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Nelson Moraes
Todos os homens são
médiuns. Essa afirmação do espírito Channing, à Kardec, a qual consta do Livro dos Médiuns, capítulo XXXI, tem
levado muitos companheiros a certos equívocos quando orientam alguém nesse
sentido. Vejamos o que diz Channing: “Todos os homens são médiuns, todos têm um
Espírito que os dirige para o bem, quando sabem escutá-lo. Agora, que uns se
comuniquem diretamente com ele, valendo-se de uma mediunidade especial, e que
outros não o escutem senão com o coração e com a inteligência, pouco importa:
não deixa de ser um Espírito familiar quem os aconselha. “Chamai-lhe espírito, razão,
inteligência, é sempre uma voz que responde à vossa alma, pronunciando boas
palavras. Apenas, nem sempre as compreendeis. “Nem todos sabem agir de acordo
com os conselhos da razão, não dessa razão que antes se arrasta e rasteja do
que caminha, dessa razão que se perde no emaranhado dos interesses materiais e
grosseiros, mas dessa razão que eleva o homem acima de si mesmo, que o
transporta a regiões desconhecidas, chama sagrada que inspira o artista e o
poeta, pensamento divino que exalça o filósofo, arroubo que arrebata os
indivíduos e povos, razão que o vulgo não pode compreender, porém que ergue o
homem e o aproxima de Deus, mais que nenhuma outra criatura, entendimento que o
conduz do conhecido ao desconhecido e lhe faz executar as coisas mais sublimes.
“Escutai essa voz interior, esse bom gênio,
que incessantemente vos fala, e chegareis progressivamente a ouvir o vosso anjo
guardião, que do alto dos céus vos estende as mãos. Repito: a voz íntima que
fala ao coração é a dos bons Espíritos e é deste ponto de vista que todos os
homens são médiuns.”
Channing deixou claro que é uma condição
natural aos encarnados a possibilidade de se comunicar com os espíritos, mas se
refere também a uma mediunidade especial, a qual, nem todos a possuímos. Qual
seria essa mediunidade especial que difere da faculdade natural que todos
podemos usufruir?
Ainda, no Livro dos Médiuns, no capítulo XX,
item 226, Kardec formula a seguinte pergunta ao espírito comunicante:
“O desenvolvimento da mediunidade guarda
relação com o desenvolvimento moral dos médiuns?”
“Não; a faculdade propriamente dita se
radica no organismo; independe do moral...
"No livro, O Evangelho Segundo o
Espiritismo, capítulo XXIV, item A Candeia Debaixo do Alqueire, encontramos a
mesma afirmação:
“Há quem se admire de que, por vezes, a
mediunidade seja concedida a pessoas indignas, capazes de a usarem mal. Parece,
dizem, que tão preciosa faculdade deveria ser atributo exclusivo dos de maior
merecimento. Digamos, antes de tudo, que a mediunidade é inerente a uma
disposição orgânica...”
Retornando ao Livro dos Médiuns, no
capítulo, Das Manifestações Visuais, pergunta 26ª, segue a orientação no
sentido de tornar claro que a mediunidade ostensiva não é natural e nem um
atributo de conquista, mas sim uma disposição orgânica e anômala:
“De que depende, para o homem, a faculdade
de ver os Espíritos, em estado de vigília?
Resposta: Depende da
organização física...”
“a) Pode essa faculdade desenvolver-se pelo
exercício?
Resposta: Pode, como todas as outras
faculdades; mas, pertence ao número daquelas com relação às quais é melhor que
se espere o desenvolvimento natural, do que provocá-lo, para não sobreexcitar a
imaginação. A de ver os Espíritos, em geral e permanentemente, constitui uma
faculdade excepcional e não está nas condições normais do homem.”
Aqui o espírito afirma que a mediunidade
ostensiva, não é uma faculdade natural, e confirma tratar-se de uma condição
anômala.
Baseados nessa orientação e em outras mais,
contidas na Codificação, entendemos claramente que a mediunidade possui duas
características distintas: uma que é natural e que depende da sintonia, da
moral e da evolução do espírito encarnado, a qual, até hoje, poucos lograram
alcançá-la na sua plenitude. A outra é anômala, e se radica no organismo e
independe da moral e da evolução do indivíduo.
