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José Lucas
A cremação está em voga nos dias de hoje.
Hábito já enraízado em alguns países, começa a despontar em Portugal. Tem a
anuência de uns e a forte oposição de outros. Quanto ao espiritismo, o que
poderá ele trazer-nos de novo em relação a este tema?
Cremação não é mais do que a redução dos
cadáveres a cinzas. Tem vindo a ganhar adeptos um pouco por todo o mundo e
consequentemente também em Portugal. Tem apoiantes e combatentes da ideia, como
geralmente acontece com todas as novidades.
Habituámo-nos à ideia através dos filmes
americanos e, mais recentemente, com as novelas brasileiras, onde vemos os
familiares do desencarnado (espírito liberto da carne pelo processo da morte
física) a espalharem as cinzas num determinado local, ou pura e simplesmente a
guardá-las religiosamente num jazigo familiar.
Para outros, poderá ser apenas uma moda, e
se alguns admitem razões mais ou menos válidas para o acto da cremação (por
exemplo, falta de espaço nos cemitérios, mais higiénico, mais prático, etc.)
outros querem-na pura e simplesmente por modismo. Hoje em dia é chique ser
cremado, é quase uma questão de "status".
Outros alegam que a cremação é uma falta de
respeito para com o familiar falecido e que há que dar um pouco de dignidade à
sua memória. Outros ainda, acreditando na ressurreição dos corpos físicos em
decomposição, opõem-se fortemente a esta prática, não vá ela contrariar suas
crenças.
As opiniões são múltiplas, e respeitáveis,
como não podia deixar de ser.
O espiritismo não faz a apologia do corpo
físico, não o idolatra nem o despreza, dando-lhe apenas a importância que ele
tem e só essa, despindo-se de todas as excentricidades que entretanto a
Humanidade foi criando em volta dos cadáveres.
Para o espiritismo, não somos corpos com
espíritos dentro, somos, isso sim, espíritos eternos temporariamente num corpo
físico, com um objectivo nobre — a evolução moral e intelectual. Quando esse
corpo físico se deteriora, o espírito abandona-o, retornando à pátria
espiritual, para logo que possível voltar à gleba terrestre revestido de um
novo corpo físico que lhe dará o ensejo de novas experiências no planeta, novas
oportunidades de evolução, bem como de terminar ou completar aquilo que
porventura não conseguiu na existência carnal anterior.
Nesse sentido, o corpo físico é como uma
peça de roupa que adquirimos. É importante pelo seu preço e qualidade, há que
preservá-lo ao máximo para que nos dure e seja útil o maior número de dias
possível. Quando a peça de vestuário se deteriora é posta de parte e logo
substituída por outra em melhores condições. Ora, o corpo físico não é mais do
que a roupagem que o espírito utiliza para se poder manifestar e viver neste
planeta. Nesse sentido, a partir do momento em que o espírito se desprende do
corpo físico, deixa de ser importante a finalidade que lhe é atribuída, se ser
enterrado ou cremado. As razões pró e contra são mais de ordem social e humana
do que propriamente de ordem espiritual.
Acontece que a pessoa desencarnada
(falecida) se foi correcta e aproveitou bem a existência física, para ela é-lhe
indiferente o destino do cadáver, já que outros horizontes mais felizes se lhe
descerram, estando desprendido da vida terrena e sendo amparado quer por
familiares quer por amigos espirituais que a orientam na nova vida que então
começa, no plano espiritual. Se a pessoa está demasiado agarrada à vida
material, seja no campo da avareza, seja na dependência de tudo aquilo que a
prende à matéria, certamente ao desencarnar ser-lhe-á mais difícil desprender-se
daquilo pelo qual a sua mente está obcecada — a matéria, os bens materiais,
etc.. Muitos deles demoram-se por longos períodos junto à crosta terrestre até
que se apercebam da sua real situação e se disponham a objectivar novos valores
existenciais. Neste sentido, os espíritos aconselham a que as cremações sejam
efectuadas cerca de 3 a 4 dias depois do desenlace físico, dando assim
oportunidade para que a desencarnação (saída do corpo de carne devido ao
fenómeno da morte física) tenha mais possibilidade de se completar, já que, no
caso do espírito estar muito materializado e ainda ligado ao corpo, poderá
sentir os horrores da cremação.
Questionado sobre se o espírito desencarnado
pode sofrer com a cremação dos elementos cadavéricos, Emmanuel, um espírito que
se comunica regularmente através do médium Francisco Cândido Xavier, opina: «Na
cremação, faz-se mister exercer a piedade com os cadáveres, procrastinando por
mais horas o acto da destruição das vísceras materiais, pois, de certo modo,
existem sempre muitos ecos de sensibilidade entre o espírito desencarnado e o
corpo onde se extinguiu o "tónus vital", nas primeiras horas
sequentes ao desenlace, em vista dos fluidos orgânicos que ainda solicitam a
alma para as sensações da existência material.»
É claro que nada disto é taxativo, pois se
uns se desprendem rapidamente do corpo, outros poderão demorar-se bastante
tempo ainda com sensações corporais, como acontece com alguns suicidas.
A cremação será uma questão de opção tendo
em conta as vantagens e inconvenientes sociais, já que o cadáver nenhum valor
tem como tal.
O espiritismo preocupa-se isso sim em dar um
roteiro de melhoria para os locatários dos corpos físicos, isto é, para todos
nós, espíritos imortais que nos encontramos em viagem de aprendizado no roteiro
terrestre.
Fonte: Revista de Espiritismo nº. 33, (FEP) Out/Dez 1996
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