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A Arte de Amar

 

Adilton Pugliese

 

O escritor italiano Leo Buscaglia (1924-1998), naturalizado americano, escreveu um livro sobre o que ele chama de a maior experiência da vida: o amor. E deu ao livro o título Amor. Os dois capítulos iniciais ele dedica a examinar duas questões básicas: 1 – o amor é um fenômeno que se aprende; 2 – o homem precisa amar e ser amado. “Psicólogos, psiquiatras, sociólogos, antropólogos e educadores já sugeriram em inúmeros estudos e trabalhos que o amor é uma resposta aprendida, uma emoção aprendida. O modo como o homem aprenderá a amar parece estar diretamente relacionado com sua capacidade de aprender, com aqueles no seu ambiente que o ensinarão, assim como com o tipo, a extensão e a sofisticação de sua cultura.”1

Há muitos exemplos relativos a essa questão das origens culturais do ser, do ambiente em que vive, influenciando decisivamente em sua capacidade de aprender a amar. Se amar se aprende amando, podemos dizer, também, que ser amado é fator fundamental na vida do ser humano. Madre Teresa de Calcutá se referia a essa questão, ao declarar que era muito triste constatar a existência de seres humanos que não eram amados. Carl Gustav Jung (1875-1961) no livro O Desenvolvimento da Personalidade, se refere a crianças com transtornos, limitadas, declarando que lhes faltava o efeito psíquico alimentador de suas mães, “de que toda a criança precisa necessariamente para viver”.2

Amar e ser amado poderiam ser uma questão de educação? De ensino-aprendizado? Ao refletir sobre essa questão lembrei-me que Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, na questão 685, define a educação como uma arte, a arte de formar os caracteres. Porque, afirma, a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.3

O amor seria, então, uma Arte? Quem assim pergunta é outro estudioso do comportamento humano, o psiquiatra alemão, naturalizado americano Erich Fromm (1900-1980), autor de várias obras. Uma delas ele escreveu sobre esse fascinante assunto, a arte de amar, que é o título do livro. É o amor uma arte? Pergunta, então, Erich Fromm. Se o é, diz, exige dois procedimentos: conhecimento e esforço.

Fromm declara que muitas pessoas acreditam que o amor é uma sensação agradável, que se experimenta por acaso, algo em que se “cai” quando se tem sorte, não sendo, assim, uma coisa que necessite ser aprendida. Ele destaca três erros que levam à idéia de nada haver para ser aprendido a respeito de amar.4

Primeiro erro: a maioria das pessoas vê o problema do amor, antes de tudo, como o de ser amado, em lugar do de amar, da capacidade de alguém para amar. Para muitas pessoas o problema é como serem amadas. Na busca desse alvo seguem diversos caminhos. Um deles é ter sucesso, ter todo o poder e riqueza que a posição social permitir. Outro é tornarem-se atraentes, pelo cuidado com o corpo, o vestuário, o desenvolvimento de maneiras agradáveis, a etiqueta, a conversação interessante etc;

Segundo erro (de que nada há a aprender a respeito de amar): é a idéia de que o problema do amor é o problema de um objeto e não o de uma faculdade. Pensa-se que amar é simples, mas que é difícil encontrar o objeto certo a amar – ou pelo qual ser amado;

Terceiro erro: consiste na confusão entre a experiência inicial de cair enamorado e o estado permanente de estar amando, de permanecer em amor.

Esses três erros, de que nada é mais fácil do que amar têm provocado muitos fracassos, frustrando muitas esperanças e expectativas. Como superar esses equívocos? Fromm recomenda uma atitude: tornar-se consciente de que o amor é uma arte, assim como viver é uma arte. Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo como agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a medicina, o que envolve, necessariamente, o domínio da teoria e da prática.

Muitos consideram que o amor é constituído pelo objeto, acreditando que a prova da intensidade do amor está em “não amar ninguém além da pessoa amada”. É um equivoco que não permite ver que o amor é uma faculdade da alma, destaca o autor de A Arte de Amar.

Fromm faz um estudo entre vários tipos de amor: o amor fraterno; o amor materno; o amor erótico; o amor-próprio; o amor de Deus (que ele chama a forma religiosa de amor). Declara, contudo, que a mais fundamental espécie de amor, que alicerça todos os tipos de amor, é o amor fraterno, elevado à excelência dos sentimentos por Jesus quando declarou: ama o teu próximo como a ti mesmo.5

O escritor enfatiza que o amor fraterno é excelente porque é amor para todos os seres humanos, caracterizando-se pela falta de exclusividade e que só no amor ao desamparado, ao pobre e ao estranho é que o amor começa a desdobrar-se, conclui.

Allan Kardec, o inesquecível Codificador da Doutrina Espírita, é um dos grandes exemplos desse amor. Sua capacidade de amar a Humanidade o fez deixar tudo, todos os objetos de amor que o interessavam (os livros didáticos, a realização profissional e social como pedagogo e diretor de educandários etc.) para dedicar-se à missão de Codificador do Espiritismo, amor que ele confirmou ao concluir O Livro dos Espíritos: “(...) Foi a obra de minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde, porque diante de mim o futuro estava escrito em letras irrecusáveis.”6

O Espírito Joanna de Ângelis, quando de sua reencarnação no século XVII, no México, na personalidade de Sóror Juana Inés de la Cruz (1651-1695), destacou-se pela sua inteligência e vasta cultura, dominando retórica, latim, ciências e o idioma português. Dedicava-se à poesia, à música, aos seus escritos em sua imensa biblioteca de mais de quatro mil volumes. Um dia, porém, meditativa, questionou-se e decidiu por movimentar-se. Percebeu, naquele instante em que os sinos do Convento tocavam a hora do angelus que para estar com Jesus precisava dar tudo o que tinha e segui-lO. E se desfaz da tranqüilidade do seu gabinete de estudos, da leitura de uma obra rara, e vai para a periferia para “lavar as feridas dos irmãos anônimos e sofridos, socorrendo todas as necessidades”. Redireciona, assim, os objetos do seu amor em prol dos mais necessitados, norteando os seus passos para a Caridade, para o amor fraterno.7

Os espíritas, encontraremos sempre a ênfase da importância do amor fraterno em Jesus e no Espírito de Verdade. O primeiro, quando sentenciou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.8 E o segundo por conclamar: “Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.” 9

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 BUSCAGLIA, Leo. Amor. 6. ed., Rio de Janeiro: Editora Record., p. 47.

2 JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade.s/ed.São Paulo: Círculo do Livro, p. 104.

3 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed., Rio de Janeiro: FEB. 2002, Parte 3a, cap. III, Comentário de Kardec, p. 331.

4 FROMM, Erich. A Arte de Amar. 3. ed., Belo Horizonte:Ed.Itatiaia,1964. p. 19 e ss.

5 Id. ibid, p. 50.

6 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002, Constituição do Espiritismo, item X, p. 376.

7 NORONHA, Altiva Glória F. O Peregrino do Senhor. 1. ed., Salvador: LEAL, p.127 e ss.

8 João 13:35.

9 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 121. ed., Rio de Janeiro:FEB, 2003, cap. VI, item 5, p.130.

 

Fonte: Revista Reformador – março/2004

  

 

 

 

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