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Vanda Simões
"E ainda que eu
distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu
próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me
aproveitará". (Paulo aos Coríntios I - 13; 3).
Tempos atrás, um monge alemão, de idéias
muito esquisitas para sua época, dizia aos seus seguidores, que as boas obras
não fazem o homem bom, mas o homem bom é que faz as boas obras. Referia-se o
monge católico, à idéia vigente em sua crença de que poderia o homem encontrar
a salvação para sua alma, realizando muitas obras, fazendo grandes doações para
a igreja. Ensinava com rigor contra essa doutrina, dizendo: "Se quiseres
dar algo, orar ou jejuar, aconselho-te a não fazê-lo achando que é para teu
bem, mas age desinteressadamente para que os outros possam desfrutar disso;
faze-o em benefício deles e serás assim um verdadeiro cristão". Chamava-se
Martinho Lutero e fundamentou toda a sua magnífica obra nas cartas do Apóstolo
Paulo.
Pode parecer estranho que Paulo de Tarso
tenha se ocupado deste tema, com esta veemência, há dois mil anos. Ocorre que
era hábito, na crença judaica, fazer "sacrifícios" ou
"doações" no templo em troca da benevolência de Deus. Acreditavam os
homens daquela época que fazendo muitas obras seriam agradáveis a Deus. Por
isso o templo transformou-se em um rendoso comércio, à semelhança de uma feira,
onde os crentes fazia suas "santas aquisições" para oferecer a Deus a
aos profetas. Dentro do mesmo espírito, os pagãos faziam oferendas a seus deuses.
Jesus, sabedor do que ia na alma daquele
povo, fez duras advertências, chamando a atenção para esse procedimento
inadequado em vários de seus discursos. Era necessário que existisse uma
concordância entre a fé e a ação. De nada valia fazer doações no templo sem que
o coração estivesse limpo das impurezas. Dizia que o sacrifício mais agradável
a Deus era a reconciliação com o irmão com o qual se tivesse algum problema.
Era a superação dos ressentimentos, mágoas ou quaisquer dessas mazelas que
fazem impura a alma. Era a correta aplicação da Lei de Deus na vida do homem.
Ou seja, de nada valem as obras realizadas com o coração cheio do que não é
bom. E as obras nada são representam sem a fé. Por fé, traduz-se o entendimento
e vivência nos ensinos de Jesus, o Cristo.
Paulo, o apóstolo, foi o discípulo que mais
compreendeu a doutrina desse pastor de almas. Em uma de suas epístolas aos
Coríntios, discorre com maestria sobre a caridade, que é o amor em plenitude.
Diz textualmente, sem deixar rastros para interpretações dúbias, que mesmo que
entregasse até seu corpo para ser queimado, se esse ato não estivesse
impregnado da verdadeira caridade, para nada serviria. Por caridade, entenda-se
a reunião de todas as virtudes. Significa dizer que ele se referia a um
sentimento nobre, sublime, que só com a maturidade de Espírito pode-se
compreender.
O apóstolo, cheio de Espírito, nos leva
indubitavelmente a uma séria reflexão sobre a caridade, o amor e as obras. A
caridade e amor são uma coisa só, na visão dele, coerente com a doutrina de
Jesus. Nos faz pensar seriamente na razão pela qual temos imbutido em nossa
mente que fazendo obras seremos libertos de nossas mazelas. Esse pensamento
vem, obviamente, dos costumes judaicos e pagãos ditos acima, que influenciaram
intensamente o catolicismo, e este, por sua vez, teve e tem estranha e
perniciosa influência no Movimento Espírita. A doutrina das obras como meio
para livrar o homem de sua responsabilidade com a Lei de Deus, têm levado
muitos a percorrer equivocados caminhos, esforçando-se para realizar feitos
materiais ditos de caridade, e esquecendo-se da caridade maior que é a
libertação do Espírito das peias da ignorância.
Sutilmente, a doutrina das obras faz um
trabalho que poucos vislumbram, mas que é desastrosa para a evolução do ser.
Faz com que o homem permaneça por séculos e séculos na mesma situação de atraso
espiritual, pois o leva a pensar que basta fazer para ser bom. Por outro lado,
o comodismo milenar do homem o atrai com muita facilidade para esta pueril
filosofia de vida, pois se basta fazer para ser bom, não haverá necessidade de
um esforço maior para a superação dos entraves maiores do Espírito, que é o
orgulho e o egoísmo.
Mais adiante, após Paulo e Lutero, Allan
Kardec retira completamente o véu dos mistérios que ainda reinavam na
interpretação da doutrina de Jesus. Diz que o verdadeiro espírita, bem como o
verdadeiro cristão, pois um e outro são a mesma coisa, é aquele que luta
incessantemente para vencer suas más inclinações. Põe por terra a doutrina das
obras, desnudando o caminho pelo qual o ser encontra o equilíbrio. Sem essa
compreensão, os homens ainda palmilharão por muitos e muitos anos os caminhos
da dor, realizando obras com a intenção de angariar benesses nos céus.
Na verdade, a doutrina de Jesus nos ensina
que as obras são um fim em si, e não um meio de chegar ao reino de Deus. O
homem bom, renovado, que luta com sincera humildade para vencer suas
dificuldades de Espírito imortal, é quem faz as boas obras. E as realiza porque
encontra prazer nisso, porque compreende que o verdadeiro sentido da vida é o
de servir e não o de ser servido, conforme ensina Jesus. Sente-se tocado de
compaixão pelas misérias humanas e vai ao encontro do que sofre, amparando,
protegendo, ouvindo. Essa á verdadeira caridade, o amor a que se referem os
grandes mestres do Cristianismo. Resta-nos lutar para alcançar a maturidade e,
conseqüentemente, essa compreensão, sob pena de continuarmos na amarga ilusão
de que realizando as obras, estaremos com o bilhete assegurado para entrar na plenitude
da vida espiritual.
Fonte:
www.novavoz.org.br– mar/2000
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