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Hermínio C. Miranda
Estranhas coisas acontecem às vezes com a gente.
Dia 26 de outubro de 2004, concluí o texto de uma
entrevista para “A Caridade”, órgão oficial da Congregação Espírita Francisco de
Paula, que o publicou em dezembro. A primeira pergunta colocada foi esta: “Dada
a situação de degradação moral por que atravessa a Terra, o senhor apostaria em
uma limpeza do Planeta, em futuro não muito distante? Em caso positivo, de que forma?”
Respondi que nem precisava apostar, pois são muitas e
dramáticas as evidências
de que já “estamos vivendo, há algum tempo, o cenário
descrito pelo Cristo nas graves advertências que Mateus registrou no capítulo
24 de seu Evangelho”. Vamos rememorar, a seguir, alguns dos versículos mais significativos:
“...não ficará pedra sobre pedra, que não seja
derribada” (versículo 2);
“...haverá pestilências e fome e terremotos em vários
lugares” (7);
“...E todas essas
coisas são o princípio das dores” (8);
“...os que se acharem na Judéia fujam para os montes”
(16);
“...e o que se achar no telhado, não desça para levar
alguma coisa de sua casa” (17);
“...e o que se achar no campo, não volte para apanhar
sua túnica” (18);
“...Ai das que estiverem grávidas e das que estiverem
criando seus filhos naqueles dias” (19);
“...Orai para que vossa fuga não se dê no inverno nem
em dia de sábado” (20);
“...acontecerá então aflição tão grande que, desde
que o mundo existe até agora, não houve nem haverá outra semelhante” (21);
“...Se não se abreviassem aqueles dias, não se
salvaria ninguém, os dias, porém, serão abreviados por causa dos escolhidos” (22);
“...de dois que estiverem no campo, um será tomado e
outro será deixado” (40).
Acrescentei que, em 1938, Emmanuel já nos prevenira
que o planeta começaria a reagir aos maus tratos.
A degradação não é apenas moral, de vez que o paraíso
terrestre que nos foi entregue novinho em folha, há milênios de milênios, vem
sendo “sistematicamente demolido pela agressão ao meio ambiente físico e
psíquico promovida por generalizada insensibilidade, ganância e egoísmo”.
Após outras considerações, concluía esse módulo
dizendo que “em situações limite, a lei cósmica tem recursos para dar o Basta!”.
Decorridos exatamente dois meses, em 26 de dezembro,
às vésperas de encerrar-se o quarto ano do Terceiro Milênio, ocorreu a tragédia
de cósmicas proporções, que atingiu países asiáticos e parte da África e levou a
comunidade humana a um estado de choque e perplexidade.
Nada comparável existe na memória documentada da
civilização.
De um momento para outro, águas como que
enlouquecidas, arrasaram uma região paradisíaca privilegiada pelo turismo internacional,
do qual o povo extraía renda suficiente para sobreviver às agruras e
incertezas dos tempos em que vivemos.
O que ficou foram a dor, a destruição, a morte e o
caos, em escala nunca vista.
A mídia internacional fala de fúria dos elementos,
subitamente disparada por um mecanismo de irresistível e espantoso poder. Há
quem mencione a cólera divina. Não falta quem se ponha a questionar a divindade
pelo massacre generalizado, cujas proporções e seqüelas ainda nem podemos, a esta
altura, avaliar em toda a sua extensão e profundidade.
Não vejo, contudo, por trás disso, um Deus
enfurecido, de chibata e cutelo em punho, a castigar suas criaturas e demolir sua
própria obra. Nem uma natureza insensível e revoltada a vingar-se dos maus
tratos a que vem se submetendo há séculos de abusos.
As leis cósmicas – e elas são divinas – jamais são
punitivas e sim educativas. Não atacam num impulso momentâneo de paixão, rancor ou
destempero; pelo contrário, elas são tolerantes e pacientes ao nos concederem tempo
e espaço suficientes para repensar-nos como seres humanos, abandonar a
insensatez e viver em paz com os demais seres vivos e com o ambiente que nos cerca.
Temos de nos lembrar que o planeta é, também, um ser vivo, um pensamento de Deus,
presente d’Ele a cada um e a todos nós, criados como “individualizações do princípio
inteligente”. Dizem-nos, ainda, nossos instrutores, que o efeito inteligente provém
de uma causa inteligente.
Não se quer dizer com isso que o planeta “pensa”, mas
é evidente que reage aos estímulos e aos cuidados, tanto quanto às agressões a
que fica exposto. As leis cósmicas são programadas para restabelecer automaticamente
o equilíbrio ameaçado, o desvio episódico. Se assim não fosse, o universo iria,
de crise em crise, até o caos final, de onde teria vindo, segundo o sentido original
do termo grego (cháos).
