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Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto
(...) "Sócrates em sua vida usou muito
a coragem do amor para ajudar as pessoas a viverem de modo ético. Dava aulas
nas praças para todos. Na Grécia nem todo mundo podia estudar, mas ele ensinava
a todos com amor.
Nós também usamos a coragem do amor na vida
para dar carinho para os pais, para cuidar dos nossos irmãos menores, para ajudar
a todos os familiares. Ajudamos na escola os nossos amigos e professores e
também as empregadas.
A coragem da força usamos para ajudar a
carregar as coisas, o pai arrumar o carro e algumas vezes para brigar.
Somos corajosos porque ajudamos todo
mundo." (2ª série)
"Pitágoras inventou a Filosofia e
Sócrates a Ética. Os dois acreditavam que os homens não são só corpo, mas todos
têm um espírito que vive depois da morte. Eles eram espiritualistas. Sócrates
ensinava a todos a pensar, a serem bons e a acreditarem na alma imortal.
Sócrates e Pitágoras ensinaram a vida toda as pessoas a serem justas, a lutarem
pela verdade, a viverem bondosamente.
Lá na Grécia, na época de Sócrates, as
mulheres e os escravos não podiam estudar, só estudava quem era rico. Mas ele dava
aulas a todos.
Mas nem todos os filósofos são
espiritualistas, alguns são materialistas, acham que o espírito não existe.
Para eles, quando as pessoas morrem, tudo acaba, e a vida não continua.
Acreditamos na vida pós-morte do mesmo jeito
que Pitágoras e Sócrates, o maior filósofo de todos os tempos. Acreditamos por
causa da filosofia e também da religião." (4ª série)
Relato da experiência de Jorge Tibiriçá
Comecei por introduzir o cenário da Grécia
Antiga, falando de algumas "invenções gregas": a democracia, as
Olimpíadas, a Filosofia. A partir do conhecimento das próprias crianças,
definimos a democracia e estabelecemos paralelos (semelhanças e diferenças)
entre a democracia grega e a brasileira (atual); em relação à participação das
mulheres, à existência de escravos e a promessas não cumpridas (a demagogia).
Narrei a história de Pitágoras e a invenção da palavra Filosofia, como amizade
da sabedoria. Tudo isso muito ilustrado por livros, pinturas, desenhos e de
forma lúdica e interessante, começando todas as aulas com músicas para todos
cantarem juntos.
Lancei o desafio nas salas, para que me
dissessem se existe o bem e o mal e o que seria um e outro e que em seguida
contaria a história de um dos maiores filósofos de todos os tempos, também
grego, que tinha se preocupado em se perguntar sobre isso. Colhi idéias como
"o bem é praticar boas ações", "ajudar os outros",
"ser honesto", "tudo o que é bom para o ser humano",
"tudo que faz a humanidade feliz".
A primeira constatação feita já em outras
ocasiões, e mais uma vez confirmada, é que o relativismo anda distante de
qualquer mente infantil. Não há criança que não esteja convicta da existência
de "bem e mal", "verdade e mentira", "certo e errado".
Mesmo contando a história dos sofistas, que diziam não haver essas dicotomias,
elas não perdem essa convicção, que precisa até se tornar menos maniqueísta.
A história de Sócrates ganha contornos
heróicos para as crianças - e não se poderia querer contar uma história como
essa de maneira fria e intelectualista, mas é claro que quem contar dessa
maneira como contei precisa ter como eu, sincera admiração por essa figura,
aliás precisa ter a convicção que houve e há homens e mulheres na humanidade
que podem inspirar admiração e conquistar adesões. Sócrates aparece como o
herói que teve a coragem e a serenidade de enfrentar a morte por causa de suas
idéias, que eram contrárias às dos sofistas da época, relativistas e céticos,
idéias que favoreciam a corrupção política, a dominação e a injustiça. Foi o
filósofo que se interessou em discutir o que é a virtude, o bem, a justiça e
também viveu esses valores.
Poderia parecer sem interesse para crianças
de nove ou dez anos uma história que não tenha fantasias, mitologias e contos
de fada, mas apenas a realidade histórica, embora contada de forma entusiasta e
vibrante. Ao contrário, as crianças em sua generalidade vibram com Sócrates,
interessam-se, perguntam e fazem referências a ele meses e meses depois de
encerrado o tema.
