Editora Vozes, 1999, pg 6.
|