Nada, pois, de fúria, cólera ou vingança e nem mesmo
impaciência, simplesmente um dispositivo de correção, que opera, não raivoso ou
cegamente, mas sob impulso causal de um comando automático retificador (1).
Em outras palavras: estamos recebendo, como
civilização, uma resposta e ao mesmo tempo, uma advertência. Nosso futuro depende
do que fizermos daqui em diante, uma vez que não se pode mudar o passado,
apenas revisitar suas lições para corrigir os erros cometidos. Mesmo porque há
outros “gatilhos” cósmicos que a nossa incúria pode destravar a qualquer
momento.
Um exemplo basta, entre tantos outros: a muito
discutida e famosa falha geológica de San Andreas, que sobe na direção sulnorte, pelo
território da Califórnia, nos Estados Unidos, desde San Diego, na fronteira mexicana,
até San Francisco, já uma vez destruída, aliás, no terremoto de 1906. São cerca
de 1.300 quilômetros de extensão por 16 de profundidade.
O tema figura em profecias e especulações de teor nem
sempre confiável, mas, também, em pesquisas e cogitações de respeitáveis especialistas
pelo mundo afora. A opinião dominante é a de que existe ali uma enorme e
poderosa bomba relógio, equivalente a uma rede articulada de artefatos
nucleares correspondentes a um número incalculável de megatons, que, a qualquer
momento, poderá mudar o perfil geopolítico de uma vasta e populosa região.
Geólogos e estudiosos em geral, acham mesmo que o fenômeno já está “overdue”,
ou seja, atrasado, pois já era para ter acontecido.
Se podemos deter ou reverter esse processo demolidor?
Acho que sim, mas nem preciso manifestar minha ignara opinião. Recorro, em
vez disso, a Chet B.Snow, PhD (2), autor de Mass dreams of future, que comentei
em artigo intitulado “Lembranças do futuro”, que a Lachâtre lançou em separata,
em 1995.
Acha o dr. Snow (“Lembranças do futuro”, página 36)
que, em vez de corrermos para áreas de segurança ou buscar a fuga “no álcool,
nas drogas e em outros tipos de escapismo”, devemos “elevar, em todo o planeta,
o nível de conscientização de nossa verdadeira identidade imortal e
espiritual”.
E conclui:
“A prece ou a meditação individual e coletiva, se
praticadas com sinceridade e diligência, são capazes de produzir milagres. Isso
tem sido provado ao longo da História humana em épocas de crise. E poderá
produzi-lo novamente”.
Como eu dizia naquele artigo, “Não estávamos acostumados,
até bem pouco tempo, a ler tais coisas em textos pesquisados e produzidos por
tantos PhD...”
O grande problema, dizia eu, para concluir, está em
“convencer bilhões de seres pelo mundo afora, e logo, de que são espíritos imortais
e que uma poderosa corrente de vibrações positivas poderia, talvez ainda a
tempo, produzir uma inflexão no traçado que já desenhou a alternativa da
demolição reconstrutiva, se me permitem o paradoxo.”
Enquanto sombrias reflexões como estas nos povoam a
mente e desafiam a sensibilidade, oremos pelos milhões de seres que perderam a
vida ou passaram a vagar angustiados pela desoladora paisagem, em busca de si
mesmos e de cacos e farrapos com os quais possam reconstruir alguma coisa –
muito pouca – do que lhes restou.
(1) Vejamos o que diz o “Aurélio”, no verbete caos:
“1. Hist. Filos. Nas mitologias e cosmogonias pré-filosóficas,
vazio obscuro e ilimitado que precede e propicia a geração do mundo; abismo.
2.Grande confusão ou
desordem. 3. Fís. Comportamento praticamente imprevisível
exibido em sistemas regidos por leis deterministas, e que se deve ao fato de as
equações não-lineares que regem a evolução desses sistemas serem extremamente
sensíveis a variações, em suas condições iniciais; assim, uma pequena alteração
no valor de um parâmetro pode gerar grandes mudanças no estado do sistema, à
medida que este tem uma evolução temporal. Caos primordial: Cosm.
Concepção de que ao princípio o Universo pode ter sido altamente irregular e
heterogêneo.”
(2) Snow fez algumas progressões de memória com Helen
Wambach, também PhD em psicologia, e acabou engajado, com ela, no projeto do
qual resultou seu livro.
Fonte:
Boletim SEI nº 1920 – jan/2005
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