O momento da defesa de Sócrates diante do
tribunal, sua recusa de fuga, sua serenidade diante da morte, suas últimas
palavras - tudo isso deixa as crianças sem respirar, provocando emoção e olhos
brilhantes.
Depois desta parte narrativa e das
discussões em torno do tema, passei um trecho do filme Fantasia de Walt Disney,
passado no Monte Olimpo, com a trilha sonora da 6ª Sinfonia (Pastoral) de
Beethoven. Identificamos no desenho os personagens mitológicos e estabelecemos
comparações entre a visão de mundo dos gregos e a nossa (politeísta e
monoteísta).
Como encerramento deste projeto, várias
aulas foram dedicadas à confecção de pinturas inspiradas na Arte Grega. Com a
colaboração de Liliam Lungarezi, graduanda em Artes Visuais pela PUC-Campinas,
mostramos diversas figuras da Arte da Grécia Antiga (vasos, esculturas,
arquitetura) e propusemos trabalhos em grupo (para estimular a cooperação e
observar o comportamento dos alunos nas relações de equipe). O resultado foi
brilhante, com o uso de carvão e giz de cera.
O trabalho em equipe em liberdade, apenas
com orientação minha e de Liliam, foi revelador, mostrando a dificuldade de
cooperação de alguns grupos, a falta de hábito de discutir para realizar algo,
a tendência ao melindre e ao personalismo. Mas tendo se manifestado esses
comportamentos, puderam ser trabalhados adequadamente e, com sucesso,
acabando-se as atividades com as classes mostrando umas às outras suas
produções.
Esse projeto durou quase o semestre inteiro,
já que o apliquei, na maior parte do tempo sozinha, em dez classes (com média
de 30 alunos), de terceira e quarta série.
Nota:
(1) A experiência da Jean
Piaget está sendo conduzida por Alessandro Cesar Bigheto, com a matéria
"Ética e Filosofia" ministrada para pré-escola e ensino fundamental
de primeira a quarta séries e a da Escola Jorge Tibiriçá, por Dora Incontri,
dentro do projeto de pesquisa de pós-doutoramento na FEUSP, "Ética,
Filosofia, Religião e Arte - um projeto interdisciplinar em escola
pública", com apoio da Fapesp.
Bibliografia:
BOCHENSKI, J. M. Diretrizes
do Pensamento filosófico. São Paulo, EPU, 1977.
COVELLO, Sergio C. Comenius - A construção da Pedagogia. São Paulo, Editora
Comenius, 1999.
INCONTRI, Dora. Pestalozzi - Educação e Ética. São Paulo, Editora Scipione,
1997.
KOHAN, Walter O. & KENNEDY, David. (Org.) Filosofia e Infância,
possibilidades de um encontro. Vol. 3 Petrópolis, Vozes, 2000.
KOHAN, Walter O. & WAKSMAN, Vera (Org.) Filosofia para crianças, na prática
escolar. Vol. II. Petrópolis, Vozes, 1998
KOHAN, Walter O. & WUENSCH, ANA M.(Org.) Filosofia para crianças. Vol. I. Petrópolis,
Vozes, 1998
KOHAN, Walter O. LEAL, Bernardina. (Org.) Filosofia para Criança em Debate.
Vol. 4 Petrópolis, Vozes, 2000.
LAUAND, Luiz J. Filosofia, Educação e Arte. São Paulo, Edições IAMC, 1988.
MATTHEWS, Gareth B. A Filosofia e a Criança. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
PIAGET, Jean. Os procedimentos da Educação Moral. In MACEDO, Lino de (Org.).
Cinco Estudos de Educação Moral. São Paulo, Casa do Psicólogo,1996.
ROUSSEAU, J. J Oeuvre complètes. Vol. IV. Paris, Éditions Gallimard, 1969.
SCOLNICOV, Samuel. A problemática comunidade de investigação: Sócrates e Kant
sobre Lipman e Dewey. (In: KOHAN, Walter O. LEAL, Bernardina. (Org.) Filosofia
para Criança em Debate. Vol. 4 Petrópolis, Vozes, 2000).
SILVEIRA, Renê J. T. A Filosofia vai à escola? Campinas, Autores Associados,
2001.
Dora Incontri:
Pós-doutoranda FEUSP
Apoio Fapesp - Alessandro Cesar Bigheto - Pedagogo
(Publicado in Videtur, Porto/São Paulo, Universidade do Porto/USP, V. 15, 2002)
Fonte:
www.universoespirita.net
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