Uma é sensitiva e inerente a nossa natureza
espiritual, depende do aprimoramento e desenvolvimento da sensibilidade e da
sintonia, a outra é mecânica e se manifesta independente da vontade do
encarnado.
Segundo o espírito Aulus, que orienta o nosso
trabalho, a mediunidade ostensiva e mecânica, tem sua origem em um recurso
especial implantado no perispírito daqueles que se propõem a servir como
médiuns. É uma anomalia provocada no perispírito, antes da reencarnação, e que
dá ao reencarnado uma condição especial, pois altera substancialmente a ligação
do perispírito com o corpo físico, tornando-a mais tênue. É essa condição que
facilita aos espíritos comunicarem-se através da sua aparelhagem física e
produzir os efeitos físicos e inteligentes que todos conhecemos na ação
mediúnica.
Esse recurso tem sido sabiamente usado pela
espiritualidade e se acentuou em vários períodos evolutivos da humanidade,
possibilitando que os Espíritos Superiores se manifestassem para orientar a
evolução humana desde os primórdios da humanidade. Por ocasião do Advento do
Consolador Prometido, e por não haver ainda na Terra médiuns naturais,
plenamente desenvolvidos e sintonizados com a espiritualidade, tal recurso foi
usado em larga escala provocando a manifestação ostensiva dos espíritos a fim
de revelar ao mundo a natureza espiritual do ser humano. Nesse período, que
compreendeu quase cento e cinqüenta anos, toda sorte de fenômenos foram
produzidos sob o patrocínio da Espiritualidade Superior, fazendo chegar ao
conhecimento público a realidade da vida eterna. Essa estratégia da
espiritualidade, atingiu suas elevadas finalidades, pois, o encarnado, nessas
condições, era levado desde criança a conviver com a realidade do mundo espiritual,
sendo obrigado a procurar orientação para o fenômeno que se manifestava
independente da sua vontade. Foi assim que proliferaram os médiuns por toda a
Terra.
Hoje vivemos um outro período, as bases
doutrinárias foram estabelecidas e passamos a viver uma outra realidade dentro
do movimento espírita. Esse recurso artificial, usado pela espiritualidade,
desapareceu quase que totalmente do cenário terrestre. A mediunidade ostensiva
e mecânica cedeu lugar à mediunidade natural, onde a moral, o caráter e a
sensibilidade, tornaram-se fatores indispensáveis para o seu desenvolvimento. O
contato agora com o mundo espiritual se dará pelas faculdades inerentes a nossa
natureza. Para tanto, precisamos desenvolver e apurar a nossa sensibilidade a
fim de transcendermos aos limites dos sentidos físicos, ampliando nossa visão e
a nossa audição para outras freqüências vibratórias, quando então, passaremos a
ver e ouvir nos refolhos da alma. À partir daí, exerceremos uma relação natural
com o mundo espiritual e, conseqüentemente, consolidaremos valiosas parcerias
com os Espíritos Superiores na execução das nossas obras que deverão estar
direcionadas ao socorro e ao esclarecimento humano. Recebemos muito de lá para
cá, os Espíritos Superiores aguardam que comecemos a mandar daqui para lá.
Esperam que a cura pela ectoplasmia, realizada por eles, venha a ser substituída
pela ação do nosso magnetismo desenvolvido no cultivo do amor ao próximo. Não
pegarão mais em nossas mãos para escrever, aguardarão que estejamos
sintonizados com o bem da humanidade para então, orientar-nos e inspirar-nos no
silêncio da alma, alertando-nos para os trabalhos que devemos realizar para a
consolidação do Cristianismo esclarecido à luz do Consolador. Não mais se
materializarão diante de nós, estarão aguardando que nos desdobremos para fora
do corpo, onde poderemos vê-los e ouvi-los. Se descuidarmos dessa realidade e
continuarmos tratando em nossas instituições a mediunidade da forma como a
estamos tratando, sobreexcitando a imaginação dos neófitos, estaremos gerando
uma pratica aleatória da mediunidade, tornando-a subjetiva, sem conteúdo e
carregada de contradições doutrinárias. Conseqüentemente, correremos o risco de
comprometermos a credibilidade da comunicação com os espíritos, condenando a
literatura espírita e as manifestações mediúnicas ao descrédito da opinião
pública mais esclarecida.
Fonte: www. wpaz.net
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